A cidade e a bike

Era para ser um breve adendo à esta matéria do Henrique Massaro para o Correio do Povo. Acabou que virando um breve artigo, mas que acabou não indo para o papel pela perda do prazo deste que o escreveu. Ao menos hoje já inventaram a internet e aqui se faz possível a publicação =)

bikes japao

Andava em uma esteira na cidade de Hamamatsu, no Japão, poucos meses atrás. O trajeto era em um elevado paralelo à estação central de trem. Lá chegando, reencontrei uma cena que me remeteu a locais como, especialmente, a Alemanha: bicicletas. Às dezenas, quiçá centenas. Todas ali estacionadas, enquanto seus donos estavam em lugares e até cidades diversas pela região. Cito Alemanha, porque já vi com meus próprios olhos, mas em quantos mais lugares ao redor do mundo acontece isso?

Pois bem, o nome disso é planejamento. Talvez este seja o segredo – que nem é tão misterioso assim, convenhamos – para o sucesso e a popularização das bikes. Torná-la um modal. Cotidiana. Poder usá-la para ir até um ponto e de lá pegar um ônibus, trem ou o que seja. Na certeza de que ela estará lá na volta. Integrá-la à cidade, em suma.

Porto Alegre vive um debate mais acirrado sobre o papel da bicicleta há mais de seis anos, desde o fatídico atropelamento coletivo na Cidade Baixa. De lá para cá, a Capital ganhou não mais que um punhado de quilômetros de ciclofaixas e ciclovias. Mas talvez não tenha integrado seus ciclistas – e aqui abre-se um viés crítico: o quanto alguns de fato quiseram se integrar – e não se impor – enquanto esbravejavam bordões rancorosos como “Mais amor, menos motor”?

Num mundo poluído, o futuro agradece se andarmos mais de bicicleta, com certeza. Só que soa utópico simplesmente abandonar carros, motos e outros meios de transporte já consagrados. Da mesma forma que é vazio dizer que se incentiva a bike sem promover tanto a segurança quanto o conforto de quem pedala por aí. Que tal amenizarmos nossos ânimos e encontrarmos um meio-termo? A cidade, estejam certos, agradecerá.

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Por mais Irmelas

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Este blog não é necessariamente um reprodutor de conteúdo alheio na internet, vocês sabem. Mas, ante àquelas cenas de repercussão mundial acontecidas em Charlotesville, em que pessoas que se julgam superiores a outras, realizaram uma manifestação difundindo a sua ideia, farei um leve contraponto.

Eu te convido, caro(a) leitor, a pesquisar – e até difundir, se for o caso – o nome de Irmela Schramm a cada discurso de ódio que se vê por aí. E que, infelizmente, não são tão poucos internet afora.

Nascida no último ano da Segunda Guerra Mundial, Irmela Schramm é o exemplo de ativista que deveria estar presente em cidades onde há gente que se acha superior. Moradora de Berlim, esta senhora usa boa parte de seu tempo para apagar mensagens de ódio espalhadas na cidade.

Uma senhora corajosa, cuja história vale a pena conhecer por estes tempos. Afinal, de guerras e histórias autoritárias, já bastam a que estão nos livros de história.

Sobre Berlim

berlin-deutsch

Mais de uma vez tratou-se aqui de de quando tragédias alheias, em proporções maiores ou menores, atingem a nós, enquanto jornalistas – profissionais seguros dentro de uma redação, recebendo, apurando e transmitindo a informações nem sempre boas ao grande público.

Neste caso mais recente foi o caminhão que avançou sobre uma feira em Berlim. Um mercado de Natal, algo tão comum na Alemanha, sobre o qual eu e minha mulher havíamos conversado na véspera. Nunca fui a um, tampouco estive na Alemanha na época natalina, mas fiquei curioso tamanho o brilho dos olhos da mulher ao falar sobre eles. Passeio típico de família, tradição germânica de anos.

E Berlim, logo Berlim. Que cidade, caro(a) leitor, que cidade! Um lugar que transpira história, que não esconde o seu passado até recente de dor, mas que ao mesmo tempo abre-se à modernidade e à globalização. A própria praça sobre a qual o caminhão avançou tem sua história de superação e reconstrução contra o horror da guerra. Cosmopolita como poucas. De longe, uma das cidades mais interessantes de se conhecer.

Talvez este seja o principal alvo do terror ao semear o medo: a harmonia. Entristeceu-me ver um jornalista tido como intelectual falar em meio à notícia de que, com o atentado, Angela Merkel precisaria rever sua política com imigrantes. Como se os imigrantes fossem culpados e não vítimas deste mesmo terror.

Menos mal que, horas depois, veio o relato de um brasileira que lá mora: a cidade estava absolutamente normal. Triste, claro, com o incidente, mas não tornara-se arredia, ainda que nas primeiras horas. É certamente a melhor resposta ao atentado: a normalidade do cotidiano, a mesma mão estendida a quem é de fora.

muro

Para lembrar novas lamentações, não. O muro já faz isso

PS: Cobri de Porto Alegre, a milhares de quilômetros de Berlim, então não tenho como relatar o clima exato na cidade e nem como estavam as suas redes sociais. Chamou a atenção o pedido da Polícia de Berlim, via Twitter: “Fique calmo, vá para casa e não espalhe rumores”. Também pedia a todos que tinham vídeos e fotos do incidente em Breitscheidplatz enviassem diretamente aos policiais e não compartilhassem nas redes sociais. Com o perfil sendo atualizado constantemente, a gestão de crise foi excelente – claro, olhando de longe, volto a frisar.

Lembrei que na Porto Alegre do último ano precisamos publicar pelo menos duas vezes uma matérias com a Brigada Militar desmentindo suposto arrastão em algum lugar. Pouco tempo atrás, teve até blog de jornalista conceituado publicando notícia de arrastão em bairro nobre – inexistente, segundo a polícia. Que seja da assustada Berlim um exemplo do bom uso das redes em próximos eventos dramáticos. Jornalismo e credibilidade, nessas horas que ele são ainda mais úteis.

A grande final

Copacabana, Buenos Aires

Copacabana, Buenos Aires

Vivem uma espécie de insanidade, os argentinos. Eles, apaixonados por futebol, voltam à uma decisão de Copa do Mundo após longos 24 anos. Justo para uma revanche contra a mesma Alemanha que os derrotaram há quase um quarto de século. A bola rola às 16h no Maracanã para um jogo que atrairá a atenção de milhões de 219 países do mundo.

Palco da final, o Rio de Janeiro já foi tomado dos brasileiros, ainda mais com os dois últimos constrangedores jogos da Seleção. A poucas horas da final não existem garotas de Ipanema e sim las chicas de la Recoleta ou de Palermo. E ainda assim elas são ofuscadas pelos saltadores e animados torcedores argentinos, que vieram aos montes e transformaram Copacabana em um bairro de Buenos Aires com sotaque chiado.

A estimativa oficial é de que 100 mil argentinos estejam perambulando nas ruas e areias cariocas – local eleito por muitos deles para passarem a noite, dormindo ou acordado em um estado febril que o futebol é capaz de causar. A maior parte sequer tem ingresso e não entrará no estádio. Pouco importa. Quem ficar por Copacabana poderá assistir a partida em dois telões instalados na praia. Qualquer outro boteco também transmitirá o jogo. A cidade exala à final..

Também protagonistas do mais esperado jogo do ano, os alemães estão tímidos, até porque não tem como concorrer com os enlouquecidos sul-americanos. Mas prometem, ao menos tentar, ser ouvidos. No Maracanã, se farão presentes pelo menos 4,4 mil germânicos ansiando por gritar tricampeão usando todas as consoantes a que eles tenham direito.

Organizada pelo consulado alemão, um dos grupos de torcedores da Alemanha (“Tor”, gol em alemão) se concentrará até perto dos argentinos, no Leme, a continuação de Copacabana. A concentração deles inicia às 10h e a partir do meio-dia eles seguirão ao Maracanã de metrô. Isso em meio a mexicanos, americanos, holandeses e até brasileiros que estarão presentes na final e que dão um sotaque novo ao Rio de Janeiro.

A rivalidade entre Argentina e Alemanha, que decidirão uma Copa pela terceira vez, ficou dentro de campo. Em meio à euforia das torcidas, a convivência entre os rivais é amistosa – ao menos por ora. Há até mesmo desejos de boa sorte. O que não deixa de ser justo para uma senhora Copa do Mundo que chega ao seu capítulo derradeiro neste domingo. Que vença o melhor. Seja ele Messi ou Müller.

Que vença o melhor

Que vença o melhor

Reflexões e lembranças em meio à chuva

Genial foto do Daniel Cassol, via Twitter @dbcassol

Genial foto do Daniel Cassol, via Twitter @dbcassol

Hoje é 11 de novembro de 2013, uma segunda-feira. Chove forte desde a véspera em Porto Alegre. Parece que vai chover mais do que a média mensal nessas 24h, dia de #AlertaPOA Para variar, minha cidade virou um caos, em muitos sentidos. Dentre eles, o mais especial é o trânsito. É sempre assim.

Como todo brasileiro, o porto-alegrense em geral adora carro. “É questão de statis”, diria um meme. Transporte público – que até nem acho tão ruim quanto dizem – é considerado coisa de pobre. Já as bicicletas, pouco a pouco, estão ganhando seu espaço – ironicamente, desde que um motorista maluco e estressado atropelou 17 ciclistas, jogando holofotes à causa. Mas as magrelas ainda  são incipientes por aqui.  Resultado: milhares de carros engarrafados todos os dias. Até nos secos.

Culpa do aquecimento global ou não, fato é que, pelo menos uma vez no ano, ouço/vejo/sinto a sentença “choveu (quase) um mês inteiro apenas em um dia em Porto Alegre”. Sempre é caos. E culpar São Pedro por todo o infortúnio acaba sendo muito fácil. Em dias de sol, contudo, a cidade não se prepara – da mesma forma que não se preparou bem anos atrás. Esbarra em burocracias mil, em falta de vontade (ou às vezes confronto) política(o).

Tudo aqui é assim: se a boa ideia é de A, o B é contra. E vice-versa. Uma cidade – na verdade um estado inteiro – fica no meio disso. À mercê disso. É a velha mania dualista gaúcha, que se arrasta – e atrasa – há séculos estas terras.

T2 londrino e ciclista, lado a lado

T2 londrino e ciclista, lado a lado

Lembro, então, que conheci Londres e algumas cidades da Alemanha há pouco mais de dois meses. Cheguei a escrever que o transporte público de lá é algo incomparável com o daqui. Da mesma forma saliento que a capital inglesa mentiu para mim com seu tempo bom e que uma viagem de férias não pode servir como embasamento definitivo em uma comparação com onde se vive.

Devem haver sérios problemas por lá, com certeza. Mas, imagino eu, a mobilidade deve ser um dos menores, muito por causa de sua grande variedade (ônibus, VLT, metrô, trem, bicicleta etc) de opções. Obviamente não é imune a hecatombes de chuva, é claro. Mas sem dúvida até isso é bem mais resistente que o nosso.

Aqui em Porto Alegre, antes de sair de casa leio no Twitter relatos irritados de amigos meus, todos atrasados para o trabalho. Alguns dentro de seus carros, outros parados em ônibus ou lotações. O sistema está em colapso de novo, depois de aliados a falta de perícia dos nossos motoristas com a falta de estrutura das nossas ruas. A segunda-feira continuará complicada.

Meses atrás houve os famosos protestos de junho, que tiveram como bandeira principal o transporte público. Seu próprio bordão marginalizava o movimento, o transporte público: “Somos do povo e a passagem os ricos vão pagar”. Pouco a pouco, os protestos ganharam cada vez mais violência e perderam apoio… da população.

Lembro dos dias pós-protestos, também. Muito lixo acabava ficando na rua mesmo. Assim como muito lixo é jogado diariamente no chão, um tanto por falta de lixeiras por perto, um muito por causa da nossa porquice mesmo. Boa parte deste lixo entupiu há pouco as bocas de lobo que recolhem a água em excesso e ficou à mostra, boiando no maior arroio da nossa capital. As pessoas aproveitam a tranqueira e, assustadas dentro dos ônibus, tiram fotos. É sempre assim.

Munique além da Oktoberfest e domingos chuvosos

IgrejaOutubro começou. E nada melhor que voltar a pensar na Alemanha – e em Munique. Ainda que todo mundo costume ligar a capital da Baviera apenas ao (ótimo) chope, há trocentas outras coisas a se descobrir por lá. Mesmo que se esteja num domingo chuvoso.

Igrejas, é claro, não fecham aos domingos. E por lá há várias que valem a pena conhecer. Duas em especial: Frauenkirchen, construída no ano de 1494. Hoje é a catedral e sede da Arquidiocese de Munique. De arquitetura gótica, suas duas torres – que desbravam 109 metros de altura – se destacam na paisagem do centro de Munique, não tendo nenhuma construção próxima que se aproxime em tamanho.

MarienplatzLogo no hall de entrada vê-se um pé direito afundado. A marca do pé, segundo a lenda, é de ninguém menos que o capeta. Somente na Wikipédia se encontram versões das lendas. A que eu ouvi foi de que, após uma tentativa frustrada de construir a igreja, o diabo financiou o prédio, desde que ele fosse construído sem janelas. Ao fim e ao cabo, o responsável pela construção ludibriou o anjo caído, que, irritado, pisou com tanta raiva no chão, que acabou criando a marca.

Sinistro!

ArenaTambém por perto, mas do outro lado da convergente Marienplatz , fica a igreja Sankt Peter. Mais modesta, mas com seu charme. Ela tem apenas uma torre e, com uma mixaria de euros, se sobe na para apreciar a vista. Haja perna, pois são 312 degraus. A vista, porém, contempla o esforço de quase dez minutos de degraus.

Tão fervorosos quanto os religiosos, os fãs de futebol não só podem como devem ir à Allianz Arena, independentemente de chuva ou de domingo. O estádio foi construído para a Copa do Mundo de 2006 e é a casa do Bayern München e do München 1860. Os passeios guiados ocorrem diariamente, assim como a loja do Bayern, que funciona até aos domingos vendendo de tudo.

Apesar de ser mais afastada do centro, a Arena fica ainda dentro da área 1 do metrô, não necessitando comprar o bilhete mais caro. Passeando pelo estádio a gente descobre que, por mais de primeiro mundo que seja tudo, o comportamento das torcidas no banheiro é sempre o mesmo, um ambiente nem sempre limpo e com muitas pichações.

Arena dentro

A Arena por dentro

Rápidas
Se tiver opção (que eu não tive), deixe para um dia de sol para visitar os jardins do parlamento da Baviera. Se tiver apenas um dia e estiver chovendo, vá assim mesmo!
Das coisas que vi e aprendi: Munique, apesar de estar a centenas de quilômetros do mar, é terra de surfista. Isso graças à agua vinda do rio Isar que corta o Englischer Garten. Veja você mesmo:

E tem mais. Clica aqui e aqui!

O fabuloso destino de uma velha companheira

HB

HB, von 1589

O ano era 2008. E às vésperas da minha primeira grande viagem internacional comprei € 300 e das seis notas foram comigo a Cuba, apenas uma voltou. Por um esperançoso desejo de viajar de novo, um certo equilíbrio econômico ou preguiça mesmo, decidi que não trocaria a remanescente por reais. Devolveria-a eu mesmo a seu habitat natural algum um dia.

Foi um sequestro, a bem dizer. Que só terminou cinco anos depois, passadas crises que aumentaram e diminuíram seu valor, enfim. Fato que a tal nota embarcou comigo a Alemanha e ainda permaneceu na carteira enquanto outras companheiras suas – de menor valor – iam-se estabelecimentos Baviera afora.

Até que num domingo cheguei a Munique (esta cidade, que vive hoje a sua 180ª Oktoberfest). E como chovia nesse domingo. Descobri que Munique, apesar de ser uma das principais cidades alemãs, praticamente não abre domingo. Parte do que havia programado não pôde ser realizado em respeito ao descanso do trabalhador alemão.

Havia, porém, de se ter uma alternativa, que – ao menos em Munique – não poderia nos decepcionar. Após várias negativas sobre o funcionamento de alguns lugares, perguntamos ao funcionário da Igreja de St. Peter: “E a Hofbräu, abre hoje?”. A resposta soou como música: “Naturalmente”, respondeu ele, com um sorriso de quem fala algo óbvio.

A pé pelo piso molhado de Munique saímos em direção a Hobräu Platzl. E nada mais justo ter pelo menos um dia da semana para ficar por este lugar, uma espécie de templo para quem gosta de boa cerveja. Ainda que o atendimento não seja lá dos mais simpáticos, a cerveja é Hofbräu. E ela vem de litro! De litro!

Foi aí que na expectativa de desfrutar logo daquele líquido, fabricado pela primeira vez no século XVI, que saquei a então companheira nota de € 50 e a troquei por dois deliciosos canecos cheios (e mais cerca de € 35 de troco). Só me dei conta que era ela quando a nota já estava sendo guardada pelo garçom.

No instante antes do Prosit, sorri para ela, em despedida. Por vezes imaginei – antes de qualquer plano de viagem europeia – onde será que gastaria aquela nota. Não poderia ter sido em um lugar mais alegre como aquele. Um brinde!