Muros

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Já faz algum tempo que publiquei no Correio do Povo uma matéria sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Muito mais tempo faz que o próprio deixou de ser uma barreira física, sedimentada na dor, entre duas ideologias de mundo.

Mas só agora, mais de 28 anos depois, que a idade contemporânea superou o tempo em que aquele concreto esteve erguido por 155 quilômetros de vias e mentes berlinenses. Neste início de 2018 dá uma nova lição: da quantidade absurda de tempo em que ficou erguido.

Num mundo em que ainda há muros separando gentes e classes (e por que não ideologias?), o de Berlim ainda existe, como já mostrado aqui anos atrás. Às vezes como souvenir movimentando a economia, erguido e transformado em galeria de arte ou como cicatriz no chão. Também há pontos onde ficaram apenas vigas, dando a ideia de como seria complicado estar junto.

O Muro de Berlim hoje virou a casaca. Se antes era para separar e fustigar, atualmente é um exercício de reflexão a todo mundo que o vê, o estuda e o sente na capital alemã. Ficou presente, apesar de quase todo destruído, para ser lembrado e não repetido. Ainda que exista bastante gente pensando ao contrário.

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Acima, a estátua em frente à Kapelle der Versöhnung, na icônica Bernauer Strasse. A capela foi construída a partir dos escombros da igreja destruída pela intolerância do muro. Versöhnung, em alemão, quer dizer reconciliação.

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Textos baianos: Saudade do Morro

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Havia 66 notificações pedindo alguma atenção em apenas um aplicativo de rede social. Isso sem falar nas mensagens, que sempre apareciam às dezenas quando o celular encontrava um mínimo de conexão. Tinha ainda os e-mails. Sisudos, carregados de compromissos, eles.

Mas havia também o mar! Bem em frente. E não apenas uma, mas quatro praias de águas verdes e pedrinhas multicoloridas de encantar crianças – e, ok, adultos também. Morro de São Paulo, Bahia. Uau, que diferença para seu xará do Sudeste. Sois verdadeiramente opostos batizados com o mesmo nome.

Ante aos compromissos de vidas permanentemente digitais, ondas. Ininterruptas. Não de dados, mas de vida. Uma vida mais simples e pacata. Mais ligada à natureza do que às possibilidades provindas de um cartão de crédito. Ondas que, pouco a pouco, carregam o peso de dias que quase não tinham fim na rotina do trabalho.

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Num mundo tão sem pausas, um recomeço à beira-mar do Morro de São Paulo é revigorante.

Por mais Irmelas

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Este blog não é necessariamente um reprodutor de conteúdo alheio na internet, vocês sabem. Mas, ante àquelas cenas de repercussão mundial acontecidas em Charlotesville, em que pessoas que se julgam superiores a outras, realizaram uma manifestação difundindo a sua ideia, farei um leve contraponto.

Eu te convido, caro(a) leitor, a pesquisar – e até difundir, se for o caso – o nome de Irmela Schramm a cada discurso de ódio que se vê por aí. E que, infelizmente, não são tão poucos internet afora.

Nascida no último ano da Segunda Guerra Mundial, Irmela Schramm é o exemplo de ativista que deveria estar presente em cidades onde há gente que se acha superior. Moradora de Berlim, esta senhora usa boa parte de seu tempo para apagar mensagens de ódio espalhadas na cidade.

Uma senhora corajosa, cuja história vale a pena conhecer por estes tempos. Afinal, de guerras e histórias autoritárias, já bastam a que estão nos livros de história.

Das surpresas em noites insossas

RS japao

Prefeitura de Shiga, do outro lado do mundo, estampa sua irmandade com o RS

Na verdade soube desta viagem em meio a uma noite meio entediante na redação. Assim que soube, me candidatei a ir. A bem da verdade, praticamente sem esperança. Mas deu certo. Alguns dias depois atravessei o mundo para ir a um lugar que sempre quis conhecer. Não a turismo ou viajando com tempo e por prazer, contudo em meio à correria, deu para ter uma pequena noção do que é o Japão.

Algumas linhas e impressões já foram publicadas nos posts mais recentes. Outras, por sua vez, acabaram na edição do domingo, 25 de junho, do Correio do Povo. Acabou que, despretensiosamente, eu, um jornalista da área online desde o início de carreira, pela primeira vez publiquei uma matéria assinada em página central de jornal impresso. Quase oito anos depois de entrar numa redação como profissional pela primeira vez.

Se 40 dias antes desta página ser diagramada me dissessem que isso aconteceria, eu não acreditaria. E pensei nisso no momento em que desembarquei no aeroporto de Narita, 35 horas depois de decolar do Salgado Filho, em Porto Alegre. Bom ver que o jornalismo, mesmo nesses tempos modernos, não perde a capacidade de nos surpreender de vez em quando, tanto com pautas quanto com oportunidades. Mesmo nas noites insossas.

Encerrando, então, este período nipônico no blog, deixo o link do pdf das páginas. Espero que gostem.

 

 

Uma vez em Shibuya

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Se houve uma lamentação da viagem ao Japão, além do escasso tempo por lá, foi ver Shibuya “vazia”. Ainda que haja certo desconforto em se atravessar a rua com um monte de gente ao lado (e à frente e atrás), não é todo dia em que se está na esquina conhecida como, de fato, a mais movimentada do mundo.

E não é exagerado dizer isso. Neste encontro de cinco ruas – como bem observa o colega Guilherme Kolling nesta matéria (confesso que nem tinha contado) – ao lado da estação de metrô em Shibuya chegam a passar milhares de pessoas por vez num intervalo de segundos.

Portanto, quando estive lá, o que mais queria era ver: gente. Não chegou a ser o caso, conforme minha guia. Naquela ocasião, uma segunda-feira à noite meio chuvosa, passavam, no máximo, apenas centenas por vez. Todos requerendo um pouco mais de atenção, pois além de desviar de pessoas era necessário ter atenção com os guarda-chuvas vindos de todas as direções.

Mas ainda assim deu para se ter uma ideia do espírito daquele lugar, ou do que é a Tóquio moderna. Especialmente à noite, que seria escura se não fossem aqueles modernos telões com publicidades que levam o transeunte a um cenário futurístico – uma faceta japonesa tão marcante quanto a do Japão “tradicional” de samurais.

Em meio ao povaréo que passa por Shibuya estão, claro, diversos turistas. Que lá estão porque disseram para eles que tem uma esquina cheia de gente, diz-que-diz que fez com que se enchesse mais – e por aí vai. Para eles, talvez atravessar a rua não chegue a ser o ponto alto, mas sim parar no meio do caminho e tirar fotos ou gravar vídeos. E o fazem, mesmo que atrapalhe o trânsito.

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Hachiko

Paralelamente à ânsia por likes e shares eventuais, ao lado da famosa esquina há a lembrança de uma relação profunda, a amizade. Um tributo à amizade, na verdade, simbolizado pela estátua de Hachiko, o cãozinho que ganhou até filme. Hachiko sempre ia à estação aguardar seu dono chegar no trem que para na estação de Shibuya. Um dia, porém, o dono não voltou, pois morreu em acidente. Mas Hachiko não perdeu a esperança de encontrar o velho amigo e voltou lá todos os dias até seu fim. Hoje é lembrado por uma estátua e por diversos cartazes em alusão à sua imagem pela estação.

Um hiato de vida, do outro lado do mundo

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Das ruelas que passamos pela vida

Eram quase 22h. Eu estava, ao lado de mais umas seis ou sete pessoas, parado em um cruzamento qualquer da área central na cidade de Hamamatsu, a uns 16 mil quilômetros do canto de mundo que chamo de meu. Chove fraco, estaria meio escuro se não fosse a intensidade dos painéis publicitários de led nas lojas ao redor. Passam pouquíssimos carros na rua. Mas ainda assim todos esperam a sua vez de atravessar, pois o sinal está verde para os veículos.

Quando o sinal me libera, torno a caminhar a esmo por ruas e ruelas, cheia de lojinhas, bares e restaurantes. Nas fachadas, um idioma completamente estranho. É, sem dúvida, um brevíssimo hiato de vida. E, como Cortázar caminhando por Paris, perdi-me na certeza que iria me encontrar.

Apesar da hora já avançada, medo de assaltos ou qualquer coisa do tipo simplesmente não há nesta realidade, algo bem diferente daqui, infelizmente. Mas diferente também de países da Europa, por exemplo, onde se tem uma sensação de segurança praticamente a todo momento: no Japão não é uma sensação, e sim uma certeza.

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Noite em Hamamatsu

Ao longo da rota improvisada numa cidade nova para mim, cruzo com diversas pessoas, como jovens estudantes, caminhando distraidamente com seus celulares pelas ruas. Inclusive meninas de saias curtas, ao tradicional estilo mangá – elas com a total liberdade de andarem distraídas, bem como escreveu a Taiga em seu blog, TokyoRio.

Todos ali certamente mais preocupados com eventual e repentino terremoto do que com qualquer violência, porque ela praticamente inexiste. Até o retorno ao hotel, ainda tenho algumas surpresas e uma certeza, que o Japão, em muitas momentos, mais parece outro planeta do que apenas mais um país diferente do meu.