A internet ainda pode dar certo. Ou momento confessional nº 16

taiga

Não raro, a internet tem me decepcionado ultimamente – um pouco mais desde de algum momento entre 2013 ou 2014. Talvez seja efeito das redes sociais, mas o palanque da timeline – esta oportunidade para muitos de, enfim, portar um microfone – tenha estimulado demais o extremismo. De um lado e do outro.

A internet hoje, apesar da maior integração entre as pessoas, parece algo muito diferente de seu início. E olha que navego por esses mares se não desde as primeiras ondas, desde um tempo ainda remoto pré-Facebook. Tempos ingênuos de zipmail e distribuição de discador online em CD-Rom como ação de marketing.

Mais cético, certamente, sou um cara bem mais desconfiado. Mas não capaz de me surpreender, como minha reação dias atrás: “Uau, as pessoas que a gente encontra pela internet ainda podem ser boas e o mundo tem chance de ser um lugar mais integrado, independente de qualquer transação comercial”.

Mais ou menos isso que pensei ao saltar em alguma das centenas estações do metrô em Tóquio, depois de cerca de duas horas de um passeio guiado pela querida Taiga Gomes, talentosa jornalista do (excelente) blog TokyoRio.

No início do mês, eu tive que atravessar o mundo meio que de sopetão. Uma viagem a trabalho que, desde sua incipiente ideia até o embarque no avião, mal levou dez dias. A correria acabou por minar qualquer chance de planejamento prévio para conhecer um lugar tão distante geográfica e culturalmente do meu cotidiano.

A verdade é que entrei em contato com a Taiga sem muita expectativa de retorno. E qual não foi a minha surpresa na pronta resposta e disposição em me ajudar? A troca de e-mails acabou gerando até um breve city tour pela capital japonesa. Um ato simples e querido, mas demasiadamente contrastante com o mar intolerante que não raro inunda as redes sociais.

A internet ainda pode ser um lugar bem legal com pessoas dispostas a ajudar a outra sem aguardar algo em troca, como sugeria lá no seu começo ingênuo. Mais integração através da conexão com o próximo.

Pessoas como a Taiga provam isso. =)

Tenha cuidado, Rafael!

carta_liniers5O mundo não está nada fácil, Rafael! Tenha cuidado.

Te juro, queria te prometer mundos, fundos, fantasias e alegrias. Basicamente isso: um grito de gol, que vais descobrir que é uma dos momentos de mais efêmera alegria desta tua nova encarnação – especialmente pela Libertadores. Mas teremos uma caminhada um pouco árdua pela frente.

Tu chegas numa época quase sombria, ainda que tua avó me condene por falar isso. Diz ela que ando bem pessimista, ainda que, infelizmente, entendo-me mais como realista nestes dias. Trabalho com notícias e vejo que elas não estão nada boas. Então, furtivamente te peço: vai por mim.

Não leve a mal, não foi bem por nossa culpa, mas tu vens para uma realidade que enfrenta velhos problemas que talvez tenhamos pensado que já estavam resolvidos, além de novos desafios que sequer imaginamos. Tudo isso tu saberá identificar, fique tranquilo.

E é justamente por isso que tu vens, Rafa. Tu, já do alto dos teus quase 50 centímetros (quase meio metro, cara), representas uma baita de uma esperança para nós. Ela e tu só vão crescer, dia após dia. Porque se as coisas estão complicadas, sim, mas tu vais ter uma grande luz para encarar a vida.

Calma. Essa missão não é só tua. Tu vai ter vários amigos ao teu lado e aqui vou te citar só alguns: a Laurinha, a Sofia, o Vinícius, a Cecília, a Clarice e todos esses que estão chegando contigo. Claro, inclui o agora-irmão-mais-velho Luan neste barco. Além da Liz e da Raíssa. (Três irmãos por estes dias é um privilégio, hein)

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Rafa, o mundo não é fácil e por isso tens que conhecê-lo para compreendê-lo melhor. Provavelmente não será possível ir a todos os países e cidades, mas, sempre que saíres de casa para ir aí na esquina buscar o pão para o café da tarde, não esquece da chave que abre todas as portas: teu sorriso. A partir dele, transparecerás toda a tua luz e bondade que vais receber desta turma em que estão tua mãe, teu pai, teus avós e teus tios, como este que te escreve agora. É bastante gente, em um monte de lugar, para tu teres a certeza de que nunca estarás sozinho.

Estuda, Rafa. Precisamos de conhecimento para perceber e entender o que é a verdade no que nos rodeia. Para não acreditar em qualquer coisa numa era com excesso de falas e pouco contexto. Mas não deixa de te divertir. Com o tempo perceberás que risadas gostosas são das lembranças mais marcantes que temos. E espero poder estar contigo em várias destas.

Com amor,
Tio Tiago

ps1: As tirinhas que ilustram este post são de um argentino chamado Ricardo Liniers. Espero que tu leias muito ele ao longo da tua vida. Esta faz parte de uma carta aberta que ele desenhou à sua afilhada e que me inspirou para escrever para ti. A íntegra dela está aqui nesta apresentação:

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ps2: Apenas para eu me lembrar, porque gostaria de nunca esquecer: terminei este texto depois das 23h de um domingo, 9 de abril. A tia Ana dorme serenamente do meu lado no sofá, teu avô Celso foi para a cama agora há pouco. Todos ansiosos pela tua chegada, prevista para daqui a cerca de nove horas. Durante o dia, traçamos até um mapa astral teu, como se fosse possível reunir todas as melhores qualidades para te oferecer.

Rafa, tenha certeza: ainda que o mundo não esteja nada fácil, amor não te faltará.

Brinde aos injustiçados

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Uma foto de 2013 tão atual quanto nunca havia sido

Que 2016 não foi dos anos mais fáceis, isso não há dúvida. Em livros de história do futuro é bem capaz que olhemos o que foram esses 365 dias e questionemos: “Como é que fizeram isso?”. Pudéssemos, por certo mudaríamos muitas das coisas feitas nesse período.

Mas, a bem da verdade, que ano que passa incólume na nossa avaliação? Toda trajetória é feita de erros e acertos, perdas e ganhos. Às vezes mais, às vezes menos em proporção. A banca paga e recebe, enfim.

Este ano, ao menos pelas pessoas que me cercam – o que pode ser simplesmente efeito da minha bolha social – parece que não deixará saudades alguma. Há pessoas dando graças a Deus por 2016 terminar como se janeiro de 2017 fosse a certeza da redenção.

O meu ano também não foi dos melhores, como o da aparente maioria. Porém ainda insisto em manter um otimismo teimoso, quase inexplicável. Se vou ter que lembrar dos momentos complicados deste ano, que ao menos não quero esquecer dos bons, que, se não foram maioria, tentaram compensar em felicidade, como em certa feita escrevi, por exemplo, aqui e aqui. São injustiçadas horas boas em meio ao dramalhão deste ano.

Nem tudo foi perdido. Nunca é. E, se ainda não encontramos o momento definitivo e insuperável desta existência carnal, temos chances. Isso já tem que nos bastar: a teimosia da esperança de acordar para um dia melhor. Nem que seja ano que vem.

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Hay de tener fe

igreja

Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Florianópolis

“No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, provoca o famoso ditado em espanhol. Pero no solo brujas, sino también santas y dioses. Hay mucho más cosas entre el cielo y la tierra, podemos complementar, ainda no seu idioma original, assim como concluir que na hora do aperto não existe ateu.

Pois bem.

Anos atrás apresentei aqui a Nossa Senhora de Cidade Baixa, que na verdade era Nossa Senhora da Conceição disfarçada. Uma santa que me acompanhou no peito por alguns anos e hoje está guardada como uma querida relíquia em algum lugar da minha casa, ao lado do Santo Antônio que a substituiu no posto de pingente.

A verdade é que nutro grande respeito por ela, mas que a vida me afastou do catolicismo, aproximando-me do espiritismo. Tenho, contudo, muito carinho, em especial aos santos supracitados. Se existem e fazem milagres? No lo sé, pero que los hay, los hay.

E foi nessas obras do acaso que, após um congestionamento enorme na Lagoa da Conceição e a sequência de três motoristas mal-educados que não permitiram que eu trocasse de faixa, que mudei meu rumo, no meu último dia com 30 anos de idade. Conhecer o Projeto Tamar ficou para outra hora, que fôssemos a qualquer lugar longe daquele trânsito antônimo ao clima de verão.

Segui a esmo, então, a um dos poucos lugares não visitados em Florianópolis: o santuário da Imaculada Conceição, morro acima, na Costa da Lagoa. Igrejinha bonita, estilo barroca (?) e semelhante às mineiras que vi em Ouro Preto.

Após apreciada, chegara a hora de partir. Só que partir dali o carro não quis. Tentei uma, duas, 15 vezes e o veículo nem ligou. O cenário dramático contava com calor intenso, pouca água e sinal fraco de celular. Eis o que o homem de 30 anos age como filho mais uma vez e liga pelo socorro do pai.

Chega o velho: tenta-se uma ou duas soluções e não tem jeito. O negócio seria tentar pegar no tranco mesmo. Empurra-se o carro lomba acima e, antes da decida, de fora do carro reparo no outro lado da praça defronte à igreja e lá estava ela: Nossa Senhora da Conceição, abrigada por uma pequena gruta e cercada de velas devotas. Desci até mais perto para ver a imagem, sorri um sorriso imerecido de quem pede o tecnicamente impossível. E de lá escuto um motor: o carro pegou!

Depois ainda lembrei que não voltei a virar o rosto para agradecer, tamanha a surpresa com a inesperada partida do veículo. Ainda que ele tenha apagado em seguida, voltou a pegar no tranco e, sãos e salvos, todos chegamos onde tínhamos que chegar, quilômetros dali – para de lá trocar a bateria, claro.

À noite, rezei e agradeci à velha protetora da família, que já foi tanto à Cidade Baixa de Porto Alegre quanto ao alto de um morro com seu nome em Florianópolis apenas para dizer: pode contar comigo.

Foi para ser

(Ou Textos para o Laion 2)

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Foto do Cristiano Munari, repórter em Chapecó

Ainda não me sai da cabeça aquela defesa do Danilo. Foi aos 44 minutos do segundo tempo, quase à queima roupa, no reflexo. “Levei sorte”, admitiu ele próprio, minutos após o jogo. E não só esse derradeiro lance: noites antes houve quatro pênaltis de uma vez só que ele defendeu para garantir que a Chapecoense avançasse nesta histórica campanha. Quatro!

Tudo foi prólogo da heroica vaga na final e seu consequente e trágico destino. Fosse qualquer uma dessas bolas centímetros para um lado ou para o outro, mais forte ou até mais fraca; fosse uma decisão diferente, um reflexo não tem bem apurado… Talvez.

Nessa última noite ainda teve mais uma notícia lamentável. O avião não alcançou a pista por falta de combustível. Ele até tinha chegado ao destino, mas por conta de outros problemas de outra aeronave que saiu de outro lugar em outro horário, precisou ficar no ar um pouco mais. E aí, não deu tempo. Justo ali, já tão perto.

Não tive como não refletir sobre isso. Se antes foram centímetros, agora foram segundos ou minutos. Nem dez minutos, talvez nem cinco, poderiam ter feito toda a diferença. Ocorreu uma minuciosa equação de fatos, que desencadearam toda esta situação. Houve toda uma construção antes, iniciada coletivamente dias, meses, anos antes.

Do que nos cabe, de nada adianta revoltar-se com o acontecido. Simplesmente era para ter sido assim. Foi assim. O futuro do pretérito não altera nada. Resta agora torcer para que o presente de hoje vire reflexão àqueles propensos a cometer eventuais erros que apontados neste caso, como uma resignada menção honrosa a 71 histórias que trilharam diferentes caminhos para chegar ao mesmo destino. Na mesma hora.

Textos para o Laion

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A foto acima é uma das recordações etílicas mais divertidas da minha vida. Éramos jovens e recém-formados. Tu me deste este copo como recordação da tua festa. Da tua alegria. Eu lembro que iria embora, mas tu mostraste que o copo não era para ser só uma lembrança. E o usamos por mais de hora a seguir. Que porre! Que alegria!

A alegria coroava o momento que para nós havia iniciado em março de 2005. Eu juro que lembro até hoje da primeira vez que ouvi o teu nome na lista de chamada. “Eu tenho um colega chamado Laion! Preciso ser amigo dele”, pensei. O objetivo principal seria um dia te presentear com uma espada de Thundera.

A espada de Thundera eu fiquei devendo, mas como compensação lembrei de ti assim que abriu uma vaga para trabalhar conosco no Correio do Povo. Deu certo! Foram três anos de uma parceria absurda, da qual sinto falta até hoje e não é pelo luto de agora. Sozinhos, nós dois fizemos uma das principais coberturas do site em meio a um plantão de 2013.

Sempre pude contar contigo. Como colega, como editor e, principalmente, como amigo.

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Acordar com notícias ruins é algo estarrecedor. Somos irrompidos de um sono gostoso e, até sem café (grande vício nosso!), aceleramos a procura de notícias, algo intrínseco à nossa profissão. Devo ter arregalado os olhos quando soube. Imediatamente pensei em ti e numa fração de segundos lembrei que tu não tinhas ido a Buenos Aires, que viajava pouco.

Mas agora era a final. Tu devias ter ido. “Caralho-caralho-caralho”, pensei na hora. Abri Twitter, mergulhei nesta tragédia para saber não só o que tinha ocorrido, quando, onde, como, por que, mas em busca de uma notícia redentora. Essa eu não encontrei, apesar de ser um dos últimos a desistir.

Foi quase como uma forma de negação, mas nesse momento, por longas três horas, trabalhei como se estivesse ao teu lado na redação, procurando esclarecer detalhes e acompanhando quaisquer novidades sobre buscas ou resgates. Infelizmente não achei nem escrevi a notícia que eu queria.

Ao longo dessas horas, recebi umas três ou quatro ligações, além de um punhado de mensagens. Ou perguntavam por ti ou procuravam me reconfortar. Aí eu vi, meu velho, o quão forte foi nossa amizade. Afinal, não nos víamos já há algum tempinho e ainda assim eu era alguma referência tua. Dessa vez não só pelos cabelos parecidos.

Ainda preciso chorar mais, admito. As pancadinhas até agora são um prenúncio de uma dor maior e mais representativa que é esta tua precoce partida. Não mudará nada, mas ajudará a superá-la. Meu amigo, se já fazias falta nas mesas de bar e nos campeonatos de videogame quando moravas em Chapecó, imagina agora.

Ficou um vazio imenso, como o copo acima, que certa noite transbordou felicidade. Hoje, mais que tudo, é uma grande lembrança.

Vou te prometer superar mais essa, até porque tenho a certeza que tu nunca iria querer teus amigos tristes por tua causa. E por ter a certeza de que tu estavas feliz com a viagem, com os rumos da tua carreira, depois daquela maluca curva de 2014. Deixas exemplo de coragem, além de grande parceria e profissionalismo.

Segue na luz, parceiro!

 

Há pelos

lisbela

Lisbela e o sol, uma parceria marcante

Havia apelos. Sozinha numa praça qualquer em pleno inverno era só o que lhe restava. De certo muitos foram ignorados, outros quiçá notados. E lá ficava o cão. Abandonado. Até que um dia virou Lisbela.

Desse dia pra cá já se passaram quase cem. Os primeiros, como não poderia deixar de ser, tiveram a marca da desconfiança. Receio do novo, daquela virada de vida tão boa e repentina, quanto surpreendente pra quem morou na rua. Precisava de mais tempo para crer. Teve. Assim como amor, comida, água e companhia.

E onde havia apelos, hoje só há pelos. Como um rastro de uma relação que, sim, deu certo. E de que, claro, Lisbela está em casa, num canto do sofá ou em alguma pose contorcionista para banhar-se de sol. Mas em casa, definitivamente, em casa.

Não compre, adote