Quase um e-book

bloco

Ainda sobre números e comemorações dos 10 anos, estão abaixo separadas mais de 22 mil palavras distribuídas em 67 posts, organizados de forma cronológica, quase que numa montanha-russa de assuntos e situações.

Esses textos não são necessariamente os melhores – até porque gosto é algo individual –, mas os mais marcantes para quem os escreveu e gastou algum tempo para revê-los. Seja pelo resultado final ou pela motivação da primeira letra – o “insight”, como dizem os amigos publicitários em sua língua-mãe.

Tudo isso selecionado na base da correria, em menos de uma semana e diagramado muito toscamente em Microsoft Word 2016, em horas vagas em casa. Foi uma corrida para vencer o deadline exato dos dez anos. Vencido, esse post foi para o limbo, de onde foi retirado um mês depois.

Publicar ou não publicar, era a questão. Porque não ficou exatamente como se imaginou. Faltou alguma coisa, um quê de design e uma revisão mais aprimorada, quem sabe. Enfim.

Mas vai para o ar agora. Até pelo que representa ter um blog de uma década de vida. É uma trajetória e tanto. E o mais legal disso é revisitar textos antigos e, se em alguns se vê um traço de qualidade, em tantos outros o sentimento é de vergonha alheia por um dia aquilo ter sido publicado.

Um blog, como esse, nunca deixou de ser um diário, mesmo que a periodicidade esteja bem longe disso. Porém, também é um registro de diversas fases e inspirações de parte importante de uma vida. No caso, a minha.

Dez anos, 3,6 mil dias de um blog que nasceu sem ter um prazo ou objetivo bem definido, que já mudou a rota algumas vezes. E seguirá mudando, porque a vida é assim. Então, não te esqueça: é tosco. Bem tosco. Mas é de coração:

http://e.issuu.com/embed.html#31432530/55417330

E se não conseguir acessar, tenta direto neste link.

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Uma década até aqui

telha10anos

10 anos

Em uma matéria jornalística, quando se quer dar uma dimensão mais exata dos fatos, aproximar o texto do leitor, não raro usa-se números. Algarismos unidos que, juntos, são capazes de aproximar um fato do cotidiano das pessoas.

Pois então, usemos. Temos aqui dez anos, completos às 16h34 deste 15 de outubro de 2017. Passaram-se, logo, uns 3,650 dias desde a primeira e bobinha postagem de boas vindas. De lá pra cá, foram 452 textos publicados, além de outros cinco misteriosamente pendentes – incluindo um texto pronto desde 2014 e até hoje na fila, sabe-se lá o porquê.

São, já devidamente preenchidas, 120 meses de arquivos. Um por mês. O mais legal é que esta caixa de arquivo conta um pouco de algumas fases da minha própria vida. Ou do meu próprio texto. Mistura realidade e ficção, mistura histórias próprias e de outros, com causos nas linhas e nas entrelinhas escritas ou pensadas em bares noite afora. A isso somam-se teses, jornalismo e muito papo sério.

Aos poucos, lê-se umas modificações e tanto. Evolução da escrita? Talvez. Um olhar mais crítico, com certeza. Há reflexões, comentários, lamentações e relatos de observações feitas desde aqui, ali e até do outro lado mundo.

Enfim, obrigado por teu minuto de atenção e por fazer parte disso, amigo leitor.

Das surpresas em noites insossas

RS japao

Prefeitura de Shiga, do outro lado do mundo, estampa sua irmandade com o RS

Na verdade soube desta viagem em meio a uma noite meio entediante na redação. Assim que soube, me candidatei a ir. A bem da verdade, praticamente sem esperança. Mas deu certo. Alguns dias depois atravessei o mundo para ir a um lugar que sempre quis conhecer. Não a turismo ou viajando com tempo e por prazer, contudo em meio à correria, deu para ter uma pequena noção do que é o Japão.

Algumas linhas e impressões já foram publicadas nos posts mais recentes. Outras, por sua vez, acabaram na edição do domingo, 25 de junho, do Correio do Povo. Acabou que, despretensiosamente, eu, um jornalista da área online desde o início de carreira, pela primeira vez publiquei uma matéria assinada em página central de jornal impresso. Quase oito anos depois de entrar numa redação como profissional pela primeira vez.

Se 40 dias antes desta página ser diagramada me dissessem que isso aconteceria, eu não acreditaria. E pensei nisso no momento em que desembarquei no aeroporto de Narita, 35 horas depois de decolar do Salgado Filho, em Porto Alegre. Bom ver que o jornalismo, mesmo nesses tempos modernos, não perde a capacidade de nos surpreender de vez em quando, tanto com pautas quanto com oportunidades. Mesmo nas noites insossas.

Encerrando, então, este período nipônico no blog, deixo o link do pdf das páginas. Espero que gostem.

 

 

A internet ainda pode dar certo. Ou momento confessional nº 16

taiga

Não raro, a internet tem me decepcionado ultimamente – um pouco mais desde de algum momento entre 2013 ou 2014. Talvez seja efeito das redes sociais, mas o palanque da timeline – esta oportunidade para muitos de, enfim, portar um microfone – tenha estimulado demais o extremismo. De um lado e do outro.

A internet hoje, apesar da maior integração entre as pessoas, parece algo muito diferente de seu início. E olha que navego por esses mares se não desde as primeiras ondas, desde um tempo ainda remoto pré-Facebook. Tempos ingênuos de zipmail e distribuição de discador online em CD-Rom como ação de marketing.

Mais cético, certamente, sou um cara bem mais desconfiado. Mas não capaz de me surpreender, como minha reação dias atrás: “Uau, as pessoas que a gente encontra pela internet ainda podem ser boas e o mundo tem chance de ser um lugar mais integrado, independente de qualquer transação comercial”.

Mais ou menos isso que pensei ao saltar em alguma das centenas estações do metrô em Tóquio, depois de cerca de duas horas de um passeio guiado pela querida Taiga Gomes, talentosa jornalista do (excelente) blog TokyoRio.

No início do mês, eu tive que atravessar o mundo meio que de sopetão. Uma viagem a trabalho que, desde sua incipiente ideia até o embarque no avião, mal levou dez dias. A correria acabou por minar qualquer chance de planejamento prévio para conhecer um lugar tão distante geográfica e culturalmente do meu cotidiano.

A verdade é que entrei em contato com a Taiga sem muita expectativa de retorno. E qual não foi a minha surpresa na pronta resposta e disposição em me ajudar? A troca de e-mails acabou gerando até um breve city tour pela capital japonesa. Um ato simples e querido, mas demasiadamente contrastante com o mar intolerante que não raro inunda as redes sociais.

A internet ainda pode ser um lugar bem legal com pessoas dispostas a ajudar a outra sem aguardar algo em troca, como sugeria lá no seu começo ingênuo. Mais integração através da conexão com o próximo.

Pessoas como a Taiga provam isso. =)

Tenha cuidado, Rafael!

carta_liniers5O mundo não está nada fácil, Rafael! Tenha cuidado.

Te juro, queria te prometer mundos, fundos, fantasias e alegrias. Basicamente isso: um grito de gol, que vais descobrir que é uma dos momentos de mais efêmera alegria desta tua nova encarnação – especialmente pela Libertadores. Mas teremos uma caminhada um pouco árdua pela frente.

Tu chegas numa época quase sombria, ainda que tua avó me condene por falar isso. Diz ela que ando bem pessimista, ainda que, infelizmente, entendo-me mais como realista nestes dias. Trabalho com notícias e vejo que elas não estão nada boas. Então, furtivamente te peço: vai por mim.

Não leve a mal, não foi bem por nossa culpa, mas tu vens para uma realidade que enfrenta velhos problemas que talvez tenhamos pensado que já estavam resolvidos, além de novos desafios que sequer imaginamos. Tudo isso tu saberá identificar, fique tranquilo.

E é justamente por isso que tu vens, Rafa. Tu, já do alto dos teus quase 50 centímetros (quase meio metro, cara), representas uma baita de uma esperança para nós. Ela e tu só vão crescer, dia após dia. Porque se as coisas estão complicadas, sim, mas tu vais ter uma grande luz para encarar a vida.

Calma. Essa missão não é só tua. Tu vai ter vários amigos ao teu lado e aqui vou te citar só alguns: a Laurinha, a Sofia, o Vinícius, a Cecília, a Clarice e todos esses que estão chegando contigo. Claro, inclui o agora-irmão-mais-velho Luan neste barco. Além da Liz e da Raíssa. (Três irmãos por estes dias é um privilégio, hein)

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Rafa, o mundo não é fácil e por isso tens que conhecê-lo para compreendê-lo melhor. Provavelmente não será possível ir a todos os países e cidades, mas, sempre que saíres de casa para ir aí na esquina buscar o pão para o café da tarde, não esquece da chave que abre todas as portas: teu sorriso. A partir dele, transparecerás toda a tua luz e bondade que vais receber desta turma em que estão tua mãe, teu pai, teus avós e teus tios, como este que te escreve agora. É bastante gente, em um monte de lugar, para tu teres a certeza de que nunca estarás sozinho.

Estuda, Rafa. Precisamos de conhecimento para perceber e entender o que é a verdade no que nos rodeia. Para não acreditar em qualquer coisa numa era com excesso de falas e pouco contexto. Mas não deixa de te divertir. Com o tempo perceberás que risadas gostosas são das lembranças mais marcantes que temos. E espero poder estar contigo em várias destas.

Com amor,
Tio Tiago

ps1: As tirinhas que ilustram este post são de um argentino chamado Ricardo Liniers. Espero que tu leias muito ele ao longo da tua vida. Esta faz parte de uma carta aberta que ele desenhou à sua afilhada e que me inspirou para escrever para ti. A íntegra dela está aqui nesta apresentação:

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ps2: Apenas para eu me lembrar, porque gostaria de nunca esquecer: terminei este texto depois das 23h de um domingo, 9 de abril. A tia Ana dorme serenamente do meu lado no sofá, teu avô Celso foi para a cama agora há pouco. Todos ansiosos pela tua chegada, prevista para daqui a cerca de nove horas. Durante o dia, traçamos até um mapa astral teu, como se fosse possível reunir todas as melhores qualidades para te oferecer.

Rafa, tenha certeza: ainda que o mundo não esteja nada fácil, amor não te faltará.

Brinde aos injustiçados

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Uma foto de 2013 tão atual quanto nunca havia sido

Que 2016 não foi dos anos mais fáceis, isso não há dúvida. Em livros de história do futuro é bem capaz que olhemos o que foram esses 365 dias e questionemos: “Como é que fizeram isso?”. Pudéssemos, por certo mudaríamos muitas das coisas feitas nesse período.

Mas, a bem da verdade, que ano que passa incólume na nossa avaliação? Toda trajetória é feita de erros e acertos, perdas e ganhos. Às vezes mais, às vezes menos em proporção. A banca paga e recebe, enfim.

Este ano, ao menos pelas pessoas que me cercam – o que pode ser simplesmente efeito da minha bolha social – parece que não deixará saudades alguma. Há pessoas dando graças a Deus por 2016 terminar como se janeiro de 2017 fosse a certeza da redenção.

O meu ano também não foi dos melhores, como o da aparente maioria. Porém ainda insisto em manter um otimismo teimoso, quase inexplicável. Se vou ter que lembrar dos momentos complicados deste ano, que ao menos não quero esquecer dos bons, que, se não foram maioria, tentaram compensar em felicidade, como em certa feita escrevi, por exemplo, aqui e aqui. São injustiçadas horas boas em meio ao dramalhão deste ano.

Nem tudo foi perdido. Nunca é. E, se ainda não encontramos o momento definitivo e insuperável desta existência carnal, temos chances. Isso já tem que nos bastar: a teimosia da esperança de acordar para um dia melhor. Nem que seja ano que vem.

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Hay de tener fe

igreja

Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Florianópolis

“No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, provoca o famoso ditado em espanhol. Pero no solo brujas, sino también santas y dioses. Hay mucho más cosas entre el cielo y la tierra, podemos complementar, ainda no seu idioma original, assim como concluir que na hora do aperto não existe ateu.

Pois bem.

Anos atrás apresentei aqui a Nossa Senhora de Cidade Baixa, que na verdade era Nossa Senhora da Conceição disfarçada. Uma santa que me acompanhou no peito por alguns anos e hoje está guardada como uma querida relíquia em algum lugar da minha casa, ao lado do Santo Antônio que a substituiu no posto de pingente.

A verdade é que nutro grande respeito por ela, mas que a vida me afastou do catolicismo, aproximando-me do espiritismo. Tenho, contudo, muito carinho, em especial aos santos supracitados. Se existem e fazem milagres? No lo sé, pero que los hay, los hay.

E foi nessas obras do acaso que, após um congestionamento enorme na Lagoa da Conceição e a sequência de três motoristas mal-educados que não permitiram que eu trocasse de faixa, que mudei meu rumo, no meu último dia com 30 anos de idade. Conhecer o Projeto Tamar ficou para outra hora, que fôssemos a qualquer lugar longe daquele trânsito antônimo ao clima de verão.

Segui a esmo, então, a um dos poucos lugares não visitados em Florianópolis: o santuário da Imaculada Conceição, morro acima, na Costa da Lagoa. Igrejinha bonita, estilo barroca (?) e semelhante às mineiras que vi em Ouro Preto.

Após apreciada, chegara a hora de partir. Só que partir dali o carro não quis. Tentei uma, duas, 15 vezes e o veículo nem ligou. O cenário dramático contava com calor intenso, pouca água e sinal fraco de celular. Eis o que o homem de 30 anos age como filho mais uma vez e liga pelo socorro do pai.

Chega o velho: tenta-se uma ou duas soluções e não tem jeito. O negócio seria tentar pegar no tranco mesmo. Empurra-se o carro lomba acima e, antes da decida, de fora do carro reparo no outro lado da praça defronte à igreja e lá estava ela: Nossa Senhora da Conceição, abrigada por uma pequena gruta e cercada de velas devotas. Desci até mais perto para ver a imagem, sorri um sorriso imerecido de quem pede o tecnicamente impossível. E de lá escuto um motor: o carro pegou!

Depois ainda lembrei que não voltei a virar o rosto para agradecer, tamanha a surpresa com a inesperada partida do veículo. Ainda que ele tenha apagado em seguida, voltou a pegar no tranco e, sãos e salvos, todos chegamos onde tínhamos que chegar, quilômetros dali – para de lá trocar a bateria, claro.

À noite, rezei e agradeci à velha protetora da família, que já foi tanto à Cidade Baixa de Porto Alegre quanto ao alto de um morro com seu nome em Florianópolis apenas para dizer: pode contar comigo.