A cidade e a bike

Era para ser um breve adendo à esta matéria do Henrique Massaro para o Correio do Povo. Acabou que virando um breve artigo, mas que acabou não indo para o papel pela perda do prazo deste que o escreveu. Ao menos hoje já inventaram a internet e aqui se faz possível a publicação =)

bikes japao

Andava em uma esteira na cidade de Hamamatsu, no Japão, poucos meses atrás. O trajeto era em um elevado paralelo à estação central de trem. Lá chegando, reencontrei uma cena que me remeteu a locais como, especialmente, a Alemanha: bicicletas. Às dezenas, quiçá centenas. Todas ali estacionadas, enquanto seus donos estavam em lugares e até cidades diversas pela região. Cito Alemanha, porque já vi com meus próprios olhos, mas em quantos mais lugares ao redor do mundo acontece isso?

Pois bem, o nome disso é planejamento. Talvez este seja o segredo – que nem é tão misterioso assim, convenhamos – para o sucesso e a popularização das bikes. Torná-la um modal. Cotidiana. Poder usá-la para ir até um ponto e de lá pegar um ônibus, trem ou o que seja. Na certeza de que ela estará lá na volta. Integrá-la à cidade, em suma.

Porto Alegre vive um debate mais acirrado sobre o papel da bicicleta há mais de seis anos, desde o fatídico atropelamento coletivo na Cidade Baixa. De lá para cá, a Capital ganhou não mais que um punhado de quilômetros de ciclofaixas e ciclovias. Mas talvez não tenha integrado seus ciclistas – e aqui abre-se um viés crítico: o quanto alguns de fato quiseram se integrar – e não se impor – enquanto esbravejavam bordões rancorosos como “Mais amor, menos motor”?

Num mundo poluído, o futuro agradece se andarmos mais de bicicleta, com certeza. Só que soa utópico simplesmente abandonar carros, motos e outros meios de transporte já consagrados. Da mesma forma que é vazio dizer que se incentiva a bike sem promover tanto a segurança quanto o conforto de quem pedala por aí. Que tal amenizarmos nossos ânimos e encontrarmos um meio-termo? A cidade, estejam certos, agradecerá.

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Diários Mexicanos: De otro tiempo

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Valladolid é uma microcidade da região central da península de Yucatán, a cerca de duas horas da badalada Cancún e tem um tempo diferente. Tal qual um sem-número de cidadecitas do interior hispânico. Seja do México, do Uruguai, da Argentina ou mesmo da Espanha. Enfim, aqui o tempo é outro.

Estamos em pleno século XXI, mas isto poderia não passar de especulação ao se observar atentamente os locais. Los mexicanos de Valladolid dão buenos días, buenas tardes y buenas noches a quaisquer desconhecidos que os encararem pouco mais de um segundo. E isso sem maior desconfiança – ao menos aparente.

Eles vendem jornais impressos – três (!) em uma microcidade – nas esquinas com calçadas apertadas para o pueblo passar no seu dia a dia. Aqui um breve parêntese: a aposta no noticiário policial e na chica desnuda parece sempre serem uma constante, onde quer que seja.

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A convicção de que estamos mesmo no século XXI pode diminuir um pouco mais se passarmos a reparar também na arquitetura desta pequena cidade, na qual a construção mais alta é uma igreja erguida em 1706. De resto, casinhas com dois, três pisos no máximo e quase todas coloridas. Um cenário muito mais para Zorro do que para Homem de Ferro.

O tempo retrocede ainda mais se se viajar cerca de 50 quilômetros para ir a Chinchén Itzá e deparar-se com a antiga cidade Maia, construída bem antes de qualquer espanhol pisar no solo hoje mexicano.

Mas talvez toda a culpa seja do Cenote Zací, um lugar incrível ali do ladinho do Centro. Diante de tanta beleza e com uma água sempre convidativa, o tempo quiçá se atrase querendo mais um mergulho neste local criado lentamente pela natureza milhares de anos atrás.

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Valladolid tem outro tempo. E nele ninguém se importa, afinal, se estamos mesmo no século XXI.

Eu sempre voltei, Porto Alegre

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Dos temporais que encaramos juntos…

Uns anos atrás li uma crônica da escritora Carol Bensimon, que até hoje traz uma definição que adotei para falar de Porto Alegre: “Nós quebramos pratos às vezes, mas voltamos a nos entender”.

Da minha parte, lhes garanto: estamos quebrando pratos como nunca! A vida longe do pôr do sol do Guaíba nunca tornou-se tão atraente como nestes dias. Ruídos na nossa relação, não têm faltado. Mas por respeito não os cito aqui e, irônica e maldosamente, apenas recomendo: olhem ao redor, leiam os jornais.

A vida não está fácil neste polo meridional brasileiro.

Porém temos um vínculo forte, precisamos admitir também. Porto Alegre, fosse uma pessoa, seria alguém que relutaria a ligar neste domingo para desejar-lhe feliz aniversário. Seria alguém merecedora, sem dúvida, mas talvez não quisesse vê-la de perto neste momento. Admito, contudo: de mim, receberia essa ligação por volta das 20h. Seria cínico, como quem fez pouco caso e passou o dia ocupado demais para uma cortesia.

Ligaria porque respeito o nosso passado. A canção-clichê diz “Porto Alegre me tem”. É um pouco verdade, através das minhas recordações em muitos de seus cantos, alguns dos quais já nem existem mais senão em minha nostalgia infantil. São já três décadas divididas em pequenos espaços de tempo em diferentes ruas, bairros e épocas daqui.

Ligaria, também, porque incrivelmente ainda acredito no nosso futuro – ainda que não muito nestes imediatos anos, deixemos claro. E mesmo quebrando mais um prato, a raiz é forte. Tal qual a esperança. Não é tão mais difícil te imaginar uma cidade melhor.

Aliás, o encanto de grande cidade pequena – ou de pequena cidade grande – é que é raro. Porto Alegre o tem, ainda que insista em sair crescendo de forma atabaolhada e que sua gente tenha mania de se encantar por “modernidades” bestas que transformam o antigo em velho, maltratando a própria história.

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…na certeza de uma bonança vindoura

Não sou, tampouco serei fiel a Porto Alegre. Declaro amores a outros lugares, pego a freeway ou decolo do Salgado Filho com um sincero sorriso no rosto. Reparo e às vezes simpatizo ao encontrar aquilo que não acho aqui. Eu gosto de viajar. Mas eu sempre voltei, Porto Alegre.

Curvas e cores de Gaudí

Admito ser leigo no assunto, mas talvez justamente por isso eu adore debater arquitetura e urbanismo em mesas de bar mundo afora. E muito por esta razão foi encantador conhecer Barcelona, um lugar em que se fica provado o valor e o impacto de curvas e cores no cenário público.

O fato de admirar arquitetura apenas por fora não me faz estudar arquitetos. Mas estar em Barcelona é ser logo apresentado a Antoni Gaudí, alguém que, definitivamente, nunca gostou de linhas retas. E fez de Barcelona uma atração turística em si graças às suas ideias.

Estamos em Passeig de Gracia. E apenas ali há dois prédios separados por poucas dezenas de metros e que mostram a sua genialidade: a Casa Milà (La Pedrera) e a Casa Batlló. Ambos são um sem fim de curvas e, no caso do segundo, Gaudí levou um edifício de alguns andares inteiro para um mergulho no mar usando entradas de luz e tons de azulejos, além de, claro, curvas. Muitas.

casa batllo

Porque, com curvas, a fachada é muito mais legal

A apreciação é livre – e disputada – por pequenas multidões que visitam as duas casas diariamente. Encantam gente que vive em cidades como a minha, em que o antigo é logo considerado velho e o novo não passa de linhas retas que impõem um padrão de ostentação.

Não cheguei a visitar La Pedrera, mas, lhe garanto, caro(a) leitor, que entrar na Casa Batlló foi um dos grandes passeios que fiz em Barcelona. Muito, também, por sua conectividade ao longo de toda a trajetória. A narrativa da visita ajuda a entender muito o seu conceito.

park guellUm pouco mais distante de Gracia fica o Park Güell, uma das poucas áreas mais altas da plana Barcelona – e uma das áreas mais coloridas, também. Por centenas de milhares (ou já milhões?) de pequenos pedaços de azulejos colados lado a lado. Por ali morava Gaudí. Se ele já fazia verdadeiras obras de arte para a cidade, imagina para a sua casa e quintal? Com uma bela vista do balneário e com uma grande área verde ao redor, o local passou a ter entrada paga recentemente.

Para quem gosta de tirar fotos e apreciar a vista lá do alto, é uma ótima opção. Tal como quem gosta de correr mais junto à natureza, fugindo um pouco do forte urbanismo barceloneta.

Nada de Gaudí, porém, supera a Sagrada Família. A obra o mantém vivo até hoje – mesmo porque não está pronta, ainda que a construção tenha iniciado há cerca de 130 anos e o arquiteto tenha morrido há quase 90. Culpa de diversos fatores ao longo da história, como uma das característica das mais humanas: guerras.

Por fora, um sem-fim de detalhes a serem notadosÉ um marco de Barcelona, talvez tão forte quanto o time que leva o nome da cidade (e do orgulho catalão) a diversos cantos deste planeta. Pudera, suas torres mais altas hoje têm 107 metros de altura. E as futuras irão passar disso. Há de ser alto para aproximar-se dos céus. Tal projeto, inclusive, pode torná-lo um beato da Igreja Católica, tamanha devoção. O processo corre no Vaticano enquanto a basílica recebe turistas, uns mais devotos que os outros, quase que ininterruptamente.

Cada um dos inúmeros detalhes da Sagrada Família tem uma razão de ser, uma simbologia que faz falta na arquitetura atual, essa que adora prédios só de janelas de vidro, alheia a seu ambiente. Na Sagrada Família há curvas, santos e demônios impossíveis de serem descritos em apenas um post – quiçá em apenas um livro – em apenas uma visita então, muito menos. São demasiados detalhes saídos de uma complexa e genial mente que vive até hoje, apesar de o corpo já não estar presente.

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Por dentro, a Sagrada Família é imponente