Diários Mexicanos: Um mar mais claro que o céu

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Navegar é preciso

Existem bem mais de sete mares neste mundo – são dezenas, na verdade. Alguns mais calmos, outros revoltos, uns escuros, outros de uma transparência absurda. Dos que já vi, um é de cenário hipnotizante: o Mar do Caribe. E é preciso conhecê-lo, ao menos uma vez na vida experimentá-lo.

É necessário mergulhar, de preferência em local onde não se dá pé. Imergir e espantar-se com o mundo e a vida submersa. Uau, como é claro. Uau, como é possível enxergar ao longe, mesmo debaixo d’água. Mesmo num mundo que produz tanta poluição e finge não se preocupar muito com isso.

Qualquer gaúcho que passou a infância em Tramandaí quase não conseguirá entender como o mar pode e é assim, de um azul-turquesa que já se destaca de longe quando se aproxima de Cancún. Ou como a areia pode ser clarinha e fofinha, sem ser aquele piso resistente, por vezes manchado, que se encontra a 100 quilômetros de Porto Alegre. Além de conchas e outras formas que vêm do mar.

Nada contra o mar gaúcho, deixemos claro. O mar do Sul do Brasil tem uma força impressionante e uma sisudez quase que constante, é seu jeito e não adianta. Já o do Caribe vive outro tempo. Se o mar destas bandas é inverno, os caribenhos inspiram um verão infinito – não muito diferente da Bahia, por exemplo. Aliás, não recusem um convite para conhecer a Praia do Forte, em Mata de São João.

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Talvez a vida fosse melhor se todos pudessem ir a uma praia caribenha como iguais, sem all inclusive, falando o idioma que fosse. Apenas com o mais infantil intuito de banhar-se e ser feliz. Como num eterno verão à beira-mar.

Diários Mexicanos: O Mergulho no Cenote

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Passei uns bons anos da minha vida pensando que deveria ir a Paris. Nem que fosse para tirar umas fotos da Torre Eiffel, que, mesmo inferior a tantas outras que a gente vê por aí, poderia dizer: essas são minha. Isso equivaleria a algumas outras tantas situações, que podem ser chamadas de experiências.

Isso que me motiva a viajar, sempre tentando algum horizonte novo. Confesso que tenho um pequeno orgulho dessas experiências. Já rodei um pouco, talvez um pouco mais que a média dos que me cercam. Mas ainda assim é tão pouco diante do tamanho do mundo. Paradoxalmente, quanto mais se viaja, mais se percebe que há muito chão para se pisar.

Esses dois parágrafos não querem dar um tom de “seja-viajante-e-largue-tudo-e-vá-conhecer-o-mundo”. Não. Mas não deixam de ser um conselho para viver as situações pelas próprias experiências. Ter suas próprias lembranças e opiniões sobre onde se vai. E tal como certo dia em Paris, tive a mesma sensação ao mergulhar nas águas do Cenote Zací, um lugar incrível quase ao lado do centro de Valladolid.

De uma forma grossa e não-científica, cenote consiste em praticamente uma piscina de um azul incrivelmente sedutor em uma caverna semiaberta (as águas podem ficar totalmente expostas ao sol ou não, em outras formações geológicas). Até não parece, mas sua profundidade vai a dezenas de metros.

Foi só esse que conheci, dentre tantos que existem especialmente na península de Yucatán – e são muitos mesmo. Foi incrível, mesmo ele não sendo “um lugar turístico”, segundo uma guia turística de Cancún. Uma experiência tão ou mais legal que conhecer Paris ou outra grande metrópole deste planeta.

Respingos do Iguaçu, parte 2

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Mereceria um poema, mas aqui faltou poeta. Que se lembre, então, das bonitas imagens e sons que se vê e se ouve ao longo do caminho do Parque das Aves, bem ao lado das famosas Cataratas do Iguaçu, naquele cantinho de Brasil, que já é quase Argentina.

Cores e gritos de uma natureza recuperada do homem pelo homem – quase metade das aves do parque foram salvas do tráfico ilegal, essa crueldade. Uma coleção de lembranças tanto para adultos quanto para crianças que fazem a trilha em meio a 16 hectares de mata atlântica.

Com um quê de zoológico, o Parque das Aves tem seus momentos até de safári, onde araras, tucanos e papagaios fazem alguns quantos rasantes sobre os visitantes, dentro de aviários gigantes que minimizam humanos. Aviários e até borboletários, abrindo aí a licença poética ao colorido inseto.

Num mundo tão cheio de desmatamentos e urbanização, é bom ver a natureza se regenerar. Ainda que em cativeiro. E haja memória para tanta foto (clique na imagem abaixo para abrir a galeria):

Foz do Iguaçu 2016

Rio, seu cafajeste

O Rio é como um cafajeste de marca maior: tão lindo e deslumbrante quanto a má-fama que carrega consigo há anos por conta de um comportamento distante do ideal que esperamos.

Talvez nem devêssemos elogiá-lo e sim superá-lo, afinal nosso país tem tantas e tantas outras belezas naturais. Mas o Rio sempre conquista. Como resistir à sua ginga malandra, a sua cor-Brasil? Ou, na forma bem direta – e cafajeste de ser: como não se apaixonar pelas curvas do Rio?

Rio

Sejam curvas de garotas (ou garotos, a quem preferir) de Ipanema, das ondas da calçada de Copacabana ou da geometria do Pão-de-Açúcar. Difícil ignorar, quem dirá esquecer desde a primeira vez.

Uma lista de defeitos, quem sabe, seria capaz de escancarar este cafajeste carioca. E não faltam: violência e o medo constantes, é a desigualdade revoltante, o Hell de Janeiro que o Brasil deixou florescer perto da praia.

De repente, devia-se evitar o Rio. Só que como resistir a olhar uma vez mais a Enseada de Botafogo, a uma espiadela ao Cristo Redentor lá no alto? Ou como não pensar em ir a um jogo no Maracanã? Rio, cê não presta!

O Rio é um cafajeste de marca maior, não à toa que conquista a todos. Tem um sem-número de defeitos, solenemente ignorados diante de sua divina beleza, que a cada amanhecer samba na nossa cara, diante de qualquer desdém.

rio a noite
Rio, ah, o Rio.

Fotos: Rio2016

As pazes com Maceió

jangada

Navegando por águas tranquilas

Se o dia anterior havia sido um tanto frustrante, ao menos a manhã veio com uma nova oportunidade. Já atento tanto à hora e à maré, pulei cedo da cama e, num horário considerado pornográfico para mim, já estava na praia de Pajuçara, em Maceió, sabendo que a maré estava vazando.

Consegui zarpar na primeira jangada rumo às piscinas naturais para enfim conferir se Alagoas é mesmo o paraíso das águas, conforme o marketing local anuncia. Parêntese: por acaso e sorte negociei um passeio direto com o jangadeiro e não com um intermediário. Como de praxe em todo o comércio nordestino, tive alguma margem para a pechicha. O telefone dele é 82-98742.8896.

Da areia à área delimitada das piscinas são 15 minutos navegando por um mar tranquilo e protegido das grandes ondas pelos corais mais adiante. Atentos perceberão desde logo tartarugas e outros peixes nadando na volta.

Passados dois quilômetros chega-se às piscinas. E finalmente se pula naquela convidativa-e-morna-água-azul-turquesa-de-não sentir-saudade-de-Caribe-algum. Malandros que são, os jangadeiros levam para o mar pedaços de pão, que são jogados aos peixes que, mais malandros ainda, aproximam-se para abocanhar a refeição fácil, enriquecendo a experiência.

Em outros horários, jangadas-bares ancoram por ali, porque um dia alguém se deu conta que vender bebidas lá seria um grande negócio, em virtude das geladeiras mais próximas estarem um tanto quanto longe.

Após uma série de mergulhos, finalmente fiz as pazes com Maceió após aquela tarde pouco abonada nas redondezas da capital. Posso lhes garantir que, depois de duas semanas de um frio porto-alegrense, algumas vezes já me peguei suspirando de saudade daquele mar.

Maceió piscinas

Reparem nos peixes e em Maceió lá atrás

Sobre hora e maré no Nordeste do Brasil

Maceió (1)

Dependendo da hora, o negócio é ficar dentro ou fora’água

Eis dois fatores que o pessoal daqui do Sul não atenta muito, mas que são fundamentais no Nordeste. Primeiro, a hora. No Nordeste o sol nasce mais cedo que nos lados meridionais e às 6h o dia não só raiou, como até um calorzinho já faz. Na outra ponta do dia, 17h o pessoal já começa a se preparar para ver o pôr do sol.

Ou seja, chegar às 15h30min, 16h na praia é quase para se preparar para ver a noite chegar ao som das ondas. É o tal clima de “fim de festa” que citei no post anterior, quando da vez em que estive na Praia do Francês. Digamos que 16h equivale a cerca de 17h30 no “fuso” gaúcho. É a chance de um mergulhinho e deu, em suma.

Outro ponto importante: a maré é fundamental para a maioria dos passeios turísticos. Tanto as jangadas em Maceió, quanto os barcos das praias do Gunga ou do Francês – e, imagino, em Maragogi – só navegam na maré baixa. O mesmo vale para os mergulhos. Se chegar atrasado, perde-se o dia.

Aconteceu comigo em Alagoas, mas poderia ter ocorrido dias antes na Bahia, onde só pude aproveitar as piscinas da Praia do Forte por ter chegado na baixa da maré. E, em verdade lhes digo, valeu – e muito – ter se atentado a este detalhe e feito a programação correta.

Mas como saber quando a maré vai estar alta ou estar baixa? Existe a opção interpessoal de perguntar a guias e/ou pessoas que oferecem os passeios e também há a boa e velha alternativa nerd e prática: a internet. A Marinha mantém este site atualizado diariamente. Outros aplicativos também fazem o mesmo.

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Na maré alta, jangada boa não vai pra água

Maceió mais ou menos

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Coqueiros & Mar: chatos dirão que é entediante

Logo que se chega – e se anda um pouco – por Maceió percebe-se que a capital alagoana não é lá bem o que se pode definir como uma cidade bonita por seu conjunto da obra. Tem, sim, uma das orlas mais lindas do Brasil. Mas para dentro da cidade deixa-se um pouco a desejar tanto no quesito urbanismo, quanto no que se refere à igualdade social.

Tal característica faz de Maceió um destino exclusivamente turístico de praia. A água ora verde, ora azul turquesa em um mar calminho é convidativa não só a banhos como também para passeios, mergulhos, pesca e o que mais possível for para se estar em contato com ela ou, de fato, imerso.

Só que esse lindo mar não banha apenas Maceió e algumas das mais famosas atrações ficam nas imediações, ou nem tanto, da cidade. E pacotes turísticos, transfers, taxistas e gente se oferecendo para levar os visitantes a esses locais não faltam. As abordagens começam desde que se desembarca no pequeno e funcional Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, a uns 20 quilômetros do centro.

Como não havia acertado com ninguém, optei por alugar um carro com um desafio e tanto: conhecer as ditas lindas praias do Gunga e do Francês em uma tarde. Do centro de Maceió até o Gunga a estrada é boa, bem sinalizada e, de quebra, com uma paisagem repleta de coqueiros e algumas vistas para mar e rios da região. São uns 40 quilômetros de trajeto, ou nem isso, vencidos em pouco mais de meia hora.

 

O que me incomodou um pouco começou ao chegar ao Gunga. Antes de se descer à praia tem um mirante. Mas para se subir uns dois lances de escada e tirar uma foto legal são necessários R$ 2. Indo para a orla, antes do estacionamento, já há uma cancela com alguém cobrando R$ 10 para se deixar o carro – e não há outra opção de estacionamento em um raio de um quilômetro, quase.

Ao descer do veículo, logo algum dos vendedores já chega para oferecer as opções de divertimento por ali: aluguel de buggy ou quadriciclo ou um dos passeios de barco na região – de fato, linda. Com exceção do quadriciclo, que neste ensolarado abril de 2016 saía por R$ 100, o restante dos preços era tabelado de forma individual e não por casal, o que era o caso nessa ocasião. E por ali as negociações de praxe são feitas em cash. E talvez vocês saibam: a vida de um jornalista é dura, especialmente a carteira.

Com pouca grana na mão, não aluguei e não embarquei em nada. Então, haja perna! A praia é encantadoramente linda, perfeito cenário para qualquer filme em que retratasse a chegada dos portugueses ao Brasil, há cinco séculos. Da entrada até as famosas falésias são seis quilômetros, segundo os locais. Devo ter percorrido uns quatro até ter uma visão levemente satisfatória dessas encostas. E isso sob um sol forte e constante.

 

falesias praia do gunga

Ao longe, mas o mais perto que cheguei de graça: falésias

Conforme se anda, menor é o movimento na areia. Então tive a linda sensação de estar numa paradisíaca praia abandonada. Pero no mucho: a poucos metros das ondas passam os buggies e seus turistas indo e vindo das falésias. E aí o fato triste: muitos dos visitantes (ou mesmo os locais) “esquecem” alguns lixos por ali, numa natureza quase virgem.

Do Gunga fugimos ao Francês, onde chegamos por volta das 15h15min e encaramos uma realidade nordestina que os sulistas como eu estão pouco acostumados. Apesar do horário, meio de tarde na minha casa, o clima já era de fim de festa. Pessoal recolhendo barracas, bares encerrando o expediente etc. Como a maré já estava subindo, não havia muito mais o que se fazer por lá, além de tirar algumas fotos mais para dizer que um dia estive por lá.

Detalhe que quase passa desapercebido: a Praia do Francês fica na cidade de Marechal Deodoro, por ser a cidade onde este cidadão, que proclamou a República do Brasil em 1889, veio ao mundo. “A República nasceu aqui”, gabam-se seus conterrâneos, hoje, em uma pintura no viaduto de acesso.

A situação fez com que o meu único dia inteiro em Alagoas chegasse ao fim de forma um tanto quanto frustrante. “No pain, no gain”, afinal estamos num destino turístico e, com pouca grana na carteira ou uma mão fechada demais, as atrações ficam distantes e as imagens paradisíacas ficam nos cartazes dos outros.

 

praia do frances

Praia do Francês: pra não dizer que não fui