More essential than ever

nyt

The Times are changing

Dentre seus fatos marcantes, 2016 ficará marcado também por sua palavra eleita pelo Dicionário de Oxford: “post-truth“, a “pós-verdade”. Analisando bem, soa como um quê distópico, ainda mais com seus expoentes, como o presidente eleito norte-americano e, no caso do país que escolheram a palavra, o Brexit.

Faz tempo que teorizo em conversas na redação ou mesmo nas boas mesas de bar. Diante de tanta informação neste mundo em que todos são mídia, cabe ao (bom) jornalista propor-se o papel de curador da informação. Nesta época em que todo mundo tem condições técnicas de dar um furo, a credibilidade faz-se cada vez mais importante.

E aqui é bom pontuar: credibilidade não rima com chuvas de likes e shares nas redes sociais.

Se algo não mudou nesta acelerada época ultra e permanentemente conectada é a construção da credibilidade. Ela é lenta (e tem que continuar sendo), exige dedicação, apuração e trabalho. Existem muitas tentações para perdê-la. Volta e meia acontecem do meio para o fim do expediente, quando já está um pouco cansado: “Será? Mas tá todo mundo dando isso”.

Dentro deste contexto há ainda uma dificuldade e tanto que está consumindo jornalões e que custa a ser superada: a própria manutenção do webjornalismo. Em mais de 20 anos de internet comercial – sendo pelo menos 15 no hardnews – ainda não foi encontrado o modelo ideal para a sobrevivência dos bons sites. Não à toa, também, as redações vão se esvaziando num momento em que cada vez mais empresas contratam gente para produzir conteúdo.

Neste mundo conectado, o leitor não está acostumado a pagar e talvez haja um senso comum de que não é caro para se fazer um bom jornalismo. Errado. Por outro lado, os anunciantes conseguem direcionar suas peças publicitárias por um valor bem mais barato com Google e Facebook, por exemplo.

anuncio-nyt

O buraco é bem mais embaixo, mas a boa e velha assinatura, então, surge como um possível desafogo, ainda que não solução para hoje. É o que tenta o tradicional The New York Times com o anúncio aqui em cima – que tem uma chamada que, num primeiro olhar, parece até bobinha, mas quando refletimos em todo o contexto, vimos que é bem exata para estes tempos de pós-verdade.

O valor é barato e cheio das promoções. Certamente mais acessível do que se eu morasse em Manhattan e quisesse lê-lo em papel pela manhã. Mas, por outro lado, se o até o NYT “se vende” por um preço menor, ele – e todos os outros jornais – nunca estiveram tão próximos de um público muito maior que suas cidades. Só que não é apenas pelo caça-clique que se manterão em novos horizontes.

Anúncios

Sobre audiência. Ou momento confessional nº 15

Jornalistas não deixam de ser movidos, uns menos outros (muito) mais, a ego. Ao escreverem, falarem ou narrarem histórias querem serem lidos, ser repercutidos. Em certos casos vale a máxima “falem mal, mas falem de mim”.

Mas quem vive o dia a dia de uma redação online volta e meia se decepciona ao ver os índices de audiência. Não raro, aquela matéria apurada, trabalhada ao longo de dias, tem metade das visualizações, ou nem isso, de algo feito às pressas, com assunto banal.

É chato, mas com o tempo a gente até se acostuma.

Pois bem. Isto aqui não é uma redação online, é apenas um blog. Dos antigas, reconheço. A Telha do Tiago como projeto completa uma década de vida em agosto próximo – este endereço está quase completando nove anos. E algo que, admito, me dá um certo orgulho é ter atualizado – nem que seja uma vez por mês – em todos os 105 meses desde o longínquo primeiro post desta página.

No entanto, o que me deu ainda mais orgulho foi ver a repercussão de uma matéria, que foi publicada originalmente no Correio do Povo em 2013, e mais tarde postada aqui como uma espécie de votos de feliz ano novo, em janeiro de 2014 – que acabou sendo, de fato, um ano feliz. O texto trata da virada de jogo que a judoca Taciana Lima deu em sua carreira. Um verdadeiro recomeço aos 29 anos de idade, que será coroado em agosto, quando ela disputará os Jogos Olímpicos Rio-2016 defendendo Guiné-Bissau.

Dia desses passei a matéria para ela, que publicou em suas redes sociais. Logo o número de acessos do blog deu um grande salto. Tanto que domingo passado quebrou o recorde de visitas em um mesmo dia – e visitas de todos os cantos do mundo. O recorde anterior durava desde 2008, época de outra edição dos Jogos Olímpicos.

estatisticas

Olha por onde a história da Taciana passeou em menos de uma semana

Só me resta agradecer: obrigado, Taciana. Pelo exemplo. E por dar a alegria de um jornalista ver uma matéria mais especial ser bastante lida e repercutida. Trabalhamos por boas histórias, apesar do nosso ego.

eju-58237

Sorte nos Jogos, Taci!

Por que tanto ódio?

congresso

Um muro separa a esplanada dos ministérios, em frente ao Congresso Nacional do Brasil | Foto: José Cruz/ABr

Pouco a pouco, conversar com quem tem pensamento antagônico foi ficando mais difícil. Bastava algum indicativo de opinião e já vinha um carimbo “Coxinha” ou “Petralha”. Mais recentemente ainda houve a nova definição, “Isentão”, que acho que são esses chatos que não deixam seus argumentos serem totalmente guiados por A ou por B e que citam erros e acertos em ambos os lados.

Só que essa áurea foi tomando conta. Do grupo do WhatsApp, da discussão em família, entre amigos. Redes sociais, em muitos casos, viraram bolhas de opiniões únicas, sem o contraditório apresentado. Opinião divergente, em certos casos, virou fala do inimigo, merecedora da destruição. Noutros casos a violência saiu da verbalização e tornou-se física. Só porque o outro pensa diferente – ou sequer isso, por não vestir vermelho ou verde e amarelo.

É, enfim, um momento delicado, um momento grave. A partir daí tentamos tentamos, na redação do Correio do Povo, analisar o porquê deste ódio. O fato de estarmos brigando com familiares, amigos e mesmo desconhecidos por conta de política significa que estamos, sim, mais politizados? Esses engravatados que ocupam as tribunas do parlamento, de fato, nos representam?

O resultado desses questionamentos se transformaram numa matéria que editei, depois de ser escrita pelos repórteres Bernardo Bercht e Lou Cardoso. Recomendo a leitura e compartilho o link aqui e aqui.

Sobre holofotes e jornalismo

bolsonaro na guaiba

Atenções voltadas ao estúdio

A presença do deputado federal Jair Bolsonaro em Porto Alegre centralizou as atenções da imprensa local. Em 48 horas a capital gaúcha, Bolsonaro concedeu entrevistas a quatro das principais rádios jornalísticas de Porto Alegre, além de participar de evento na Assembleia Legislativa.

No estúdio Cristal da Rádio Guaíba, ele concedeu entrevista quase que cara a cara com a população, em pleno centro de Porto Alegre. Por óbvio, suas opiniões, para dizer o mínimo, polêmicas, causaram reações tanto pró quanto contrárias.

Dali o clima foi esquentando até chegar à Assembleia Legislativa, onde o deputado foi vítima de um “purpurinaço” e viu o quebra-pau acontecer a poucos metros de si, entre manifestantes cujos ânimos estavam se acirrando desde a véspera, quando o deputado chegou a Porto Alegre e recebido por uma pequena multidão.

Particularmente, discordo frontalmente de Bolsonaro em quase todas as suas opiniões em praticamente 100% dos temas abordados. Isso, no entanto, não me faz achar que a presença dele deveria ser ignorada, como defenderam uns quantos por aí. Concordo: não supervalorizada. Mas não foi o caso – seria se ele fosse a mais veículos de mesmos grupos de comunicação.

O argumento de quem acredita que o deputado recebeu muita mídia em Porto Alegre é de que ele é preconceituoso para baixo e que, por isso, não deveria receber atenção e tampouco cobertura jornalística. Deveria, simplesmente, ser ignorado devido a seus posicionamentos.

Só que jornalismo nunca foi entrevistar/dar mídia apenas a quem “é do bem”. Ainda que imparcialidade plena seja um mito de faculdade não significa que os profissionais não tenham que buscá-la. Entrevistar e, principalmente, tentar explicar o fenômeno Bolsonaro, um cara que almeja ser presidente da República, faz parte do jogo, mesmo que a missão seja lá indigesta.

Cabe ao jornalista tentar esclarecer fatos e pessoas. Especialmente atores do poder público, como é o caso de Jair Bolsonaro, um representante do povo brasileiro na Câmara dos Deputados.

ps: no dia seguinte à entrevista do Bolsonaro, a deputada Maria do Rosário foi ao mesmo programa da Rádio Guaíba;

ps2: Entrevistador de Bolsonaro, Juremir Machado publicou um texto após a entrevista. De certo não é com esta mídia que ele conta.

Que Copa, senhores

“QUE festa, senhores.” Usei a frase anterior como legenda de um dos posts que fiz para o blog CP na Copa, um dos trabalhos que realizo na cobertura do Mundial para o Correio do Povo. E, de verdade, que grande festa que é uma Copa do Mundo. Bem mais que um dia eu teria imaginado, em especial um ano depois dos protestos de junho de 2013. Foi o que já deu para perceber em apenas uma semana de muito trabalho.

Dentre as muitas histórias a serem divididas, peço que reparem em duas primeiro: a do jovem Jhonatas Sanchez que, apaixonado por futebol, saiu da distante Machala, a 500 quilômetros de Quito, foi até o Uruguai e chegou a Viamão para enfim acompanhar de perto os treinos da seleção do Equador. Só aqui no RS, com 8 mil quilômetros de viagem e depois de várias tentativas, conseguiu um ingresso para assistir a seleção de seu país, em Curitiba. Valera a pena o esforço de um trajeto de dois meses – sempre contando com apoio de amigos e desconhecidos que lhe ofereceram abrigo ao longo do caminho.

Mas tão importante quanto a entrada para assistir o jogo foi o autógrafo recebido por Valencia, meio-campo do Manchester United e destaque da seleção. “Creio que cumpri com algo que sempre quis, que era conhecê-lo, conhecer a equipe”, disse-me Jhonatas, antes de suspirar visivelmente emocionado com o autógrafo no peito. “É uma alegria que não dá para mensurar. Dirigi por tantos quilômetros e chegar aqui e finalmente ver para mim é uma grande alegria.”

treinodoequadorMS171

Jhonatas raramente vê o time do coração no estádio, mas atravessou o continente pela seleção | Foto: Mauro Schaefer

Dias depois encontrei uma dupla de franceses que veio de carro desde Lille, no Norte da França, até Porto Alegre. Para realizar a viagem, Eric Carpanties e Pierre Pitoiset fizeram o velho e customizado Citröen atravessar o Atlântico de navio e desembarcar no Canadá. De lá até o Sul do Brasil foram 15 países de viagens e histórias ao longo de quatro meses.

A Copa, porém, foi só uma desculpa para a viagem. Eles sequer foram assistir o jogo entre França e Honduras, que seria realizado horas depois de estarem posando com o carro para fotos em frente ao Mercado Público de Porto Alegre. “Hoje o futebol está com muito marketing, patrocínio, essas coisas. Mas queremos mostrar este lado social, esta integração toda”, contou-me o Eric, em espanhol. Sabido das coisas, ele garantiu com propriedade: “A festa é mais importante”.

franceses

Para que ver jogo no estádio se é fora dele que se passam as melhores histórias?

E é. Que baita Copa! Que festa, senhores.

Por mais boas histórias

Não sou lá de fazer resoluções de ano-novo. Mas, para 2014, torço por mais boas histórias, como a da judoca Taciana Lima, que em 2013 deu uma reviravolta na sua vida esportiva e pessoal – e eu tive a oportunidade de reportar. Após conhecer o pai biológico quase aos 30 anos, foi acolhida e virou ídolo em um país tão carente de ícones: Guiné Bissau. O texto aí abaixo é antigo, foi escrito em abril e se não fossem os protestos de junho teria sido publicado em revista de circulação nacional. Ao menos saiu no jornal – cujo PDF está disponível aqui.

Tinha esquecido de publicar aqui, mas antes tarde do que mais tarde ainda. A Taciana que o diga.

eju-58237
A virada de Taciana

Taciana Lima virou o jogo. Ou melhor, aplicou um ippon e tanto na realidade, aos 29 anos. Após o “pior momento da vida”, no qual ela foi impedida de lutar por 15 meses devido a uma suspeita de doping, a judoca da equipe gaúcha Oi/Sogipa naturalizou-se cidadã de Guiné Bissau, venceu o Campeonato Africano e de quebra voltou às primeiras posições do ranking olímpico, transformando o sonho de disputar o Mundial em realidade.

O mês era junho de 2011. Taciana brigava ponto a ponto com Sarah Menezes pelo posto de número 1 do Brasil na categoria ligeiro. No fim de maio conquistara a medalha de bronze na Copa do Mundo de São Paulo e lá se submeteu ao teste antidoping, cujo resultado apontou positivo para a substância Furosemida. Era o início do abismo. A contraprova só saiu mais de ano depois, quando os Jogos Olímpicos de Londres já tinham passado.

Enquanto Sarah conquistava a medalha de ouro e se consagrava como uma das principais atletas da modalidade no Brasil, Taciana procurou não baixar a cabeça: “Eu fiquei uma semana sem treinar. Depois não parei”, conta. “Fui atrás do jiu-jitsu e consegui melhorar uma deficiência que tinha e me prejudicava no judô. Não passou pela minha cabeça em nenhum momento parar. Até porque, na minha consciência, eu sei o que tinha acontecido. Eu queria só que se esclarecesse”.

Mas não foi fácil. “O pior momento não foi nem a situação, foi a espera de não saber nada. Nesses 15 meses chorei todos os dias”, recorda. “O único dia foi quando eu fui campeã mundial de jiu-jitsu. Eu estava numa euforia e não consegui lembrar da situação.”

Mal sabia ela, entretanto, que a sua virada de jogo havia começado muito antes. Justo após uma derrota para Sarah Menezes, na seletiva que formou a equipe brasileira para as Olimpíadas de Pequim. Nascida em Pernambuco e radicada em Porto Alegre desde criança, Taciana não conhecia o pai. E nem se interessava: “Meu padrasto me criou desde os três anos. Minha mãe sempre me falou que meu pai não era brasileiro, mas eu não sabia nem o nome. Nunca tinha nem procurado saber”.

A derrota naquela ocasião a fez rever a conceitos: “Eu perdi uma seletiva olímpica e não sei. Deu um estalo e veio meu pai na minha cabeça. Cheguei em casa e foi a primeira coisa perguntei para minha mãe. Ela disse que ele era um cara muito bom, veio estudar e depois foi embora e nunca mais teve contato”. Num mundo com internet, o Google – e a embaixada de Guiné no Brasil – deram uma força para o contato. “No dia seguinte ele me ligou.”

As conversas por telefone e via internet, contudo, só foram trocadas por um abraço de verdade no fim de 2012, quando a judoca conheceu a família africana no feriado de ano-novo, do outro lado do oceano. “Tenho três irmãos mais dois adotados lá e mais duas aqui”, diz, sem esconder o sorriso. “Da noite para o dia, o que eu tenho é irmão.”

A felicidade com a nova família consolidava a reta ascendente na vida e na carreira da atleta da Sogipa. Dois meses antes do encontro, Taciana foi autorizada a competir e já no primeiro torneio, no Grand Prix de Abu Dhabi, ainda lutando pelo Brasil, voltou ao pódio e conquistou a medalha de bronze.

A experiência nos primeiros dias de 2013 em Guiné Bissau a fizeram refletir e tomar uma decisão que poderia ter acontecido quatro anos antes: obter dupla cidadania. A burocracia foi vencida em março e, no mês seguinte, Taciana Lima, agora também Baldé, estreava defendendo a nova bandeira no Campeonato Africano. Lá, foram três lutas, vencidas com três ippons, que consolidaram a volta por cima: garantiram-na no Mundial-2013 de agosto e no Masters, torneio que reúne apenas os top-16 do mundo.

Multicampeã pelo Brasil, Taciana não se deu conta na hora do que fizera por Guiné Bissau ao subir no topo do pódio. “Já fui adicionada no Facebook mais de 1,5 mil pessoas e recebo muitas mensagens de pessoas dizendo: ‘Em toda minha vida você é a pessoa que mais me trouxe felicidade, mais orgulho de ser guineense’”, exemplifica. “No Brasil é normal o atleta subir no pódio, subir a bandeira. Para eles não. Mexeu com o país.”

Após a façanha, ela volta a lutar por Guiné nesta semana, no Masters, na Rússia. Em seguida, disputa torneios em Lisboa e Madri. A programação se estende até o Mundial, o primeiro na carreira, e no Rio, onde ela deve ser assistida ao vivo pelo pai: “O objetivo maior é o Mundial, é um sonho que sempre tive. As pessoas até falam, são muito pela Olimpíada. É óbvio que tenho os sonhos dos dois, vi o João (Derly) ganhar dois Mundiais”. O fato de ser no Rio de Janeiro também é comemorado: “É um custo a menos também. E lutar no aqui vai ser maravilhoso”.

Renascida para o judô, Taciana também se move por uma motivação especial, de desenvolver o judô em Guiné quando se aposentar. “Posso fazer mais. Passar para os outros o que aprendi todos estes anos”, garante. Mas o plano é para o futuro. Agora, depois de transformar todo o sofrimento e motivação, ela busca medalhas e suspira: “Eu brinco, mas é verdade, agora sim a minha história de vida está completa”.

Daquilo que a gente vive

Mercado Não completei nem cinco anos de carreira ainda. E bem como me avisavam lá pela época da minha formatura – no glorioso 9 de janeiro de 2008 – que o jornalismo é um ofício único, apesar de ele nos testar com frequência ao longo do tempo – seja pela pressão, por uma fonte mentindo ou, principalmente, pelo salário ao fim do mês.

Ser jornalista é maravilhoso e ao mesmo tempo deprimente. É ter acesso a muita coisa e saber sobre muitos bastidores e, por vezes, não poder escrever uma linha sobre o assunto. Mas, acima de tudo, é poder ser testemunha ocular da realidade levando informações, boas e más, a milhares diariamente.

E é, em determinados casos, ir para o trabalho sem ter hora para voltar.

O ano de 2013, que nós recém chegamos ao seu segundo semestre, já me foi muito marcante por – até agora – duas coberturas em especial (além de um grande aprendizado). A primeira na madrugada de 28 de janeiro, em que bati meu ponto às 23h de 27/01 na redação e sai quase com o sol nascendo.

Não estive perto de Santa Maria, cidade que nem conheço, mas creio que naqueles dias Santa Maria estava presente em todos nós. Ter que prestar atenção em todo relato de vítimas, testemunhas e autoridades, editar cada texto enviado, me fez quase chorar ao longo de horas solitárias na minha mesa. Foi difícil ser repórter quando todo mundo a volta era humano. Doeu muito aquela melancolia infitina.

Mercado (3)A segunda forte e inesperada cobertura foi poucas horas antes de eu escrever estas linhas. Ouvi no rádio incrédulo que o Mercado Público de Porto Alegre pegava fogo. Muito fogo. Poucos minutos depois deixava a redação literalmente correndo em direção do prédio histórico, distante a cerca de 500 metros do jornal.

Com certeza arregalei os olhos quando vi a primeira labareda muitos metros mais alta que o telhado. Enquanto deixava escapar um “Puta que pariu” incrédulo, avancei. O Mercado Público ardia em chamas havia pouco mais de 25 minutos naquele momento em que cheguei.

Nunca fui um frequentador assíduo do Mercado Público – e até me cobro um pouco por isso, porque aquele prédio amarelo é um dos principais símbolos da minha cidade. Mas enquanto batia fotos e gravava vídeos me veio uma grande tristeza, sentimento compartilhado por bombeiros e outros com quem conversei por lá. Era como assistir a derrocata de um bom e velho amigo.

Mercado em chamas

Na hora, reparei nas pessoas em volta. Acho que o sentimento era parecido ao ver aquele pavilhão sendo consumido por labaredas de hoolywoodianas. Numa cidade que tem vivido tantos conflitos de ideais, uma causa unia a todos: a tristeza. Fui, mais uma vez, testemunha ocular da história.

Entre fotos, vídeos, impressões e ligações me peguei trabalhando arduamente e arrepiado outra vez, tal como em janeiro. Coisas que a reportagem proporciona.

Outra vez muido apenas com um celular, fiz essas fotos e gravei estes dois vídeos: