A empatia

corrida

Por bastante tempo acreditei que acordar cedo em um domingo para correr uma prova fosse apenas uma questão de auto-superação. Um desafio quase olímpico de buscar ser mais forte e mais rápido do que da vez anterior. Correr mais longe, enfim.

Tive uma fase mais séria dessas entre 2012 e 2015, período em que em diversas oportunidades sacrifiquei um sono gostoso para suar no asfalto. Nos últimos dois anos, reconheço que baixei a guarda. Correr voltou a ser mais exercício rotineiro do que uma meta a ser batida. E levantar cedo num domingo, bem, isso sim virou cena raríssima.

Mas dias atrás – casualmente pouco depois de ter participado de uma corrida dominical matutina – compartilhei um vídeo no Twitter, cujas reações proporcionaram outra reflexão sobre o que é, anonimamente, correr. É algo que, em meio a tantos desafios e cronômetros, acaba ficando em segundo plano: a empatia.

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Empatia. Substantivo feminino. 1. faculdade de compreender emocionalmente um objeto. 2. capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto de forma que este pareça como que impregnado dela.

É numa corrida dessas de domingo que fazemos aflorar a empatia alheia, tantas vezes suprimida de segunda a sábado ou no horário comercial. Quantas vezes já não falei para alguém alguém não desistir, porque a linha de chegada – o fim daquele período de esforço – está próxima? Tantas como da mesma forma ouvi um sem número de incentivos quando ameacei parar em meio a uma prova.

Vozes anônimas de gente empática, que nada ganhará, mas ainda assim torce pelo sucesso alheio.

Eu vi e revi o vídeo que me fez pensar na empatia. A velhinha que aparece ali só está com objetivo de apoiar. Não raro os corredores atrasam o passo, porque, talvez, mais importante que metas e instantes neste mundo corrido, são os sorrisos sinceros. Mesmo que sejam breves, anônimos e efêmeros.

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Um legado olímpico de verdade

Vôlei e seus dramas

Vôlei e seus dramas

No momento que comecei a escrever este texto estava sofrendo na torcida pelo vôlei. Era a terceira partida no dia, por sinal. Poucas horas antes vi a prova do levantamento de peso e umas quantas do atletismo. Sem contar os outros tantos esportes que acompanhei desde a manhã. Dentre eles, até o futebol, numa espiada sem maior interesse.

Ao longo desses dias olímpicos na redação do Correio do Povo, debatemos e teorizamos regras, táticas e estratégias para se alcançar a vitória em sets, rounds, períodos, quartos e tempos que seja. Foram muitos, o que torna um trabalho exaustivo em algo legal e histórico de se reportar.

Desde o início, tudo tinha uma data para acabar. Aí a rotina retoma a normalidade e, pouco a pouco, não apenas nós do Correio do Povo, mas o Brasil como um todo vai voltando ao seu mundo de imersão futebolística. É irreversível.

A partir da segunda-feira pós-Jogos o Brasil tem um legado a zelar e manter. Depois do Rio, o país tem novos heróis a celebrar, gente quase anônima até 15 dias. É dever de uma nação olímpica entender como legado não apenas ginásios, metrô e a logística, e sim a cultura que adquiriu ao longo de 16 intensos dias de Olimpíadas.

Isaquías Queiroz e Erlon Souza, heróis improváveis | Foto: Alexandre Loureiro/Exemplus

Isaquías Queiroz e Erlon Souza, heróis improváveis | Foto: Alexandre Loureiro/Exemplus

Manter viva a cultura esportiva com a qual o país conviveu é um dos maiores, se não o maior, legado dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E também o maior desafio dos próximos governos, com a pena de ver arenas modernas virarem imensos elefantes brancos – ou não se transformarem nas escolas prometidas.

O esporte muda vidas e o esporte é muito mais que futebol, como provaram campeões olímpicos brasileiros forjados na dificuldade e na falta de incentivo. A partir do fim dos Jogos Olímpicos, uma geração inteira de atletas terá a oportunidade de desfrutar do que e pode ter de melhor em termos de infraestrutura.

Medalhas, se vierem, serão bem-vindos, mas o ganho para a sociedade como um todo não será possível de ser medido em um simples quadro de cores e números.

Rafaela Silva, uma medalhista de ouro | Foto: Márcio Rodrigues / CBJ

Rafaela Silva, uma medalhista de ouro | Foto: Márcio Rodrigues / CBJ

Agora, mais do que nunca, a bola está com o Brasil. E ela não é de futebol.

Quando eu aprendi a vaiar

Não lembro quando foi que me ensinaram a vaiar. Remontei minha memória esportiva e o máximo que consegui buscar é que já sei isso faz tempo. Por certo uma herança de algum Gre-Nal de décadas passadas. Até hoje carrego este costume, adquirido ao longo de anos de arquibancada em estádios de futebol e dezenas de competições. Ainda que me nego a vaiar meu próprio time, quando ele não está bem, nem por protesto. Por quê? Porque sei que isso deve atrapalhar os jogadores pelos quais eu torço.

Claro, assim como eu, muitos milhões de brasileiros aprenderam a vaiar adversários ainda durante a tenra infância e não poupem um “uh” a atletas em arenas olímpicas por aí. Com o não-desportivo intuito de mais atrapalhar o adversário do que ajudar minha equipe.

As vaias de fato atrapalharam o saltador francês Renaud Lavillenie, na final do salto com vara dos Jogos Olímpicos do Rio. Vi a prova: ele claramente teve a sua estratégia destruída pelo brasileiro Thiago Braz. E justo quando se viu pressionado, ouviu as vaias – algo incomum para um atleta de ponta como ele. Foi saltar atordoado e, como sabido, não conseguiu bater a marca de Braz.

Lavillenie ainda teve a infelicidade de comparar o que ouviu ao ocorrido na Berlim nazista. Ou se comparar a Jesse Owens. Ambas análises equivocadas. Arrependeu-se, mas não a tempo de livrar-se de uma nova e sonora vaia num dos momentos mais sublimes da carreira de um esportista: o pódio olímpico. De lá, chorou. Diante do mundo, em um evento agregador realizado numa cidade famosa por seu alegre carnaval.

Foi humilhante, como ele escreveu. Mas lamentável também. Cabe a reflexão, por nós, brasileiros. Somos um país hospitaleiro, alegre, feliz. O que aconteceu no Engenhão, agora visto por todo o contexto, nada tem a ver conosco. Dava para ter saído por cima.

A vaia na competição pode até ser do jogo em alguns esportes e como nossa cultura é limitada a futebol, vôlei ou outros esportes coletivos – onde o clima é mais acirrado – achamos natural este barulho todo. Mas é uma oportunidade para aprender que não vale para todos. Já a vaia na consagração olímpica beira a maldade. No caso de Lavillenie, foi um erro vingando outro. E foi contra não só o espírito olímpico, assim como o espírito do carioca.

Menos mal que panos quentes foram postos em cima de toda a situação. Melhor assim. Sempre importante aprender com os erros. Deles nossos.

Contexto da corneta olímpica

Tiago Camilo rio 2016

Tiago Camilo, um vencedor: quatro Olimpíadas, duas medalhas | Foto: Marcio Rodrigues/CBJ

Não gosto deste tipo de corneta, mas é normal, vamos lá. Acontece sempre com torcedores brasileiros na primeira semana dos Jogos Olímpicos – quando a grande maioria das medalhas distribuídas são as de modalidades individuais, ainda um calcanhar de Aquiles no esporte brasileiro e, dentre as quais, apenas o judô consegue relativo sucesso.

Então. Amanheceu o sexto dia de Olimpíadas no Rio de Janeiro e o Brasil tem apenas dois pódios – e, especialmente hoje, espero que este dado fique desatualizado em poucas horas. É um pouco aquém do esperado, claro. Há, já, aquele grito contido na garganta e bons resultados sem medalhas começam a incomodar.

Mas antes de sair corneteando atletas a esmo, que tal antes contextualizar alguns fatos? Até para se embasar. É rápido, prometo. Sugiro, para isso, a leitura de apenas duas matérias da revista piauí – ok, nem tão rápido assim. Uma escancaram em alguns parágrafos uma grave promessa não cumprida, que se reflete direto no Rio: “Governo não gastou com atletas metade do previsto”.

Conforme a matéria, aquilo que eram R$ 690 milhões e investimento para colocar o Brasil num audacioso top-10 do quadro de medalhas virou R$ 328 milhões (até dezembro de 2015). Chegou menos da metade do apoio acenado. Grave, não é?

A segunda reportagem, que na verdade é a versão completa do primeiro levantamento, aprofunda o problema. Afinal, não adianta apenas dinheiro no bolso, é necessário equipamentos, ginásios, locais para treinar, enfim.

Houve uma promessa para se criar polos esportivos de Norte a Sul – algo que, pelo amor de Deus, como não existe isso ainda hoje? Pouco saiu do papel. E deste pouco alguns ainda nascem já com um problema de gestão, pois toda quadra nova gera uma conta de luz e uma conta d’água, sem falar nos outros gastos. Quem pagará a nova conta nesses tempos de crise?

Gestão é o que diferenciará uma arena poliesportiva moderna de um imenso elefante branco – não esqueçamos da Copa! Lembremos aqui que são estes ginásio que deverão treinar tanto atletas de ponta, quanto – e principalmente! – crianças com potencial de serem novas Rafaelas Silvas, por exemplo. O esporte brasileiro não pode depender de milagres de encontrar uma Daiane dos Santos fazendo piruetas na pracinha.

Dinheiro, salientemos, não “compra” pódios olímpicos. Existem outros tantos fatores para chegar à consagração. Mas também seria injusto cobrar os resultados especulados por políticos quatro anos atrás com metade do investimento tendo se tornado realidade.

As duas leituras acima são, enfim, contextualizadoras e até certo ponto revoltantes por tal descaso, ou seja, têm os ingredientes sempre presentes no texto do bom jornalismo. Aqui registro meus parabéns aos autores Cristina Tardáguila, Juliana Dal Piva e Raphael Kapa.

Mais a mais, também não é feio reconhecer e parabenizar as finais inéditas na ginástica, o sexto lugar na canoagem, as quartas de final na esgrima ou um eventual quinto lugar no judô. Tem um gosto mais amargo que o doce pódio, claro, mas é importante ressaltar o feito dos atletas.

Olimpismo (e gestão no esporte) não se restringe a vitórias.

O melhor resultado possível

Faltou bola na rede, mas foi um golaço. Duplo, ainda, valendo tanto para Inter quanto para Grêmio. Mas sobrou civilidade – algo que há muito não era visto na capital de latitude 30º S do Brasil. Que linda foi a torcida mista, em tons azuis e vermelhos, lado a lado no estádio.

Foto do Ricardo Giusti, roubartilhada do Correio do Povo, retrata bem o que foi o clima do Gre-Nal

Foto do Ricardo Giusti, roubartilhada do Correio do Povo, retrata bem o que foi o clima do Gre-Nal

Repito: que golaço! E isso num jogo que terminou 0 a 0 – talvez o melhor placar possível para este momento, o qual ainda não sabemos se essa iniciativa dará certo.

Há anos, não só em Porto Alegre, a situação vem se deteriorando quando o assunto é jogo envolvendo duas torcidas apaixonadas da mesma cidade. Para nos mantermos no campo futebolístico, a sociedade vinha de goleadas consecutivas na organização de clássicos. Lembro que na minha infância – que nem faz tanto tempo assim – a torcida rival ocupava quase metade do estádio. Atualmente não são 2 mil torcedores do outro time. E isso num local onde cabem 50 mil.

E, de uns anos para cá, esta minoria tem sido barulhenta. Pudera, ao longo do tempo foi se reduzindo tanto o espaço dos torcedores rivais que, muitos do que iam, não tinham como objetivo principal torcer por um lado, mas sim confrontá-lo. Seja com gritos ou com quebras de patrimônio e troca de agressões.

O que aconteceu no Gre-Nal 404 remeteu à Copa do Mundo, ao saudoso Caminho do Gol, um trecho de alguns quilômetros onde as torcidas foram, lado a lado, até o estádio. Cobri a Copa in loco em Porto Alegre e te garanto, caro(a) leitor: nunca foi tão legal viver e morar em Porto Alegre quanto naqueles 15 dias mágicos de futebol e integração.

caminho do gol

Caminho do Gol: a principal marca da Copa em Porto Alegre se tornando legado da cidade

Nesse domingo, 1º de março de 2015, aconteceu de novo. Só que desta vez ainda mais legal: gremistas e colorados – cujas paixões dividem famílias e amigos puderam enfim voltar a caminhar juntos em direção ao estádio. Sem cair no maior dos clichês, mas já caindo, dá para dizer: a esperança (de civilidade) venceu o medo (da barbárie). E não é exagero falar em barbárie quando pessoas se agridem por causa da cor da camiseta.

Havia, no entanto, certo receio na cidade desde que a medida fora anunciada, no mês passado. Muitos disseram que não daria certo, que haveria briga generalizada, que seria uma tragédia, daria morte. Eu apostei no contrário, porque vi o que vi na Copa do Mundo. E também porque estou na minoria clubística da minha família e ainda assim consigo conviver em paz com meus tios e primos. Além disso aposto que a maioria dos porto-alegrenses ainda prefere torcer a brigar.

É claro que teve um pouco de confusão, que teve gente que julgou ser mais importante jogar uma pedra em direção à torcida rival do que simplesmente seguir seu caminho. O Gre-Nal teve 11 detidos e pelo menos dois feridos nesse conflito. Isso, porém, num universo de 40 mil torcedores.

Tratanto-se de Gre-Nal desses tempos recentes, nunca uma minoria foi tão minoria.

Fernandão, a estátua que eu conheci

Fernandão em seu ápice | Foto: Inter

Nunca uma ligação inesperada em meio à madrugada traz bons presságios. Às vezes eles não se confirmam, mas às vezes sim. Foi assim em 7 de junho, quando – ainda embriagado após uma boa noite com os amigos – me ligaram sendo sucintos: “O Fernadão morreu”.

Ser jornalista e trabalhar com hard news tem disso, saber de grandes notícias, como tragédias – por meio de outros jornalistas – um pouco antes de todo mundo. Afinal alguém tem que escrever aquilo que as pessoas lerão. Dói, mas normalmente a gente sabe como lidar.

Após aquele susto inicial liguei para o plantonista do jornal para já adiantar a pauta do dia. Também falei com os bombeiros de Araruãna, uma cidade que jamais ouvi falar. Torci que estivessem errados, mas eles estavam certos: Fernandão estava morto.

Foram linhas complicadas de escrever, mas logo mais estavam devidamente no ar. Logo foram repercutidas e lamentadas em redes sociais. Tudo o que eu teria de ressaca transformou-se em consternação naquela manhã.

Profissionalmente convivi com Fernandão por alguns meses em 2012, quando ele foi diretor e técnico do Inter e eu, setorista do clube. Era um cara diferenciado, sem dúvida. Um alto nível no meio do futebol – o que é, diga-se, raro. Ele queria fazer diferente por meio do estudo. Sucumbiu a um momento horrível do clube. Ter levantado a taça do Mundial não o livrou de algumas vaias. Mas nunca perdeu o caráter. Deixou de ser técnico, mas jamais de ser ídolo colorado.

Pouco mais de um ano e meio, Fernandão voltou ao Beira-Rio para a festa de reinauguração do estádio. Eu o vi pela TV e toda e qualquer mágoa por um período conturbado já havia sido superada. Naquela festa ele era um dos reis sendo admirado por dezenas de milhares de súditos. Aquela transformou-se no capítulo final de uma história iniciada dez anos atrás, quando aquele cabeludo desembarcou em Porto Alegre para vestir vermelho pela primeira vez.

Na noite seguinte à sua morte vi uma das manifestações espontâneas mais marcantes da minha vida, quando milhares foram ao Beira-Rio homenageá-lo. Fernandão merecia, ele era diferente. Tão distinto dos outros que neste 17 de dezembro – o primeiro aniversário do Mundial sem ele – o ex-camisa 9 vai virar estátua, uma honraria cada vez mais rara em um mundo apressado como o de hoje.

Foto: Samuel Maciel / Correio do Povo

Se não pôde ficar para vivenciar de perto a história do clube que o amou, Fernandão passará a ser eterno onde muitos foram felizes por sua causa.

A Geni gremista

Chamava-se Patrícia, tornou-se Geni. Até então mais uma torcedora entusiasmada, virou bode expiatório de um crime muitas vezes encoberto não apenas em sua arquibancada e sim também em tantas outras mundo afora. Trabalhava com odontologia, parece. Virou racista. E, por tudo o que foi comentado, uma mulher muito boa para se jogar pedras e cuspir.

Tudo por conta de uma fração de segundos em que passou exposta em rede nacional, ainda que a TV fosse fechada. Não mais que 10 segundos flagrantes de seu crime (e também de sua fraqueza) foram suficientes para condená-la. Aqueles dois gritos “MA-CA-CO” foram tão sonoros que dispensaram juízes e promotores. Perfeitos para um julgamento sem qualquer direito de defesa.

Para evitar um mal maior à instituição tão apaixonadamente defendida por milhares, era necessário sacrificar alguém. E isto foi feito já nos minutos seguintes à terrível cena. A moça fora exposta, humilhada na praça pública da internet. Tão preconceituosamente xingada, teve em suas costas toda a culpa de outros tantos que se safaram.

Tudo por conta de uns não muitos segundos de vídeo, a prova cabal do crime. Ainda que a primeira decisão de transmiti-lo tenha sido não-dolosa e sim flagrante, precisava terem reproduzido tantas vezes nas horas e nos dias seguintes? Agora fortalecida pelo valente anonimato da internet, a mídia nunca foi tão quarto poder como hoje.

Ao cabo de situações como essa, queremos mesmo julgar Patrícias ou apedrejar Genis?