Que rio, Portela!

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Portela | Foto: Leo Cordeiro / FB Portela

Talvez este tenha sido o carnaval em que os blocos e a festa na rua tenha tido tanto ou mais cobertura do que as escolas de samba. Foi um ano da diversidade das festas ao invés da musa Globeleza nua e inatingível na tela da TV.

Foi, portanto, um carnaval diferente dos últimos. Do início ao seu fim – ou melhor, do início à quarta-feira de cinzas. Que de cinza nada teve. Foi azul e branca, finalmente. Emocionante, portelense.

Vitória da Portela era algo que ainda não tinha visto na minha vida – e olha que já até vi o Botafogo ser campeão brasileiro. Era algo que há 33 anos não acontecia, que estava engasgada por décimos que faltaram outra hora. Um hiato injusto com a história portelense e da sua gente.

Essa história é grande, enorme. Transcende o carnaval e qualquer disputa. Não à toa o título da Portela gerou aplausos nas quadras das escolas que também pleiteavam o primeiro lugar.

Em meio ao calor da vitória, fica o convite aos interessados em conhecer um pouco mais da Portela, no documentário abaixo, chamado de “O Mistério do Samba”. Trata-se de uma narrativa contada por dois ilustres seguidores da escola, Paulinho da Viola (Ah, Paulinho) e Marisa Monte.

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Rio, seu cafajeste

O Rio é como um cafajeste de marca maior: tão lindo e deslumbrante quanto a má-fama que carrega consigo há anos por conta de um comportamento distante do ideal que esperamos.

Talvez nem devêssemos elogiá-lo e sim superá-lo, afinal nosso país tem tantas e tantas outras belezas naturais. Mas o Rio sempre conquista. Como resistir à sua ginga malandra, a sua cor-Brasil? Ou, na forma bem direta – e cafajeste de ser: como não se apaixonar pelas curvas do Rio?

Rio

Sejam curvas de garotas (ou garotos, a quem preferir) de Ipanema, das ondas da calçada de Copacabana ou da geometria do Pão-de-Açúcar. Difícil ignorar, quem dirá esquecer desde a primeira vez.

Uma lista de defeitos, quem sabe, seria capaz de escancarar este cafajeste carioca. E não faltam: violência e o medo constantes, é a desigualdade revoltante, o Hell de Janeiro que o Brasil deixou florescer perto da praia.

De repente, devia-se evitar o Rio. Só que como resistir a olhar uma vez mais a Enseada de Botafogo, a uma espiadela ao Cristo Redentor lá no alto? Ou como não pensar em ir a um jogo no Maracanã? Rio, cê não presta!

O Rio é um cafajeste de marca maior, não à toa que conquista a todos. Tem um sem-número de defeitos, solenemente ignorados diante de sua divina beleza, que a cada amanhecer samba na nossa cara, diante de qualquer desdém.

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Rio, ah, o Rio.

Fotos: Rio2016

Além do mapa – quando o Google tirou os painéis olímpicos do Rio

Dias atrás estive no Rio de Janeiro. Desta vez a trabalho. Bancada por uma empresa, a pauta óbvia era as melhorias que a cidade está passando com as obras visando os Jogos Olímpicos – que, de fato, deram outra cara principalmente ao Centro Histórico carioca e sobre isso escrevi aqui.

Apesar do pouco tempo, nunca andei tanto pelo Rio quanto nestes dois dias de pauta. E apesar de ficar positivamente impressionado com a melhora na mobilidade, me entristeceu ao reparar uma tentativa de “esconder” favelas e/ou outras áreas, digamos, não tão atrativas da Cidade Maravilhosa aos olhos dos turistas.

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Foto via Rap Nacional Download

Algumas favelas a beira de avenidas tinham suas fachadas escondidas por coloridos painéis alusivos aos Jogos Olímpicos, principalmente na Linha Vermelha, que faz a ligação do centro com o aeroporto do Galeão, onde a maioria das delegações desembarcará. Obviamente, a Prefeitura do Rio negou que o objetivo era “esconder” as comunidades.

O plano de decoração, no entanto, naufragou graças a uma iniciativa de ninguém menos que o Google. O especial “Além do Mapa”, que faz o convite escancarado ao mundo que não poderá enxergar além do painel: “Entre nas comunidades do Rio de Janeiro, lar de mais de 1,4 milhão de pessoas”.

Um dos mais especiais multimídia mais completos que já vi inicia com um texto esclarecedor: “O Rio é uma cidade dividida. Tem o lado que todo mundo conhece, Copacabana, Ipanema, mas tem um outro lado. O das favelas. A cada cinco pessoas, uma vive nas favelas. Quando você olha no mapa de perto do Rio de Janeiro, a maioria das favelas ainda são um buraco cinza no mapa, como se não tivesse nada”, diz, antes do convite: “Para você descobrir, você precisa entrar e entender”.

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Convite feito, então. Separe alguns vários minutos e mergulhe nesta realidade genuinamente carioca.

Rio de Janeiro, 450

cristo-redentor-ancoradouroO Rio é encantador. E lembro disso ao ver as festas de comemoração dos 450 anos desta cidade maravilhosa. Ainda que seja um local um tanto quanto mal tratado ao longo dessas quatro décadas e meia. Mas enfim, o Rio inspira.

E, ao menos para mim, um dos principais encantado Rio é amor que a cidade cativa de seus habitantes. Disso, recordo de uma passagem, durante a final da Copa de 2014. Um recorte de imagem – acho que inesperadamente inédito – fez o bar onde estava, em Santa Teresa, parar.

Que imagem!

O sol se pondo logo atrás do Cristo Redentor. E isso que nem apareceu o Maracanã abarrotado para a final da Copa logo ali ao lado. Tampouco os morros compondo o fundo, só o crepúsculo. Ah, o Rio.

Essa imagem, que encantou os turistas tão logo aparecer, fez até mesmo os garçons – e mais cariocas da gema – pararem. Se cutucarem, apontando a TV. Consegui fazer a leitura labial do comentário espantado de um dos garçons para o outro: “Que lindo”.

Como podia, mesmo ao longo de tantos anos depois, o Rio, um dos lugares mais fotografados do mundo, surpreender? Não sei, acho que ninguém ali sabia. Beleza não tem fim nesta maravilhosa cidade. Parabéns, Rio.

pao de acucar

A grande final

Copacabana, Buenos Aires

Copacabana, Buenos Aires

Vivem uma espécie de insanidade, os argentinos. Eles, apaixonados por futebol, voltam à uma decisão de Copa do Mundo após longos 24 anos. Justo para uma revanche contra a mesma Alemanha que os derrotaram há quase um quarto de século. A bola rola às 16h no Maracanã para um jogo que atrairá a atenção de milhões de 219 países do mundo.

Palco da final, o Rio de Janeiro já foi tomado dos brasileiros, ainda mais com os dois últimos constrangedores jogos da Seleção. A poucas horas da final não existem garotas de Ipanema e sim las chicas de la Recoleta ou de Palermo. E ainda assim elas são ofuscadas pelos saltadores e animados torcedores argentinos, que vieram aos montes e transformaram Copacabana em um bairro de Buenos Aires com sotaque chiado.

A estimativa oficial é de que 100 mil argentinos estejam perambulando nas ruas e areias cariocas – local eleito por muitos deles para passarem a noite, dormindo ou acordado em um estado febril que o futebol é capaz de causar. A maior parte sequer tem ingresso e não entrará no estádio. Pouco importa. Quem ficar por Copacabana poderá assistir a partida em dois telões instalados na praia. Qualquer outro boteco também transmitirá o jogo. A cidade exala à final..

Também protagonistas do mais esperado jogo do ano, os alemães estão tímidos, até porque não tem como concorrer com os enlouquecidos sul-americanos. Mas prometem, ao menos tentar, ser ouvidos. No Maracanã, se farão presentes pelo menos 4,4 mil germânicos ansiando por gritar tricampeão usando todas as consoantes a que eles tenham direito.

Organizada pelo consulado alemão, um dos grupos de torcedores da Alemanha (“Tor”, gol em alemão) se concentrará até perto dos argentinos, no Leme, a continuação de Copacabana. A concentração deles inicia às 10h e a partir do meio-dia eles seguirão ao Maracanã de metrô. Isso em meio a mexicanos, americanos, holandeses e até brasileiros que estarão presentes na final e que dão um sotaque novo ao Rio de Janeiro.

A rivalidade entre Argentina e Alemanha, que decidirão uma Copa pela terceira vez, ficou dentro de campo. Em meio à euforia das torcidas, a convivência entre os rivais é amistosa – ao menos por ora. Há até mesmo desejos de boa sorte. O que não deixa de ser justo para uma senhora Copa do Mundo que chega ao seu capítulo derradeiro neste domingo. Que vença o melhor. Seja ele Messi ou Müller.

Que vença o melhor

Que vença o melhor

Rápidas cariocas, parte 4

Jardim Botânico
Talvez o lugar mais legal que eu tenha conhecido no Rio desta vez. Hoje patrimônio histórico e artístico nacional, o Jardim Botânico foi fundado em 1808 pelo então príncipe regente de Portugal, D. João. Abriga algumas das mais belas paisagens cariocas.

A dica que eu dou é começar o passeio indo até o chafariz das musas, ao lado do espaço Tom Jobim, na área central. No entanto, a bem da verdade, inicie sua caminhada por qualquer outro lugar. É igualmente bonito.

A entrada custa R$ 6 e o tempo necessário para dar um bom passeio pelos 55 hectares abertos ao público lá (outros 82 são fechados), acredito, que seja uma tarde inteira – o horário que o jardim fica aberto é entre 8h e 17h. No verão, o expediente se estende até as 18h.

Toca do Vinicius
Quem gosta de bossa nova não pode deixar de reservar outra tarde para conhecer a Toca do Vinicius, que fica na rua Vinicius de Moraes, perto da Nascimento Silva (sugestivo, não?). Lá vendem-se discos, livros, cds, dvds e outras coisinhas relacionadas principalmente à boa música criada naquelas bandas há pouco mais de 50 anos.

Mas se é só uma loja temática, para que reservar uma tarde? Para ficar um tempo conversando com o dono, ué. Simpático como poucos – e militante da causa – Seu Carlos é dono de um conhecimento vasto sobre bossa nova. Mesmo sendo Toca do Vinicius, o objetivo é outro: “O importante é que a bossa nova não fique centrada só em um nome. O movimento foi muito maior”, prega ele.

Além do conhecimento, ele é portador de umas raridades também. A ideia é criar um museu com suas relíquias. O espaço, segundo o dono, vai ser ambientado nos anos 50, porém ainda não existe uma previsão de inauguração. “Eu só posso arrumá-lo quando tenho tempo. E quando tenho tempo? Não sei”, explicou-me.

Escadaria Selarón


Para quem também é fã de arte – ou nem isso, mas que goste de ver belos lugares – vale uma volta na colorida Escadaria Seláron, entre a Lapa e Santa Teresa, região central do Rio de Janeiro. São 215 degraus e mais alguns vários metros quadrados de parede decoradas com milhares de azulejos coloridos, colocados ali pelo chileno Jorge Selarón.

A ideia, conforme o artista, é fazer da escadaria uma obra de arte mutante, já que ele, de tempos em tempos, substitui uns azulejos por outros. Personalidades e história carioca estão presentes nos degraus, assim como o elemento presente dele: uma mulher grávida. Clica na foto e confere a história, escrita no início da escadaria. Nos azulejos, é claro.

Rápidas cariocas, parte 3

O Rio além da praia

Centro antigo do Rio

Centro antigo do Rio

Que tomar um banho em Ipanema ou Copacabana, dar uma caminhada na orla de Botafogo e no Aterro do Flamengo é bom ninguém questiona. Mas, por favor, não vamos resumir o Rio apenas à praia, Corcovado e Pão de Açúcar. O Rio é mais que verão e samba, bem mais.

Uma vez já falamos aqui que a troca da capital do país do Rio a Brasília prejudicou – e muito – os cariocas. Enquanto no Planalto Central as coisas são rotineiras e prevísiveis, o Rio tem cultura. Cultura que tem todas as outras capitais nacionais que conheço. Como por exemplo…

Entrada da Biblioteca Nacional

Biblioteca Nacional
Um prédio pomposo, de uns quatro espaçosos andares. Com ares europeus. Além da consulta de livros – feita por computadores lá instalados – há a possibilidade de realizar visitas guiadas. Porém, é bom agendar com antecedência de uma semana pelo menos. É bem concorridoo.

Theatro Municipal
Nas proximidades da biblioteca, na Cinelândia, fica o Theatro Municipal. Outro prédio com uma pompa incrível. outro lugar em que dá para fazer uma visita guiada, aonde chegando uma hora antes do horário pré-programado, fica tranquilo.

Centro histórico/Cinelândia
Se tu gostas de história, saia do Theatro e siga caminhando pela Cinelândia e Centro antigo, tudo pertinho dali. Por ali há utros tantos teatros, igrejas e museus. E aí, como eu, comprove que há bem mais que praia e samba nesta cidade.

Academia Brasileira de Letras

Machado de Assis, em frente à ABL

Machado de Assis, em frente à ABL

Também naquela volta, fica a sede da Academia Brasileira de Letras. Queria descrevê-la por dentro, mas não pude entrar, pois vestia roupas impróprias: bermuda e camiseta sem mangas. Então capriche no vestuário quando quiser conhecer a ABL – e não apenas tirar uma foto com a estátua do Machado de Assis.

Palácio do Catete
Um pouco mais distante – mas não muito – da Cinelândia fica o Museu da República, antigo Palácio do Catete, sede do governo brasileiro antes de Brasília. Lá, em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas saiu da vida e entrou na história. O local é bem conservado e ainda há um belo de um jardim atrás do prédio. Vale o passeio.