Eu sempre voltei, Porto Alegre

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Dos temporais que encaramos juntos…

Uns anos atrás li uma crônica da escritora Carol Bensimon, que até hoje traz uma definição que adotei para falar de Porto Alegre: “Nós quebramos pratos às vezes, mas voltamos a nos entender”.

Da minha parte, lhes garanto: estamos quebrando pratos como nunca! A vida longe do pôr do sol do Guaíba nunca tornou-se tão atraente como nestes dias. Ruídos na nossa relação, não têm faltado. Mas por respeito não os cito aqui e, irônica e maldosamente, apenas recomendo: olhem ao redor, leiam os jornais.

A vida não está fácil neste polo meridional brasileiro.

Porém temos um vínculo forte, precisamos admitir também. Porto Alegre, fosse uma pessoa, seria alguém que relutaria a ligar neste domingo para desejar-lhe feliz aniversário. Seria alguém merecedora, sem dúvida, mas talvez não quisesse vê-la de perto neste momento. Admito, contudo: de mim, receberia essa ligação por volta das 20h. Seria cínico, como quem fez pouco caso e passou o dia ocupado demais para uma cortesia.

Ligaria porque respeito o nosso passado. A canção-clichê diz “Porto Alegre me tem”. É um pouco verdade, através das minhas recordações em muitos de seus cantos, alguns dos quais já nem existem mais senão em minha nostalgia infantil. São já três décadas divididas em pequenos espaços de tempo em diferentes ruas, bairros e épocas daqui.

Ligaria, também, porque incrivelmente ainda acredito no nosso futuro – ainda que não muito nestes imediatos anos, deixemos claro. E mesmo quebrando mais um prato, a raiz é forte. Tal qual a esperança. Não é tão mais difícil te imaginar uma cidade melhor.

Aliás, o encanto de grande cidade pequena – ou de pequena cidade grande – é que é raro. Porto Alegre o tem, ainda que insista em sair crescendo de forma atabaolhada e que sua gente tenha mania de se encantar por “modernidades” bestas que transformam o antigo em velho, maltratando a própria história.

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…na certeza de uma bonança vindoura

Não sou, tampouco serei fiel a Porto Alegre. Declaro amores a outros lugares, pego a freeway ou decolo do Salgado Filho com um sincero sorriso no rosto. Reparo e às vezes simpatizo ao encontrar aquilo que não acho aqui. Eu gosto de viajar. Mas eu sempre voltei, Porto Alegre.

Respingos do Iguaçu, parte 3

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Foz do Iguaçu, já dissemos aqui, não tem lá uma geografia complicada. É uma cidade plana e suas ruas dividem-se em um grande “L”. Entre seus limites há duas pontes – para Argentina e Paraguai. Em suas pontas, duas obras magnânimas, uma da natureza e outra, veja só, do homem.

Aquilo que o homem fez chama-se Itaipu Binancional. Aquele canto de Foz não é Brasil, nem Paraguai. É uma terra administrada em conjunto por brasileiros e paraguaios. É uma obra-prima de engenharia, que gera 80% da eletricidade consumida no Paraguai e 15% da consumida no Brasil, um país com 204 milhões de habitantes.

itaipu-2Ao visitá-la, é impossível não se impressionar com tudo o que fizeram para fazê-la surgir. Um trabalho de anos, ressalte-se, para o qual veio gente de diversos cantos de Brasil e Paraguai e que transformou completamente este canto de região do Brasil, junto ao extremo Leste do Paraguai.

Itaipu é uma obra que começou lá na década de 70 e só foi concluída mesmo no início deste século, ainda que tenha começado a operar em 1984. Gente que veio de longe e alguns ainda ficaram por ali e que se animam em contar a história, como é o caso do Seu Domingos, um simpático senhor cheio de prosa, que trabalha no EcoMuseu, ali do lado. É uma dessas pessoas que são uma enciclopédia viva.

Itaipu, onde o ruído das águas é constante, significa em “a pedra que canta” na linguagem indígena (e agora, em tupi ou guarani?). São sons e construções – a barragem chega a 196 metros de altura – que se impõem na fronteira:

No outro lado do “L” de Foz ficam as cataratas do Iguaçu. É, sim, um cenário tão conhecido por nossos olhos, por meio de fotos e vídeos que chegam via redes sociais ou matérias de televisão. São quase clichês, tal como o Cristo Redentor no Rio, as ruínas de Cusco, o Elevador Lacerda em Salvador ou mesmo a Torre Eiffel de Paris e o Coliseu de Roma.

Mas, como em todos esses casos supracitados, ressalto: é preciso ver com os próprios olhos!

Há uma força incrível nas quedas de água do rio Iguaçu, que só pode ser sentida de perto. Não que forcem uma reflexão da pequeneza do homem diante da natureza ou algo assim, porém é uma força que te paralisa, que te arranca um “uau” de forma tão espontânea quanto embasbacada assim que elas são visualizadas em meio às trilhas que a contornam. Isso sem falar do caminho no qual se chega (e se molha todo) à Garganta do Diabo, pelo lado brasileiro, ou – principalmente – quando, pelo lado argentino – se vai até quase onde a água despenca. E onde tudo é branco, de tantos pingos, de tanta admiração.

São desses momentos que se fazem uma boa viagem. Por cenários assim que vale a pena ir para longe de casa, nem que seja por uns dias ao longo de um ano de rotina e cotidiano nem sempre amigáveis com a saúde.

Tem lugares que é preciso conhecer de perto, que é preciso ver com os próprios olhos, repito. São experiências a serem vividas ao invés do reforço da rotina. Não para entender, ou entender-se, mas para ter a exata noção do quanto o mundo é grande e muito maior do que nosso bairro ou nossa cidade. Às vezes até não parece, mas isso muitas vezes é uma descoberta incrível.

Quando é preciso conhecer

Tem horas que as palavras faltam. Tem momentos que servem apenas para o exercício da admiração. Transmitir isso via qualquer rede social é impossível, mas segue uma tentativa:

É ímpar ver de perto um cenário tão conhecido por fotos e cartões postais e mesmo assim lançar um olhar juvenil. São poucos os locais que têm esta capacidade no mundo. Não à toa alguns desses foram eleitos maravilhas.

Chegar às cataratas tem muito disso. Mas lá, tanto no Brasil quanto na Argentina, não apenas se vê, se sente muito. É muito mais que água, que respingos que encharcam em poucos minutos. Há toda uma força envolvida, impossível de ser traduzida com meros três vídeos.

É preciso conhecer. É preciso viajar e conhecer novos horizontes, até os que parecem tão familiares.

Rio, seu cafajeste

O Rio é como um cafajeste de marca maior: tão lindo e deslumbrante quanto a má-fama que carrega consigo há anos por conta de um comportamento distante do ideal que esperamos.

Talvez nem devêssemos elogiá-lo e sim superá-lo, afinal nosso país tem tantas e tantas outras belezas naturais. Mas o Rio sempre conquista. Como resistir à sua ginga malandra, a sua cor-Brasil? Ou, na forma bem direta – e cafajeste de ser: como não se apaixonar pelas curvas do Rio?

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Sejam curvas de garotas (ou garotos, a quem preferir) de Ipanema, das ondas da calçada de Copacabana ou da geometria do Pão-de-Açúcar. Difícil ignorar, quem dirá esquecer desde a primeira vez.

Uma lista de defeitos, quem sabe, seria capaz de escancarar este cafajeste carioca. E não faltam: violência e o medo constantes, é a desigualdade revoltante, o Hell de Janeiro que o Brasil deixou florescer perto da praia.

De repente, devia-se evitar o Rio. Só que como resistir a olhar uma vez mais a Enseada de Botafogo, a uma espiadela ao Cristo Redentor lá no alto? Ou como não pensar em ir a um jogo no Maracanã? Rio, cê não presta!

O Rio é um cafajeste de marca maior, não à toa que conquista a todos. Tem um sem-número de defeitos, solenemente ignorados diante de sua divina beleza, que a cada amanhecer samba na nossa cara, diante de qualquer desdém.

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Rio, ah, o Rio.

Fotos: Rio2016

Hora do conto – Um jornalista pelo mundo

hora do conto sem pautaDias atrás zapeando pelo site da Saraiva deparei-me com este livro, que achei que poderia ser bem interessante “Sem pauta – Reportagens, histórias e fotos de um jornalista pelo mudo”. Cara, foi o que eu sempre quis fazer. Comprei, ou melhor, tentei. Deu ruim, mas não desisti, larguei de mão a Saraiva e acabei comprando de um sebo via Estante Virtual.

Mal chegou em casa na semana seguinte e já foi direto para o bidê ao lado da cama, onde, em questão de poucos dias, já estava lido de cabo a rabo. E motivou-me a resgatar a tag “Hora do Conto”, há horas esquecida nos arquivos deste blog.

É uma leitura leve e fácil, ainda que os temas às vezes não sejam os mais bonitinhos e/ou turísticos, já que, basicamente, este livro trata de viagens. Luiz César Pimentel fez o roteiro que originou os textos entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000. Ou seja, não trata de assuntos novos, mas os temas abordados são permanentes.

“Sem Pauta” é um livro escrito por um jornalista que faz questão de olhar os diferentes lados de um fato – e um local. Por exemplo, não trata das belezas paradisíacas do Vietnã sem falar dos campos minados de lá – e da história de alguém que plantava as bombas naquela área. Qualquer viajante mais atento sempre nota que todo lugar tem algo que os locais não gostariam de ser vistos por turistas. Pois.

Genocídios, o cultural no Tibet ou o sangrento massacre populacional o Camboja, são tratados no livro. O que é bom, pois tragédias são fatos que não devemos esquecer em nome do contexto, algo tão em falta em muitas discussões hoje em dia. Tudo isso descrito num texto leve e fácil de ler.

Mas nem tudo são dramas, claro. O livro de Pimentel acaba por sendo um guia de curiosidades locais. Ainda que no título tenha a expressão “pelo mundo” nem todos os continentes são abrangidos. Os países abordados nele são principalmente na Ásia, com rápidas escalas na Europa e no Equador.

“E por que a Ásia?” é a dúvida que logo nos vem. O próprio autor responde no livro: “A verdade é que eu precisava ir para a Ásia. E mais: passar uma temporada lá – já que o continente não é nenhuma estância litorânea a qual se conhece ao cabo de um fim de semana”, explica.

Detalhe, que principalmente os mais preguiçosos da leitura vão gostar: “Sem Pauta” tem uma grande quantidade fotos, que ajudam a ilustrar bem os textos. Infelizmente são em preto e branco, mas mesmo assim colaboram bastante à compreensão dos temas abordados. Mais a mais, o Google está aí para ajudar, qualquer coisa.

Sem Pauta. Reportagens, histórias e fotos e um jornalista pelo mundo
Autor: PIMENTEL, LUIZ CÉSAR
Editora: SEOMAN
Assunto: REPORTAGEM, VIAGEM

Textos baianos: A lenda

Olha! Se é verdade, não sei. Relato aqui apenas o que ouvi de um simpático senhor sentado ao meu lado em um pequeno bar no Pelourinho, coração de Salvador. Ele puxou assunto depois de o garçom recomendar cuidado ao mexer com o celular na rua, pois, conforme ele, ladrõezinhos passariam voando com meu telefone ao menor descuido meu.

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Se avexe, não

“Esquente a cabeça, não. Ele fala isso só pra impressionar”, minimizou meu vizinho de mesa, que tão de pronto começou a conversar. Logo já se pareceu um amigo, algo adoravelmente típico do comportamento baiano.

Papo vai, papo vem e ele começou a contar que foi no Pelourinho que Carlota Joaquina tomou seu primeiro banho depois de semanas a fio dentro do navio que trouxera a comitiva portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, uns dois século atrás.

E falando estrangeiros, bom visitantes eram mesmos os holandeses, disse ele. “Esses não queriam dominar ninguém, apenas fazer comércio. E quando diziam que era inseguro, mas veio até um príncipe por aqui naquela época”, contou, referindo-se, imagino, ao início do século XIX (ou mais cedo ainda, no século XVII), mas sem mencionar o nome do nobre da realeza.

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Pelo amor ou pela guerra, nunca foi fácil deixar a baía para trás

“Mas correram com os holandeses”, lamentou, ao iniciar a contar a parte mais interessante da história. Segundo meu novo amigo, que solitário tomava uma cerveja, que dois navegantes holandeses sobreviveram a um bombardeio na saída de Salvador. Por sorte e resistência conseguiram nadar até a ilha da Itaparica, ao Sul da Baía de Todos os Santos.

Entretanto, o destino seguiu cruel com a dupla, que nadou, nadou até chegar logo à beira da praia onde vivia feliz uma tribo de índios. Canibais, no caso. Habituados a engolir só a carne seca do nordestino, logo viram com bons olhos aquela “carne gorda” europeia. Sem perder tempo foram à forra logo depois apreciando os músculos e a gordura de um deles. O outro navegante holandês prisioneiro foi mantido preso, “para engorde”.

Acontece que, em meio aos seus últimos dias, o rapaz de olhos claros holandeses chamou a atenção da filha de ninguém menos do cacique local. E mesmo não falando idiomas semelhantes, a linguagem corporal bastou para que houvesse encontros às escondidas entre a “princesa” da tribo e o jantar vindouro.

Ela, apaixonada, fez apelos ao pai para que soltasse aquele pedaço de carne. Pouco adiantou. Tempos depois o holandês foi devidamente temperado e comido pela tribo. Mas deixou lembranças, a principal delas no ventre da moça, que nove meses depois deu à luz a um novo indiozinho.

Só que, rapidamente constataram, era um indiozinho diferente. De pele meio escura, cabelos negros e olhos claros. Um indiozinho que, conforme a lenda que tarde dessas ouvi no Pelourinho, era ninguém menos que o primeiro caboclo do Brasil.

Se é verdade? Chicó responde:

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Sobre hora e maré no Nordeste do Brasil

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Dependendo da hora, o negócio é ficar dentro ou fora’água

Eis dois fatores que o pessoal daqui do Sul não atenta muito, mas que são fundamentais no Nordeste. Primeiro, a hora. No Nordeste o sol nasce mais cedo que nos lados meridionais e às 6h o dia não só raiou, como até um calorzinho já faz. Na outra ponta do dia, 17h o pessoal já começa a se preparar para ver o pôr do sol.

Ou seja, chegar às 15h30min, 16h na praia é quase para se preparar para ver a noite chegar ao som das ondas. É o tal clima de “fim de festa” que citei no post anterior, quando da vez em que estive na Praia do Francês. Digamos que 16h equivale a cerca de 17h30 no “fuso” gaúcho. É a chance de um mergulhinho e deu, em suma.

Outro ponto importante: a maré é fundamental para a maioria dos passeios turísticos. Tanto as jangadas em Maceió, quanto os barcos das praias do Gunga ou do Francês – e, imagino, em Maragogi – só navegam na maré baixa. O mesmo vale para os mergulhos. Se chegar atrasado, perde-se o dia.

Aconteceu comigo em Alagoas, mas poderia ter ocorrido dias antes na Bahia, onde só pude aproveitar as piscinas da Praia do Forte por ter chegado na baixa da maré. E, em verdade lhes digo, valeu – e muito – ter se atentado a este detalhe e feito a programação correta.

Mas como saber quando a maré vai estar alta ou estar baixa? Existe a opção interpessoal de perguntar a guias e/ou pessoas que oferecem os passeios e também há a boa e velha alternativa nerd e prática: a internet. A Marinha mantém este site atualizado diariamente. Outros aplicativos também fazem o mesmo.

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Na maré alta, jangada boa não vai pra água