Desde Chile: Valparaíso ou Viña del Mar?

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Valparaíso é uma antítese a metrópoles brasileiras. Se do lado de cá, o morro tem aquela sina de ter problemas e ser abandonado pela sociedade, lá o morro é o local onde a cidade é mais feliz. Onde vibram artes, turismo e gastronomia. E tudo com uma vista e tanto.

Valpo, como os chilenos a chamam, tem alma. A alma está tanto nas proximidades do mar e do porto quanto nos morros, lugar onde a arte foi descaradamente incentivada e escancarada. Deixou museus e ateliês para ganhar as ruas e o cotidiano, encantando olhares. E como faz diferença ter presente a arte popular – e destacada.

Não é à toa que Valparaíso tem um morro, dentre seus tantos, chamado de “Cerro Alegre”. Imagine que cinza ele não é. Tudo menos cinza. Tudo menos cor pastel. É um viva às cores.

Por entre o sobe-e-desce dos morros, há uma quantidade enorme de grafites, artesãos e casas onde a cultura de um lugar está à mostra e à venda. Difícil caminhar de forma objetiva e sem se distrair com o que o morro oferece para se ver, admirar e refletir. E tudo isso sem mencionar a vista para o mar que banha Valparaíso, que volta e meia dá as caras em meio às casas.

Não que tudo seja perfeito, claro. Os pés dos morros têm lá seus ambientes para assustar um pouco aquele que acha que fora do Brasil não existem problemas. Aquele quê de cidade portuária, de forasteiros, de estivadores. Às vezes o cheiro e os resquícios de noitadas regadas a álcool, às vezes o forte odor dos peixes pescados há pouco.

Tudo isso faz parte de uma cidade com alma, virtudes, belezas e defeitos. Se o metrô é novinho, bonitinho e com vista para o mar, andar de ônibus rumo à rodoviária não deixa de ser uma pequena experiência antropológica, por exemplo. Ao se caminhar, alguém vai falar: “Cuida com a tua bolsa no centro”.

Mas tudo de boa, em especial – infelizmente – àqueles que são moldados na dura realidade brasileira.

Valparaíso ou Viña del Mar

vinaSe Valparaíso tem esse ar mais autêntico, Viña del Mar transpira algo da serenidade mais elitista. E essa talvez seja a principal diferença entre duas cidades que são coladas – o próprio metrô vai de uma a outra na mesma e única linha.

Viña del Mar tem bem menos história – e arte e grafites – mas é mais organizada e arborizada. É mais feita para o turista que está de férias e busca alguma bolha de tranquilidade, quem sabe.

Ao visitar as duas lembrei-me da relação entre Gramado e Canela, na serra gaúcha – cidades igualmente irmãs. A mais famosa e turística, a mim parece um tanto artificial, feita para os outros a verem e a consumirem. Parece buscar um status europeu em pleno sul brasileiro – o que não deixa de ter, diga-se. Canela, porém, é uma cidade com uma vida mais própria, ainda que bem parecida com a vizinha. São sensações que se entende quando se caminham nessas ruas, tanto em solo gaúcho, quanto no litoral chileno.

É questão de gosto saber o que lhe agrada mais e a partir de então decidir onde aportar.

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Desde Chile: Un cajón para se conocer

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Certa feita uma amiga minha trocou a sua foto de perfil no Facebook por uma em que aparecia em frente a um lago e uma montanha. Perguntei se era na Suíça ou no Canadá, aquela vista. Ledo engano: Chile, um lugar bem mais perto da minha casa. Mais especificamente um local chamado Cajón del Maipo, a não muitos quilômetros de Santiago.

O nome “Cajón del Maipo” me chamou a atenção. Cajón, em português, é nada mais que caixão. Nome esquisito para um lugar, digamos, visitável. Mas perfeitamente compreensível na literalidade da língua espanhola. O cajón que batiza a região é porque todo aquele vale fica rodeado de montanhas, como se estivesse em uma grande caixa – sentido até semelhante com o nome da Bombonera, estádio do Boca, em Buenos Aires.

E Maipo é um dos rios que passam por ali. Simples e literal, assim.

cajon del maipo (2)A sensação deste “encaixotamento” é ainda mais presente quando se visita Embalse el Yeso, onde essa minha amiga foi tirar a foto dela. Poucos lugares são capazes de arrancar tantos “uau” por minuto quanto lá. Nesses tempos modernos, certamente serve de cenário para muitas fotos de perfil de Facebook.

De estrutura, mesmo, o embalse pouco tem – na verdade a empresa que administra a represa permite que agências de turismo levem gente até a beira da montanha onde trabalham. De lá sai a água que abastece a região de Santiago, então o banho sequer é permitido, apesar de que em outros pontos se possa fazer isso.

Ainda assim, mesmo que não haja um bar, um restaurante para se sentar, pedir um café ou uma cerveja e passar o dia reparando em cada curva delineada pela natureza, lá é lugar para contemplação e alguma caminhada em busca de um ângulo pouco mais espetacular. A vista impacta, até quando não é inverno, estação que, aposto, deve deixar o cajón muito mais bonito por conta da neve – e bem mais frio, claro. O Google dá uma ideia disso.

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É um caixão para, além de redes sociais, fixar a retina e guardar na memória.

Desde Chile: Santiago a las alturas

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Cerro San Cristóbal

A altitude média de Santiago não chega a assustar para um país esculpido a partir de dezenas de cordilheiras e vulcões. São cerca de 570 metros acima do nível do mar, apenas. No entanto, apesar de boa parte da cidade ser no plano, esses 570 metros podem se transformar em quase 900 em questão de minutos. Mais especificamente em duas das principais atrações santiaguinas: o tradicional Cerro San Cristóbal e o moderno Sky Costanera.

O mais novo e artificial ponto turístico da capital do Chile é uma torre envidraçada de 62 andares e 300 metros de altura, que, segundo eles, é a mais alta da América Latina. Fica anexa a um grande shopping center que, veja só, chama-se Costanera.

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Sky Costanera

Inaugurado em 2015, o mirante oferece uma vista em 360 graus da cidade. Ele é acessível após o visitante desembolsar uma bagatela de 15 mil pesos*. Confirmado o pagamento, o turista é autorizado a pegar o elevador, que, em menos de 1 minuto, vai até as alturas. A velocidade do elevador é de 7 metros por segundo, segundo a ascensorista.

Ah, não adianta chorar ou pechinchar. O preço é esse mesmo e o mirante não é acessível por escada. Porém, fique tranquilo, o suado investimento vale a pena, especialmente em determinados momentos do dia, como o pôr do sol. Programe-se, pois o tempo lá em cima é liberado. O Instagram deles dá uma ideia boa do quão legal pode ser.

Bem mais barato e até um pouco mais alto, é desbravar o Cerro de San Cristóbal. No ponto mais alto dele, junto à estátua de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, o mar chega a estar uns 880 metros abaixo dos nossos pés. Pés que podem ser poupados de boa parte da longa subida se o desbravador dispor de pelo menos 4 mil pesos* e ir até lá de funicular – um trenzinho que sobe em diagonal proporcionando uma vista gradualmente mais legal e por si só já é uma atração turística.

Chegando lá em cima, claro, há cachorros. Ainda que especificamente neste ponto de Santiago também encontrei numerosos gatos de rua. Um convívio aparentemente amigável entre os dois, talvez devido ao ar introspectivo/religioso do local – estamos falando das cercanias de um santuário de uma santa que é reverenciada no alto da cidade mais importante do país, afinal.

Agasalhe-se, caso encare esta subida. Além da vista, o frio também pode tornar-se inesquecível graças aos ventos que correm morro acima. Pelo topo do morro também há outras atrações, somando à igreja e ao mirante, como zoológico, alguns barzinhos para se tomar um café, artesanato e um observatório (quase sempre fechado). E ainda um teleférico para seguir passeio em outra direção do cerro.

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Vista do Santuário

*preços citados são de abril/2018

Textos baianos: Saudade do Morro

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Havia 66 notificações pedindo alguma atenção em apenas um aplicativo de rede social. Isso sem falar nas mensagens, que sempre apareciam às dezenas quando o celular encontrava um mínimo de conexão. Tinha ainda os e-mails. Sisudos, carregados de compromissos, eles.

Mas havia também o mar! Bem em frente. E não apenas uma, mas quatro praias de águas verdes e pedrinhas multicoloridas de encantar crianças – e, ok, adultos também. Morro de São Paulo, Bahia. Uau, que diferença para seu xará do Sudeste. Sois verdadeiramente opostos batizados com o mesmo nome.

Ante aos compromissos de vidas permanentemente digitais, ondas. Ininterruptas. Não de dados, mas de vida. Uma vida mais simples e pacata. Mais ligada à natureza do que às possibilidades provindas de um cartão de crédito. Ondas que, pouco a pouco, carregam o peso de dias que quase não tinham fim na rotina do trabalho.

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Num mundo tão sem pausas, um recomeço à beira-mar do Morro de São Paulo é revigorante.

Um hiato de vida, do outro lado do mundo

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Das ruelas que passamos pela vida

Eram quase 22h. Eu estava, ao lado de mais umas seis ou sete pessoas, parado em um cruzamento qualquer da área central na cidade de Hamamatsu, a uns 16 mil quilômetros do canto de mundo que chamo de meu. Chove fraco, estaria meio escuro se não fosse a intensidade dos painéis publicitários de led nas lojas ao redor. Passam pouquíssimos carros na rua. Mas ainda assim todos esperam a sua vez de atravessar, pois o sinal está verde para os veículos.

Quando o sinal me libera, torno a caminhar a esmo por ruas e ruelas, cheia de lojinhas, bares e restaurantes. Nas fachadas, um idioma completamente estranho. É, sem dúvida, um brevíssimo hiato de vida. E, como Cortázar caminhando por Paris, perdi-me na certeza que iria me encontrar.

Apesar da hora já avançada, medo de assaltos ou qualquer coisa do tipo simplesmente não há nesta realidade, algo bem diferente daqui, infelizmente. Mas diferente também de países da Europa, por exemplo, onde se tem uma sensação de segurança praticamente a todo momento: no Japão não é uma sensação, e sim uma certeza.

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Noite em Hamamatsu

Ao longo da rota improvisada numa cidade nova para mim, cruzo com diversas pessoas, como jovens estudantes, caminhando distraidamente com seus celulares pelas ruas. Inclusive meninas de saias curtas, ao tradicional estilo mangá – elas com a total liberdade de andarem distraídas, bem como escreveu a Taiga em seu blog, TokyoRio.

Todos ali certamente mais preocupados com eventual e repentino terremoto do que com qualquer violência, porque ela praticamente inexiste. Até o retorno ao hotel, ainda tenho algumas surpresas e uma certeza, que o Japão, em muitas momentos, mais parece outro planeta do que apenas mais um país diferente do meu.

Diários Mexicanos: Turismo para o bem e para o mal

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Quantos mexicanos há numa praia mexicana?

Cancún é um polo turístico como outros tantos neste planeta. Tal como um, vive numa dualidade incrível, entre o povo que vem de fora e o povo que vive lá. Mesmo escancarada, a realidade nem sempre é percebida por quem vai lá com foco em tomar a direção do aeroporto (ou da marina) dali a alguns dias.

O próprio aeroporto já é um indicativo. Se lá de cima vê-se um monte de ruas sem asfalto, na pista há um número considerável de aviões de pequeno porte, esses que carregam gente que paga bem mais para não precisar sentar ao lado de desconhecidos em voos comerciais.

A Zona Hotelera de Cancún em nada lembra a horizontalidade de áreas que ficam a não muitos quilômetros dali. O mesmo dinheiro que ergue prédios e resorts enormes à beira da praia, às vezes afasta quem é, originalmente, dali. De tantos prédios quase à beira-mar, entradas públicas à praia transformam-se em ruas quase estreitas entre espigões enormes.

E no mesmo asfalto em que passam carros seis dígitos de dólar, passam ônibus lotados de mexicanos – e alguns turistas mais humildes, ressalte-se. Ainda assim, há diversão entre os locais, que, ao menos num primeiro momento, não escancaram alguma “turismofobia” como em outros cantos do mundo. Talvez, isso de relevar (até certo ponto) a desigualdade, seja uma característica latino-americana.

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A praia e seus espigões

No fim, não é para se reclamar de tudo mesmo. A grana que vem de longe faz a roda girar. E o povo se vira e se esforça para ficar com verdinhas alheias. O vendedor de souvenir fala qualquer coisa para gerar um mínimo de intimidade e atrair aquele que vem de longe, o marinheiro trata bem para expor ao fim da viagem um pequeno cofre em forma sugestiva de porquinho e dizer que vivem da “propina” oferecida. O mexicano se veste de Máscara em frente ao Coco Bongo para surfar a mesma onda e levar uns dólares a mais daquela carteira internacional.

O turista, de fato, recebe grande atenção por onde passa em Cancún. Mas talvez tudo não passe de encenação. Tudo seja uma simpatia paga. Sorrisos para se conseguir dinheiro e evitar dores lá na frente.

E a vida segue.