A memória de um 11 de setembro

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Ainda lembro bem daquela terça-feira. Assim que cheguei da aula, por volta do meio-dia, soube de todo o ocorrido. A TV não parava de passar aquelas imagens. As torres gêmeas de Nova York atacadas e posteriormente caindo. Parecia cena filme holywoodiano. De lá para cá, muita coisa mudou.

Mas bem antes de 2001, houve um outro e lamentável 11 de setembro. Em 1973, no Chile. Aquele 11 de setembro alterou a vida de um país inteiro e junto dele afetou diretamente a vida de cerca de 40 mil famílias.

Conheci um pouco mais a história e a narrativa daquele dia – e dos anos seguintes – durante uma visita ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, em abril passado. É um lugar forte, de reflexão.

Entrevistei o diretor do museu dias depois. Virou matéria pro Correio do Povo, porém aqui vai o texto completo, livre das limitações de espaço. Uma entrevista na qual se ressalta: é importante lembrar para não esquecer.

“Democracia é uma construção coletiva”

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40 mil histórias contadas | Foto: Divulgação

“É importante educar em uma nova cultura de respeito, de bom trato, da ética dos direitos humanos, recordando o que aconteceu, mas ajudando as pessoas a refletir sobre o que está acontecendo agora com esses temas, com nossos indígenas, com os temas de gêneros, a migração, entre outros”, conclui Francisco Estévez.

Estévez é chileno e trabalha em Santiago, mas sua fala poderia ser adaptada a diferentes realidades e sociedades da América Latina – e também do mundo, nesses tempos de polarização. Ele é o diretor do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, um dos 15 museus mais populares do continente e o mais visitado do Chile.

Se museus normalmente levam a um passado que pode vir a despertar curiosidade ou mesmo nostalgia, o Museu da Memória, não. Dentro do prédio – projetado por arquitetos brasileiros – o conteúdo remete a um período sombrio do país: a ditadura, que durou de setembro de 1973 até março de 1990. E que deixou um saldo oficialmente reconhecido de 40.018 vítimas, sendo 3.065 mortos ou desaparecidos.

O convite à reflexão ocorre de forma interativa. No museu, pode-se desde ouvir o último discurso do presidente deposto Salvador Allende, no fatídico 11 de setembro de 1973, a ver a cobertura jornalística da época da reabertura. Isso passando por lembranças dolorosas em memória das vítimas, dispostas ao longo dos três andares da casa.

Com a democracia chilena se aproximando dos seus 30 anos – e com alternância entre esquerda e direita no poder – Estévez crê que seja necessário não esquecer do período sob o general Augusto Pinochet. Principalmente para que uma época dessas não ressurja.

“Na América Latina, estamos vivendo um ressurgimento de posições negacionistas, que pretendem revisar e justificar o que aconteceu na ditadura. São provocações na hora de revisar os atos de violações cometidos pelo Estado chileno, argumentando que não haveria incorrido nenhum abuso de direito”, diz. “Este é o nosso maior desafio como museu.”

Citando uma pesquisa a qual atestou que 57% dos jovens chilenos que cursam o oitavo ano do ensino básico concordaria viver em uma ditadura desde que ordem e segurança fossem garantidas, ele afirma: “É importante que todas estas gerações dialoguem sobre o tema”.

Recheado de histórias individuais e coletivas, por meio de fotos, vídeos, documentos e gravações, o museu foi visitado por cerca de 150 mil pessoas no ano passado. Os visitantes foram oriundos de 187 países, sendo Brasil e Estados Unidos a maior parte dos estrangeiros que passaram por lá. Houve também “um aumento significativo” de venezuelanos que repassaram a história da ditadura chilena, segundo Estévez. O Chile, por sinal, é um dos destinos mais procurados pelos venezuelanos que optaram por deixar o país nos últimos anos.

Encarando a história

Mas que história é essa? Passadas quase três décadas, debater ditadura no Chile segue como um tabu. Igualmente como em outros lugares, há quem denuncie e quem apoie. “Opositores do museu reclamam do caráter não-histórico da iniciativa, já que somente mostra uma parte da ‘verdade’, aquela que dos ativistas da esquerda e partidários da Unidade Popular. Consideram que o período entre 1973 e 1978 (até a promulgação da lei da Anistia) correspondente a uma situação de guerra interna. Assim não haveria vítimas e sim baixas de guerra”, explica Estévez.

Não é só. “Alguns intelectuais exigiam a inclusão de um ‘contexto histórico’, no qual estaria marcado pela deterioração do processo democrático chileno, o que explicaria a extrema repressão depois do 11 de setembro. Neste caso, não negam as atrocidades da ditadura e ainda menos a necessidade de um lugar de memória, mas igualam a retórica revolucionária do governo de Allende com a violência do golpe”, acrescenta. Para esses – contextualiza Estévez – o golpe militar se deu pelo medo do comunismo e a ameaça de um processo semelhante ao que aconteceu em Cuba.

“Uma luta memorial segue presente entre quem disputa o status de vítima. No entanto, hoje em dia a interpretação histórica favorece majoritariamente aqueles que sofreram as atrocidades da ditadura”, conclui o diretor do museu.

Críticas na internet

Esse embate acaba se transferindo para a internet. “Há certo ódio que recebemos diariamente nas nossas redes sociais. Isso porque há pessoas que negam o ocorrido”, avalia Estévez. Ainda assim, a página oficial do museu no Facebook tinha, no início de agosto, uma avaliação de 4,6 numa escala que vai até 5. Além de 152,7 mil fãs.

Entre junho e julho, a página do Museu da Memória e dos Direitos Humanos no Facebook recebeu 32 avaliações ou recomendações. Dessas, sete foram negativas – com duas estrelas ou uma, numa escala de até cinco. “A memória tem que ser um conjunto da sociedade e não de um setor político”, criticou Christian Chamorro, cuja foto de perfil é um capacete medieval. Já uma mulher, identificando-se como Ines Canales e com uma foto de cachorro no perfil, apenas justificou sua única estrela ao museu com a frase: “Humanoides desgraçados”.

Apresentando-se como um chileno morador de Nova York, Cristian Subiabre foi mais enfático em sua crítica: “Isso é uma mentira, feita para branquear os assassinatos e atrocidades da esquerda, ainda impunes”, postou, citando um político comunista que, segundo ele, seria responsável direto por pelo menos seis assassinatos. “O museu não vai falar sobre isso.”

No lado real, o museu reconhece que já foi alvo de protestos ao longo de sua história, mas sem ataques diretos às dependências, onde, na entrada, está a declaração universal dos direitos humanos, proclamada pela ONU, em 1948.

Democracia

Francisco Estévez afirma que o museu procura estabelecer canais de diálogo, inclusive na internet, quando lançou uma campanha #quepasasiolvido (o que acontece se esqueço). “Temos muita gente que nos ataca, mas a satisfação que outros defendem a oportunidade de ter um lugar que recorda o que nunca mais deve acontecer em um país: a violência exercida do Estado com a destruição da democracia”.

E democracia, na opinião dele, é “uma construção social, política e cultural”. Logo, é algo que corre riscos. “A democracia é uma responsabilidade comum, coletiva e cidadã. E quando isso se abandona então a democracia fica em um estado de fragilidade”, define. “Efetivamente se requer um compromisso permanente de educação e também um envolvimento dos atores sociais, os jovens e a política.”

Numa época de polarização extrema, tempos como os que o museu reporta podem voltar. E até por isso Estévez valoriza a importância do Museu da Memória e dos Direitos Humanos: “O que acontece é que se esquece que nunca, na democracia, é aceitável dar um golpe de Estado para resolver os antagonismos políticos”.

 

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Desde Chile: Valparaíso ou Viña del Mar?

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Valparaíso é uma antítese a metrópoles brasileiras. Se do lado de cá, o morro tem aquela sina de ter problemas e ser abandonado pela sociedade, lá o morro é o local onde a cidade é mais feliz. Onde vibram artes, turismo e gastronomia. E tudo com uma vista e tanto.

Valpo, como os chilenos a chamam, tem alma. A alma está tanto nas proximidades do mar e do porto quanto nos morros, lugar onde a arte foi descaradamente incentivada e escancarada. Deixou museus e ateliês para ganhar as ruas e o cotidiano, encantando olhares. E como faz diferença ter presente a arte popular – e destacada.

Não é à toa que Valparaíso tem um morro, dentre seus tantos, chamado de “Cerro Alegre”. Imagine que cinza ele não é. Tudo menos cinza. Tudo menos cor pastel. É um viva às cores.

Por entre o sobe-e-desce dos morros, há uma quantidade enorme de grafites, artesãos e casas onde a cultura de um lugar está à mostra e à venda. Difícil caminhar de forma objetiva e sem se distrair com o que o morro oferece para se ver, admirar e refletir. E tudo isso sem mencionar a vista para o mar que banha Valparaíso, que volta e meia dá as caras em meio às casas.

Não que tudo seja perfeito, claro. Os pés dos morros têm lá seus ambientes para assustar um pouco aquele que acha que fora do Brasil não existem problemas. Aquele quê de cidade portuária, de forasteiros, de estivadores. Às vezes o cheiro e os resquícios de noitadas regadas a álcool, às vezes o forte odor dos peixes pescados há pouco.

Tudo isso faz parte de uma cidade com alma, virtudes, belezas e defeitos. Se o metrô é novinho, bonitinho e com vista para o mar, andar de ônibus rumo à rodoviária não deixa de ser uma pequena experiência antropológica, por exemplo. Ao se caminhar, alguém vai falar: “Cuida com a tua bolsa no centro”.

Mas tudo de boa, em especial – infelizmente – àqueles que são moldados na dura realidade brasileira.

Valparaíso ou Viña del Mar

vinaSe Valparaíso tem esse ar mais autêntico, Viña del Mar transpira algo da serenidade mais elitista. E essa talvez seja a principal diferença entre duas cidades que são coladas – o próprio metrô vai de uma a outra na mesma e única linha.

Viña del Mar tem bem menos história – e arte e grafites – mas é mais organizada e arborizada. É mais feita para o turista que está de férias e busca alguma bolha de tranquilidade, quem sabe.

Ao visitar as duas lembrei-me da relação entre Gramado e Canela, na serra gaúcha – cidades igualmente irmãs. A mais famosa e turística, a mim parece um tanto artificial, feita para os outros a verem e a consumirem. Parece buscar um status europeu em pleno sul brasileiro – o que não deixa de ter, diga-se. Canela, porém, é uma cidade com uma vida mais própria, ainda que bem parecida com a vizinha. São sensações que se entende quando se caminham nessas ruas, tanto em solo gaúcho, quanto no litoral chileno.

É questão de gosto saber o que lhe agrada mais e a partir de então decidir onde aportar.

Desde Chile: Un cajón para se conocer

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Certa feita uma amiga minha trocou a sua foto de perfil no Facebook por uma em que aparecia em frente a um lago e uma montanha. Perguntei se era na Suíça ou no Canadá, aquela vista. Ledo engano: Chile, um lugar bem mais perto da minha casa. Mais especificamente um local chamado Cajón del Maipo, a não muitos quilômetros de Santiago.

O nome “Cajón del Maipo” me chamou a atenção. Cajón, em português, é nada mais que caixão. Nome esquisito para um lugar, digamos, visitável. Mas perfeitamente compreensível na literalidade da língua espanhola. O cajón que batiza a região é porque todo aquele vale fica rodeado de montanhas, como se estivesse em uma grande caixa – sentido até semelhante com o nome da Bombonera, estádio do Boca, em Buenos Aires.

E Maipo é um dos rios que passam por ali. Simples e literal, assim.

cajon del maipo (2)A sensação deste “encaixotamento” é ainda mais presente quando se visita Embalse el Yeso, onde essa minha amiga foi tirar a foto dela. Poucos lugares são capazes de arrancar tantos “uau” por minuto quanto lá. Nesses tempos modernos, certamente serve de cenário para muitas fotos de perfil de Facebook.

De estrutura, mesmo, o embalse pouco tem – na verdade a empresa que administra a represa permite que agências de turismo levem gente até a beira da montanha onde trabalham. De lá sai a água que abastece a região de Santiago, então o banho sequer é permitido, apesar de que em outros pontos se possa fazer isso.

Ainda assim, mesmo que não haja um bar, um restaurante para se sentar, pedir um café ou uma cerveja e passar o dia reparando em cada curva delineada pela natureza, lá é lugar para contemplação e alguma caminhada em busca de um ângulo pouco mais espetacular. A vista impacta, até quando não é inverno, estação que, aposto, deve deixar o cajón muito mais bonito por conta da neve – e bem mais frio, claro. O Google dá uma ideia disso.

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É um caixão para, além de redes sociais, fixar a retina e guardar na memória.

Desde Chile: Santiago a las alturas

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Cerro San Cristóbal

A altitude média de Santiago não chega a assustar para um país esculpido a partir de dezenas de cordilheiras e vulcões. São cerca de 570 metros acima do nível do mar, apenas. No entanto, apesar de boa parte da cidade ser no plano, esses 570 metros podem se transformar em quase 900 em questão de minutos. Mais especificamente em duas das principais atrações santiaguinas: o tradicional Cerro San Cristóbal e o moderno Sky Costanera.

O mais novo e artificial ponto turístico da capital do Chile é uma torre envidraçada de 62 andares e 300 metros de altura, que, segundo eles, é a mais alta da América Latina. Fica anexa a um grande shopping center que, veja só, chama-se Costanera.

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Sky Costanera

Inaugurado em 2015, o mirante oferece uma vista em 360 graus da cidade. Ele é acessível após o visitante desembolsar uma bagatela de 15 mil pesos*. Confirmado o pagamento, o turista é autorizado a pegar o elevador, que, em menos de 1 minuto, vai até as alturas. A velocidade do elevador é de 7 metros por segundo, segundo a ascensorista.

Ah, não adianta chorar ou pechinchar. O preço é esse mesmo e o mirante não é acessível por escada. Porém, fique tranquilo, o suado investimento vale a pena, especialmente em determinados momentos do dia, como o pôr do sol. Programe-se, pois o tempo lá em cima é liberado. O Instagram deles dá uma ideia boa do quão legal pode ser.

Bem mais barato e até um pouco mais alto, é desbravar o Cerro de San Cristóbal. No ponto mais alto dele, junto à estátua de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, o mar chega a estar uns 880 metros abaixo dos nossos pés. Pés que podem ser poupados de boa parte da longa subida se o desbravador dispor de pelo menos 4 mil pesos* e ir até lá de funicular – um trenzinho que sobe em diagonal proporcionando uma vista gradualmente mais legal e por si só já é uma atração turística.

Chegando lá em cima, claro, há cachorros. Ainda que especificamente neste ponto de Santiago também encontrei numerosos gatos de rua. Um convívio aparentemente amigável entre os dois, talvez devido ao ar introspectivo/religioso do local – estamos falando das cercanias de um santuário de uma santa que é reverenciada no alto da cidade mais importante do país, afinal.

Agasalhe-se, caso encare esta subida. Além da vista, o frio também pode tornar-se inesquecível graças aos ventos que correm morro acima. Pelo topo do morro também há outras atrações, somando à igreja e ao mirante, como zoológico, alguns barzinhos para se tomar um café, artesanato e um observatório (quase sempre fechado). E ainda um teleférico para seguir passeio em outra direção do cerro.

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Vista do Santuário

*preços citados são de abril/2018

Textos baianos: Saudade do Morro

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Havia 66 notificações pedindo alguma atenção em apenas um aplicativo de rede social. Isso sem falar nas mensagens, que sempre apareciam às dezenas quando o celular encontrava um mínimo de conexão. Tinha ainda os e-mails. Sisudos, carregados de compromissos, eles.

Mas havia também o mar! Bem em frente. E não apenas uma, mas quatro praias de águas verdes e pedrinhas multicoloridas de encantar crianças – e, ok, adultos também. Morro de São Paulo, Bahia. Uau, que diferença para seu xará do Sudeste. Sois verdadeiramente opostos batizados com o mesmo nome.

Ante aos compromissos de vidas permanentemente digitais, ondas. Ininterruptas. Não de dados, mas de vida. Uma vida mais simples e pacata. Mais ligada à natureza do que às possibilidades provindas de um cartão de crédito. Ondas que, pouco a pouco, carregam o peso de dias que quase não tinham fim na rotina do trabalho.

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Num mundo tão sem pausas, um recomeço à beira-mar do Morro de São Paulo é revigorante.

Um hiato de vida, do outro lado do mundo

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Das ruelas que passamos pela vida

Eram quase 22h. Eu estava, ao lado de mais umas seis ou sete pessoas, parado em um cruzamento qualquer da área central na cidade de Hamamatsu, a uns 16 mil quilômetros do canto de mundo que chamo de meu. Chove fraco, estaria meio escuro se não fosse a intensidade dos painéis publicitários de led nas lojas ao redor. Passam pouquíssimos carros na rua. Mas ainda assim todos esperam a sua vez de atravessar, pois o sinal está verde para os veículos.

Quando o sinal me libera, torno a caminhar a esmo por ruas e ruelas, cheia de lojinhas, bares e restaurantes. Nas fachadas, um idioma completamente estranho. É, sem dúvida, um brevíssimo hiato de vida. E, como Cortázar caminhando por Paris, perdi-me na certeza que iria me encontrar.

Apesar da hora já avançada, medo de assaltos ou qualquer coisa do tipo simplesmente não há nesta realidade, algo bem diferente daqui, infelizmente. Mas diferente também de países da Europa, por exemplo, onde se tem uma sensação de segurança praticamente a todo momento: no Japão não é uma sensação, e sim uma certeza.

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Noite em Hamamatsu

Ao longo da rota improvisada numa cidade nova para mim, cruzo com diversas pessoas, como jovens estudantes, caminhando distraidamente com seus celulares pelas ruas. Inclusive meninas de saias curtas, ao tradicional estilo mangá – elas com a total liberdade de andarem distraídas, bem como escreveu a Taiga em seu blog, TokyoRio.

Todos ali certamente mais preocupados com eventual e repentino terremoto do que com qualquer violência, porque ela praticamente inexiste. Até o retorno ao hotel, ainda tenho algumas surpresas e uma certeza, que o Japão, em muitas momentos, mais parece outro planeta do que apenas mais um país diferente do meu.