Morreu, mas passa bem

Ainda sobre o Marcelo Yuka, tema do último post, mas principalmente acerca de jornalismo online. O músico morreu no sábado, 19 de janeiro. Mas duas semanas antes, em 3 de janeiro, ele também havia morrido.

Como assim? Bem, confusões. Morreu porque seu ex-colega d’O Rappa, Marcelo Lobato, publicou em seu Instagram uma mensagem de “valeu, Yuka. Sentiremos sua falta”. Coisa assim. Num breve texto, ainda que desse a entender, sequer anunciava de fato a morte do músico. Apesar de fraco, o pulso ainda pulsava.

Foi, porém, o bastante para pelo menos dois grandes veículos publicarem a morte de Marcelo Yuka. Julgaram que a pauta já estava apurada o suficiente e tocaram no ar. Tiveram que se desmentir nos minutos seguintes, quando a questão fora levemente esclarecida, com o assunto ganhando corpo em nível nacional na primeira quinta-feira do ano.

Conhecendo redação, dá para dizer: foi uma aposta. Tivesse morrido mesmo, teriam sido os primeiros a publicar. O que se ganharia mesmo com isso? Mais cliques? Um lugar melhor no Google? Talvez. Mas não vale a pena.

A pressa por um “furo” desses, em caso envolvendo morte – seja de artista famoso ou anônimo – é uma armadilha. Pare-se aqui para não entrar na seara da discussão ética sobre noticiar a morte de alguém vivo.

Coberturas que envolvem a morte requerem cuidado e respeito. Até porque, ao repórter, poucas situações são mais desagradáveis do que ter de fazer uma nota desmentindo uma informação dada poucas antes. Tornando-se um famoso caso do “morreu, mas passa bem”.

Jornalismo, e não só o online, cobra apuração e não correria.

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Por mais representatividade

cap pqd

Foto: Marcos Corrêa / PR

Bastaram não mais que oito horas sob um novo governo para os jornalistas perceberem na pele que não serão coberturas fáceis enquanto o clã Bolsonaro estiver no Planalto. Num claro combate à “imprensa tradicional”, repórteres de todo o Brasil passaram sufoco até então não visto para simplesmente exercer seu trabalho.

E foi só o começo. Restrições à circulação entre autoridades e palácios onde ocorrem as decisões da República já começam a se tornar rotina nestas primeiras horas de novo governo, enquanto amigos da “mídia alternativa” têm seus acessos liberados.

Reação a esse cenário já teve. “Governo Bolsonaro ameaça liberdade de imprensa, segundo organizações”, publicou dia 2 a Folha de S.Paulo – um dos jornais non gratos do novo governo –, se não o principal. Nesta nota, há posicionamentos de Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Ótimo. Mas ao mesmo tempo em que se reclama das medidas do novo presidente – queira ou não democraticamente eleito por muitas pessoas que também olham com desconfiança a “imprensa tradicional” – não seria salutar discutir a relação entre nós?

Jornalistas, ao menos os daqui do Rio Grande do Sul, costumam ser um tanto “desunidos” sobre assuntos da classe. A falta de um Conselho Nacional ou Regional cobra seu preço. Em dez anos de carreira, ainda me pergunto: por que me filiar a alguma delas? Sequer tenho certeza se já me procuraram para isso. No mínimo não insistiram. Desconfio que falo por muitos da minha geração.

Para ser justo: a Abraji, especialmente pelos cursos promovidos, é quem mais se aproxima. Só.

Faz tempo que há um vácuo de representação a ser preenchido. Associações como essas que assinaram as notas precisam reconquistar o próprio público interno – no caso, os jornalistas – até para ter mais força em momentos de cobrança contra o governo, situações que tendem a se tornar mais comuns.

Trabalhando a um quilômetro da sede, pisei duas ou três vezes no prédio da Associação Rio-Grandense de Imprensa. Uma foi em um evento em que palestrei e outra para prestigiar um amigo. Raros e parcos eventos de discussão jornalística – algo, na minha opinião, extremamente importante nesta época.

Jamais estive no Sindicato dos Jornalistas do RS – e até por isso evito críticas às negociações nem sempre bem sucedidas do nosso parco dissídio anual. Aliás, seu presidente ganhou fama meses atrás por tentar impedir o trabalho de um repórter, sob pretexto de protegê-lo. Episódio, esse, que gerou bastante desgaste.

Sobre a Fenaj, certa feita vi um de seus representantes dizer, na redação em que trabalho, que jornalistas de internet eram “sub-jornalistas” – visão e preconceito que havia e senti, mas que já está inevitavelmente diminuindo. Posturas como essa abrem uma rusga com parte importante do front da reportagem.

A impressão de dez anos de carreira é que tais associações (e aqui com a devida exceção à Abraji) vivem em outro tempo e não conseguem se aproximar do jornalista moderno – esse que não é só um repórter de jornal impresso – a representá-los. Esta falta de representação, ao fim, é prejudicial à imprensa toda.

É preciso se atualizar e se reunir. Compreender o novo profissional e se possível iniciar este diálogo lá na faculdade. O jornalismo brasileiro estará sob ataque – e com muita gente aplaudindo e celebrando a “mídia alternativa”. Só publicar nota “em defesa da democracia” vai ser pouco.

Por um jornalismo menos mal

teclado

Talvez a data ajude. Toda virada de ano acaba sendo momento propício para reflexões, tanto daquilo que fizemos errado e podemos melhorar quanto daquilo que acertamos. E vai ser preciso muita reflexão mesmo para lidar com este 2019 que se apresenta para nós, jornalistas.

Iniciaremos o ano com a credibilidade posta em xeque por aquele que subirá o rampa do Palácio do Planalto respaldado por 57 milhões de eleitores. Não que os que não votaram nele acreditassem por nós. Ou seja, a porrada vem à direita e à esquerda, sem muita distinção.

Mas por quê? Bom, aí a discussão vai ser extensa e não necessariamente encontrará um consenso. Não vai ser este mero blog que terá uma solução definitiva para o problema que é se fazer um bom jornalismo em épocas sombrias. Aqui, porém, pode ter uma reunião de pequenas ideias.

Uma delas vem da Nieman Lab, em artigo traduzido e publicado no Poder 360: “Jornalismo em 2019: Fazer menos mal, não apenas ‘mais bem’”.

O texto vai mais para a área de engajamento, contudo me provocou enquanto editor web. Remeteu a fatos para entender isso. Dois anos atrás, o dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano de 2016. Foi um alerta. Pois em 2018 foi “tóxico”. Entre essas duas, ainda houve “youthquake” – termo sobre mudanças causadas por jovens.

Na prática, as escolhes do Oxford podem não significar nada em um primeiro momento, mas têm muito a ver com o trabalho da imprensa. Não estaria o jornalismo, em meio a tantas plataformas e meios, criando mais ruídos do que explicações? E, ampliando a tese, não são esses ruídos que causam também sua própria deterioração?

“Fazer menos mal” deveria gerar eco a editores e repórteres. Se o jornalismo online já se consolidou nos últimos anos, de repente é o momento de buscar amadurecer. Encontrar o ritmo adequado para equilibrar informação, contexto e agilidade – três elementos necessários a uma boa matéria ou reportagem, mas que sozinhos podem tornar-se ineficientes. Ou ruídos. Especialmente numa época em que todos têm voz nas redes sociais.

É preciso saber filtrar o que é realmente relevante. Voltar umas casinhas para construir melhor cada matéria a ser publicada. Isso diferenciará redações sérias de meros republicadores de conteúdo oficial. E assim, pouco a pouco, recuperar o espaço perdido devido a ação daqueles que querem ver a imprensa fraca.

Que 2019 o jornalismo busque mais explicação e menos declaração.

O jornalismo, o zap e o divã

zap

O post anterior teve objetivo inicial de fazer uma breve provocação aos jornalistas. Mais pelo lado tecnológico e da necessidade de se manter próximo, especialmente, de novos e futuros leitores, sem apenas esperar que eles venham até os veículos – algo que, na era analógica, acontecia naturalmente.

Porém, até em razão do avançar da cobertura política, já se adiantou ao prenunciar o que haverá tão logo em breve: o jornalismo no divã. Agora não necessariamente falando sobre tecnologia e sim em termos de credibilidade. A questão que estas eleições estão escancarando é: por que devo acreditar em um jornal?

Talvez – pois aqui não haverá respostas, no máximo propostas de linhas de pensamento: a reflexão pode se fazer do cenário em que a leitura de veículos ficou cara e distante, seja por questões de tempo ou dinheiro para passar do paywall, essa barreira cada vez mais comum. Pouco a pouco nos últimos anos, a entidade “grande imprensa” se afastou de grande parcela do público. Isso ao mesmo tempo em que diversos sites, tanto com viés à esquerda ou à direita, surgiam como fontes.

Esse afastamento pode ter sido muito foco em jornalismo e pouco em comunicação. Um olhar demasiado sobre a influência do Facebook e suas constantes mudanças nos algoritmos que fez, esquecendo-se de outras formas de se conversar (e se informar). O WhatsApp, ainda que esteja instalado em praticamente todos os smartphones, quiçá tenha ficado em segundo plano nas redações, visto muito mais como um receptor de sugestões de pautas do que um emissor de conteúdo – mesmo que alguns jornais transmitam conteúdo pelo app. Alguém que tem tino para comunicação deu-se conta que aí havia uma grande ferramenta de massa.

Parêntese: aqui a jornalista Maria Carolina Santos faz uma brilhante análise do crescimento do “zap” em meio à “queda” da imprensa. É um baita texto, ainda que o alerta já havia sido dado meses antes, quando um estudo advertia sobre os planos pré-pagos de celulares que forneciam somente alguns aplicativos gratuitos, que, resumindo, davam ao leitor de baixa renda acesso ao ruído, entretanto impedia a verificação em algum site jornalístico. Aí, como escreveu o professor Luiz Ferraretto, a informação pendeu para os grupos de afinidade.

Tal situação pavimentou o caminho a um cenário em que as fake news deitaram e rolaram ao longo desta eleição. E, em boa parte, a favor do líder das pesquisas e provável futuro presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Só por isso que ele está perto de vencer o pleito? Claro que não. Há diversos outros fatores e vetores para sua provável vitória. Mas no que tange o jornalismo, essa é uma das mais importantes: o jornalismo acabou sobreposto a memes. A lacração venceu a apuração. E quando destacou-se, foi em parte desacreditado.

É preciso perceber e corrigir diversos pontos. Uma auto-análise. Em que momento o jornalismo se afastou assim da vida das pessoas? Distanciou-se a ponto de ofuscar a credibilidade de veículos com décadas no mercado. Houve algum esforço e preocupação para a contenção de notícias falsas. Contudo, ao que parece, o esforço focou demais no Facebook e esqueceu-se do WhatsApp. O jornalismo não viu isso?

A sobrevivência de um veículo em meio a um mercado em transformação é complicado, mas o jornalismo tem uma missão antes de tudo, que é a de informar. Então, o paywall é necessário (ou mesmo até ético) em matérias e reportagens de grande interesse público? Tão importante quanto: qual o meio termo para isso? O bom jornalismo sempre foi caro, afinal.

O jornalismo precisa de um divã para refletir sobre as diversas questões que analisará a partir deste outubro. Provavelmente levará tempo até entender tudo.

Desapegos

jornais - bancaPara que serve um jornal e para que serve o jornalismo?

O que parece um questionamento cuja resposta tenderia a ser instintiva e fácil torna-se uma pergunta complicada em redações por aí – em níveis regional, nacional e internacional. Talvez por que o nome da profissão derive de seu meio mais consagrado. É uma hipótese. Mas também é uma forma de apego.

Já são mais de 20 anos de internet comercial e pelo menos 17 de hard news na web. E ainda assim boa parte do jornalismo se vê apegado a um pedaço de papel que já está sendo vendido como substituto de tapete higiênico para cachorros na principal avenida da maior cidade do país.

Nesta mesma avenida, as bancas de revistas cada vez mais tornam-se apenas bancas. Em meio a crise de editoras outrora poderosas, o meio, igualmente impresso, perde destaque em vitrinas que já foram inteiramente suas para souvenirs e toda sorte de quinquilharias que possam render um dinheiro mais imediato ao dono do estabelecimento – alguns que já aceitam até Vale Refeição para vender Mickey de pelúcia:

banca jornais

São exemplos visíveis: o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor, além de retomar a credibilidade perdida em algum momento, quando, por alguma razão, afastou-se ou foi afastado do público ao qual costumava informar.

Vivemos o ínterim dos turnos de uma eleição que ficará marcada pela ampla propagação de notícias falsas e também por ser pleito em que as pessoas se informaram mais olhando a tela de um aplicativo de troca de mensagem no seu celular do que em um site de jornal. É o caminho para um Estado de desinformação e isso não é bom.

O público precisa voltar a confiar massivamente no jornalismo. Mas o jornalismo precisa dar essa garantia de que é confiável.

Jornalismo precisa ser muito mais que números

O bom humor é algo que não necessariamente faz gargalhar, mas que provoca reflexão. Vídeo recente do Porta dos Fundos pode ser um caso desses: “Tabela de conversão” satiriza a busca por uma manchete em um jornal carioca qualquer. Uma série de ocorrências sangrentas na periferia são levantadas – e ironizadas pelo editor – até se decidir pelo de uma pessoa branca esfaqueada em zona nobre levar o destaque da capa.

Bom mesmo se fosse apenas engraçado ou tragicômico e não tivesse quê de verdade. Ainda que, é claro, imagino e quero acreditar que os debates não são naquele nível do canal em redações reais – ou na maioria dessas. Mas me incomodou um pouco que o resultado não chega a ser tão diferente.

Óbvio que há uma série de critérios técnicos na definição do que é notícia e principalmente aquilo que vira manchete, tais como localismo e ineditismo. Pode, por exemplo, ganhar destaque o mais inusitado sobre o mais grave.

A verossimilhança do vídeo com algumas situações que já reparei na imprensa, porém, me incomodou. No âmbito regional e recente, aconteceram algumas situações das quais lembrei assim que vi o vídeo. Não por se dar destaque a um ou outro caso, todavia pela seleção daquilo que terá ou não repercussão futura.

Infelizmente, casos de homicídios não têm faltado na mídia gaúcha. E essa situação vem de muito tempo. Só que há uma clara impressão de que os casos mais graves – a exceção de chacinas, que volta e meia têm pipocado no noticiário – têm perdido suítes para alguns específicos, em que as vítimas eram casualmente mulheres, brancas e bonitas.

A questão é delicada, assim como o tema. A rigor, não há caso de homicídio que não mereceria uma nova matéria. Afinal, estamos falando de uma vida ceifada. Porém, diante da infinitude de casos, quando é impossível repercuti-los, quais escolher?

porta

O novo jornalismo – esse com ainda mais pressa para se publicar, menos repórteres e menor contato direto com o local dos crimes – vive o desafio de não se desumanizar. Não deixar crimes virarem meros números corriqueiros – a “terça-feira lá”, citada no vídeo. Em tempos de very hard news, o contexto é tesouro.

O jornalismo é e precisa ser uma ciência humana. Necessita tocar o público e as autoridades. Isso normalmente é consequência da boa apuração numa boa pauta. Alcançar manchete e ter repercussão deve ser visto como consequência. Antes do clique, o bom jornalismo tem como missão identificar e cobrar solução daquilo que está errado na sociedade. Em prol da sociedade.

Quer pagar quanto?

tuite

Dias atrás lancei uma pergunta despretensiosa no Twitter a fim de descobrir quanto que meus seguidores estavam dispostos a pagar pela assinatura digital de um veículo jornalístico. Esclareci que não se tratava de uma pesquisa científica ou coisa assim, até porque faltam aí diversas variáveis. O mote da questão remetia ao velho bordão das Casas Bahia: “Quer pagar quanto?”

Houve três faixas de preço: até R$ 9,90, até R$ 19,90 e até R$ 29,90. Em três dias 27 votaram, garantindo uma vitória acachapante da primeira e mais barata opção (78%). Outros 19% admitiriam desembolsar até R$ 19,90 para se informar. O restante, 3%, deu uma de mão aberta no levantamento e se dispôs a bancar R$ 29,90 – praticamente R$ 1 por dia – por um jornal online.

Apesar da vitória, ficou um palpite sensível: a opção de pagar até R$ 9,90 só saiu vencedora porque a pesquisa não ofereceu a alternativa: “Nada”.

A falta de disposição em não pagar pelo conteúdo jornalístico decorre de uma clara sensação de que as notícias – matéria-prima do jornalismo – hoje estão facilmente ao nosso alcance. E são, via de regra, gratuitas, através das redes sociais, por exemplo, onde manchetes dos links postados, seja por veículos ou por pessoas, já de certa maneira informam.

Conste-se também a imensa gama de canais por onde se informar – fenômeno esse projetado já no início do século, ou seja nos anos iniciais da internet comercial, quando dos primeiros passos da chamada web 2.0, que quebraria o modelo até então consolidado da comunicação emissor-mensagem-receptor.

E o modelo quebrou, de fato. Receptores tornaram-se emissores e multiplicadores de conteúdos. Em questão de pouco tempo, diversos canais alternativos e informativos surgiram na concorrência a veículos de comunicação já consolidados, alguns havia décadas. Nem todos necessariamente jornalísticos, mas sim uma espécie de simulacro, o qual já satisfaz a boa parte do público leigo e/ou ansioso por apenas uma determinada informação.

Importante frisar que paralelo a esta quebra, consolidaram-se nas redes sociais a distribuição de conteúdo. E de forma linear foram colocados um clique gratuito e um clique pago, por meio de paywall, ao mesmo tempo em que mudavam drasticamente o mercado publicitário, tomando para si uma verba que sustentava redações.

Ano após ano, portanto, o leitor (ou antigo receptor) desacostumou-se a ir atrás da notícia, pois neste vaivém ela de alguma forma acabava aparecendo. E até não muito tempo atrás, sempre de graça. Então, por que pagar? E, se pagar, quanto?

Determinar quanto custa o trabalho jornalístico é algo subjetivo, porque mudam, de texto para texto, a quantidade de tempo empregado, gastos com transporte, telefone, internet, entre outras variáveis, como um bom servidor, necessários para a produção e propagação do conteúdo. Lado a lado poderão estar publicações prontas em minutos e reportagens feitas ao longo de semanas. Contudo faz-se necessário, e já com urgência, entender a mudança de cenário, agora, com internet – e o mobile – à frente do tradicional impresso.

A mesma aposta para um produto nem sempre agradável

Pesa ao jornalismo, principalmente ao diário de hard news, ainda ter que “vender” notícias nem sempre agradáveis ao leitor, ao invés de fatos ou conveniências que lhe proporcionem algum tipo prazer, semelhante à sensação quando se compra algo que gosta ou se procura. Em outras palavras, vender jornalismo pode significar ter que buscar receitas com um produto que nem todo mundo gostaria de comprar.

um break bem-vindo porque o texto é grande e foi impossível não lembrar deste filme:

ok, retomando

Em uma linha geral, a rentabilização na internet passa por conhecer os dados do consumidor e saber como tomar pouco de dinheiro de cada um. Receita que, apesar de trabalhosa, se parece mais segura que o contrário, receber muito de poucos – base da publicidade que passou décadas aportando o jornalismo.

Os veículos mais antigos necessitam reconhecer que, apesar de tanto tempo de história, há todo um trabalho que precisa ser reiniciado quase que do zero, situação que coloca novos portais ao lado de nomes consagrados. Disputam o clique de um mesmo leitor. E ele, se estiver disposto, irá querer pagar pouco e ter retorno.

Pouco, neste caso, pode ser sinônimo de estabilidade. E isso é o contrário do que os jornais tradicionais brasileiros parecem apostar. Pouco não significa promoção. A pergunta que motivou o tuíte citado foi originada a partir da busca por assinaturas em jornais consagrados no Brasil.

Três dos maiores e mais acessados veículos jornalísticos do país usam de promoções na esperança de atrair assinantes. Em São Paulo, Folha e Estadão cobram apenas R$ 1,90 no primeiro mês para depois multiplicar o valor: a Folha para R$ 29,90 e o Estadão, R$ 21,90. O Globo, do Rio, busca uma medida mais equilibrada e paulatina: R$ 9,90 nos seis primeiros meses e dobra para R$ 19,90 a partir do sétimo.

No Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente. GaúchaZH tem a mais arrojada promoção, cobrando R$ 4,90 no primeiro ano de assinatura, só que, a partir de então, o preço quase quadruplica e salta para R$ 18,90. Principal concorrente em Porto Alegre, o Correio do Povo oferece a assinatura por R$ 14,90 nos primeiros seis meses, com o preço praticamente dobrando, indo para R$ 29,90, do sétimo mês em diante.

Também da Capital, o Jornal do Comércio tem um modelo de negócio semelhante à assinatura do impresso, com planos mensal, trimestral, semestral e anual, com desconto progressivo. Enquanto assinar por um mês custa R$ 24,90, o preço do anual torna o gasto por mês a R$ 20,80 – mediante o pagamento único de R$ 249,60. Para efeitos de comparação no âmbito regional, o Diário Popular, de Pelotas – uma das maiores cidades do interior gaúcho – tem praticamente todo o seu conteúdo restrito apenas para os assinantes. A assinatura, sem promoções, custa R$ 9,90 por mês.

Veículos nascidos na internet já adotam uma política de preço levemente mais baixa, ainda que sua cobertura seja em nível nacional. O Jota, especializado em conteúdo jurídico, cobra R$ 19,90 por mês dos assinantes, oferecendo aí outros tipos de seções, como newsletters especializadas. O Nexo pede R$ 12. Ambos dão dois meses de graça na compra do plano anual.

Se não uma luz, um exemplo

Uma breve olhada para o cenário internacional deve esmiuçar o trabalho desenvolvido pelo The New York Times, que desde o ano passado já superou o número de 2,6 milhões de assinantes exclusivamente digitais. Em 2018, o NYT alcançou a casa do bilhão de dólares de receita com assinantes – contando aqui também os assinantes do impresso, ainda responsáveis por boa parte do bolo, frise-se.

O esforço recente resultou numa virada sadia, ocorrida nesta década: hoje o The New York Times fatura mais com assinaturas do que com publicidade. O preço de uma assinatura digital básica não tem promoção, mas tampouco varia: US$ 6. Na conversão de julho de 2018, é mais barato que quatro dos sete jornais brasileiros supracitados.

Compreender o fenômeno do New York Times e considerar suas variáveis com o mercado brasileiro – que são muitas – talvez seja entender o norte para o caminho da rentabilidade dos veículos jornalísticos online. A partir daí direcionar os esforços tanto na produção do conteúdo a ser oferecido quanto onde e como buscar potenciais novos leitores dispostos a pagar para se informar.

Não existe fórmula mágica, existe sim um mercado novo a ser pensado pelos publishers. E como toda novidade é necessário conquistar o novo leitor, tanto com preço, como com conteúdo. Não adianta comparar assinaturas de jornais a modelos de streaming como Netflix e Spotify ignorando os tópicos preço e qualidade do produto entregue. Só a partir daí acontece a fidelização e, consequentemente, a rentabilização.

Promoções, claro, são parte importante de estratégias de marketing e seu poder não deve ser desprezado. No entanto, diante de fatores como principalmente a instabilidade econômica atual e o alto índice de desemprego nacional, oferecer um preço fixo mensal pode ser mais atrativo do que fazer o valor ao qual o leitor se acostuma a pagar dobrar em questão de tempo.

Numa situação em que a consagrada teoria de McLuhan virou algo do passado, o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor.

 

*Artigo também publicado no Observatório da Imprensa