Livros dos meus mestres

livros

Este trata-se de um post que vem para esta página com cerca de 24 horas de atraso. Mas tudo bem, a vida é corrida. E em homenagem ao Dia do Livro, celebrado nesse 29 de outubro que recém passou, festejo esta foto de dois livros, de duas pessoas com extrema relevância para a minha formação.

O primeiro já falamos por aqui, um biografia do professor Marques Leonam, um marco no aprendizado de uma geração inteira de jornalistas gaúchos no que tange o ofício do repórter, a busca pela notícia. O segundo, “Não existe mais dia seguinte”, apesar do nome pós-apocalíptico – que até poderia ser apropriado a muitos derrotados eleitorais nesse segundo turno – é uma obra mais amena: o primeiro livro do professor Vitor Necchi.

O lançamento desses dois livros neste ano acabou por ser uma feliz coincidência – também pelo fato em que ambos geraram grandes filas e abraços apertados. Na Famecos da primeira década deste século, Leonam e Vitor, não nesta ordem, foram os responsáveis por ministrar as disciplinas de redação aos futuros jornalistas que frequentavam aquelas salas de aula – dentre eles, eu.

Se Leonam pregava o tino da reportagem, Vitor ensinava o refinamento do bom texto – e a diferença que isso faz para o leitor. A aula dos dois se complementava: jornalismo é uma missão em prol da cidadania, mas também pode ser uma arte e, como tal, deve se moldar para atingir os mais variados públicos – culto, popular, gonzo…

Então, com um dia de atraso, contudo ainda fazendo referência ao Dia do Livro, meu muito obrigado aos professores, que tanto contribuíram na minha formação.

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O jornalismo, o zap e o divã

zap

O post anterior teve objetivo inicial de fazer uma breve provocação aos jornalistas. Mais pelo lado tecnológico e da necessidade de se manter próximo, especialmente, de novos e futuros leitores, sem apenas esperar que eles venham até os veículos – algo que, na era analógica, acontecia naturalmente.

Porém, até em razão do avançar da cobertura política, já se adiantou ao prenunciar o que haverá tão logo em breve: o jornalismo no divã. Agora não necessariamente falando sobre tecnologia e sim em termos de credibilidade. A questão que estas eleições estão escancarando é: por que devo acreditar em um jornal?

Talvez – pois aqui não haverá respostas, no máximo propostas de linhas de pensamento: a reflexão pode se fazer do cenário em que a leitura de veículos ficou cara e distante, seja por questões de tempo ou dinheiro para passar do paywall, essa barreira cada vez mais comum. Pouco a pouco nos últimos anos, a entidade “grande imprensa” se afastou de grande parcela do público. Isso ao mesmo tempo em que diversos sites, tanto com viés à esquerda ou à direita, surgiam como fontes.

Esse afastamento pode ter sido muito foco em jornalismo e pouco em comunicação. Um olhar demasiado sobre a influência do Facebook e suas constantes mudanças nos algoritmos que fez, esquecendo-se de outras formas de se conversar (e se informar). O WhatsApp, ainda que esteja instalado em praticamente todos os smartphones, quiçá tenha ficado em segundo plano nas redações, visto muito mais como um receptor de sugestões de pautas do que um emissor de conteúdo – mesmo que alguns jornais transmitam conteúdo pelo app. Alguém que tem tino para comunicação deu-se conta que aí havia uma grande ferramenta de massa.

Parêntese: aqui a jornalista Maria Carolina Santos faz uma brilhante análise do crescimento do “zap” em meio à “queda” da imprensa. É um baita texto, ainda que o alerta já havia sido dado meses antes, quando um estudo advertia sobre os planos pré-pagos de celulares que forneciam somente alguns aplicativos gratuitos, que, resumindo, davam ao leitor de baixa renda acesso ao ruído, entretanto impedia a verificação em algum site jornalístico. Aí, como escreveu o professor Luiz Ferraretto, a informação pendeu para os grupos de afinidade.

Tal situação pavimentou o caminho a um cenário em que as fake news deitaram e rolaram ao longo desta eleição. E, em boa parte, a favor do líder das pesquisas e provável futuro presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Só por isso que ele está perto de vencer o pleito? Claro que não. Há diversos outros fatores e vetores para sua provável vitória. Mas no que tange o jornalismo, essa é uma das mais importantes: o jornalismo acabou sobreposto a memes. A lacração venceu a apuração. E quando destacou-se, foi em parte desacreditado.

É preciso perceber e corrigir diversos pontos. Uma auto-análise. Em que momento o jornalismo se afastou assim da vida das pessoas? Distanciou-se a ponto de ofuscar a credibilidade de veículos com décadas no mercado. Houve algum esforço e preocupação para a contenção de notícias falsas. Contudo, ao que parece, o esforço focou demais no Facebook e esqueceu-se do WhatsApp. O jornalismo não viu isso?

A sobrevivência de um veículo em meio a um mercado em transformação é complicado, mas o jornalismo tem uma missão antes de tudo, que é a de informar. Então, o paywall é necessário (ou mesmo até ético) em matérias e reportagens de grande interesse público? Tão importante quanto: qual o meio termo para isso? O bom jornalismo sempre foi caro, afinal.

O jornalismo precisa de um divã para refletir sobre as diversas questões que analisará a partir deste outubro. Provavelmente levará tempo até entender tudo.

Desapegos

jornais - bancaPara que serve um jornal e para que serve o jornalismo?

O que parece um questionamento cuja resposta tenderia a ser instintiva e fácil torna-se uma pergunta complicada em redações por aí – em níveis regional, nacional e internacional. Talvez por que o nome da profissão derive de seu meio mais consagrado. É uma hipótese. Mas também é uma forma de apego.

Já são mais de 20 anos de internet comercial e pelo menos 17 de hard news na web. E ainda assim boa parte do jornalismo se vê apegado a um pedaço de papel que já está sendo vendido como substituto de tapete higiênico para cachorros na principal avenida da maior cidade do país.

Nesta mesma avenida, as bancas de revistas cada vez mais tornam-se apenas bancas. Em meio a crise de editoras outrora poderosas, o meio, igualmente impresso, perde destaque em vitrinas que já foram inteiramente suas para souvenirs e toda sorte de quinquilharias que possam render um dinheiro mais imediato ao dono do estabelecimento – alguns que já aceitam até Vale Refeição para vender Mickey de pelúcia:

banca jornais

São exemplos visíveis: o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor, além de retomar a credibilidade perdida em algum momento, quando, por alguma razão, afastou-se ou foi afastado do público ao qual costumava informar.

Vivemos o ínterim dos turnos de uma eleição que ficará marcada pela ampla propagação de notícias falsas e também por ser pleito em que as pessoas se informaram mais olhando a tela de um aplicativo de troca de mensagem no seu celular do que em um site de jornal. É o caminho para um Estado de desinformação e isso não é bom.

O público precisa voltar a confiar massivamente no jornalismo. Mas o jornalismo precisa dar essa garantia de que é confiável.

A aula da vila

Leonam por Lenara Pothin

Leonam | Foto: Lenara Pothin / Famecos

O Mestre Leonam foi de longe o melhor professor de jornalismo por características únicas, marcantes e singulares. Leonam tem o dom de cativar um jovem a ser um bom repórter por meio de sua oratória singular. E não raro suas aulas tornavam-se marcos na formação de profissionais. Por serem únicas, algumas grudam na memória.

Uma dessas aulas era a que ele apresentava o trabalho de ir à vila. Qualquer uma. Ele pedia isso a alunos de classe média alta, na maioria brancos e, logicamente, frequentadores de uma universidade privada de Porto Alegre, cuja mensalidade, já naquela época, era mais cara que o salário mínimo atual, de 2018. A capital, como tantas outras, jogou suas vilas e favelas para áreas mais periféricas da cidade, não tão próximas àquela sala de aula onde Leonam passava conhecimentos. Ou seja, para muitos alunos ali, não era uma paisagem conhecida.

Eu já tinha ido a algumas vilas, mas não podia dizer-me um conhecedor – e tampouco posso dizê-lo hoje. E cumprir o desejo do mestre de “ir a uma vila, sem pauta, para fazer uma matéria” era considerado um pouco excêntrico. “Precisa mesmo?” Quando ele sugeriu, houve algum resmungo em resistência. Nada, porém, que superasse a lábia do Leonam. Ao fim da aula, mesmo que fosse 22h30, eu iria naquele momento para cumprir o que me fora pedido.

Claro que não fui na hora. Embarquei rumo à Vila Cruzeiro, uma das mais perigosas de Porto Alegre, uns dias depois. Já sem a coragem do momento, admito que pedi companhia/escolta ao meu ex-padrasto – um negro e conhecedor de muitos recantos da capital gaúcha. Foi, ao fim, desnecessário. Entrei por algumas vielas, entrevistei umas pessoas e voltei pra casa são e salvo logo depois.

A matéria da vila foi inesquecível. Não por ser boa e sim pela didática da reportagem. Naquele momento experimentei o confronto que o jornalismo propicia. Ouvi versões antagônicas de quem esperava por atendimento em um posto de saúde e de quem não pode atender melhor. Apesar do objetivo mútuo, ali havia um forte confronto de versões. Reportei da melhor forma que considerava possível então. Nem lembro da nota, mas ganhei um elogio digno de colocar em um quadro: “Isso não só mostra o domínio da linguagem jornalística como a presença de um repórter a serviço da cidadania”.

A aula do Leonam era sobre jornalismo, visava formar repórteres. Mas poderia ser justamente aquilo, de cidadania. Fazer gente de classe alta colocar o pé na terra da rua esburacada de uma vila, onde a maioria das famílias se sustentam com míseras centenas de reais, deveria ser uma pública. Desvendar o que há atrás dos muros das avenidas, a realidade crua de milhões de brasileiros nos tornaria melhores cidadãos. Vivemos num país com demandas importantes há anos. Só que a maioria delas está distante dos centros das cidades. Sem esse conhecimento, pouco a pouco, tornamo-nos insensíveis à nossa própria realidade de cidade, estado e país.

Apesar de ter o conhecimento na palma das mãos, falta-nos, enquanto brasileiros de classe média e alta, vivência com a dificuldade para nos enxergarmos como sociedade. Existem diversas desigualdades a serem corrigidas para que, assim, o Brasil possa crescer como um todo – e não como uma geringonça onde quase 30% de toda a riqueza do país está nas mãos de 1%.

É preciso conhecer o Brasil de verdade.

Jornalismo precisa ser muito mais que números

O bom humor é algo que não necessariamente faz gargalhar, mas que provoca reflexão. Vídeo recente do Porta dos Fundos pode ser um caso desses: “Tabela de conversão” satiriza a busca por uma manchete em um jornal carioca qualquer. Uma série de ocorrências sangrentas na periferia são levantadas – e ironizadas pelo editor – até se decidir pelo de uma pessoa branca esfaqueada em zona nobre levar o destaque da capa.

Bom mesmo se fosse apenas engraçado ou tragicômico e não tivesse quê de verdade. Ainda que, é claro, imagino e quero acreditar que os debates não são naquele nível do canal em redações reais – ou na maioria dessas. Mas me incomodou um pouco que o resultado não chega a ser tão diferente.

Óbvio que há uma série de critérios técnicos na definição do que é notícia e principalmente aquilo que vira manchete, tais como localismo e ineditismo. Pode, por exemplo, ganhar destaque o mais inusitado sobre o mais grave.

A verossimilhança do vídeo com algumas situações que já reparei na imprensa, porém, me incomodou. No âmbito regional e recente, aconteceram algumas situações das quais lembrei assim que vi o vídeo. Não por se dar destaque a um ou outro caso, todavia pela seleção daquilo que terá ou não repercussão futura.

Infelizmente, casos de homicídios não têm faltado na mídia gaúcha. E essa situação vem de muito tempo. Só que há uma clara impressão de que os casos mais graves – a exceção de chacinas, que volta e meia têm pipocado no noticiário – têm perdido suítes para alguns específicos, em que as vítimas eram casualmente mulheres, brancas e bonitas.

A questão é delicada, assim como o tema. A rigor, não há caso de homicídio que não mereceria uma nova matéria. Afinal, estamos falando de uma vida ceifada. Porém, diante da infinitude de casos, quando é impossível repercuti-los, quais escolher?

porta

O novo jornalismo – esse com ainda mais pressa para se publicar, menos repórteres e menor contato direto com o local dos crimes – vive o desafio de não se desumanizar. Não deixar crimes virarem meros números corriqueiros – a “terça-feira lá”, citada no vídeo. Em tempos de very hard news, o contexto é tesouro.

O jornalismo é e precisa ser uma ciência humana. Necessita tocar o público e as autoridades. Isso normalmente é consequência da boa apuração numa boa pauta. Alcançar manchete e ter repercussão deve ser visto como consequência. Antes do clique, o bom jornalismo tem como missão identificar e cobrar solução daquilo que está errado na sociedade. Em prol da sociedade.

Quer pagar quanto?

tuite

Dias atrás lancei uma pergunta despretensiosa no Twitter a fim de descobrir quanto que meus seguidores estavam dispostos a pagar pela assinatura digital de um veículo jornalístico. Esclareci que não se tratava de uma pesquisa científica ou coisa assim, até porque faltam aí diversas variáveis. O mote da questão remetia ao velho bordão das Casas Bahia: “Quer pagar quanto?”

Houve três faixas de preço: até R$ 9,90, até R$ 19,90 e até R$ 29,90. Em três dias 27 votaram, garantindo uma vitória acachapante da primeira e mais barata opção (78%). Outros 19% admitiriam desembolsar até R$ 19,90 para se informar. O restante, 3%, deu uma de mão aberta no levantamento e se dispôs a bancar R$ 29,90 – praticamente R$ 1 por dia – por um jornal online.

Apesar da vitória, ficou um palpite sensível: a opção de pagar até R$ 9,90 só saiu vencedora porque a pesquisa não ofereceu a alternativa: “Nada”.

A falta de disposição em não pagar pelo conteúdo jornalístico decorre de uma clara sensação de que as notícias – matéria-prima do jornalismo – hoje estão facilmente ao nosso alcance. E são, via de regra, gratuitas, através das redes sociais, por exemplo, onde manchetes dos links postados, seja por veículos ou por pessoas, já de certa maneira informam.

Conste-se também a imensa gama de canais por onde se informar – fenômeno esse projetado já no início do século, ou seja nos anos iniciais da internet comercial, quando dos primeiros passos da chamada web 2.0, que quebraria o modelo até então consolidado da comunicação emissor-mensagem-receptor.

E o modelo quebrou, de fato. Receptores tornaram-se emissores e multiplicadores de conteúdos. Em questão de pouco tempo, diversos canais alternativos e informativos surgiram na concorrência a veículos de comunicação já consolidados, alguns havia décadas. Nem todos necessariamente jornalísticos, mas sim uma espécie de simulacro, o qual já satisfaz a boa parte do público leigo e/ou ansioso por apenas uma determinada informação.

Importante frisar que paralelo a esta quebra, consolidaram-se nas redes sociais a distribuição de conteúdo. E de forma linear foram colocados um clique gratuito e um clique pago, por meio de paywall, ao mesmo tempo em que mudavam drasticamente o mercado publicitário, tomando para si uma verba que sustentava redações.

Ano após ano, portanto, o leitor (ou antigo receptor) desacostumou-se a ir atrás da notícia, pois neste vaivém ela de alguma forma acabava aparecendo. E até não muito tempo atrás, sempre de graça. Então, por que pagar? E, se pagar, quanto?

Determinar quanto custa o trabalho jornalístico é algo subjetivo, porque mudam, de texto para texto, a quantidade de tempo empregado, gastos com transporte, telefone, internet, entre outras variáveis, como um bom servidor, necessários para a produção e propagação do conteúdo. Lado a lado poderão estar publicações prontas em minutos e reportagens feitas ao longo de semanas. Contudo faz-se necessário, e já com urgência, entender a mudança de cenário, agora, com internet – e o mobile – à frente do tradicional impresso.

A mesma aposta para um produto nem sempre agradável

Pesa ao jornalismo, principalmente ao diário de hard news, ainda ter que “vender” notícias nem sempre agradáveis ao leitor, ao invés de fatos ou conveniências que lhe proporcionem algum tipo prazer, semelhante à sensação quando se compra algo que gosta ou se procura. Em outras palavras, vender jornalismo pode significar ter que buscar receitas com um produto que nem todo mundo gostaria de comprar.

um break bem-vindo porque o texto é grande e foi impossível não lembrar deste filme:

ok, retomando

Em uma linha geral, a rentabilização na internet passa por conhecer os dados do consumidor e saber como tomar pouco de dinheiro de cada um. Receita que, apesar de trabalhosa, se parece mais segura que o contrário, receber muito de poucos – base da publicidade que passou décadas aportando o jornalismo.

Os veículos mais antigos necessitam reconhecer que, apesar de tanto tempo de história, há todo um trabalho que precisa ser reiniciado quase que do zero, situação que coloca novos portais ao lado de nomes consagrados. Disputam o clique de um mesmo leitor. E ele, se estiver disposto, irá querer pagar pouco e ter retorno.

Pouco, neste caso, pode ser sinônimo de estabilidade. E isso é o contrário do que os jornais tradicionais brasileiros parecem apostar. Pouco não significa promoção. A pergunta que motivou o tuíte citado foi originada a partir da busca por assinaturas em jornais consagrados no Brasil.

Três dos maiores e mais acessados veículos jornalísticos do país usam de promoções na esperança de atrair assinantes. Em São Paulo, Folha e Estadão cobram apenas R$ 1,90 no primeiro mês para depois multiplicar o valor: a Folha para R$ 29,90 e o Estadão, R$ 21,90. O Globo, do Rio, busca uma medida mais equilibrada e paulatina: R$ 9,90 nos seis primeiros meses e dobra para R$ 19,90 a partir do sétimo.

No Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente. GaúchaZH tem a mais arrojada promoção, cobrando R$ 4,90 no primeiro ano de assinatura, só que, a partir de então, o preço quase quadruplica e salta para R$ 18,90. Principal concorrente em Porto Alegre, o Correio do Povo oferece a assinatura por R$ 14,90 nos primeiros seis meses, com o preço praticamente dobrando, indo para R$ 29,90, do sétimo mês em diante.

Também da Capital, o Jornal do Comércio tem um modelo de negócio semelhante à assinatura do impresso, com planos mensal, trimestral, semestral e anual, com desconto progressivo. Enquanto assinar por um mês custa R$ 24,90, o preço do anual torna o gasto por mês a R$ 20,80 – mediante o pagamento único de R$ 249,60. Para efeitos de comparação no âmbito regional, o Diário Popular, de Pelotas – uma das maiores cidades do interior gaúcho – tem praticamente todo o seu conteúdo restrito apenas para os assinantes. A assinatura, sem promoções, custa R$ 9,90 por mês.

Veículos nascidos na internet já adotam uma política de preço levemente mais baixa, ainda que sua cobertura seja em nível nacional. O Jota, especializado em conteúdo jurídico, cobra R$ 19,90 por mês dos assinantes, oferecendo aí outros tipos de seções, como newsletters especializadas. O Nexo pede R$ 12. Ambos dão dois meses de graça na compra do plano anual.

Se não uma luz, um exemplo

Uma breve olhada para o cenário internacional deve esmiuçar o trabalho desenvolvido pelo The New York Times, que desde o ano passado já superou o número de 2,6 milhões de assinantes exclusivamente digitais. Em 2018, o NYT alcançou a casa do bilhão de dólares de receita com assinantes – contando aqui também os assinantes do impresso, ainda responsáveis por boa parte do bolo, frise-se.

O esforço recente resultou numa virada sadia, ocorrida nesta década: hoje o The New York Times fatura mais com assinaturas do que com publicidade. O preço de uma assinatura digital básica não tem promoção, mas tampouco varia: US$ 6. Na conversão de julho de 2018, é mais barato que quatro dos sete jornais brasileiros supracitados.

Compreender o fenômeno do New York Times e considerar suas variáveis com o mercado brasileiro – que são muitas – talvez seja entender o norte para o caminho da rentabilidade dos veículos jornalísticos online. A partir daí direcionar os esforços tanto na produção do conteúdo a ser oferecido quanto onde e como buscar potenciais novos leitores dispostos a pagar para se informar.

Não existe fórmula mágica, existe sim um mercado novo a ser pensado pelos publishers. E como toda novidade é necessário conquistar o novo leitor, tanto com preço, como com conteúdo. Não adianta comparar assinaturas de jornais a modelos de streaming como Netflix e Spotify ignorando os tópicos preço e qualidade do produto entregue. Só a partir daí acontece a fidelização e, consequentemente, a rentabilização.

Promoções, claro, são parte importante de estratégias de marketing e seu poder não deve ser desprezado. No entanto, diante de fatores como principalmente a instabilidade econômica atual e o alto índice de desemprego nacional, oferecer um preço fixo mensal pode ser mais atrativo do que fazer o valor ao qual o leitor se acostuma a pagar dobrar em questão de tempo.

Numa situação em que a consagrada teoria de McLuhan virou algo do passado, o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor.

 

*Artigo também publicado no Observatório da Imprensa

Pitacos da Copa – Sobre a Rússia

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Por motivos óbvios de Copa do Mundo, a pesquisa sobre a Rússia foi intensificada no fim do primeiro semestre deste ano. A Rússia enquanto país, não apenas esteriotipada em seu presidente domando ursos ou nos bizarros vídeos de trânsito que volta e meia pululam em timelines alheias.

Um texto e um livro, em especial, me chamaram a atenção em meio ao grande conteúdo disponibilizado. O primeiro que li foi publicado na revista piauí. “Histórias da Rússia”, pelo escritor norueguês Karl Ove Knausgård. Um mergulho numa Rússia profunda, tanto em Moscou quanto nos arredores.

A longa reportagem conta algumas histórias de pessoas, desconectadas entre si, mas que não deixam de ser figuras comuns nesse lado distante da Praça Vermelha. A Rússia, faz bem nós ocidentais lembrar, é muito mais do que aquele chavão-imaginado.

Por sorte e/ou por edição, Knausgård encontrou gente disposta a conversar e contar um pouco de histórias. E daí vai desde um caminhoneiro até a uma senhora de 102 anos. Embalam uma Rússia que o jornalista acredita ainda ser parecida com a descrita por Ivan Turguêniev em “Memórias de um Caçador”, escrito no século XIX.

“A Rússia é uma terra de histórias. Histórias do czar e de seu povo, de Lênin, da revolução e da Grande Guerra Patriótica; da transformação de um país retrógrado num Estado industrial poderoso e moderno; do Sputnik, de Laika e de Gagarin; depois, do reino de terror de Stálin, de um país que se calcificou, estagnou e acabou sucumbindo; e de Vladimir Putin, o oficial da KGB que chegou ao poder em meio ao caos e restabeleceu a ordem. E como ele fez isso? Por meio de histórias do passado recontadas de modo a oferecer uma justificativa à Rússia de hoje.”

Já em “Com vista para o Kremlin”, a jornalista Vivian Oswald relembra o período em que foi correspondente do jornal O Globo em Moscou, no início desta década. A narrativa hoje soa uma história levemente defasada, visto que ela estava lá ao fim do primeiro período de Vladimir Putin, na transição para Dmitri Medvedev.

No texto, Vivian, como diz o mestre Leonam, consegue “jogar o leitor lá”, na realidade moscovita. Consegue-se simpatizar (ou não) com diversas das pessoas citadas ao longo da história. Assim como imaginar-se admirando as famosas estações de metrô da capital russa, de tão bem descrita é, esta parte:

“São verdadeiros museus subterrâneos. Lustres suntuosos, mármores, estátuas de artistas renomados, afrescos, mosaicos e projetos revolucionários que, à época da construção, desafiavam as condições desfavoráveis do clima e as abissais profundidades.”

No livro aparece uma Rússia que ainda abria-se e descobria o capitalismo, isso 20 anos após a perestroika. Isso sem deixar para trás histórias como os apartamentos comunitários e bastidores de reportagens produzidas para o jornal neste período.

São dois textos diferentes e interessantes, que mostram que a Rússia é um país muito mais complexo do que as notícias que chegam cá a este lado do oceano. Vale a pesquisa. E, para quem pode, serve como incentivo para descobrir in loco o país da Copa de 2018.

ps: o primeiro texto seguia disponível para o acesso no site da piauí. O livro tem preço variando entre R$ 22 e R4 39,90 na Estante Virtual