Textos para o Laion

laion-copo

A foto acima é uma das recordações etílicas mais divertidas da minha vida. Éramos jovens e recém-formados. Tu me deste este copo como recordação da tua festa. Da tua alegria. Eu lembro que iria embora, mas tu mostraste que o copo não era para ser só uma lembrança. E o usamos por mais de hora a seguir. Que porre! Que alegria!

A alegria coroava o momento que para nós havia iniciado em março de 2005. Eu juro que lembro até hoje da primeira vez que ouvi o teu nome na lista de chamada. “Eu tenho um colega chamado Laion! Preciso ser amigo dele”, pensei. O objetivo principal seria um dia te presentear com uma espada de Thundera.

A espada de Thundera eu fiquei devendo, mas como compensação lembrei de ti assim que abriu uma vaga para trabalhar conosco no Correio do Povo. Deu certo! Foram três anos de uma parceria absurda, da qual sinto falta até hoje e não é pelo luto de agora. Sozinhos, nós dois fizemos uma das principais coberturas do site em meio a um plantão de 2013.

Sempre pude contar contigo. Como colega, como editor e, principalmente, como amigo.

laion-beira

Acordar com notícias ruins é algo estarrecedor. Somos irrompidos de um sono gostoso e, até sem café (grande vício nosso!), aceleramos a procura de notícias, algo intrínseco à nossa profissão. Devo ter arregalado os olhos quando soube. Imediatamente pensei em ti e numa fração de segundos lembrei que tu não tinhas ido a Buenos Aires, que viajava pouco.

Mas agora era a final. Tu devias ter ido. “Caralho-caralho-caralho”, pensei na hora. Abri Twitter, mergulhei nesta tragédia para saber não só o que tinha ocorrido, quando, onde, como, por que, mas em busca de uma notícia redentora. Essa eu não encontrei, apesar de ser um dos últimos a desistir.

Foi quase como uma forma de negação, mas nesse momento, por longas três horas, trabalhei como se estivesse ao teu lado na redação, procurando esclarecer detalhes e acompanhando quaisquer novidades sobre buscas ou resgates. Infelizmente não achei nem escrevi a notícia que eu queria.

Ao longo dessas horas, recebi umas três ou quatro ligações, além de um punhado de mensagens. Ou perguntavam por ti ou procuravam me reconfortar. Aí eu vi, meu velho, o quão forte foi nossa amizade. Afinal, não nos víamos já há algum tempinho e ainda assim eu era alguma referência tua. Dessa vez não só pelos cabelos parecidos.

Ainda preciso chorar mais, admito. As pancadinhas até agora são um prenúncio de uma dor maior e mais representativa que é esta tua precoce partida. Não mudará nada, mas ajudará a superá-la. Meu amigo, se já fazias falta nas mesas de bar e nos campeonatos de videogame quando moravas em Chapecó, imagina agora.

Ficou um vazio imenso, como o copo acima, que certa noite transbordou felicidade. Hoje, mais que tudo, é uma grande lembrança.

Vou te prometer superar mais essa, até porque tenho a certeza que tu nunca iria querer teus amigos tristes por tua causa. E por ter a certeza de que tu estavas feliz com a viagem, com os rumos da tua carreira, depois daquela maluca curva de 2014. Deixas exemplo de coragem, além de grande parceria e profissionalismo.

Segue na luz, parceiro!

 

À Laura

lauraFelicidade.
Palavra com quase mais sílabas
do que dentes que tinhas na boca até bem pouco.

Até bem pouco, aliás, eras só expectativa
a imaginação de como seria
o cabelo, os olhinhos, o sorriso.

Sorriso fácil, sorriso lindo.
Laura linda, tão cheia de futuro
mas já com um quê nostálgico.

De saudade do dia em que chegaste
do que sorriste, do que andaste.
Da saudade das tuas pequenas descobertas.

Algumas das quais eu já estava lá
a torcer, a te cuidar. Como hoje.
E como por todo o resto da minha vida.

Crônica dos 30

Já faz um certo tempo, admito. Não sei se foi bem neste dia, mas a data em questão é 2 de maio de 1991. Aniversário de 30 anos do meu pai. Mesmo com então cinco anos e quatro meses completados havia pouco, eu ainda aguardo vaga lembrança daquele evento, que é o mais antigo aniversário do pai que eu lembre.

Na verdade, o que me vem à mente se resume apenas a uma única cena: os amigos do pai na sala do apartamento em que morávamos, um bolo que, por ser escuro, deveria ser de chocolate e, o mais marcante: sem vela alguma nele. O que me fez refletir: será que as festas de aniversários de adultos, ao contrário das nossas, seriam tão chatas ao ponto do aniversariante sequer ter o direito de assoprar velas? Nem um parabéns a você? Estaria eu fadado a este destino dali a uns anos?

Eis que dias antes e começar a escrever este texto eu completei 30 anos. Se não tive um filho de cinco anos para me abraçar no dia recebi os cumprimentos de um sobrinho de dez (!) anos – que, se não me falha a memória, me deu parabéns pela primeira vez num aniversário  pessoalmente. Ao menos a primeira vez desde que ele tornou-se um guri, deixando a primeira infância para trás. Acredito que ele irá lembrar da data daqui a uns anos.

Particularmente gosto de fazer aniversário. Até por ser em uma data inóspita, na dita inútil semana entre Natal e Ano Novo. Acaba sendo a chance de rever grandes amigos, enquanto se bebe e se fala bobagem sem culpas ou pudores, tal como a vida poderia ser.

O problema, claro, é que completar aniversário implica em ficar menos jovem – ou mais velho, caso ache melhor, caro(a) leitor. Eu mesmo que não me importo tanto com esta questão da idade acabei parando para refletir um pouco sobre meu novo número e década: os trinta. Já posso ser considerado velho para algumas coisas, mas sou jovem demais para outras. Isso ao mesmo tempo em que também não sou (acho) considerado “homem de meia-idade” e apesar de “a vida começar aos 40”. Cara, que confusão.

O que talvez seja um fator positivo, visto alguns casos de amigos, é que completei 30 anos sem crises. Ainda que nestes dez dias já tenha arrancado um fio branco de barba – em nova batalha que venço numa guerra que hei de perder – está, sim, tudo bem com a nova idade. Aliás, às vezes até esqueço que estou numa nova década. E quando torno a lembrar a idade certa, não há dramas.

Talvez seja uma maneira mais amena de se levar a vida e se encarar novas situações, não sei. Mas sempre é melhor brindar a experiência nova do que lamentar a idade que ficou para trás, e que não voltará mais, queira ou não.

Por via das dúvidas, também é bom nunca deixar de festejar. Mesmo que o bolo dos 30 anos mais se pareça com um de três.

Trinta

A post shared by Tiago Medina (@tiagomedina) on

Missa de sétimo dia

Ironicamente, as mortes fazem parte da vida. E é necessário aceitar isso, porque mais cedo ou mais tarde, sempre chega um triste convite para um velório. Ato fúnebre de um ente tão ou nem próximo. Faz parte.

Em 29 anos já chorei, com mais profundidade, a passagem de três avós e, mais recentemente, uma tia. Mas, apesar de toda a dor, evitei entrar junto no caixão. Não me permiti falecer, ser sepultado em vida. Ainda que às vezes seja difícil lidar com a trágica situação.

É claro, alguns têm mais dificuldades que outros – o que é outra característica inerente à vida –, mas procuro evitar o luto. Me dói, me entristece, contudo me esforço para não me deixar envolver. Luto contra o luto, com o perdão do trocadilho barato, fugindo da missa de sétimo dia, do evento in memoriam. No máximo vou ao bar e faço uma homenagem levantando um copo cheio como homenagem post mortem.

Rio da lembrança da vida que passou, o que não deixa de ser uma forma de tentar rir da morte, essa inevitável. Ao fim e ao cabo, acho que encaro a morte da mesma forma que aprendi a andar de bicicleta: procurando olhar adiante, mas sem nunca esquecer de quem me apoiou antes. A vida segue, anda pra frente.

À Magda Barros
(e todas as boas lembranças que deixou)

(des)Arquitetura da rua

Tristes casas de rua.
Abandonadas, prestes a se despedir,
para darem lugar. Para cair.

As casas saem de cena junto com seu antiquário.
Cenários de histórias, inúmeras crianças. Da infância.
Post mortem, erguidas ficam apenas em parca lembrança.

Por ironia da vida, tijolo a tijolo, uma nova construção desconstrói.

Não há cachorros, varandas, nem mais jardins.
O sol na calçada de outrora agora para na alta torre empreendida.
Escurecida, a rua fica mais só. Longe da sacada, se desabita.

No pátio, namoro de portão inexiste.
Subir na árvore, jogar bola na rua tampouco. Coisa do passado.
Insossos, nós.

Hoje acordo e penso: como será meu vizinho?

Crônica de quem ficou pelo caminho

Antes procurado, hoje esquecido quase somente à própria sorte. Remanescente de outra era vivendo em plena segunda década do século XXI. Ainda de pé, mas cada vez mais curvado, ocioso, por vezes danificado. Para muitos, já abandonado.

Por ele passaram histórias, amores, brigas e fofocas. Em priscas eras motivou até mesmo discussões em filas por seu esperado contato. Numa época de comunicação tão remota, trazia para perto inúmeros queridos que estavam distantes. Antes de internet, wireless e toda essa inundação de nomes em inglês superava fronteiras em questão de segundos.

Hoje padece em via pública. Atrapalha a transeunte apressada que fala ao celular e o adolescente de dedos rápidos enviadores de mensagens instantâneas. Desvia do rumo. Ficou no caminho.

Entristece-te, orelhão. Já não fazes mais parte deste tempo. Há tempos.

Lições que ficam. Ou momento confessional nº 13

Em 1998, a Escola Rainha do Brasil, em Porto Alegre, era bem diferente. Ao contrário de hoje, por exemplo, as mesas para os estudantes não eram brancas, bonitinhas e padronizadas. Ao contrário.

Algumas das mesas eram bem escuras. Perfeitas para alunos que por ventura não sabiam o conteúdo das provas escrever nelas fórmulas e frases mágicas contra notas baixas. Tudo escrito a lápis só ficava visível olhando em um ângulo correto contra a luz. Uma camuflagem perfeita do grafite na madeira.

Pois teve um dia que tinha prova e eu não sabia o que iria cair. Esperto como me julgava decidi escrever alguns recados para mim mesmo numa das classes. Era, talvez, o que me garantisse uma na média, já que o tempo destinado ao estudo foi de certo usado em peladas de futebol.

Só que eu tinha 12 anos e era novo no colégio. E, pior, a prova era depois do recreio, tempo suficiente para comentar com alguns colegas sobre o meu plano perfeito.

Pouco antes do esperado – e temido – período da prova minha ideia foi posta em prática. Porém, por alguma razão, a professora veio ao meu lado. Não só isso: começou a procurar diferentes ângulos contra a luz para achar, entre insuspeitos desenhos infantis, algo comprometedor. Depois de quase dez intermináveis minutos, achou.

Não lembro bem das consequências, mas sim do constrangimento. E das lições aprendidas com apenas 12 anos: 1) não confiar demais naqueles que não se tem a certeza que são amigos; e 2) evitar publicar escritos que podem ser mal interpretados.

Lições, essas, que levo no meu dia a dia de jornalista hoje, 16 anos depois daquela prova de inglês.