Uma vez em Shibuya

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Se houve uma lamentação da viagem ao Japão, além do escasso tempo por lá, foi ver Shibuya “vazia”. Ainda que haja certo desconforto em se atravessar a rua com um monte de gente ao lado (e à frente e atrás), não é todo dia em que se está na esquina conhecida como, de fato, a mais movimentada do mundo.

E não é exagerado dizer isso. Neste encontro de cinco ruas – como bem observa o colega Guilherme Kolling nesta matéria (confesso que nem tinha contado) – ao lado da estação de metrô em Shibuya chegam a passar milhares de pessoas por vez num intervalo de segundos.

Portanto, quando estive lá, o que mais queria era ver: gente. Não chegou a ser o caso, conforme minha guia. Naquela ocasião, uma segunda-feira à noite meio chuvosa, passavam, no máximo, apenas centenas por vez. Todos requerendo um pouco mais de atenção, pois além de desviar de pessoas era necessário ter atenção com os guarda-chuvas vindos de todas as direções.

Mas ainda assim deu para se ter uma ideia do espírito daquele lugar, ou do que é a Tóquio moderna. Especialmente à noite, que seria escura se não fossem aqueles modernos telões com publicidades que levam o transeunte a um cenário futurístico – uma faceta japonesa tão marcante quanto a do Japão “tradicional” de samurais.

Em meio ao povaréo que passa por Shibuya estão, claro, diversos turistas. Que lá estão porque disseram para eles que tem uma esquina cheia de gente, diz-que-diz que fez com que se enchesse mais – e por aí vai. Para eles, talvez atravessar a rua não chegue a ser o ponto alto, mas sim parar no meio do caminho e tirar fotos ou gravar vídeos. E o fazem, mesmo que atrapalhe o trânsito.

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Hachiko

Paralelamente à ânsia por likes e shares eventuais, ao lado da famosa esquina há a lembrança de uma relação profunda, a amizade. Um tributo à amizade, na verdade, simbolizado pela estátua de Hachiko, o cãozinho que ganhou até filme. Hachiko sempre ia à estação aguardar seu dono chegar no trem que para na estação de Shibuya. Um dia, porém, o dono não voltou, pois morreu em acidente. Mas Hachiko não perdeu a esperança de encontrar o velho amigo e voltou lá todos os dias até seu fim. Hoje é lembrado por uma estátua e por diversos cartazes em alusão à sua imagem pela estação.

A peculiar troca de cartões japonesa

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Dentre os antagonismos entre brasileiros e japoneses um dos que mais chama a atenção é o momento de “troca de cartões”. Praticamente uma cerimônia, com direito a hora marcada na rígida e pontual agenda nipônica de compromissos para um evento – que é seguida à risca. “A entrada para uma boa impressão aqui é dar o devido valor para a troca de cartões” ressalta Etsuo Ishikawa, consultor do banco Iwata Shinkin.

Se no Brasil o contato entre desconhecidos potenciais parceiros é feito nos coffee break ou networking, lá a troca de cartões é um momento solene. “A troca de cartão de visita é fundamental, porque no Japão a primeira coisa que você faz ao se apresentar é entregar o seu cartão. E esta troca não pode ser algo sem muita formalidade, porque no cartão tem lá sua qualificação, de onde você é, seu telefone. Toda a informação de quem ele vai passar a interagir”, conta.

E há regras de boa conduta, obviamente. O cartão deve ser entregue (e recebido) com ambas as mãos de forma com a qual quem ganha a apresentação possa lê-la na hora. Não raro ambas as pessoas estão curvadas, como sinal de respeito. “O japonês não pega simplesmente o cartão e o guarda. Ele verifica, faz uma checagem, tenta gravar o nome da pessoa e vê logo o cargo da pessoa”, ensina Etsuo.

Jamais o cartão é guardado imediatamente. Claro que se isso acontecer com estrangeiros se releva, mas entre japoneses seria considerado até uma ofensa.

Um ritual testado por este que vos escreve: “Hmm… Tiago Medina… editor web… óóó”, disse-me num esforçado português o senhor Hirohisa Takayanagi, que preside o Conselho Administrativo do banco Iwata Shinkin. Pulemos aqui o esforçado japonês deste jornalista proferido segundos depois.

Recebido, o cartão vira uma espécie de souvenir da pessoa. “Eles valorizam tanto, que é muito comum guardarem cartões de pessoas importantes e isso servir como um tema para uma conversa, um bate-papo: ‘Olha com quem eu estive aqui’”, observa Etsuo. “Eles têm esse hábito. Você ter o cartão de uma pessoa é extremamente importante.”

O senhor Takayanagi que o diga.

*Texto originalmente publicado no Correio do Povo

Diários Mexicanos: Turismo para o bem e para o mal

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Quantos mexicanos há numa praia mexicana?

Cancún é um polo turístico como outros tantos neste planeta. Tal como um, vive numa dualidade incrível, entre o povo que vem de fora e o povo que vive lá. Mesmo escancarada, a realidade nem sempre é percebida por quem vai lá com foco em tomar a direção do aeroporto (ou da marina) dali a alguns dias.

O próprio aeroporto já é um indicativo. Se lá de cima vê-se um monte de ruas sem asfalto, na pista há um número considerável de aviões de pequeno porte, esses que carregam gente que paga bem mais para não precisar sentar ao lado de desconhecidos em voos comerciais.

A Zona Hotelera de Cancún em nada lembra a horizontalidade de áreas que ficam a não muitos quilômetros dali. O mesmo dinheiro que ergue prédios e resorts enormes à beira da praia, às vezes afasta quem é, originalmente, dali. De tantos prédios quase à beira-mar, entradas públicas à praia transformam-se em ruas quase estreitas entre espigões enormes.

E no mesmo asfalto em que passam carros seis dígitos de dólar, passam ônibus lotados de mexicanos – e alguns turistas mais humildes, ressalte-se. Ainda assim, há diversão entre os locais, que, ao menos num primeiro momento, não escancaram alguma “turismofobia” como em outros cantos do mundo. Talvez, isso de relevar (até certo ponto) a desigualdade, seja uma característica latino-americana.

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A praia e seus espigões

No fim, não é para se reclamar de tudo mesmo. A grana que vem de longe faz a roda girar. E o povo se vira e se esforça para ficar com verdinhas alheias. O vendedor de souvenir fala qualquer coisa para gerar um mínimo de intimidade e atrair aquele que vem de longe, o marinheiro trata bem para expor ao fim da viagem um pequeno cofre em forma sugestiva de porquinho e dizer que vivem da “propina” oferecida. O mexicano se veste de Máscara em frente ao Coco Bongo para surfar a mesma onda e levar uns dólares a mais daquela carteira internacional.

O turista, de fato, recebe grande atenção por onde passa em Cancún. Mas talvez tudo não passe de encenação. Tudo seja uma simpatia paga. Sorrisos para se conseguir dinheiro e evitar dores lá na frente.

E a vida segue.

Diários Mexicanos: Um mar mais claro que o céu

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Navegar é preciso

Existem bem mais de sete mares neste mundo – são dezenas, na verdade. Alguns mais calmos, outros revoltos, uns escuros, outros de uma transparência absurda. Dos que já vi, um é de cenário hipnotizante: o Mar do Caribe. E é preciso conhecê-lo, ao menos uma vez na vida experimentá-lo.

É necessário mergulhar, de preferência em local onde não se dá pé. Imergir e espantar-se com o mundo e a vida submersa. Uau, como é claro. Uau, como é possível enxergar ao longe, mesmo debaixo d’água. Mesmo num mundo que produz tanta poluição e finge não se preocupar muito com isso.

Qualquer gaúcho que passou a infância em Tramandaí quase não conseguirá entender como o mar pode e é assim, de um azul-turquesa que já se destaca de longe quando se aproxima de Cancún. Ou como a areia pode ser clarinha e fofinha, sem ser aquele piso resistente, por vezes manchado, que se encontra a 100 quilômetros de Porto Alegre. Além de conchas e outras formas que vêm do mar.

Nada contra o mar gaúcho, deixemos claro. O mar do Sul do Brasil tem uma força impressionante e uma sisudez quase que constante, é seu jeito e não adianta. Já o do Caribe vive outro tempo. Se o mar destas bandas é inverno, os caribenhos inspiram um verão infinito – não muito diferente da Bahia, por exemplo. Aliás, não recusem um convite para conhecer a Praia do Forte, em Mata de São João.

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Talvez a vida fosse melhor se todos pudessem ir a uma praia caribenha como iguais, sem all inclusive, falando o idioma que fosse. Apenas com o mais infantil intuito de banhar-se e ser feliz. Como num eterno verão à beira-mar.

Diários Mexicanos: Yucatán

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Numa rápida passagem pelo México, passei por dois estados: Quintana Roo e Yucatán. Talvez mal reparasse que me encontrava no primeiro, mas é impossível não saber que se está em Yucatán.

Impossível porque os yucatecos fazem questão de lembrar que os visitantes estão… em Yucatán. Em uma série de souvenires, temperos, comidas e bebidas típicas que remetem a este canto do México, um braço em direção. É notável um certo orgulho no ar. Coisa que um gaúcho repara logo.

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Caveiras: algo que rende mucha plata

Por exemplo: o turista logo lê que está em “Mérida, Yucatán, México”. Quando vai a Quintana Roo, comprará um cartão postal “Cancún – México”. É um povo orgulhoso, mais ou menos como um certo estado sulista brasileiro. Não chega a surpreender que lá pelos idos da metade do século XIX tenha se separado e criado uma república própria – reintegrada ao México logo depois.

Yucatán, assim os estados mexicanos de Campeche, Quintana Roo, Chiapas e Tabasco, além de Guatemala, Belize e partes de El Salvador e Honduras, foi a área onde a civilização maia viveu. E vive, de certa forma, ao movimentar o comércio com o turismo na forma de estampas em camisas e mais variados objetos e também em livros sobre o que era o este canto de América Central muitos séculos atrás.

O Brasil ainda não entendeu o carinho que recebeu da Colômbia

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Foto: Vítor Silva / SSPress / Botafogo

Depois da comoção mundial do #ForçaChape o que mais se notou no estádio Nilton Santos, o famoso Engenhão, foram as novas cores dos assentos com o distintivo e as cores do Botafogo. Ficaram à mostra devido ao baixo público no jogo entre Brasil e Colômbia que serviu para arrecadar fundos à Chapecoense.

A falta de um estádio lotado nesta situação escancara que o brasileiro não teve a percepção exata do que aconteceu em Medellín há quase dois meses. Não do acidente e sim do dia seguinte: comovidos com a tragédia, 100 mil colombianos foram o estádio Atanasio Girardot – e muitos ficaram de fora dos portões por falta de espaço nas arquibancadas – não pelo futebol, mas sim por uma incansável solidariedade.

Dentre as vítimas fatais daquela tragédia, lembre-se, não havia sequer um colombiano, e sim brasileiros, paraguaios, bolivianos e um venezuelano. Nenhum deles era alguma pessoa famosa para comover a região por si só.

A mera comparação do tamanho do público no Rio e em Medellín é injusta também. Por uma série de fatores, que vão desde a comoção do calor do momento, da proximidade com o acidente e passam também pelo valor do ingresso (o mais barato era quase 10% do salário mínimo) e do horário – na Colômbia a homenagem foi mais cedo, às 18h45.

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Em Medellín não se notou a cor dos assentos

Porém, o baixo público e até um pouco de descaso com o evento em si mostram, mais uma vez, a falta de empatia do Brasil para com seus vizinhos sul-americanos. Num exercício de reflexão, seria difícil imaginar a cena ao contrário, de uma comoção no Brasil pela morte de dezenas de colombianos em Curitiba, por exemplo.

Em regra geral, o brasileiro sempre parece estar mais atento ao que acontece nos Estados Unidos do que aqui ao seu lado. O próprio turista, se pode, prefere antes ver de perto os Alpes na Europa do que a grandeza dos Andes.

Ironicamente, a manchete de alguns sites do Brasil enquanto ocorria o jogo era sobre a possível construção do muro na fronteira dos Estados Unidos com a América Latina.

Apesar da boa ação dos presentes no Engenhão, o jogo entre Brasil e Colômbia soou como uma oportunidade perdida. Tanto de agradecer ao povo colombiano por aquele lindo e carinhoso alento num momento tão dolorido, quanto para a Chape, que desde então ganhou milhares de novos seguidores e fãs em redes sociais, mas segue precisando de uma boa grana para reerguer-se.

Sobre Berlim

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Mais de uma vez tratou-se aqui de de quando tragédias alheias, em proporções maiores ou menores, atingem a nós, enquanto jornalistas – profissionais seguros dentro de uma redação, recebendo, apurando e transmitindo a informações nem sempre boas ao grande público.

Neste caso mais recente foi o caminhão que avançou sobre uma feira em Berlim. Um mercado de Natal, algo tão comum na Alemanha, sobre o qual eu e minha mulher havíamos conversado na véspera. Nunca fui a um, tampouco estive na Alemanha na época natalina, mas fiquei curioso tamanho o brilho dos olhos da mulher ao falar sobre eles. Passeio típico de família, tradição germânica de anos.

E Berlim, logo Berlim. Que cidade, caro(a) leitor, que cidade! Um lugar que transpira história, que não esconde o seu passado até recente de dor, mas que ao mesmo tempo abre-se à modernidade e à globalização. A própria praça sobre a qual o caminhão avançou tem sua história de superação e reconstrução contra o horror da guerra. Cosmopolita como poucas. De longe, uma das cidades mais interessantes de se conhecer.

Talvez este seja o principal alvo do terror ao semear o medo: a harmonia. Entristeceu-me ver um jornalista tido como intelectual falar em meio à notícia de que, com o atentado, Angela Merkel precisaria rever sua política com imigrantes. Como se os imigrantes fossem culpados e não vítimas deste mesmo terror.

Menos mal que, horas depois, veio o relato de um brasileira que lá mora: a cidade estava absolutamente normal. Triste, claro, com o incidente, mas não tornara-se arredia, ainda que nas primeiras horas. É certamente a melhor resposta ao atentado: a normalidade do cotidiano, a mesma mão estendida a quem é de fora.

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Para lembrar novas lamentações, não. O muro já faz isso

PS: Cobri de Porto Alegre, a milhares de quilômetros de Berlim, então não tenho como relatar o clima exato na cidade e nem como estavam as suas redes sociais. Chamou a atenção o pedido da Polícia de Berlim, via Twitter: “Fique calmo, vá para casa e não espalhe rumores”. Também pedia a todos que tinham vídeos e fotos do incidente em Breitscheidplatz enviassem diretamente aos policiais e não compartilhassem nas redes sociais. Com o perfil sendo atualizado constantemente, a gestão de crise foi excelente – claro, olhando de longe, volto a frisar.

Lembrei que na Porto Alegre do último ano precisamos publicar pelo menos duas vezes uma matérias com a Brigada Militar desmentindo suposto arrastão em algum lugar. Pouco tempo atrás, teve até blog de jornalista conceituado publicando notícia de arrastão em bairro nobre – inexistente, segundo a polícia. Que seja da assustada Berlim um exemplo do bom uso das redes em próximos eventos dramáticos. Jornalismo e credibilidade, nessas horas que ele são ainda mais úteis.