O Brasil ainda não entendeu o carinho que recebeu da Colômbia

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Foto: Vítor Silva / SSPress / Botafogo

Depois da comoção mundial do #ForçaChape o que mais se notou no estádio Nilton Santos, o famoso Engenhão, foram as novas cores dos assentos com o distintivo e as cores do Botafogo. Ficaram à mostra devido ao baixo público no jogo entre Brasil e Colômbia que serviu para arrecadar fundos à Chapecoense.

A falta de um estádio lotado nesta situação escancara que o brasileiro não teve a percepção exata do que aconteceu em Medellín há quase dois meses. Não do acidente e sim do dia seguinte: comovidos com a tragédia, 100 mil colombianos foram o estádio Atanasio Girardot – e muitos ficaram de fora dos portões por falta de espaço nas arquibancadas – não pelo futebol, mas sim por uma incansável solidariedade.

Dentre as vítimas fatais daquela tragédia, lembre-se, não havia sequer um colombiano, e sim brasileiros, paraguaios, bolivianos e um venezuelano. Nenhum deles era alguma pessoa famosa para comover a região por si só.

A mera comparação do tamanho do público no Rio e em Medellín é injusta também. Por uma série de fatores, que vão desde a comoção do calor do momento, da proximidade com o acidente e passam também pelo valor do ingresso (o mais barato era quase 10% do salário mínimo) e do horário – na Colômbia a homenagem foi mais cedo, às 18h45.

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Em Medellín não se notou a cor dos assentos

Porém, o baixo público e até um pouco de descaso com o evento em si mostram, mais uma vez, a falta de empatia do Brasil para com seus vizinhos sul-americanos. Num exercício de reflexão, seria difícil imaginar a cena ao contrário, de uma comoção no Brasil pela morte de dezenas de colombianos em Curitiba, por exemplo.

Em regra geral, o brasileiro sempre parece estar mais atento ao que acontece nos Estados Unidos do que aqui ao seu lado. O próprio turista, se pode, prefere antes ver de perto os Alpes na Europa do que a grandeza dos Andes.

Ironicamente, a manchete de alguns sites do Brasil enquanto ocorria o jogo era sobre a possível construção do muro na fronteira dos Estados Unidos com a América Latina.

Apesar da boa ação dos presentes no Engenhão, o jogo entre Brasil e Colômbia soou como uma oportunidade perdida. Tanto de agradecer ao povo colombiano por aquele lindo e carinhoso alento num momento tão dolorido, quanto para a Chape, que desde então ganhou milhares de novos seguidores e fãs em redes sociais, mas segue precisando de uma boa grana para reerguer-se.

Rapidas panamenhas, parte 5

A reparar
Ao menos para mim, a Cidade do Panamá transpareceu um lugar com muitos mais contrastes do que Havana, que leva essa fama. A modernidade dos rascacielos com a vanguarda dos prédios antigos é muito escancarada. As próprias ruínas de Panamá Viejo ficam hoje próximas a uma veloz autopista – financiada pelo governo do México – e entre prédios gigantes.

Lado a lado, carros modernos dividem espaço com táxis às vezes caindo aos pedaços e motocicletas transformadas em carrocinhas de cachorro quente e outros quitutes. Tudo normal, com o contraste sendo quase algo da própria cultura da Cidade do Panamá, uma capital bastante cosmopolita.

Conectividade
Ainda que precise resolver umas questões sociais, conectividade não é problema na Cidade do Panamá. Muitos dos lugares em que passei, como inclusive o Canal, oferecem uma rede wifi com boa velocidade gratuitamente. Já em Bogotá, a cobertura é menor.

Tecnologia viajera
A produção de todo o conteúdo nesta viagem, por sinal, foi ajudada bastante pela tecnologia e a internet. Embarquei com um iPad, uma câmera de mão e meu celular galaxy ace, com quem tirei algumas das fotos e as subi em Instagram, Picasa, Twitter e Facebook.

Claro que a boa e velha dupla amiga dos jornalistas bloco & caneta sempre ajudam também.

Uma das primeiras fotos da viagem, em Bogotá

Uma das primeiras fotos da viagem, em Bogotá

La plata
Não cheguei a levar muito dinheiro, porque resolvi deixar as contas mais para o cartão de crédito, estratégia que funciona bem em Buenos Aires, mas nem tanto em Montevidéu. Em Bogotá é bom ter uma graninha a mais, porque não são todos os lugares em que se pasa la tarjeta. Na Cidade do Panamá é um pouco mais tranquilo, até porque não é difícil achar um caixa eletrônico.

Um domingo em Bogotá

Não porque é domingo que o centro de Bogotá se esvazia. Bem pelo contrário. É por lá – especialmente pelas manhãs – que a vida transpira na capital colombiana. As lojas do popular centro de compras da carreira 10 ficam abertas e no Parque Tercer Mileno há até uma feirinha, com diversos cacarecos e roupas velhas à venda.

Ali perto, na mesma carreira, lojas um tanto mais requintadas vendem artigos eletrônicos mais caros, como câmeras fotográficas e videogames. Outras somam pesos vendendo souvenirs. Ali e na calle 16, bem em frente ao Museu do Ouro, onde outra feira – com preços mais acessíveis – acontece.

Também nas proximidades, crianças se divertem espantando as centenas (ou até milhares) de pombas que moram na Praça Bolívar. Uns andinos mais ligeiros ainda levam lhamas para lá, onde os pequenos podem subir em troca de alguns pesitos. Outro comércio comum ali é a venda de milhos para as pombas. Naquelas bandas a música também é usada para faturar alguns trocados. Não está fácil para ninguém, afinal.

E enquanto alguns colombianos vasculham vitrinas ou correm atrás de aves, outros mais saudáveis aproveitam para se exercitar pela carreira 7, que fica blqueada para os trânsitos para carros pela manhã. E por ali desfilam variadas bicicletas, corredores e cachorros.

Mas tudo isso se passa sob o atento olhar da polícia. Em muitos pequenos grupos, quando julgarem necessário, revistam quem eles acharem suspeitos, pedem documentos a estrangeiros. Os policiais se mantêm visíveis, para que mazelas como o narcotráfico deem as caras por ali.

Mesmo que a paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) tenham se aproximado nos últimos meses, a luta é algo comum aos colombianos, como bem já indica a frase cravada na parede do Palácio da Justiça, no coração de Bogotá:

“Colombianos, las armas os han dado independencia. Las leyes os darán libertad”.

Cerro de Monserrate, onde o céu fica mais próximo de nós

Primeiro: vamos subir:

Bogotá é uma cidade localizada aos pés de uma montanha da cordilheira dos Andes. E no topo desta montanha há o santuário do Senhor Caído, no topo do Cerro de Monserrate, lugar que, sem dúvida, é o melhor mirante da capital da Colômbia.

Para chegar lá é simples: se vai de teleférico ou um bondinho, que corta o morro. Em uma bela terça-feira, paguei 15.400 pesos colombianos pela ida e volta de teleférico. Talvez o dinheiro mais bem investido em passeios na capital colombiana.

O santuário só não é recomendável a quem tem medo de altura, pois apresenta uma vista literalmente de tirar o fôlego de toda a cidade do alto de seus 3.152 metros de altitude. Quem não temer apreciará uma vista mais que sensacional. Tanto da cidade quanto da vegetação nativa, do lado oposto ao urbanismo da cidade.

A quem for lá, vale o reforço na dica de Bogotá: parcimônia. Se andar ligeirinho pelas ruas bogotanas faz o fôlego se esvair bem rápido, imagine lá em cima, 500 metros mais alto que o centro da cidade. Lá em cima é bom fazer algumas paradas e… respirar. Bacana também que o lugar fica aberto à visitação até tarde da noite, quando por sinal a igreja recebe uma bonita iluminação.

O santuário em si não chega a ser algo excepcional, mas lá em cima há outros tantos atrativos depois que passar a hipnose – que é forte – da vista. Restaurantes, cafés e um monte de lojas de artesanato, que vendem de tudo, desde o tradicional chá de coca à cerveja Duff (aquela dos Simpsons). Às vezes, esses dois produtos lado a lado.

Poética e literalmente falando, observado de lá o céu parece bem mais próximo que a terra. No mínimo, o lugar de onde cheguei mais perto do céu até hoje.

Ah, igualmente ao Canal, eles também são moderninhos e têm Twitter e Facebook.

Agora vamos descer:

El Dorado de Latinoamerica

O nome do aeroporto internacional de Bogotá ser “El Dorado” já indica que por essas bandas devem haver muitos metais preciosos. E há, ou pelo menos havia.

Um dos pontos obrigatórios de quem passa por Bogotá é o Museo del Oro, cuja entrada custa 3 mil pesos. Ao longo dos quatro andares da exposição permanente foi inevitável recordar do livro que me acompanhou na viagem: “As veias abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano. Em suma, a primeira parte da obra pode ser assim: “Tua riqueza será o motivo da tua pobreza”, referindo-se à exploração dessas terras séculos atrás. O texto narra os períodos de exploração pelo qual passaram os países latinos na época da colonização. Um longo trecho se dedica ao ouro e a prata, que um dia foram bem abundantes aqui.

Pois no museu há tantas e variadas peças douradas que me fez refletir sobre como nós, latinos, nos conhecemos pouco. Em meu tempo escolar, por exemplo vi muito sobre a Idade Média na Europa e pouco ou quase nada da minha região antes do desembarque de Cristóvão Colombo. Acho que ilustra como a história foi narrada pelos conquistadores — os mesmos que dizimaram boa parte dos nativos.


Nessa mesma manhã rodei pelo centro de Bogotá e acabei por entrar no museu de Santa Clara. Lá funcionou um convento séculos atrás. Apesar de bem menor que o museu do ouro, a quantidade proporcional de ouro impressiona bastante. Dias depois, circulando por Casco Antiguo, já no Panamá, dei de cara com o suntuoso altar de ouro da Iglesia de San José, uma igreja que, vista de fora, não se esperaria muitos requintes.

Se tanta riqueza havia, por que há tanta desigualdade no nosso continente? Poderíamos começar a entender se nos estudássemos melhor.

Rescaldos aeroportuários…

…ou: sem nada pra fazer em meio à uma conexão de cinco horas na madrugada paulistana

Antes de qualquer coisa confesso: toda, mas TODA a minha admiração aos que têm sono fácil em viagens, seja lá como ela for, mas em especial aos que dormem em aviões. Queria ter esse dom de vocês. Já que não tenho, mando um abraço ao cara que pensou em nós, insones, e inventou jogos e passatempos que estão instalados em alguns aviões da Avianca, por exemplo. O de futebol é muito tosco, mas faz passar o tempo que é uma beleza.

Aproveitando o espaço, comento que ainda falta muita tomada e conexão wifi gratuita nos três (quatro, contando com Porto Alegre) aeroportos dessa viagem que se encerrou nesta segunda-feira. A única que funcionou foi em Guarulhos, ainda assim só depois de uma pequena burocracia de cadastro. Tanto em El Dorado (Bogotá) quanto em Tocumen (Panamá) os dispositivos só avisaram de conexões liberadas. Conectados, não conseguiram navegar.

Colombianos nos acham sujos?
Pois é, a gente toma banho pra ir viajar bem bonito e cheiroso, mas assim que a aeronave fecha rumo à Bogotá, a aeromoça passa um spray por todo o avião enquanto avisa que a Colômbia pede para detetizar o veículo e que o tal produto é autorizado pelo Ministério da Saúde do Brasil. Tal cena não é nem próxima de ser repetida quando a linha é Bogotá-Panamá-Bogotá.

Falando em Panamá, oficialmente ainda estou lá, ainda que já tenha entrado e saído da Colômbia e que escreva esse texto em meio à madrugada em São Paulo. As autoridades do país caribenho ou esqueceram ou não quiseram carimbar o meu passaporte na saída. Pior que só fui me dar conta quanto já estava no ar.

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Turismo de compras realmente não é muito a minha, mas não pude deixar de reparar que os free shops do Panamá oferecem melhores preços comparados com Bogotá e São Paulo. Fora do aeroporto a oferta é boa também.

Pão de queijo
Era meio de madrugada quando cheguei a São Paulo e já catei o primeiro café para pedir “guaraná, pão de queijo e ouro branco”. Como o refrigerante estava quente, só adquiri os dois últimos. Ao receber, instintivamente falei um sorridente “Gracias”.

Só isso?
Não. Ainda tem bastante coisa sobre Bogotá e Cidade do Panamá pra entrar no blog. Nos próximos dias já estará no ar. =)

Rápidas colombianas, parte 4

Por um belo fim de tarde
Até pela proximidade das nuvens, acho que Bogotá não costuma a ter dias bem ensolarados. Um taxista me comentou que tem chovido até demais nas últimas semanas. Porém, quando o sol dá as caras, garante um belo entardecer à capital colombiana.

Dei essa sorte no sábado, pouco depois de ter voltado do Panamá. Anotei meia dúzia de lugares a serem conhecidos na região de La Candelaria e sai, em uma caminhada gratuita que se provou bem agradável.

Museu Botero
A primeira parada foi no museu Botero, cuja a entrada é franca — ele só não abre nas terças. Confesso-me aqui um quase analfabeto em arte e que nem sabia quem era Fernando Botero. Menos mal que a arte dele não requer grandes conhecimentos. Achei simples e divertida seu desenho, sempre de pessoas rotundas.

Além dos quadros e esculturas do artista nascido em Medellín, há obras de gente renomada como Picasso, Torres-Garcia, Renoir e Miró para ser visto. Para ajudar, o ambiente é bem agradável e ligado internamente a outras salas de exposições bacanas.

Casa Cultural Gabriel García Marquez
Quase em frente ao Museo Botero, fica o Centro Cultural Gabriel García Marquez, onde há espaços para exposições e uma deliciosa livraria, que, claro, tem um espaço dedicado ao prêmio Nobel por “Cem anos de solidão”.

Junto ao prédio tem uma franquia da cafeteria Juan Valdez, a mais famosinha da Colômbia. Um cappucino vai muito bem, por 3.700 pesos.

Plaza Bolívar
Antes de sair se perdendo pelas inclinadas ruas do bairro — onde há muito artesanato e criatividade para se ver e vender — vale dar uma passada na Plaza Bolívar, onde fica a Catedral, que fica muito bonita antes do sol se pôr.