Os mares do mar, num lugar só: Lisboa

(Ou: Quase dentro do mar)

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Lisboa, não sei bem o porquê, me dá saudades. Desde o dia em que saí de lá penso em voltar. É uma cidade cosmopolita, com jeito de pacata e intimamente ligada ao mar, ainda que seja banhada por um enorme rio, o Tejo.

A cultura portuguesa remete a um mar sem fim, às navegações e conquistas inéditas de séculos atrás, quando corajosos gajos lusos embarcavam em naus sem ter direito certeza do que – ou quem – iriam encontrar pela frente nos meses seguintes.

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Mas muito do mar hoje está na capital portuguesa. Mais precisamente desde 1998, quando foi inaugurado o Oceanário de Lisboa, um dos passeios mais legais que fiz por lá, quando lá estive (ai, que saudade!).

Se hoje lembramos dos navegadores e dos destinos conquistados por navegadores portugueses, o oceanário lembra por onde eles passaram. Seus ambientes levam o visitante a diferentes e inóspitos cantos do mundo marinho. Habitats que se localizam a milhares de quilômetros estão alojados a poucos passos.

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Vi pinguim e peixe-palhaço, assim como tubarões e o inesquecível peixe-lua ao longo do tempo em que estive no oceanário. Passei frio e calor, conhecendo um pouco do ambiente ártico e do Oceano Índico. E nem precisei viajar mais ou pagar uma entrada adicional para espiar esses mundos. Bastou apenas caminhar e seguir adiante, tal qual os navegadores de séculos passados.

Todos estes oceanos e lugares distintos de cada canto do oceanário quase ligados a um imenso aquário central, de três andares de altura e nele contendo um sem-fim de espécies de peixes e criaturas marítimas. Ainda que, reclamemos, acabei saindo de lá sem ver nenhuma baleia!

O oceanário, que fica até um pouco distante da tradicional Alfama, mas é acessível pelo metrô, é um dos lugares, enfim, que faz eu sentir uma permanente saudade de Lisboa.

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Como dica amiga, sugiro ao potencial visitante ter em mãos um “Lisboa card”, bilhete que garante passagem pelo metrô e outros modais. Assegura um descontinho amigo na hora de comprar o ingresso, cujo preço máximo, hoje, é de € 15,30, mas também pode ser adquirido com desconto no site.

Brexit: um passo para trás

A Copa do Mundo de 2014 foi, de longe,  período mais legal que vi minha cidade viver. Com o perdão do trocadilho infame, mas, àquela época, o meu Porto estava de fato muito Alegre. Além de muito mais simpático, até.

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All together!

Ainda que tenha havido uns quantos protestos antes do evento, que tensionaram a atmosfera, ficou claro que aquilo que aconteceu dentro de campo foi mera formalidade. A parte mais legal da Copa sempre esteve nas ruas, do lado de fora dos estádios – “elitizados” na crítica das manifestações. “Copa pra quem?”, questionavam, por meio de pichações e gritos. Foi para todos.

Foi muito legal sair pelas ruas e cruzar com estrangeiros naqueles dias. Encontrar gente que tinha vindo de longe, às vezes do outro lado do mundo, para descobrir a minha cidade. Um intercâmbio cultural contínuo motivado pelo futebol e, não raro, movido a muitas garrafas e latas de cerveja.

Há oito anos iniciei uma experiência, que logo se tornou um vício e hoje é sempre um objetivo: viajar. Passagens aéreas se tornaram uma espécie de cotação – ao lado da cerveja, confesso. Quando quero comprar algo que custa um pouco mais caro que o habitual, questiono-me quantas cervejas posso comprar ou para onde viajaria com aquele dinheiro. Só depois deste aval que me autorizo ou não adquirir o bem (ou juntar e fazer poupança para ir para longe).

Desde aquele julho de 2008, quando pousei em Havana, já foram outros dez países visitados. Se outrora achei que este número seria muito, hoje acho pouco. E cada vez que procuro conhecer mais, percebo que tão pouco viajei. É algo deliciosamente paradoxo, pois o mundo é grande, afinal. Da mesma forma que estive longe de casa, outras tantas fui aos meus vizinhos – como sinto-me bem no Uruguai ou na Argentina. Como é bom cruzar essas fronteiras, em suma.

E é mais ou menos por essa nem tão escassa vivência adquirida que lamento a decisão do Reino Unido, onde fica uma das mais cosmopolitas cidades em que já estive, de isolar-se da Europa, aprovando o Brexit. Entristece-me ver o discurso anti-imigração se fortalecer e realmente temo que esta onda nacionalista atravesse o oceano e chegue a Washington daqui a cinco meses. Escolheram se fechar justo numa era globalizada.

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Talvez Londres fique um pouco mais longe com o Brexit

São tempos complicados, esses. Mas dificuldades sempre acabam por valorizar o papel e a força da união. Que acabe com esse desfecho, pois reforçar fronteiras nunca fez bem a ninguém.

A manobra do El País

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El País, um jornal digital | Foto: Bernardo Péres / El País

“Quando cheguei ao El País, disseram-me que era um jornal impresso que tinha um site. Minha missão era, pouco a pouco, transformá-lo num site que também tinha um jornal impresso.” Essa, em essência, foi a frase dita jornalista espanhol Gumersindo Lafuente, então diretor do El País, em uma palestra que ele ministrou em Porto Alegre uns dois ou três anos atrás.

Tal ideia me marcou. Em meio a uma classe apegada com seu passado de tinta e papel, aquela foi uma ideia que soava completamente revolucionária. E, acima de tudo, correta visando o futuro – isso em um presente que ainda não havia sido dominado pelos smartphones.

Pois bem, o futuro chegou. Em carta à redação do El País, o diretor-chefe da equipe, Antonio Caño, anunciou o passo seguinte à ideia apresentada a Lafuente anos atrás: o El País não terá mais papel e será “essencialmente digital”. Em outras palavras, vai virar um somente site, com o papel tendo seus dias contados.

É um passo ousado, a medida que o modelo econômico qeu sustenta o jornalismo digital ainda não está consolidado – talvez nem perto disso. Mas eles sabem disso: “Decidimos não apenas não ter medo da mudança, mas antecipar-nos na medida do possível para estar na vanguarda dessa mudança”, diz o comunicado.

A carta não informa datas, cortes e/ou redirecionamentos da equipe. Apenas libera uma pista: “Será uma redação sem escritórios, aberta à colaboração e à troca de ideias, na qual as equipes se misturarão para construir novas histórias. A partir de agora, no coração da planta principal será instalado um moderno espaço aberto dedicado à criação e à coordenação de informações e sua distribuição nos diferentes canais. O centro dessa redação contará com uma moderna ponte de comando, na qual haverá perfis jornalísticos, de desenvolvimento tecnológico, de edição gráfica e de vídeo, de design, de produção, de medição de audiência, de redes sociais, de SEO [otimização de sites] e de controle de qualidade. A partir dali serão criadas novas narrativas e novas formas de comunicação que continuarão a manter este jornal na vanguarda do jornalismo global”.

Esta redação sem escritórios faz sentido. O jornal espanhol se proporá a ser “cada vez mais americano”, conforme seu diretor. “Pois é na América onde o nosso crescimento é maior e nossa expansão mais promissora.” Madri e Barcelona, então, ficaram pequenas diante do alcance das redes sociais, ainda mais com o jornaleiro e a banca do século XXI.

Em um mundo repleto de incertezas e com uma crise que às vezes parece não ter fim, o El País adianta-se ao futuro, numa manobra arriscada. Porém, acima de tudo, corajosa e respaldada pela qualidade de seu material. Como leitor e como jornalista, fico na torcida.

O difícil desafio de ficar quieto

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Liberté, Égalité e Fraternité não se aprendem em faculdades

A infeliz sequência de tragédias que passamos no último mês deram luz a inúmeras (e inúteis) discussões virtuais ou não. O que era pior, afinal: o Rio Doce morto afogado em lama ou dezenas de europeus mortos pelas mãos e tiros de terroristas em plena Paris do Século XXI? Eis a questão que ninguém perguntou, mas de repente todo mundo pareceu disposto a responder e a replicar.

Já não foram as primeiras tragédias nesta era de redes sociais completamente disseminadas. Infelizmente, não imagino que sejam as últimas*. E nada mais natural que exista alguma reação do público diante de eventos grandiosos como esse. Com a facilidade tanto de publicação quanto de meio, aquele suspiro de “Ah, que pena” ou “Bem feito!” facilmente pula da boca direto para a timeline alheia.

E aí o bicho pega!

Não é preciso ser historiador para notar que houve um acentuado acirramento de opiniões em redes sociais nos últimos tempos. Quase verdadeiras guerras cibernéticas de opiniões. Em certo momento é quase a boa ideia que deu errado. Num mundo cheio de conteúdo poderia haver mais embasamento. Mas, neste caso, não. Pega-se o conteúdo a seu favor e se abraça nele para enfrentar discussões com quem quer que venha. Juiz de Facebook é o que não falta, ultimamente.

Tragédia não é campeonato de futebol pra se discutir que ou quem devemos acompanhar, debater ou chorar mais por esta ou aquela. Mas na era da informação, onde pipoca um grande fluxo de novidades a toda hora – sempre há mais “Breaking news” que “Entenda” –, alguma opinião sempre teima em surgir na hora. E eis, talvez, o maior desafio destes tempos: saber permanecer em silêncio.

Seria quase uma regra de netiqueta, mas não é nada mais que respeitar o luto dos outros e não julgar a ninguém por uma opinião diferente.

*e já não foi! Uma semana depois dos atentados de Paris o Mali também sentiu medo do terrorismo. A discussão segue.

Curvas e cores de Gaudí

Admito ser leigo no assunto, mas talvez justamente por isso eu adore debater arquitetura e urbanismo em mesas de bar mundo afora. E muito por esta razão foi encantador conhecer Barcelona, um lugar em que se fica provado o valor e o impacto de curvas e cores no cenário público.

O fato de admirar arquitetura apenas por fora não me faz estudar arquitetos. Mas estar em Barcelona é ser logo apresentado a Antoni Gaudí, alguém que, definitivamente, nunca gostou de linhas retas. E fez de Barcelona uma atração turística em si graças às suas ideias.

Estamos em Passeig de Gracia. E apenas ali há dois prédios separados por poucas dezenas de metros e que mostram a sua genialidade: a Casa Milà (La Pedrera) e a Casa Batlló. Ambos são um sem fim de curvas e, no caso do segundo, Gaudí levou um edifício de alguns andares inteiro para um mergulho no mar usando entradas de luz e tons de azulejos, além de, claro, curvas. Muitas.

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Porque, com curvas, a fachada é muito mais legal

A apreciação é livre – e disputada – por pequenas multidões que visitam as duas casas diariamente. Encantam gente que vive em cidades como a minha, em que o antigo é logo considerado velho e o novo não passa de linhas retas que impõem um padrão de ostentação.

Não cheguei a visitar La Pedrera, mas, lhe garanto, caro(a) leitor, que entrar na Casa Batlló foi um dos grandes passeios que fiz em Barcelona. Muito, também, por sua conectividade ao longo de toda a trajetória. A narrativa da visita ajuda a entender muito o seu conceito.

park guellUm pouco mais distante de Gracia fica o Park Güell, uma das poucas áreas mais altas da plana Barcelona – e uma das áreas mais coloridas, também. Por centenas de milhares (ou já milhões?) de pequenos pedaços de azulejos colados lado a lado. Por ali morava Gaudí. Se ele já fazia verdadeiras obras de arte para a cidade, imagina para a sua casa e quintal? Com uma bela vista do balneário e com uma grande área verde ao redor, o local passou a ter entrada paga recentemente.

Para quem gosta de tirar fotos e apreciar a vista lá do alto, é uma ótima opção. Tal como quem gosta de correr mais junto à natureza, fugindo um pouco do forte urbanismo barceloneta.

Nada de Gaudí, porém, supera a Sagrada Família. A obra o mantém vivo até hoje – mesmo porque não está pronta, ainda que a construção tenha iniciado há cerca de 130 anos e o arquiteto tenha morrido há quase 90. Culpa de diversos fatores ao longo da história, como uma das característica das mais humanas: guerras.

Por fora, um sem-fim de detalhes a serem notadosÉ um marco de Barcelona, talvez tão forte quanto o time que leva o nome da cidade (e do orgulho catalão) a diversos cantos deste planeta. Pudera, suas torres mais altas hoje têm 107 metros de altura. E as futuras irão passar disso. Há de ser alto para aproximar-se dos céus. Tal projeto, inclusive, pode torná-lo um beato da Igreja Católica, tamanha devoção. O processo corre no Vaticano enquanto a basílica recebe turistas, uns mais devotos que os outros, quase que ininterruptamente.

Cada um dos inúmeros detalhes da Sagrada Família tem uma razão de ser, uma simbologia que faz falta na arquitetura atual, essa que adora prédios só de janelas de vidro, alheia a seu ambiente. Na Sagrada Família há curvas, santos e demônios impossíveis de serem descritos em apenas um post – quiçá em apenas um livro – em apenas uma visita então, muito menos. São demasiados detalhes saídos de uma complexa e genial mente que vive até hoje, apesar de o corpo já não estar presente.

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Por dentro, a Sagrada Família é imponente

Barcelona inspira

Barcelona (2)Se algumas cidades do mundo têm o poder de encantar rapidamente, por certo Barcelona está nesta lista. E ainda que os seus primeiros vestígios de história já datem os 4 mil anos, Barcelona mantém uma jovialidade incrível. Seja por sua arquitetura destacada, por seu amor pelo futebol ou pela utópica expectativa de um dia separar-se da Espanha.

Some-se a esses ingredientes uma bela praia, pessoas bonitas e um ensolarado verão que não faz feio para país tropical algum deste planeta. Tal receita, é claro, ainda inclui um sem-fim de opção de bares, para pessoas de públicos variados e que gostam de ficar até bem tarde (ou bem cedo) na rua.

Barcelona empolga. Ou Inspira, como sugere a atual logomarca do turismo local. Suas ruas fáceis de caminhar e o metrô que cobre tão bem a cidade deixam, também, o visitante sem desculpa para não caminhar bastante por entre pessoas jovens, admirando prédios que por si só são obras de arte e mergulhando na cultura com a arte de gente do calibre de Pablo Picasso, Joan Miró e Salvador Dalí, entre outros.

Barcelona (1)Barcelona, enfim, inspira. E muito.

Da malandragem lisboeta

Os famosos eléctricos, da Carris

Os famosos eléctricos, da Carris

Ainda similaridade entre portugueses e brasileiros (última vez que escrevo sobre isso, prometo, caro(a) leitor!) recordo das cenas que presenciei nos famosos eléctricos de Lisboa. E como ética e bom senso vêm da pessoa e não necessariamente da sua nacionalidade.

A começar pelos diversos avisos de “cuidado com os carteiristas”, o que, em bom português brasileiro é: batedor de carteira. Que a Europa é um local mais seguro que grandes centros urbanos brasileiros, não há dúvida. Porém, um pouco de cuidado e atenção sempre cai bem. Em especial nos lugares mais amontoados desta vida – não se engane que o transporte público lota também no primeiro mundo.

E se temos do lado de cá o jeitinho brasileiro, os lusitanos têm seu jeitinho português. Muitos se penduram na porta de trás do bonde para não pagar passagem. Sobem em um ponto, descem quando o veículo para e, ao arranque, se penduram de novo, numa aventura certamente refrescante. Às vezes mais de um ao mesmo tempo. E sem constrangimento algum.

Claro, não tenho como afirmar que isso ocorre sem fiscalização alguma – até porque não vi nenhum desses se aventurar na região mais central de Lisboa, os que vi foram no máximo até a borda do centro. O que posso dizer é que a cena ocorreu na maioria das vezes em que tomei o eléctrico.

Entretanto, não apenas essa malandragem é feita para se locomover gratuitamente nos eléctricos. Vi muitos grupos entrarem juntos e simplesmente não passarem seu cartão na maquininha registradora e já ir sentando. Tal como na Alemanha não há uma catraca ou fiscalização permanente sobre os usuários do transporte.

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A máquina registradora atrás do motorista

Como se vê, vai do bom senso (e da honestidade) de cada um pagar ou não a passagem.