Diários Mexicanos: Um mar mais claro que o céu

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Navegar é preciso

Existem bem mais de sete mares neste mundo – são dezenas, na verdade. Alguns mais calmos, outros revoltos, uns escuros, outros de uma transparência absurda. Dos que já vi, um é de cenário hipnotizante: o Mar do Caribe. E é preciso conhecê-lo, ao menos uma vez na vida experimentá-lo.

É necessário mergulhar, de preferência em local onde não se dá pé. Imergir e espantar-se com o mundo e a vida submersa. Uau, como é claro. Uau, como é possível enxergar ao longe, mesmo debaixo d’água. Mesmo num mundo que produz tanta poluição e finge não se preocupar muito com isso.

Qualquer gaúcho que passou a infância em Tramandaí quase não conseguirá entender como o mar pode e é assim, de um azul-turquesa que já se destaca de longe quando se aproxima de Cancún. Ou como a areia pode ser clarinha e fofinha, sem ser aquele piso resistente, por vezes manchado, que se encontra a 100 quilômetros de Porto Alegre. Além de conchas e outras formas que vêm do mar.

Nada contra o mar gaúcho, deixemos claro. O mar do Sul do Brasil tem uma força impressionante e uma sisudez quase que constante, é seu jeito e não adianta. Já o do Caribe vive outro tempo. Se o mar destas bandas é inverno, os caribenhos inspiram um verão infinito – não muito diferente da Bahia, por exemplo. Aliás, não recusem um convite para conhecer a Praia do Forte, em Mata de São João.

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Talvez a vida fosse melhor se todos pudessem ir a uma praia caribenha como iguais, sem all inclusive, falando o idioma que fosse. Apenas com o mais infantil intuito de banhar-se e ser feliz. Como num eterno verão à beira-mar.

Diários Mexicanos: Mérida

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Mérida tem um chão apropriado para perdidos

Capital yucateca, Mérida também é uma das maiores cidades do México e, dizem, se orgulha de ter a melhor qualidade de vida do país. No início da década, recebeu um cobiçado título de “ciudad de la paz”, devido ao seu – sonhem – nível de segurança social. E, de fato, de falta de policiamento os meridanos não podem reclamar. Especialmente em se tratando da realidade de um país com índices preocupantes de violência, seja contra imigrantes, seja contra jornalistas.

A realidade talvez seja um pouco diferente em Mérida, que até tem, entre suas calles, o mesmo quê colonial que se encontra em Valladolid, outra cidade polo de Yucatán, mas  ao mesmo tempo ares e vias asfaltadas de uma capital estadual em certas partes.

A grandeza, porém, não impede seus muitos cidadãos passearem vaidosos com suas guayaberas num domingo ensolarado. Carruagens floridas passam na rua da praça onde uma pequena multidão de turistas pesquisa caveirinhas e outros quetais para levar para suas casas como lembrança.

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Palácio Municipal, na Plaza Grande

O sino da catedral bate, a fé mexicana se exalta. A igreja conclama a crença costumeiramente latina, de que um Deus fará tudo melhorar um dia. Ao mesmo tempo, Mérida é de novo a capital americana da cultura neste ano e sua prefeitura promete e divulga atrações diárias e gratuitas. De futebol maia a show de luzes na fachada da catedral.

Fundada em 1542, Mérida é um pouco assim: uma cidade repleta de atrações, mas com um povo que tem ares de pacato.

 

Diários Mexicanos: Yucatán

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Numa rápida passagem pelo México, passei por dois estados: Quintana Roo e Yucatán. Talvez mal reparasse que me encontrava no primeiro, mas é impossível não saber que se está em Yucatán.

Impossível porque os yucatecos fazem questão de lembrar que os visitantes estão… em Yucatán. Em uma série de souvenires, temperos, comidas e bebidas típicas que remetem a este canto do México, um braço em direção. É notável um certo orgulho no ar. Coisa que um gaúcho repara logo.

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Caveiras: algo que rende mucha plata

Por exemplo: o turista logo lê que está em “Mérida, Yucatán, México”. Quando vai a Quintana Roo, comprará um cartão postal “Cancún – México”. É um povo orgulhoso, mais ou menos como um certo estado sulista brasileiro. Não chega a surpreender que lá pelos idos da metade do século XIX tenha se separado e criado uma república própria – reintegrada ao México logo depois.

Yucatán, assim os estados mexicanos de Campeche, Quintana Roo, Chiapas e Tabasco, além de Guatemala, Belize e partes de El Salvador e Honduras, foi a área onde a civilização maia viveu. E vive, de certa forma, ao movimentar o comércio com o turismo na forma de estampas em camisas e mais variados objetos e também em livros sobre o que era o este canto de América Central muitos séculos atrás.

Diários Mexicanos: O Mergulho no Cenote

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Passei uns bons anos da minha vida pensando que deveria ir a Paris. Nem que fosse para tirar umas fotos da Torre Eiffel, que, mesmo inferior a tantas outras que a gente vê por aí, poderia dizer: essas são minha. Isso equivaleria a algumas outras tantas situações, que podem ser chamadas de experiências.

Isso que me motiva a viajar, sempre tentando algum horizonte novo. Confesso que tenho um pequeno orgulho dessas experiências. Já rodei um pouco, talvez um pouco mais que a média dos que me cercam. Mas ainda assim é tão pouco diante do tamanho do mundo. Paradoxalmente, quanto mais se viaja, mais se percebe que há muito chão para se pisar.

Esses dois parágrafos não querem dar um tom de “seja-viajante-e-largue-tudo-e-vá-conhecer-o-mundo”. Não. Mas não deixam de ser um conselho para viver as situações pelas próprias experiências. Ter suas próprias lembranças e opiniões sobre onde se vai. E tal como certo dia em Paris, tive a mesma sensação ao mergulhar nas águas do Cenote Zací, um lugar incrível quase ao lado do centro de Valladolid.

De uma forma grossa e não-científica, cenote consiste em praticamente uma piscina de um azul incrivelmente sedutor em uma caverna semiaberta (as águas podem ficar totalmente expostas ao sol ou não, em outras formações geológicas). Até não parece, mas sua profundidade vai a dezenas de metros.

Foi só esse que conheci, dentre tantos que existem especialmente na península de Yucatán – e são muitos mesmo. Foi incrível, mesmo ele não sendo “um lugar turístico”, segundo uma guia turística de Cancún. Uma experiência tão ou mais legal que conhecer Paris ou outra grande metrópole deste planeta.

Diários Mexicanos: De otro tiempo

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Valladolid é uma microcidade da região central da península de Yucatán, a cerca de duas horas da badalada Cancún e tem um tempo diferente. Tal qual um sem-número de cidadecitas do interior hispânico. Seja do México, do Uruguai, da Argentina ou mesmo da Espanha. Enfim, aqui o tempo é outro.

Estamos em pleno século XXI, mas isto poderia não passar de especulação ao se observar atentamente os locais. Los mexicanos de Valladolid dão buenos días, buenas tardes y buenas noches a quaisquer desconhecidos que os encararem pouco mais de um segundo. E isso sem maior desconfiança – ao menos aparente.

Eles vendem jornais impressos – três (!) em uma microcidade – nas esquinas com calçadas apertadas para o pueblo passar no seu dia a dia. Aqui um breve parêntese: a aposta no noticiário policial e na chica desnuda parece sempre serem uma constante, onde quer que seja.

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A convicção de que estamos mesmo no século XXI pode diminuir um pouco mais se passarmos a reparar também na arquitetura desta pequena cidade, na qual a construção mais alta é uma igreja erguida em 1706. De resto, casinhas com dois, três pisos no máximo e quase todas coloridas. Um cenário muito mais para Zorro do que para Homem de Ferro.

O tempo retrocede ainda mais se se viajar cerca de 50 quilômetros para ir a Chinchén Itzá e deparar-se com a antiga cidade Maia, construída bem antes de qualquer espanhol pisar no solo hoje mexicano.

Mas talvez toda a culpa seja do Cenote Zací, um lugar incrível ali do ladinho do Centro. Diante de tanta beleza e com uma água sempre convidativa, o tempo quiçá se atrase querendo mais um mergulho neste local criado lentamente pela natureza milhares de anos atrás.

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Valladolid tem outro tempo. E nele ninguém se importa, afinal, se estamos mesmo no século XXI.

Diários Mexicanos: de fila em fila se vai ao longe

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Um viva! Não à organização, mas à sobrevivência em meio a todo e qualquer pequeno caos que nos rodeia no cotidiano das nossas vidas. Às bagunças diárias que, sabemos: não são corretas, mas ainda assim não nos abalam. Um viva à América Latina!

Estamos no México, onde pousamos em Cancún, um polo turístico mundial, mas que em poucas horas deu umas amostras do que é o continente americano logo ao Sul da terra dos yankis. Uma genuína América.

Só num primeiro contato, foram pouco mais de 60 minutos para encontrar algumas latinidades as quais não via há algum tempo, quando em viagem. A primeira, logo de cara, foi a burocracia: “Autoridades locais” só autorizaram o desembarque de um avião cheio de gringos – alguns deles numa verdadeira maratona – depois que todos tivessem preenchido o formulário de entrada no país. Documento este entregue apenas quando todos já estavam de pé na aeronave, naquela corrida maluca em direção à saída logo após o pouso.

O México, por sinal, é o único país que conheci até agora que exige dois formulários para entrada – um individual e outro “por família”.

Da fila do avião à fila de imigração. Um saguão cheio de policiais nem tão bem encarados e turistas atrapalhados. Não bastasse as duas filas, mais outras duas de brinde: para recuperar a mala e, em seguida, na alfândega. Do pouso à saída do aeroporto – que em termos de estrutura ficou devendo – foi mais de uma hora.

Mal colocamos o pé para fora e aquela multidão querendo se dar bem apareceu. Oferecendo táxi, “táxi seguro”, passeios, câmbio etc. Claro, uns legalizados e outros quantos “informais” no bolo de gente que espera os turistas.

Passada mais esta barreira, subimos no ônibus da ADO rumo ao terminal deles. Por ser brasileiro, temi pela minha bagagem despachada de qualquer jeito e sem qualquer identificação no porta-mala do coletivo. Felizmente todas estavam sãs e salvas após a viagem de quase meia-hora.

Às vezes os brasileiros, por estarem acostumados às notícias tupiniquins, estranham quando estão no exterior. Acostumados ao perigo, nossa guarda é sempre alta, enquanto o mundo pode e costuma ser mais leve.

Em tese, o segundo ônibus – rumo a Valladolid – teria seu embarque anunciado pelo sistema de som do terminal da ADO, com uma fila se formando e, em seguida, ordenadamente, as pessoas ingressarem na área de embarque próximo ao horário pré-determinado de saída. Em tese.

Na prática, foi um emaranhado de gente com calor querendo entrar de uma vez no ônibus que só partiu 25 minutos depois do programado e cujo embarque foi anunciado na base do grito pelo gordinho responsável pelo controle do acesso.

A situação descrita acima poderia ser até um barril de pólvora para povos mais brigões. Ou extremamente estressante e incomum a organizados germânicos e orientais, por exemplo. Mas isto é parte da América Latina. As pessoas levam na boa, com fé e até um sorriso no rosto.