Diários Mexicanos: de fila em fila se vai ao longe

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Um viva! Não à organização, mas à sobrevivência em meio a todo e qualquer pequeno caos que nos rodeia no cotidiano das nossas vidas. Às bagunças diárias que, sabemos: não são corretas, mas ainda assim não nos abalam. Um viva à América Latina!

Estamos no México, onde pousamos em Cancún, um polo turístico mundial, mas que em poucas horas deu umas amostras do que é o continente americano logo ao Sul da terra dos yankis. Uma genuína América.

Só num primeiro contato, foram pouco mais de 60 minutos para encontrar algumas latinidades as quais não via há algum tempo, quando em viagem. A primeira, logo de cara, foi a burocracia: “Autoridades locais” só autorizaram o desembarque de um avião cheio de gringos – alguns deles numa verdadeira maratona – depois que todos tivessem preenchido o formulário de entrada no país. Documento este entregue apenas quando todos já estavam de pé na aeronave, naquela corrida maluca em direção à saída logo após o pouso.

O México, por sinal, é o único país que conheci até agora que exige dois formulários para entrada – um individual e outro “por família”.

Da fila do avião à fila de imigração. Um saguão cheio de policiais nem tão bem encarados e turistas atrapalhados. Não bastasse as duas filas, mais outras duas de brinde: para recuperar a mala e, em seguida, na alfândega. Do pouso à saída do aeroporto – que em termos de estrutura ficou devendo – foi mais de uma hora.

Mal colocamos o pé para fora e aquela multidão querendo se dar bem apareceu. Oferecendo táxi, “táxi seguro”, passeios, câmbio etc. Claro, uns legalizados e outros quantos “informais” no bolo de gente que espera os turistas.

Passada mais esta barreira, subimos no ônibus da ADO rumo ao terminal deles. Por ser brasileiro, temi pela minha bagagem despachada de qualquer jeito e sem qualquer identificação no porta-mala do coletivo. Felizmente todas estavam sãs e salvas após a viagem de quase meia-hora.

Às vezes os brasileiros, por estarem acostumados às notícias tupiniquins, estranham quando estão no exterior. Acostumados ao perigo, nossa guarda é sempre alta, enquanto o mundo pode e costuma ser mais leve.

Em tese, o segundo ônibus – rumo a Valladolid – teria seu embarque anunciado pelo sistema de som do terminal da ADO, com uma fila se formando e, em seguida, ordenadamente, as pessoas ingressarem na área de embarque próximo ao horário pré-determinado de saída. Em tese.

Na prática, foi um emaranhado de gente com calor querendo entrar de uma vez no ônibus que só partiu 25 minutos depois do programado e cujo embarque foi anunciado na base do grito pelo gordinho responsável pelo controle do acesso.

A situação descrita acima poderia ser até um barril de pólvora para povos mais brigões. Ou extremamente estressante e incomum a organizados germânicos e orientais, por exemplo. Mas isto é parte da América Latina. As pessoas levam na boa, com fé e até um sorriso no rosto.

Crônica de uma madrugada em aeroporto

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A380: uma gigante distração

O funcionário do aeroporto de Guarulhos desceu 36 degraus desde a plataforma até a pista. No topo, o ponto mais alto da escada ambulante mal chegava à altura do segundo andar de um A380, o maior avião comercial em atividade do mundo. Era início de madrugada e o gigante ali era a única atração off-line do momento para aqueles que tinham horas pela frente no saguão do embarque.

O A380 não completou um trimestre de atividade no Brasil. Sua imponente presença ainda chama a atenção. Pudera, não é qualquer máquina que faz caminhões parecerem carrinhos de fricção ao seu lado. Outros aviões também se apequenam quando lado a lado.

Mas seu embarque não é fácil. Antes de voar por cerca de 15 horas de São Paulo até Abu Dhabi (ou seria Dubai?) ele leva umas duas horas desde o primeiro vip até o último passageiro atrasado entrar na aeronave. Mesmo a observação do gigante, feita de um banco improvisado no café, torna-se algo bem cansativo – e desconfortável – com o passar do tempo, que insiste em se arrastar.

Ainda assim, reparar em toda a logística de um A380 pode ser mais interessante que checar, rechecar as redes sociais sonâmbulas no início de madrugada. Não à toa que o avião segue atraindo curiosos junto às janelas para a pista. Muitos, como eu, tirando fotos para logo em seguida se decepcionar com a qualidade da imagem, prejudicada pelos reflexos do saguão diante da escuridão em frente.

Aeroportos costumam ser lugares bacanas para observações. Cada passageiro e tripulante leva consigo uma história. Uma origem e um destino, que não necessariamente são na cidade presente. Idiomas, tradições e manias se cruzando aleatoriamente nestas esquinas da vida. Uns apressados, outros em marcha lenta de férias. Provavelmente para nunca mais se aproximarem outra vez.

Quase 2h. Finalmente inicia o taxiamento do A380. Em pouco mais de três minutos, ele sai da nossa frente e vai para a pista, de onde ganhará os ares noturnos em seguida. Tudo viraria um marasmo total ali no café. Mas ao menos o acaso decidiu dar um prêmio pela atenção dispensada. Tão logo o gigante partiu, vagaram preciosas poltronas com um conforto ok. Como nem tudo é perfeito, o som das obras da madrugada afastam qualquer possibilidade de paz sonora.

Um pequeno grupo de pessoas dorme à minha volta, na posição que lhe é possível no espaço da poltrona. E haja criatividade, além de coluna, para conseguir descansar, por melhor que seja na comparação com o banquinho da hora anterior. Invejo-os. Simultaneamente ao tempo que para eles passa mais rápido, vou sendo levemente torturado pelo sono, que tira a disposição e a concentração para a leitura do livro de bordo.

Sobra só a observação e a escrita, companheiras fiéis de um jornalista insone. E ainda me faltam três horas para o meu voo…

Hay de tener fe

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Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Florianópolis

“No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, provoca o famoso ditado em espanhol. Pero no solo brujas, sino también santas y dioses. Hay mucho más cosas entre el cielo y la tierra, podemos complementar, ainda no seu idioma original, assim como concluir que na hora do aperto não existe ateu.

Pois bem.

Anos atrás apresentei aqui a Nossa Senhora de Cidade Baixa, que na verdade era Nossa Senhora da Conceição disfarçada. Uma santa que me acompanhou no peito por alguns anos e hoje está guardada como uma querida relíquia em algum lugar da minha casa, ao lado do Santo Antônio que a substituiu no posto de pingente.

A verdade é que nutro grande respeito por ela, mas que a vida me afastou do catolicismo, aproximando-me do espiritismo. Tenho, contudo, muito carinho, em especial aos santos supracitados. Se existem e fazem milagres? No lo sé, pero que los hay, los hay.

E foi nessas obras do acaso que, após um congestionamento enorme na Lagoa da Conceição e a sequência de três motoristas mal-educados que não permitiram que eu trocasse de faixa, que mudei meu rumo, no meu último dia com 30 anos de idade. Conhecer o Projeto Tamar ficou para outra hora, que fôssemos a qualquer lugar longe daquele trânsito antônimo ao clima de verão.

Segui a esmo, então, a um dos poucos lugares não visitados em Florianópolis: o santuário da Imaculada Conceição, morro acima, na Costa da Lagoa. Igrejinha bonita, estilo barroca (?) e semelhante às mineiras que vi em Ouro Preto.

Após apreciada, chegara a hora de partir. Só que partir dali o carro não quis. Tentei uma, duas, 15 vezes e o veículo nem ligou. O cenário dramático contava com calor intenso, pouca água e sinal fraco de celular. Eis o que o homem de 30 anos age como filho mais uma vez e liga pelo socorro do pai.

Chega o velho: tenta-se uma ou duas soluções e não tem jeito. O negócio seria tentar pegar no tranco mesmo. Empurra-se o carro lomba acima e, antes da decida, de fora do carro reparo no outro lado da praça defronte à igreja e lá estava ela: Nossa Senhora da Conceição, abrigada por uma pequena gruta e cercada de velas devotas. Desci até mais perto para ver a imagem, sorri um sorriso imerecido de quem pede o tecnicamente impossível. E de lá escuto um motor: o carro pegou!

Depois ainda lembrei que não voltei a virar o rosto para agradecer, tamanha a surpresa com a inesperada partida do veículo. Ainda que ele tenha apagado em seguida, voltou a pegar no tranco e, sãos e salvos, todos chegamos onde tínhamos que chegar, quilômetros dali – para de lá trocar a bateria, claro.

À noite, rezei e agradeci à velha protetora da família, que já foi tanto à Cidade Baixa de Porto Alegre quanto ao alto de um morro com seu nome em Florianópolis apenas para dizer: pode contar comigo.

Aos dez anos da piauí

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Em dez anos, a gente engorda

O jornalismo brasileiro nesses tempos difíceis de crises financeira, empreendedora e política não vive lá seus melhores dias. No entanto, em meio a tantos berros de “imprensa golpista” e por aí vai há sim coisas boas. E dentre as coisas boas que a gente ainda vê é extremamente satisfatório ver a revista piauí (assim com p minúsculo) comemorar dez anos de existência.

A piauí nasceu para o público em outubro de 2006. Diferente e grande, na comparação com outros periódicos. Tanto em tamanho, quanto em texto e, principalmente, em qualidade. Um de seus grandes entusiastas nas salas de aula da faculdade de jornalismo da PUC à época foi o professor de redação, Vitor Necchi. Ele salientava que o modelo de negócio ainda era incerto e os cinco primeiros anos seriam decisivos para que ela se tornasse ou não definitiva.

Passou – e faz tempo. A revista segue sendo motivo para eu visitar as bancas uma vez por mês. Ufa!

A piauí nasceu enquanto alguns vários alunos daquela mesma faculdade discutiam jornalismo literário. Ela nasceu, talvez, com esta vertente, mas transcendeu-a, com certeza. Preza não só pelo bom texto, mas também pela informação e, claro, o conteúdo. Uma soma de fatores capaz de deixar o jornalismo algo muito interessante – e o leitor bem mais culto.

Honestamente, gostaria de montar uma lista com algumas das melhores matérias que já li na piauí ao longo desses dez anos, mas creio que isto seja um trabalho hercúleo em face que a seleção de apenas alguns seria até injusto. Há qualidade de sobra, em praticamente todas as edições. Então, ao invés de lista, coincidentemente um fetiche da imprensa moderna, apenas uma boa e velha dica: leia.

Até que um dia, Lisbela

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A mirar las vueltas de la vida…

Por onde andou Lisbela? Não se sabe, com exceção de uma praça, onde ela estava sozinha e faminta certo dia. Perdida ou abandonada, hoje é algo que apenas ela pode guardar em lembranças e revelar em gestos ainda assustados.

Dá pra imaginar, porém, o que sofre um bichinho de rua ao relento do inverno porto-alegrense. Especialmente o de 2016, que fez dias consideráveis de um frio chato. E nem vamos comentar sobre a incômoda umidade em que ficam as praças, as ruas, tudo.

Seus dois olhinhos, que sustentam o costume de um olhar firme, viram decerto algumas das mazelas que assombram mesmo humanos. Esses à margem, quando em condições miseráveis, obscuros e anônimos por entre o cotidiano de grandes cidades.

Até aquele dia. Quando mirou a pessoa certa, mirou seu resgate. Da praça saiu e ganhou uma casa, ainda que provisória. Recebeu cuidados e carinhos, que não encontrava na rua. Mesmo percorrendo toda a vizinhança, seu passado não foi encontrado naquelas redondezas. Rebatizou-se, então. Virou, aí sim, Lisbela.

Dias depois, seus dois olhinhos ganharam outro alguém, quase como numa cena clichê de amor à primeira vista. E bem mais do que isso: a agora Lisbela ganhou um lar. Nunca soube da expectativa que provocou, chegou desconfiada, atenta a mais aquela reviravolta que a vida lhe dava neste inverno. Mas desta vez uma virada para melhor. Quem disse que a vida não pode ser boa, afinal?

Por onde Lisbela andou já ficou num passado que está a distanciar-se. Um pretérito perfeito, que aconteceu e se concluiu no passado. A vida hoje é presente.Ela comprova que é bem mais fácil quando se tem um sofá, um pouco de comida e carinho à disposição. Que o futuro traga coisas boas para se olhar.

Não compre, adote ❤

ps: não basta arranjar um lar, tem que ter Instagram (!): @lisbelacanina

Ventana

livro nerudaQuis o destino que a efêmera vida de uma pequena borboleta terminasse justo no chão da minha cozinha, numa dessas manhãs de outono.

À tarde, quando a notei, ainda tentou um ou outro voo, provavelmente mirando a janela ali ao lado. Mas horas depois jazia no chão.

Recolhi, então, o desenhado corpo e em sua homenagem decidi por imortalizá-lo em meio às páginas contendo poesia.

Abri a esmo um livro de Pablo Neruda e repousei a borboleta entre duas odes. Ela escorregou pouquinho para baixo até se encaixar junto a uma palavra específica do texto em espanhol. Ventana.

Por puro acaso – ou não – ela repousa agora junto à Ode a una Estrella.

 

Textos baianos: A lenda

Olha! Se é verdade, não sei. Relato aqui apenas o que ouvi de um simpático senhor sentado ao meu lado em um pequeno bar no Pelourinho, coração de Salvador. Ele puxou assunto depois de o garçom recomendar cuidado ao mexer com o celular na rua, pois, conforme ele, ladrõezinhos passariam voando com meu telefone ao menor descuido meu.

Salvador (1)

Se avexe, não

“Esquente a cabeça, não. Ele fala isso só pra impressionar”, minimizou meu vizinho de mesa, que tão de pronto começou a conversar. Logo já se pareceu um amigo, algo adoravelmente típico do comportamento baiano.

Papo vai, papo vem e ele começou a contar que foi no Pelourinho que Carlota Joaquina tomou seu primeiro banho depois de semanas a fio dentro do navio que trouxera a comitiva portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, uns dois século atrás.

E falando estrangeiros, bom visitantes eram mesmos os holandeses, disse ele. “Esses não queriam dominar ninguém, apenas fazer comércio. E quando diziam que era inseguro, mas veio até um príncipe por aqui naquela época”, contou, referindo-se, imagino, ao início do século XIX (ou mais cedo ainda, no século XVII), mas sem mencionar o nome do nobre da realeza.

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Pelo amor ou pela guerra, nunca foi fácil deixar a baía para trás

“Mas correram com os holandeses”, lamentou, ao iniciar a contar a parte mais interessante da história. Segundo meu novo amigo, que solitário tomava uma cerveja, que dois navegantes holandeses sobreviveram a um bombardeio na saída de Salvador. Por sorte e resistência conseguiram nadar até a ilha da Itaparica, ao Sul da Baía de Todos os Santos.

Entretanto, o destino seguiu cruel com a dupla, que nadou, nadou até chegar logo à beira da praia onde vivia feliz uma tribo de índios. Canibais, no caso. Habituados a engolir só a carne seca do nordestino, logo viram com bons olhos aquela “carne gorda” europeia. Sem perder tempo foram à forra logo depois apreciando os músculos e a gordura de um deles. O outro navegante holandês prisioneiro foi mantido preso, “para engorde”.

Acontece que, em meio aos seus últimos dias, o rapaz de olhos claros holandeses chamou a atenção da filha de ninguém menos do cacique local. E mesmo não falando idiomas semelhantes, a linguagem corporal bastou para que houvesse encontros às escondidas entre a “princesa” da tribo e o jantar vindouro.

Ela, apaixonada, fez apelos ao pai para que soltasse aquele pedaço de carne. Pouco adiantou. Tempos depois o holandês foi devidamente temperado e comido pela tribo. Mas deixou lembranças, a principal delas no ventre da moça, que nove meses depois deu à luz a um novo indiozinho.

Só que, rapidamente constataram, era um indiozinho diferente. De pele meio escura, cabelos negros e olhos claros. Um indiozinho que, conforme a lenda que tarde dessas ouvi no Pelourinho, era ninguém menos que o primeiro caboclo do Brasil.

Se é verdade? Chicó responde:

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