Uns mais imparciais que outros

millor

De tédio, o noticiário brasileiro não morre. Nem passadas 48 horas da eliminação na Copa do Mundo, o país testemunhou uma nova e eletrizante disputa: o habeas corpus do ex-presidente Lula. Sem discutir o mérito – para evitar aqui um rótulo de coxinha ou petralha – as cenas de um domingo só provaram uma coisa: a charge de Millôr Fernandes segue com razão.

Se há algo de bom em todo o imbróglio protagonizado por eminentes magistrados no domingo pós-eliminação foi de que a coerência de boa parte foi mandada às favas e agora, em tese, poderíamos todos jogar de forma clara. Além do fato de que estamos, na verdade, em um grande estádio chamado Judiciário e, juntamente com nossos vizinhos, parentes e amigos, nos vimos sentados numa arquibancada apaixonada da qual saem berros, não raros, apaixonadamente irracionais.

Os argumentos que basearam as duas vertentes do solta ou não solta trocaram de lado, com regras pétreas sendo reinterpretadas ao sabor da convicção e do fato de momento. E mais uma vez o lado “perdedor” atacou a suposta parcialidade do homem da toga. Talvez porque, em meio a esse clima, deixaram na reta. Afinal, se um juiz que tira foto de azul pode condenar alguém de vermelho, por que outro juiz que um dia já vestiu vermelho não pode mandar soltá-lo, se entender que há respaldo para tal?

Isso sem falar em questões hierárquicas. Cabe a um juiz, ainda mais de férias, manifestar-se sobre decisão de um desembargador? Além disso, pode articular fora das vias judiciais oficiais para manter sua decisão, então derrubada? O que se faz primeiro, se cumpre ou se discute um mandado judicial?

Como visto, num paradoxo ao jornalismo, as notícias deste episódios parece que deixaram mais dúvidas do que certezas.

Neste clima polarizado, em que as ações contradizem o discurso de 2016 – aquele das “instituições fortes funcionando” – o Judiciário mostrou que deixou de ser árbitro e aderiu de vez à queda de braço que parece estar rachando a sociedade brasileira. E, como disse Millôr Fernandes muito antes do 7 a 1, se isso tudo não for um pesadelo, este país vai mal.

Anúncios

#diáriosdocaos

Na greve, teve bici | Foto: Brayan Martins / PMPA

Foi na quinta da semana passada, quarto dia da greve dos caminhoneiros. Vi a minha impressão sobre o movimento ser furada ante uma paralisação que parecia ganhar mais força a cada dia diante de um governo enfraquecido e acuado. Derrotada minha avaliação, peguei a minha moto e saí por Porto Alegre atrás de míseros três ou quatro litros de gasolina para não ficar a pé. Após ver uma que outra plaquinha escrita “sem combustível” e diversos dedos indicadores de frentistas indo para um lado e para o outro no ar, voltei para casa. Resignado, com o tanque no fim da reserva e sem uma gota de gasolina a mais.

Apesar de estar relativamente tranquilo, o ambiente ao meu redor era de um cenário pré-apocaliptico. Já havia notícias pipocando de imensas esperas (e inflação) nos últimos postos com gasolina e etanol à disposição e filas homéricas nos supermercados que começavam a ficar sem estoques de alguns produtos – e aproveitando para lucrar um pouco mais com o que ainda havia à venda.

Resolvi entrar no clima, então, e iniciei uma série batizada de um carinho irônico-moderno #diariosdocaos. Como, enfim, aquela greve afetava de fato a minha vida.

A bem da verdade, apostei mais alto. Mesmo que tenha que perdido gasolina e ficado a pé, segui acreditando de que a greve não duraria tanto a ponto de me deixar também faminto em casa – o que não chegou nem perto de acontecer, porém ovos e omeletes desapareceram da cozinha lá de casa.

O que mudou de fato foi a logística. Uma mudança de hábito que preferi encarar com a melhor das boas vontades. Os 15 minutos de moto para chegar ao trabalho transformaram-se em 30 de caminhada somada a uns 22 de bicicleta, pelo sistema BikePoa.

Dia a dia, somei – e como bom nerd, tuitei – todos os percursos em que substituí a tração do motor pela animal – no caso, minhas duas pernas. Oito dias se passaram, com 35,1 quilômetros caminhados e 27,2 pedalados (antes de procurar a calculadora: deu 62,3 quilômetros, ao todo). Apesar de sensivelmente mais cansado à noite, não foi nenhum sacrifício maior do que perder horas do meu dia numa fila monstruosa e estressante por… gasolina.

Fui voltar ao posto só depois de ter certeza de que não ficaria dezenas de minutos por ali:

Com a situação já se encaminhando para a normalidade, e com dinheiro do SUS indo para o diesel, concluo que a reocupação da cidade por pessoas, bicicletas (e até cavalos, em alguns casos) talvez tenha sido a melhor parte desta greve para quem não é caminhoneiro. Redescobrir caminhos e detalhes de uma cidade a qual estamos acostumados a ver só pela janela ou, no meu caso, atrás de um capacete.

Claro que não posso sobrepor a minha realidade a outras. Eu tive essa opção de poder caminhar e pedalar, porque moro a uma distância não tão longe do meu destino diário e num horário ok. Para muita gente, isso não foi uma opção e o que restou foi um ônibus lotado e atrasado. (A essas pessoas, um convite para debater uma mobilidade urbana sem o uso de combustíveis derivados do petróleo)

Ainda assim, apesar de alguma dor no joelho ou cansaço nas pernas, a greve me deixou uma satisfação de ser incapaz de me prender ou obrigar a desperdiçar o já escasso tempo livre em locais indesejados, muito antes pelo contrário. A falta de combustível acabou sendo um convite para reencontrar a minha cidade.

E que saudade eu estava de Porto Alegre.

Quando me abordaram em Bogotá

bogota

Certa vez estive em Bogotá. Foi uma viagem completamente ao acaso – definida, semi-planejada e realizada em menos de um mês. Dentre as poucas recomendações que ouvi e li, era de que a polícia era muito vigilante nas ruas da capital da Colômbia, que eu poderia ser parado a qualquer momento, que poderia ser revistado até mesmo para entrar em shoppings centers.

Num rápido contexto, basicamente tudo o que eu ouvia sobre a Colômbia até então, eram notícias negativas. Nos anos 90, o país, para mim, era basicamente Farc, cocaína, tráfico e um pouco de café. Lembro de uns 10 anos antes de eu ir para lá de um tio meu falando que para ir na esquina “precisava cuidar com os tiros”.

Obviamente ele nunca esteve na Colômbia. Naturalmente, o que vi lá era bem diferente daquela impressão errônea vendida. Ainda que, em 2012, notei resquícios de uma violência marcante no passado, como, por exemplo, a forte atuação da polícia nas ruas de Bogotá.

Comentei aqui mesmo naquela época. E não foi nem uma, nem duas, mas várias vezes que fui parado por policiais naqueles dias – certa feita, um estava até à paisana. Mostrava minha mochila, meu passaporte e às vezes respondia algumas perguntas para enfim ser liberado. Sempre com respeito.

621941-970x600-1Lembrei disso esta semana com a ação do Exército em morros do Rio de Janeiro, onde soldados estão fichando todos moradores de algumas áreas para comprovar se há ou não antecedentes criminais. Nestes tempos de redes sociais, é claro, diversos debates saltaram. De um lado, críticas, do outro argumento que o Rio vive momento delicado, que exige medidas específicas e drásticas. Também há a linha clássica: de que quem não deve não teme – e não tem nada de esconder em uma abordagem.

Ações extraordinárias ocorrem em momentos extraordinários. Dia desses conversei com um boliviano que visitava Porto Alegre e ele sabia da crise de segurança no Rio, porém não tinha ideia que a capital fluminense sequer é a terceira no número de assassinatos por 100 mil pessoas no Brasil. “O Rio tem muita mídia”, expliquei pra ele.

Se ao menos houvesse um plano de segurança apresentado devidamente à sociedade – sendo claro com a bancadora da operação e principal vítima da violência –, esse fichamento que flerta com o autoritarismo poderia ser justificado. Mas não é o que parece. Não estou, nem vivo a realidade do Rio, ok, mas ainda não há notícias sobre ação semelhante em outras zonas da cidade, como Ipanema e Leblon.

Justo a ausência de ações integradas em todo o território que me fizeram lembrar de Bogotá. Eu fui abordado em zona turística da capital colombiana, em La Candelaria. A Colômbia, apesar dos exageros e da desinformação difundida, teve um grande problema de segurança há poucas décadas. Combatido, não sei se de todo resolvido, mas hoje o país passa outra imagem a seus vizinhos. Muito mais saudável e turística, frise-se.

Que o Rio – e todo o Brasil – precisam de ações drásticas na área da segurança, talvez ninguém duvide. Porém que sejam ações de verdade e não racismo e criminalização de favelas maquiados em ano eleitoral.

Muros

muro de berlim (2)

Já faz algum tempo que publiquei no Correio do Povo uma matéria sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Muito mais tempo faz que o próprio deixou de ser uma barreira física, sedimentada na dor, entre duas ideologias de mundo.

Mas só agora, mais de 28 anos depois, que a idade contemporânea superou o tempo em que aquele concreto esteve erguido por 155 quilômetros de vias e mentes berlinenses. Neste início de 2018 dá uma nova lição: da quantidade absurda de tempo em que ficou erguido.

Num mundo em que ainda há muros separando gentes e classes (e por que não ideologias?), o de Berlim ainda existe, como já mostrado aqui anos atrás. Às vezes como souvenir movimentando a economia, erguido e transformado em galeria de arte ou como cicatriz no chão. Também há pontos onde ficaram apenas vigas, dando a ideia de como seria complicado estar junto.

O Muro de Berlim hoje virou a casaca. Se antes era para separar e fustigar, atualmente é um exercício de reflexão a todo mundo que o vê, o estuda e o sente na capital alemã. Ficou presente, apesar de quase todo destruído, para ser lembrado e não repetido. Ainda que exista bastante gente pensando ao contrário.

muro de berlim (1)

Acima, a estátua em frente à Kapelle der Versöhnung, na icônica Bernauer Strasse. A capela foi construída a partir dos escombros da igreja destruída pela intolerância do muro. Versöhnung, em alemão, quer dizer reconciliação.

Cruel economia

Porquinho

É quase um mantra, algo que repetem como se fosse necessário crer: “A economia está melhorando, a economia está reagindo”. Deveríamos acreditar piamente que o pior já passou, que o Brasil vive novos tempos e que a pujança estará ao nosso alcance logo mais – especialmente se tais reformas forem aprovadas.

Mas há alguma coisa que parece errada. “A Selic nunca esteve tão baixa”, eles dizem. Fato, verdade! “A inflação está baixando”, concordo. Porém, o bolso segue meio vazio, e algumas sinapses cerebrais são feitas. Com certa dificuldade, ok, porque economia é algo assustadoramente complicado de se entender. Só que quando trocam-se números frios por dinheiro, a conta faz um pouco mais de sentido.

E o que não faz sentido são todos esses números, em tese, positivos. Eu tenho moto, por exemplo. Já faz 12 anos. Desde então, nunca tinha conseguido colocar R$ 40 para completar o tanque. Atualmente, “com a nova política de preços da Petrobras”, esse valor passa dos R$ 50. Já não lembro a última vez que disse “completa” num posto.

Gás de cozinha, eletricidade, plano de saúde… o reajuste mais leve apenas nesses três boletos que vencem todo mês foi de 27%. Muito maior que o índice usado para aumentar meu salário proletário, que por mais que mal sobre no fim do mês, ainda me coloca entre os 20% mais ricos da população. Aliás, receber mais que 80% da população brasileira e escrever um texto reclamando de economia é algo que me deixa chocado.

9f021293-d3f3-48c2-bd99-006d6a9e762c

Não bastasse esta crise (ou a saída dela) afetar o meu bolso, passou a mudar drasticamente o meu passado. E confesso ser essa uma das motivações para começar escrever isso tudo. Ao passar na frente de dois dos restaurantes do querido bairro Menino Deus, onde a vó morou por toda a minha infância – e até já depois dela.

Um deles, talvez o que mais fomos tanto em saudosos almoços festivos de família quanto em qualquer terça-feira sem comida em casa, está vazio e já bem empoeirado por dentro, sem móveis outrora tão utilizados. Uma história oca. O outro, esse mais de ocasiões especiais, ostenta em plena avenida as cores desbotadas de outros anos e uma grande placa “Aluga-se” na frente.

Guerra de gritos e versões

greve jose cruz

Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

greve-geral

Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

A eleição dos jornalistas-cidadãos

grafico-eleicoes

Projeção da mídia x realidade

Ainda na faculdade eu ouvia um inocente e mobilizado “hoje todo mundo pode ser jornalista”. Era um novo tempo que chegava, em que o leitor estaria munido do poder publicar o que bem entender em seu blog gratuito. O começo da chamada Web 2.0. Era o tempo, repito, inocente da ideia do “jornalismo cidadão”.

Pouco depois disso, entre o fim da década passada e o início desta, massificaram-se as redes sociais em seu padrão mais perto do atual. Em seguida, já boa parte da população estava com seus próprios smartphones. Aí produção e disseminação de conteúdos estavam literalmente à palma da mão. Todos, de fato, poderiam se não ser jornalistas, a estarem aptos a dar o grande furo através de um flagrante ocasional. Blog gratuito? Já nem era mais necessário. Podia-se jogar a informação diretor na praça ou na banca de revistas.

Só que com todo mundo produzindo conteúdo o ruído ficou alto, ao mesmo tempo em que o nível de muitas discussões despencou enquanto grandes jornais viram a concorrência se multiplicar – seria o próprio leitor um media? Nesta ronha, sem perceber tanto, fomos separados em grupos por robôs, que atendem pelo nome de algoritmo. Neles amigos e correligionários encontraram-se. E muitos ainda estão certos que formam uma maioria, pois é só olhar: a maioria do Facebook está conosco!

Passa mais um tempo chegou a época da campanha eleitoral norte-americana de 2016. Aquela com dois candidatos que maioria não gosta. Aquela com nível baixíssimo e com a imprensa não poupando de críticas o republicano Donald Trump. Assim como a mídia, a aparente maioria Facebookiana e tuiteira também apoiava Hillary Clinton.

A democrata começou a noite decisiva com 85% de chances de ser eleita, conforme o The New York Times. As urnas foram sendo apuradas e o índice foi caindo. Trump, o temido odiado, passou à frente. Ganhou. Apesar da imprensa, apesar das redes sociais, apesar de ter dito em alto e bom som tudo o que disse.

A vitória de Trump, e principalmente a derrota de Hillary, foi como uma porrada da realidade, que grita: “Este algoritmo não passa de uma bolha! Não acredite somente nele”. A vida e a realidade são bem maiores do que as redes sociais. Não à toa que a candidata perdeu na maioria dos municípios americanos, esses pequenos. O conjunto de cidades caipiras do interior norte-americano venceu os centros metropolitanos.

A imprensa também recebeu um forte cruzado de direita. Apesar de se propor a fazer levantamentos dos preconceitos do republicano, de escancarar seus defeitos,não conseguiu eleger sua proposta. Em um resumo bem inocente e utópico, jornais trazem à tona notícias e fatos nos quais deveríamos acreditar.

O resultado eleitoral pode indicar que o modus operandi de boa parte da imprensa, especialmente na internet, esteja errado, como sugere um artigo escrito por Jeff Jarvis, intitulado com o sugestivo nome de Postmorten of Journalism. Friso o seguinte trecho, numa livre tradução:

Transformamos Donald Trump num caça-cliques mortal. O cerne do problema é que nós jornalistas insistimos em preservar nosso modelo de negócios de mídia de massa baseado em volume. Em manter o foco nos cliques e em chamar a atenção.
Os fatores somados indicam que o jornalismo saiu da eleição americana com um voto de desconfiança, que deve ser entendido como um questionamento a sua credibilidade. Justo nesta época, em que todos têm celulares e podem escolher onde se informar. Nesta época em que todos são jornalistas.