Muros

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Já faz algum tempo que publiquei no Correio do Povo uma matéria sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Muito mais tempo faz que o próprio deixou de ser uma barreira física, sedimentada na dor, entre duas ideologias de mundo.

Mas só agora, mais de 28 anos depois, que a idade contemporânea superou o tempo em que aquele concreto esteve erguido por 155 quilômetros de vias e mentes berlinenses. Neste início de 2018 dá uma nova lição: da quantidade absurda de tempo em que ficou erguido.

Num mundo em que ainda há muros separando gentes e classes (e por que não ideologias?), o de Berlim ainda existe, como já mostrado aqui anos atrás. Às vezes como souvenir movimentando a economia, erguido e transformado em galeria de arte ou como cicatriz no chão. Também há pontos onde ficaram apenas vigas, dando a ideia de como seria complicado estar junto.

O Muro de Berlim hoje virou a casaca. Se antes era para separar e fustigar, atualmente é um exercício de reflexão a todo mundo que o vê, o estuda e o sente na capital alemã. Ficou presente, apesar de quase todo destruído, para ser lembrado e não repetido. Ainda que exista bastante gente pensando ao contrário.

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Acima, a estátua em frente à Kapelle der Versöhnung, na icônica Bernauer Strasse. A capela foi construída a partir dos escombros da igreja destruída pela intolerância do muro. Versöhnung, em alemão, quer dizer reconciliação.

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Cruel economia

Porquinho

É quase um mantra, algo que repetem como se fosse necessário crer: “A economia está melhorando, a economia está reagindo”. Deveríamos acreditar piamente que o pior já passou, que o Brasil vive novos tempos e que a pujança estará ao nosso alcance logo mais – especialmente se tais reformas forem aprovadas.

Mas há alguma coisa que parece errada. “A Selic nunca esteve tão baixa”, eles dizem. Fato, verdade! “A inflação está baixando”, concordo. Porém, o bolso segue meio vazio, e algumas sinapses cerebrais são feitas. Com certa dificuldade, ok, porque economia é algo assustadoramente complicado de se entender. Só que quando trocam-se números frios por dinheiro, a conta faz um pouco mais de sentido.

E o que não faz sentido são todos esses números, em tese, positivos. Eu tenho moto, por exemplo. Já faz 12 anos. Desde então, nunca tinha conseguido colocar R$ 40 para completar o tanque. Atualmente, “com a nova política de preços da Petrobras”, esse valor passa dos R$ 50. Já não lembro a última vez que disse “completa” num posto.

Gás de cozinha, eletricidade, plano de saúde… o reajuste mais leve apenas nesses três boletos que vencem todo mês foi de 27%. Muito maior que o índice usado para aumentar meu salário proletário, que por mais que mal sobre no fim do mês, ainda me coloca entre os 20% mais ricos da população. Aliás, receber mais que 80% da população brasileira e escrever um texto reclamando de economia é algo que me deixa chocado.

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Não bastasse esta crise (ou a saída dela) afetar o meu bolso, passou a mudar drasticamente o meu passado. E confesso ser essa uma das motivações para começar escrever isso tudo. Ao passar na frente de dois dos restaurantes do querido bairro Menino Deus, onde a vó morou por toda a minha infância – e até já depois dela.

Um deles, talvez o que mais fomos tanto em saudosos almoços festivos de família quanto em qualquer terça-feira sem comida em casa, está vazio e já bem empoeirado por dentro, sem móveis outrora tão utilizados. Uma história oca. O outro, esse mais de ocasiões especiais, ostenta em plena avenida as cores desbotadas de outros anos e uma grande placa “Aluga-se” na frente.

Guerra de gritos e versões

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Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

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Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

A eleição dos jornalistas-cidadãos

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Projeção da mídia x realidade

Ainda na faculdade eu ouvia um inocente e mobilizado “hoje todo mundo pode ser jornalista”. Era um novo tempo que chegava, em que o leitor estaria munido do poder publicar o que bem entender em seu blog gratuito. O começo da chamada Web 2.0. Era o tempo, repito, inocente da ideia do “jornalismo cidadão”.

Pouco depois disso, entre o fim da década passada e o início desta, massificaram-se as redes sociais em seu padrão mais perto do atual. Em seguida, já boa parte da população estava com seus próprios smartphones. Aí produção e disseminação de conteúdos estavam literalmente à palma da mão. Todos, de fato, poderiam se não ser jornalistas, a estarem aptos a dar o grande furo através de um flagrante ocasional. Blog gratuito? Já nem era mais necessário. Podia-se jogar a informação diretor na praça ou na banca de revistas.

Só que com todo mundo produzindo conteúdo o ruído ficou alto, ao mesmo tempo em que o nível de muitas discussões despencou enquanto grandes jornais viram a concorrência se multiplicar – seria o próprio leitor um media? Nesta ronha, sem perceber tanto, fomos separados em grupos por robôs, que atendem pelo nome de algoritmo. Neles amigos e correligionários encontraram-se. E muitos ainda estão certos que formam uma maioria, pois é só olhar: a maioria do Facebook está conosco!

Passa mais um tempo chegou a época da campanha eleitoral norte-americana de 2016. Aquela com dois candidatos que maioria não gosta. Aquela com nível baixíssimo e com a imprensa não poupando de críticas o republicano Donald Trump. Assim como a mídia, a aparente maioria Facebookiana e tuiteira também apoiava Hillary Clinton.

A democrata começou a noite decisiva com 85% de chances de ser eleita, conforme o The New York Times. As urnas foram sendo apuradas e o índice foi caindo. Trump, o temido odiado, passou à frente. Ganhou. Apesar da imprensa, apesar das redes sociais, apesar de ter dito em alto e bom som tudo o que disse.

A vitória de Trump, e principalmente a derrota de Hillary, foi como uma porrada da realidade, que grita: “Este algoritmo não passa de uma bolha! Não acredite somente nele”. A vida e a realidade são bem maiores do que as redes sociais. Não à toa que a candidata perdeu na maioria dos municípios americanos, esses pequenos. O conjunto de cidades caipiras do interior norte-americano venceu os centros metropolitanos.

A imprensa também recebeu um forte cruzado de direita. Apesar de se propor a fazer levantamentos dos preconceitos do republicano, de escancarar seus defeitos,não conseguiu eleger sua proposta. Em um resumo bem inocente e utópico, jornais trazem à tona notícias e fatos nos quais deveríamos acreditar.

O resultado eleitoral pode indicar que o modus operandi de boa parte da imprensa, especialmente na internet, esteja errado, como sugere um artigo escrito por Jeff Jarvis, intitulado com o sugestivo nome de Postmorten of Journalism. Friso o seguinte trecho, numa livre tradução:

Transformamos Donald Trump num caça-cliques mortal. O cerne do problema é que nós jornalistas insistimos em preservar nosso modelo de negócios de mídia de massa baseado em volume. Em manter o foco nos cliques e em chamar a atenção.
Os fatores somados indicam que o jornalismo saiu da eleição americana com um voto de desconfiança, que deve ser entendido como um questionamento a sua credibilidade. Justo nesta época, em que todos têm celulares e podem escolher onde se informar. Nesta época em que todos são jornalistas.

Nulos

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Pra que a urna passa por testes se o eleitor não vai à ela? | Foto: Nelson Jr /TSE

Vinte e cinco milhões setenta e três mil e vinte e sete pessoas. Quantidade de gente que, se fosse um país, formaria a 51ª maior população do mundo, mas que no Brasil representa pouco mais de 17,5% do eleitorado apto a votar. Apto, mas que, por algum motivo, não compareceu às urnas neste primeiro turno das eleições.

Apenas em Porto Alegre, 247.240 pessoas, seja por saúde, preguiça, viagem ou protesto mesmo deixaram de expressar sua opinião. Outras 135.295 foram até a sua urna, mas votaram em branco ou anularam sua opinião – ainda que isso não deixe de ser uma forma de expressão.

Anularam-se, então, 382.565 votos.

O total de gente que não votou ou anulou ou votou em branco quase supera a soma dos dois primeiros colocados na eleição de Porto Alegre. A diferença é de pouco mais de 16 mil votos. Ou, olhando-se para os outros, o volume de votos desconsiderados é maior que a soma do alcançado pelos outros seis candidatos que estiveram no pleito. E ainda sobrariam mais de 65,8 mil votos. É uma quantidade que decidiria a eleição, portanto.

Coincidência ou não, isso ocorre ao fim de uma campanha que mal se notava, tamanha eram suas limitações. Pouco tempo de TV, pouco dinheiro para se investir em material gráfico, pouco entusiasmo do eleitorado. Escrevi isso no mês passado e, semanas depois, um colunista de Zero Hora foi na mesma linha, dizendo que tinha saudade até dos incômodos cavaletes de outras épocas.

Teve gente que descobri que se candidatou ao ver a lista da apuração no site do TSE. Se, de fato, livrou Porto Alegre e outras tantas cidades de candidaturas aventureiras e oportunistas, o contraponto faz-se necessário: quantos bons legisladores ou até prefeitos não foram perdidos por total falta de espaço de debate?

A um eleitorado não acostumado a acompanhar de perto o noticiário político, as informações que chegam de modo geral dão conta apenas de escândalos, de Lava Jato, de desvios. Pouco ou nada se sabe de propositivo e quase todo mundo que foi preso é do PT, que, por coincidência também, encolheu bastante nesta eleição.

Soma-se ao caldo diversos candidatos não se rotularem como esquerda ou direita, dizer que estão em prol da cidade e não do partido. Sabe-se que não é assim que as coisas funcionam na prática. E se alguém se filia a um determinado partido, logo escolhe o lado daquela sigla, esteja ela no campo que for.

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam e política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”, já dizia Platão. Bem antes de o Facebook ter virado o coreto da nossa praça.

La inflación en tiempos de crisis

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Arriba, a pesar de todo

“Estou me sentindo nos anos 90”, disse para ele, citando, além da mediocridade dos últimos resultados do Inter, a inflação com a qual me deparei na Argentina, após três anos e meio da minha última passagem pela terra-berço de Maradona.

Àquela época, inclusive escrevi aqui, já havia uma grande preocupação com a alta inflação. Uma matéria do jornal Clarin citava produtos e serviços que estavam passando da “barreira psicológica” dos 100 pesos: um pote de sorvete e dois ingressos para o cinema. A estratégia de 2013 era o congelamento dos preços. Não deu certo. Hoje, 100 pesos virou de vez uma notinha – e não adianta nem argumentar que a cédula vem estampada com o rosto de Evita Perón.

Virou notinha e exemplifico: a entrada no Parque Nacional Iguazú custou 250 pesos, mas o golpe inflacionário se sente mesmo na hora do café – ainda que este café seja o famoso Havanna, que tem lá no parque. Um simples expreso e um delicoso frappe saíram por 120 pesos. Cento e vinte pesos que me fizeram lembrar que oito anos atrás, quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, a passagem de metrô custava menos de um peso.

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100 pesitos

Gente tirando proveito (dos dois lados)

Mas a variação cambial tem lá suas vantagens para quem pode cobrar. O ingresso no Parque Iguazú tem o preço cobrado exclusivamente em pesos, mas a taxa de conservação (?) paga após a saída pode ser em real. E aí 20 pesos transformam-se em R$ 5.

Sublinhe-se que de acordo com o câmbio daquele dia o certo seria R$ 4,25.

Se o brasileiro sai perdendo na Argentina, a recíproca é a mesma ali do lado, em Foz do Iguaçu, onde a tarifa de ônibus custa R$ 3,20. Mas o cobrador aceita peso argentino. Quanto ele cobra? 20 pesos.

Eleições? Justo agora

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Quatro anos em poucos segundos: em breve | Foto: TSE

Vivemos tempos de ressaca, nesta época pós-impeachment. Paira por aí uma aguda desilusão política, ainda que disfarçada de excesso de convicção. Isso num momento em que perdemos a capacidade de diálogo em redes sociais. Não precisamos de muitas palavras para virar logo coxinha/golpista ou petralha/comunista. Sem meio termo nesta época de opiniões fortes.

Mergulhados em crise de representação, em menos de um mês vamos às urnas eleger aqueles que mais influenciam diretamente na nossa vida cotidiana, prefeitos e vereadores. Legislativo municipal, inclusive, coberto de maneira deficiente pela mídia em geral apesar de sua importância e impacto mais imediatos, diga-se de passagem.

Se não se atentar tanto à campanha, às vezes dá a impressão que ela mal começou. Ao menos em Porto Alegre, mal que mal se vê números das siglas e de seus candidatos. Talvez seja uma higienização forçada após anos de poluições. Campanha em si, igualmente pouca. Quando o material chega, em meio a toda esta crise institucional da sociedade, passa a impressão que há mais candidatos preocupados com o bem-estar dos animais do que, veja só, direitos humanos.

Defender direitos humanos virou em algum momento ser defensor de bandido, conforme os entendidos juízes de Facebook. Na campanha, é bola fora e, ainda que não seja atribuição do legislativo municipal – e sim do Estado –, o que não falta em Porto Alegre é gente prometendo mais segurança. Como isso vai acontecer? Não dá tempo de descobrir mais a fundo.

Não dá tempo, porque não há tempo. Juntos, os candidatos a representantes da população têm apenas dez minutos para pedir votos na TV e no rádio. Dez minutos compartilhados, poucos segundos para cada um – período insuficiente até para ler este parágrafo em certos casos. Cortaram o tempo que o eleitor tem para analisar seu candidato justo em um momento de grave crise de representação política.

É, mais do que nunca, uma eleição a jato. Mal começou, tem feriado no meio – num quase irônico Dia da Independência – e já vai terminar. Ao fim, tudo pode continuar igual e mal vamos reparar que fomos às urnas.