#diáriosdocaos

Na greve, teve bici | Foto: Brayan Martins / PMPA

Foi na quinta da semana passada, quarto dia da greve dos caminhoneiros. Vi a minha impressão sobre o movimento ser furada ante uma paralisação que parecia ganhar mais força a cada dia diante de um governo enfraquecido e acuado. Derrotada minha avaliação, peguei a minha moto e saí por Porto Alegre atrás de míseros três ou quatro litros de gasolina para não ficar a pé. Após ver uma que outra plaquinha escrita “sem combustível” e diversos dedos indicadores de frentistas indo para um lado e para o outro no ar, voltei para casa. Resignado, com o tanque no fim da reserva e sem uma gota de gasolina a mais.

Apesar de estar relativamente tranquilo, o ambiente ao meu redor era de um cenário pré-apocaliptico. Já havia notícias pipocando de imensas esperas (e inflação) nos últimos postos com gasolina e etanol à disposição e filas homéricas nos supermercados que começavam a ficar sem estoques de alguns produtos – e aproveitando para lucrar um pouco mais com o que ainda havia à venda.

Resolvi entrar no clima, então, e iniciei uma série batizada de um carinho irônico-moderno #diariosdocaos. Como, enfim, aquela greve afetava de fato a minha vida.

A bem da verdade, apostei mais alto. Mesmo que tenha que perdido gasolina e ficado a pé, segui acreditando de que a greve não duraria tanto a ponto de me deixar também faminto em casa – o que não chegou nem perto de acontecer, porém ovos e omeletes desapareceram da cozinha lá de casa.

O que mudou de fato foi a logística. Uma mudança de hábito que preferi encarar com a melhor das boas vontades. Os 15 minutos de moto para chegar ao trabalho transformaram-se em 30 de caminhada somada a uns 22 de bicicleta, pelo sistema BikePoa.

Dia a dia, somei – e como bom nerd, tuitei – todos os percursos em que substituí a tração do motor pela animal – no caso, minhas duas pernas. Oito dias se passaram, com 35,1 quilômetros caminhados e 27,2 pedalados (antes de procurar a calculadora: deu 62,3 quilômetros, ao todo). Apesar de sensivelmente mais cansado à noite, não foi nenhum sacrifício maior do que perder horas do meu dia numa fila monstruosa e estressante por… gasolina.

Fui voltar ao posto só depois de ter certeza de que não ficaria dezenas de minutos por ali:

Com a situação já se encaminhando para a normalidade, e com dinheiro do SUS indo para o diesel, concluo que a reocupação da cidade por pessoas, bicicletas (e até cavalos, em alguns casos) talvez tenha sido a melhor parte desta greve para quem não é caminhoneiro. Redescobrir caminhos e detalhes de uma cidade a qual estamos acostumados a ver só pela janela ou, no meu caso, atrás de um capacete.

Claro que não posso sobrepor a minha realidade a outras. Eu tive essa opção de poder caminhar e pedalar, porque moro a uma distância não tão longe do meu destino diário e num horário ok. Para muita gente, isso não foi uma opção e o que restou foi um ônibus lotado e atrasado. (A essas pessoas, um convite para debater uma mobilidade urbana sem o uso de combustíveis derivados do petróleo)

Ainda assim, apesar de alguma dor no joelho ou cansaço nas pernas, a greve me deixou uma satisfação de ser incapaz de me prender ou obrigar a desperdiçar o já escasso tempo livre em locais indesejados, muito antes pelo contrário. A falta de combustível acabou sendo um convite para reencontrar a minha cidade.

E que saudade eu estava de Porto Alegre.

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Guerra de gritos e versões

greve jose cruz

Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

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Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

O mundo é sempre maior que a nossa opinião

mundo

O mundo é bem maior do que qualquer reprodução

Uma pequena continuação do post passado, talvez com ideias mais claras. A questão dita ali não é censurar a opinião, mas não deixar-se enganar pelo espectro da própria convicção. É necessário buscar a maior clareza possível, sempre, principalmente quando se fala a pequenas multidões, como são (ou eram) os leitores de jornais.

Por exemplo: dias atrás um colunista daqui de Porto Alegre escreveu que sua meta de vida é trabalhar até os 100 anos, que seu pai ou avô também labutaram terceira idade a dentro. Alcançá-los será motivo de orgulho ao jornalista com fama de intelectual na praça e espaço garantido a propagar suas opiniões desde uma redação ou estúdio com ar condicionado, sem falar no salário pago em dia e dos mimos do cordel dos puxa-sacos.

Neste assunto, mais recentemente, a revista Exame tentou emplacar uma comparação com Mick Jagger (!!) exemplificando como pode ser “ótimo” desde que haja preparação para isso. Uma matéria que deve ter lá seu mínimo embasamento, mas que soa muito mais como publicidade do governo da hora do preocupação com o bem-estar geral. Ainda mais se considerar a mudança editorial em cinco anos:

Não há nada de errado trabalhar até quando for possível, ignorar a aposentadoria. Porém acatar esse pensamento como majoritário acaba por demonstrar uma ignorância imensa da cidade, Estado e país em que se vive, onde trabalho, talvez na maioria dos casos, não seja sinônimo de prazer e sim de obrigação.

O Brasil – que já foi muito mais desigual, é verdade – é um país cuja média salarial não chegava a R$ 2,5 mil em 2016, com possível tendência de queda devido à recessão. Nas duas maiores capitais do Nordeste, essa média não chegava a R$ 1,7 mil. E só aqui estamos falando de 4 milhões de pessoas.

Tais números apenas para a questão ficar na esfera econômica. Há uma série de outros fatores, como esforço (e lesão) físico e exposição a riscos, que facilmente podem ser ignorados se o dito articulista – trabalhe ele em jornal ou não – mantiver-se concentrado apenas no computador à sua frente enquanto pensa qual ideia tornará pública a seguir.

Fará bem a eles (e seus leitores) perceber o quão grande é o mundo e suas diversas realidades. Muito maior que quantidade de likes, RTs e compartilhamentos que qualquer post. E bem maior que qualquer opinião de gente que não lembra a última vez que andou de transporte público na própria cidade no horário de pico.

ps: talvez seja bom para o contexto lembrar que vivemos num mundo onde oito pessoas têm a mesma riqueza que outros 3.600.000.000 seres humanos.

Um perigo chamado resignação

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Abrir os punhos nos faz sangrar?| Imagem: EBC

Existe um grande perigo que nos cerca, nestes dias de notícias ruins. Nem sempre perceptível, mas determinante na nossa vida: a resignação. Ela, que surge como um caminho mais tranquilo ante a todas estas infindáveis discussões. Ela se aproxima e oferece um confortável “deixa pra lá”.

Diz o dicionário Michaelis: resignar(-se) é “conformar-se pacientemente, sem se revoltar”. E aqui não viso pregar a revolta em si, mas a insistência na defesa daquilo que acreditamos ser o certo e o justo – e que, em certa hora, sim, cansa de se defender.

A resignação é suspirar imaginando que um eventual governo Donald Trump possa não ser tão ruim assim – ainda mais agora que ele aparece crescendo nas pesquisas, mesmo após ser ridicularizado no início da campanha. Houve quantidade expressiva de eleitores norte-americanos que resignou-se, pois. Um muro de xenofobia pode ser bom nestes tempos tão conectados, afinal. Quem sabe não copia-se o modelo daqui a dois anos no Brasil?

Resignar-se ao ter de receber parcos salários parcelados como rotina e não como exceção. E ouvir que é necessário o sacrifício em nome de um bem que não tem prazo para chegar. “Não pense em crise, trabalhe”, eles ressoam.

Ir à luta contra a resignação, nesses casos, é ter de ouvir xingamentos de quem está preso no trânsito por causa do protesto, é ler absurdos de novos mentores dos tempos ultra-modernos nas redes sociais. Ter de encarar gente que incita o ódio, gente que não gosta de contexto ou que ignora fatos contraditórios por apego ao discurso.

A resignação nos minimiza, nos deixa a mercê do perigoso Gahn Bin Arra. “Ah, não é o prefeito, o governador ou o presidente que vai mudar a minha vida.” A resignação é uma água quentinha para nossas mãos geladas. É lavar as mãos e aceitar uma realidade cada vez mais “1984”. Só faltará o Ministério do Amor.

Sobre holofotes e jornalismo

bolsonaro na guaiba

Atenções voltadas ao estúdio

A presença do deputado federal Jair Bolsonaro em Porto Alegre centralizou as atenções da imprensa local. Em 48 horas a capital gaúcha, Bolsonaro concedeu entrevistas a quatro das principais rádios jornalísticas de Porto Alegre, além de participar de evento na Assembleia Legislativa.

No estúdio Cristal da Rádio Guaíba, ele concedeu entrevista quase que cara a cara com a população, em pleno centro de Porto Alegre. Por óbvio, suas opiniões, para dizer o mínimo, polêmicas, causaram reações tanto pró quanto contrárias.

Dali o clima foi esquentando até chegar à Assembleia Legislativa, onde o deputado foi vítima de um “purpurinaço” e viu o quebra-pau acontecer a poucos metros de si, entre manifestantes cujos ânimos estavam se acirrando desde a véspera, quando o deputado chegou a Porto Alegre e recebido por uma pequena multidão.

Particularmente, discordo frontalmente de Bolsonaro em quase todas as suas opiniões em praticamente 100% dos temas abordados. Isso, no entanto, não me faz achar que a presença dele deveria ser ignorada, como defenderam uns quantos por aí. Concordo: não supervalorizada. Mas não foi o caso – seria se ele fosse a mais veículos de mesmos grupos de comunicação.

O argumento de quem acredita que o deputado recebeu muita mídia em Porto Alegre é de que ele é preconceituoso para baixo e que, por isso, não deveria receber atenção e tampouco cobertura jornalística. Deveria, simplesmente, ser ignorado devido a seus posicionamentos.

Só que jornalismo nunca foi entrevistar/dar mídia apenas a quem “é do bem”. Ainda que imparcialidade plena seja um mito de faculdade não significa que os profissionais não tenham que buscá-la. Entrevistar e, principalmente, tentar explicar o fenômeno Bolsonaro, um cara que almeja ser presidente da República, faz parte do jogo, mesmo que a missão seja lá indigesta.

Cabe ao jornalista tentar esclarecer fatos e pessoas. Especialmente atores do poder público, como é o caso de Jair Bolsonaro, um representante do povo brasileiro na Câmara dos Deputados.

ps: no dia seguinte à entrevista do Bolsonaro, a deputada Maria do Rosário foi ao mesmo programa da Rádio Guaíba;

ps2: Entrevistador de Bolsonaro, Juremir Machado publicou um texto após a entrevista. De certo não é com esta mídia que ele conta.

Carta de despedida

Vim para cá naqueles tensos fins de 2008 meio fugido, admito, ainda que já tinha ouvido falar em ti e teu pujante futuro – que às vezes teima em parecer tão distante. Ao longo desses mais de cinco anos acredito que te coloquei definitivamente em novo status: “Emergente”. Bonito, não?

Mostrei a você uma boa vida que não se tinha muito por aqui. Crescemos juntos, em estrutura e, hehehe, milhões. Aliás, acho que essas expressões “milhões, bilhões” tu não dizias desde aquelas moedinhas mixurucas de décadas passadas, não é?

Bom, sei que você pode não entender bem a minha saída, é difícil de explicar e já tem vários teóricos tentando fazer isso. Mas é simples: vou voltar para casa. Nosso tempo foi bom, mas busco mais algo mais… estável. Acho que você me entende.

Em vias de partir, te desejo boa sorte. Tenho certeza que você se vira sem mim, Brasil.

Até logo, se trovejar lá fora, eu volto,
Dinheiro

Ah, esse vil metal

Reflexões e lembranças em meio à chuva

Genial foto do Daniel Cassol, via Twitter @dbcassol

Genial foto do Daniel Cassol, via Twitter @dbcassol

Hoje é 11 de novembro de 2013, uma segunda-feira. Chove forte desde a véspera em Porto Alegre. Parece que vai chover mais do que a média mensal nessas 24h, dia de #AlertaPOA Para variar, minha cidade virou um caos, em muitos sentidos. Dentre eles, o mais especial é o trânsito. É sempre assim.

Como todo brasileiro, o porto-alegrense em geral adora carro. “É questão de statis”, diria um meme. Transporte público – que até nem acho tão ruim quanto dizem – é considerado coisa de pobre. Já as bicicletas, pouco a pouco, estão ganhando seu espaço – ironicamente, desde que um motorista maluco e estressado atropelou 17 ciclistas, jogando holofotes à causa. Mas as magrelas ainda  são incipientes por aqui.  Resultado: milhares de carros engarrafados todos os dias. Até nos secos.

Culpa do aquecimento global ou não, fato é que, pelo menos uma vez no ano, ouço/vejo/sinto a sentença “choveu (quase) um mês inteiro apenas em um dia em Porto Alegre”. Sempre é caos. E culpar São Pedro por todo o infortúnio acaba sendo muito fácil. Em dias de sol, contudo, a cidade não se prepara – da mesma forma que não se preparou bem anos atrás. Esbarra em burocracias mil, em falta de vontade (ou às vezes confronto) política(o).

Tudo aqui é assim: se a boa ideia é de A, o B é contra. E vice-versa. Uma cidade – na verdade um estado inteiro – fica no meio disso. À mercê disso. É a velha mania dualista gaúcha, que se arrasta – e atrasa – há séculos estas terras.

T2 londrino e ciclista, lado a lado

T2 londrino e ciclista, lado a lado

Lembro, então, que conheci Londres e algumas cidades da Alemanha há pouco mais de dois meses. Cheguei a escrever que o transporte público de lá é algo incomparável com o daqui. Da mesma forma saliento que a capital inglesa mentiu para mim com seu tempo bom e que uma viagem de férias não pode servir como embasamento definitivo em uma comparação com onde se vive.

Devem haver sérios problemas por lá, com certeza. Mas, imagino eu, a mobilidade deve ser um dos menores, muito por causa de sua grande variedade (ônibus, VLT, metrô, trem, bicicleta etc) de opções. Obviamente não é imune a hecatombes de chuva, é claro. Mas sem dúvida até isso é bem mais resistente que o nosso.

Aqui em Porto Alegre, antes de sair de casa leio no Twitter relatos irritados de amigos meus, todos atrasados para o trabalho. Alguns dentro de seus carros, outros parados em ônibus ou lotações. O sistema está em colapso de novo, depois de aliados a falta de perícia dos nossos motoristas com a falta de estrutura das nossas ruas. A segunda-feira continuará complicada.

Meses atrás houve os famosos protestos de junho, que tiveram como bandeira principal o transporte público. Seu próprio bordão marginalizava o movimento, o transporte público: “Somos do povo e a passagem os ricos vão pagar”. Pouco a pouco, os protestos ganharam cada vez mais violência e perderam apoio… da população.

Lembro dos dias pós-protestos, também. Muito lixo acabava ficando na rua mesmo. Assim como muito lixo é jogado diariamente no chão, um tanto por falta de lixeiras por perto, um muito por causa da nossa porquice mesmo. Boa parte deste lixo entupiu há pouco as bocas de lobo que recolhem a água em excesso e ficou à mostra, boiando no maior arroio da nossa capital. As pessoas aproveitam a tranqueira e, assustadas dentro dos ônibus, tiram fotos. É sempre assim.