O mundo é sempre maior que a nossa opinião

mundo

O mundo é bem maior do que qualquer reprodução

Uma pequena continuação do post passado, talvez com ideias mais claras. A questão dita ali não é censurar a opinião, mas não deixar-se enganar pelo espectro da própria convicção. É necessário buscar a maior clareza possível, sempre, principalmente quando se fala a pequenas multidões, como são (ou eram) os leitores de jornais.

Por exemplo: dias atrás um colunista daqui de Porto Alegre escreveu que sua meta de vida é trabalhar até os 100 anos, que seu pai ou avô também labutaram terceira idade a dentro. Alcançá-los será motivo de orgulho ao jornalista com fama de intelectual na praça e espaço garantido a propagar suas opiniões desde uma redação ou estúdio com ar condicionado, sem falar no salário pago em dia e dos mimos do cordel dos puxa-sacos.

Neste assunto, mais recentemente, a revista Exame tentou emplacar uma comparação com Mick Jagger (!!) exemplificando como pode ser “ótimo” desde que haja preparação para isso. Uma matéria que deve ter lá seu mínimo embasamento, mas que soa muito mais como publicidade do governo da hora do preocupação com o bem-estar geral. Ainda mais se considerar a mudança editorial em cinco anos:

Não há nada de errado trabalhar até quando for possível, ignorar a aposentadoria. Porém acatar esse pensamento como majoritário acaba por demonstrar uma ignorância imensa da cidade, Estado e país em que se vive, onde trabalho, talvez na maioria dos casos, não seja sinônimo de prazer e sim de obrigação.

O Brasil – que já foi muito mais desigual, é verdade – é um país cuja média salarial não chegava a R$ 2,5 mil em 2016, com possível tendência de queda devido à recessão. Nas duas maiores capitais do Nordeste, essa média não chegava a R$ 1,7 mil. E só aqui estamos falando de 4 milhões de pessoas.

Tais números apenas para a questão ficar na esfera econômica. Há uma série de outros fatores, como esforço (e lesão) físico e exposição a riscos, que facilmente podem ser ignorados se o dito articulista – trabalhe ele em jornal ou não – mantiver-se concentrado apenas no computador à sua frente enquanto pensa qual ideia tornará pública a seguir.

Fará bem a eles (e seus leitores) perceber o quão grande é o mundo e suas diversas realidades. Muito maior que quantidade de likes, RTs e compartilhamentos que qualquer post. E bem maior que qualquer opinião de gente que não lembra a última vez que andou de transporte público na própria cidade no horário de pico.

ps: talvez seja bom para o contexto lembrar que vivemos num mundo onde oito pessoas têm a mesma riqueza que outros 3.600.000.000 seres humanos.

Um perigo chamado resignação

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Abrir os punhos nos faz sangrar?| Imagem: EBC

Existe um grande perigo que nos cerca, nestes dias de notícias ruins. Nem sempre perceptível, mas determinante na nossa vida: a resignação. Ela, que surge como um caminho mais tranquilo ante a todas estas infindáveis discussões. Ela se aproxima e oferece um confortável “deixa pra lá”.

Diz o dicionário Michaelis: resignar(-se) é “conformar-se pacientemente, sem se revoltar”. E aqui não viso pregar a revolta em si, mas a insistência na defesa daquilo que acreditamos ser o certo e o justo – e que, em certa hora, sim, cansa de se defender.

A resignação é suspirar imaginando que um eventual governo Donald Trump possa não ser tão ruim assim – ainda mais agora que ele aparece crescendo nas pesquisas, mesmo após ser ridicularizado no início da campanha. Houve quantidade expressiva de eleitores norte-americanos que resignou-se, pois. Um muro de xenofobia pode ser bom nestes tempos tão conectados, afinal. Quem sabe não copia-se o modelo daqui a dois anos no Brasil?

Resignar-se ao ter de receber parcos salários parcelados como rotina e não como exceção. E ouvir que é necessário o sacrifício em nome de um bem que não tem prazo para chegar. “Não pense em crise, trabalhe”, eles ressoam.

Ir à luta contra a resignação, nesses casos, é ter de ouvir xingamentos de quem está preso no trânsito por causa do protesto, é ler absurdos de novos mentores dos tempos ultra-modernos nas redes sociais. Ter de encarar gente que incita o ódio, gente que não gosta de contexto ou que ignora fatos contraditórios por apego ao discurso.

A resignação nos minimiza, nos deixa a mercê do perigoso Gahn Bin Arra. “Ah, não é o prefeito, o governador ou o presidente que vai mudar a minha vida.” A resignação é uma água quentinha para nossas mãos geladas. É lavar as mãos e aceitar uma realidade cada vez mais “1984”. Só faltará o Ministério do Amor.

Sobre holofotes e jornalismo

bolsonaro na guaiba

Atenções voltadas ao estúdio

A presença do deputado federal Jair Bolsonaro em Porto Alegre centralizou as atenções da imprensa local. Em 48 horas a capital gaúcha, Bolsonaro concedeu entrevistas a quatro das principais rádios jornalísticas de Porto Alegre, além de participar de evento na Assembleia Legislativa.

No estúdio Cristal da Rádio Guaíba, ele concedeu entrevista quase que cara a cara com a população, em pleno centro de Porto Alegre. Por óbvio, suas opiniões, para dizer o mínimo, polêmicas, causaram reações tanto pró quanto contrárias.

Dali o clima foi esquentando até chegar à Assembleia Legislativa, onde o deputado foi vítima de um “purpurinaço” e viu o quebra-pau acontecer a poucos metros de si, entre manifestantes cujos ânimos estavam se acirrando desde a véspera, quando o deputado chegou a Porto Alegre e recebido por uma pequena multidão.

Particularmente, discordo frontalmente de Bolsonaro em quase todas as suas opiniões em praticamente 100% dos temas abordados. Isso, no entanto, não me faz achar que a presença dele deveria ser ignorada, como defenderam uns quantos por aí. Concordo: não supervalorizada. Mas não foi o caso – seria se ele fosse a mais veículos de mesmos grupos de comunicação.

O argumento de quem acredita que o deputado recebeu muita mídia em Porto Alegre é de que ele é preconceituoso para baixo e que, por isso, não deveria receber atenção e tampouco cobertura jornalística. Deveria, simplesmente, ser ignorado devido a seus posicionamentos.

Só que jornalismo nunca foi entrevistar/dar mídia apenas a quem “é do bem”. Ainda que imparcialidade plena seja um mito de faculdade não significa que os profissionais não tenham que buscá-la. Entrevistar e, principalmente, tentar explicar o fenômeno Bolsonaro, um cara que almeja ser presidente da República, faz parte do jogo, mesmo que a missão seja lá indigesta.

Cabe ao jornalista tentar esclarecer fatos e pessoas. Especialmente atores do poder público, como é o caso de Jair Bolsonaro, um representante do povo brasileiro na Câmara dos Deputados.

ps: no dia seguinte à entrevista do Bolsonaro, a deputada Maria do Rosário foi ao mesmo programa da Rádio Guaíba;

ps2: Entrevistador de Bolsonaro, Juremir Machado publicou um texto após a entrevista. De certo não é com esta mídia que ele conta.

Carta de despedida

Vim para cá naqueles tensos fins de 2008 meio fugido, admito, ainda que já tinha ouvido falar em ti e teu pujante futuro – que às vezes teima em parecer tão distante. Ao longo desses mais de cinco anos acredito que te coloquei definitivamente em novo status: “Emergente”. Bonito, não?

Mostrei a você uma boa vida que não se tinha muito por aqui. Crescemos juntos, em estrutura e, hehehe, milhões. Aliás, acho que essas expressões “milhões, bilhões” tu não dizias desde aquelas moedinhas mixurucas de décadas passadas, não é?

Bom, sei que você pode não entender bem a minha saída, é difícil de explicar e já tem vários teóricos tentando fazer isso. Mas é simples: vou voltar para casa. Nosso tempo foi bom, mas busco mais algo mais… estável. Acho que você me entende.

Em vias de partir, te desejo boa sorte. Tenho certeza que você se vira sem mim, Brasil.

Até logo, se trovejar lá fora, eu volto,
Dinheiro

Ah, esse vil metal

Reflexões e lembranças em meio à chuva

Genial foto do Daniel Cassol, via Twitter @dbcassol

Genial foto do Daniel Cassol, via Twitter @dbcassol

Hoje é 11 de novembro de 2013, uma segunda-feira. Chove forte desde a véspera em Porto Alegre. Parece que vai chover mais do que a média mensal nessas 24h, dia de #AlertaPOA Para variar, minha cidade virou um caos, em muitos sentidos. Dentre eles, o mais especial é o trânsito. É sempre assim.

Como todo brasileiro, o porto-alegrense em geral adora carro. “É questão de statis”, diria um meme. Transporte público – que até nem acho tão ruim quanto dizem – é considerado coisa de pobre. Já as bicicletas, pouco a pouco, estão ganhando seu espaço – ironicamente, desde que um motorista maluco e estressado atropelou 17 ciclistas, jogando holofotes à causa. Mas as magrelas ainda  são incipientes por aqui.  Resultado: milhares de carros engarrafados todos os dias. Até nos secos.

Culpa do aquecimento global ou não, fato é que, pelo menos uma vez no ano, ouço/vejo/sinto a sentença “choveu (quase) um mês inteiro apenas em um dia em Porto Alegre”. Sempre é caos. E culpar São Pedro por todo o infortúnio acaba sendo muito fácil. Em dias de sol, contudo, a cidade não se prepara – da mesma forma que não se preparou bem anos atrás. Esbarra em burocracias mil, em falta de vontade (ou às vezes confronto) política(o).

Tudo aqui é assim: se a boa ideia é de A, o B é contra. E vice-versa. Uma cidade – na verdade um estado inteiro – fica no meio disso. À mercê disso. É a velha mania dualista gaúcha, que se arrasta – e atrasa – há séculos estas terras.

T2 londrino e ciclista, lado a lado

T2 londrino e ciclista, lado a lado

Lembro, então, que conheci Londres e algumas cidades da Alemanha há pouco mais de dois meses. Cheguei a escrever que o transporte público de lá é algo incomparável com o daqui. Da mesma forma saliento que a capital inglesa mentiu para mim com seu tempo bom e que uma viagem de férias não pode servir como embasamento definitivo em uma comparação com onde se vive.

Devem haver sérios problemas por lá, com certeza. Mas, imagino eu, a mobilidade deve ser um dos menores, muito por causa de sua grande variedade (ônibus, VLT, metrô, trem, bicicleta etc) de opções. Obviamente não é imune a hecatombes de chuva, é claro. Mas sem dúvida até isso é bem mais resistente que o nosso.

Aqui em Porto Alegre, antes de sair de casa leio no Twitter relatos irritados de amigos meus, todos atrasados para o trabalho. Alguns dentro de seus carros, outros parados em ônibus ou lotações. O sistema está em colapso de novo, depois de aliados a falta de perícia dos nossos motoristas com a falta de estrutura das nossas ruas. A segunda-feira continuará complicada.

Meses atrás houve os famosos protestos de junho, que tiveram como bandeira principal o transporte público. Seu próprio bordão marginalizava o movimento, o transporte público: “Somos do povo e a passagem os ricos vão pagar”. Pouco a pouco, os protestos ganharam cada vez mais violência e perderam apoio… da população.

Lembro dos dias pós-protestos, também. Muito lixo acabava ficando na rua mesmo. Assim como muito lixo é jogado diariamente no chão, um tanto por falta de lixeiras por perto, um muito por causa da nossa porquice mesmo. Boa parte deste lixo entupiu há pouco as bocas de lobo que recolhem a água em excesso e ficou à mostra, boiando no maior arroio da nossa capital. As pessoas aproveitam a tranqueira e, assustadas dentro dos ônibus, tiram fotos. É sempre assim.

O lixo na urna

O que se ganha com o lixo ao invés da urna?

O que se ganha com o lixo ao invés da urna?

Caminhava rumo a um digno cachorro-quente podrão em Florianópolis quando me deparei com esta pichação. Era ainda em janeiro deste ano. Nem eu, nem os comunistas, os reaças e muito menos os políticos imaginavam o que iria acontecer dali a alguns meses.

Creio, porém, que acaba por simbolizar muito o atual momento dos protestos Brasil afora. Para mim, ela pareceu dúbia: Quem joga lixo na urna? ou Seria a urna um lixo?

Além disso, reflitamos: quem é o culpado por isso?

As respostas talvez expliquem muito da revolta dos brasileiros. Acho que não é coincidência o fato de um dia depois da “tomada do congresso” deputados preocupados com a nação prosseguirem os trâmites de um projeto tão importante para a nação como a “cura gay”.

O povo a rua, ao menos, invalidou o último verso desta estrofe de “Eu Protesto”, escrita anos atrás:

Foi você quem colocou eles lá
mas eles não estão fazendo nada por vocês
Enquanto o povo vai vivendo de migalhas
Eles inventam outro imposto pra vocês
Aquela creche que deixaram de ajudar está por um fio
E a ganância está matando a geração 2000
E a sua tolerância está maior do que nunca agora

O que aprendi nas ruas

fotoCentenas de jovens nas ruas reclamando de algo é uma situação. Centenas de jovens voltando às ruas por dias e dias seguidos é outra. E aqueles que mantêm uma rotina dessas não podem simplesmente ser taxados de “vagabundos”, “baderneiros” ou “vândalos”. Há muito mais complexidade nesta massa do que apenas transtornos no trânsito ou mera “baderna”.

Talvez eliminar este pré-conceito tenha sido o maior ensinamento que tive como jornalista nos primeiros meses de 2013. A força dos gritos das ruas – uma grata surpresa, diga-se de passagem –, a tensão do ambiente e uma outra gama de fatos que presenciei e cobri entre março e abril deste ano e que vejo agora se repetir em outras cidades me fizeram refletir sob muitos aspectos, como cidadão e profissional de comunicação.

Das poucas conclusões que é possível chegar é que, por mais esforço que haja, nunca haverá a cobertura perfeita, pois diante de uma sociedade extremamente dividida, as verdades são muitas e cada um escolhe a que lhe convir. Existe depredação à toa, existe abuso policial, existem provocações (de ambas as partes). Há, no meu ponto de vista, uma obrigação ao repórter: de se manter (ou pelo menos tentar) o equilíbrio.

Repórter x tempo

2013-04-04 18.39.41Todo grande protesto envolve uma complexidade enorme de lados. O repórter, que vive contra o tempo e não vê diariamente uma coisa dessas na sua cidade, tem diante de si a revolta da população contra um aumento abusivo, os danos ao patrimônio público, o caos no trânsito da região e um deadline ou uma entrada ao vivo. Tudo isso é notícia e só puxar por um viés é errado, afinal.

O manifestante tem imbuído em si a coragem das grandes massas e a indignação transbordando. Isso não lhe dá o direito de sair quebrando o que tiver na frente, porém. Ainda mais se o objeto que receber sua raiva for público. No front também há os policiais e guardas municipais. Que, em sua maioria, recebem um salário ridículo e tem no estresse uma companhia permanente. Muitos deles, imagino, não recebem o treinamento adequado para a situação. Muitos deles, imagino, nem sabiam que a população se revoltava assim. E aposto que a mobilização tem surpreendido os próprios manifestantes pela força.

Ou seja, o pavio ali no front sempre é curtíssimo.

Em Porto Alegre, a vitória das ruas não chegou a demorar a acontecer e foi legítima, reconhecida na justiça. Na minha opinião, todos os atores passaram por mudanças no decorrer dos atos. Se boa parte dos jornalistas narrou a manifestação mais pelo caos no trânsito, os editoriais foram trocados em seguida por questionamentos cabíveis.

Uma grande vitória. Até junho

2013-04-04 19.04.15Os manifestantes oscilaram, mas no geral tinham diminuído o prejuízo alheio – até explodirem novamente numa nova revolta, agora em junho, quando o quebra-quebra foi grande e houve a promessa de reviver uma nova Turquia. A censura aos vândalos dentro do movimento aumentou no grupo, ao menos. Ainda assim, não chegou a conter os atos.

Policiais, depois de uma briga feia no primeiro protesto, apenas trataram – ao menos na maioria das vezes – de manter a ordem nos encontros seguintes. Até este último, agora em junho, quando mais prisões aconteceram e balas de borracha cruzaram a noite porto-alegrense.

Este último protesto em Porto Alegre, diga-se, aconteceu horas depois de o Tribunal de Contas do Estado confirmar a vitória nas ruas, mantendo as passagens em R$ 2,85, valor que pode baixar ainda mais com um novo cálculo. Até a noite de 13 de junho, uma certa calma pairava na capital gaúcha, que serviu de exemplo a muitos.

Despreparo político e policial  

Assistindo de longe as manifestações em outras cidades, especialmente em São Paulo e no Rio, torço que esta “evolução” aconteça em breve, mesmo que os sinais não apontem isso. Ao menos nas primeiras matérias se vê mais isso: vandalismo exagerado, excesso de violência da parte dos policiais, além de uma falta de contexto maior nas reportagens. E aquilo que se vê no Twitter é ainda mais assustador. Isso é uma derrota para todos.

O maior revés à população, contudo, acho que é a incômoda ausência dos governantes no calor da hora. Em todas as ocasiões os vi realmente distantes do povo, não importa orientação política, não importa legenda. Quando falam, tempos depois do confronto, tentam culpar alguém e algumas frases chegam a constranger.

Em meio ao movimento, eu, que não sou sociólogo nem tenho bola de cristal, estou acreditando que isto é só o estopim. Que começou por R$ ,020 do transporte público, só que vai se espandir a outras áreas sociais. Mas isto talvez seja uma verdade apenas minha e que certamente não convém a todos.

*Escrevi este texto antes do protesto do dia 13. Horas depois, claro, precisei adaptá-lo.
**As fotos são minhas, dos protestos em março e abril. Foram tiradas com meu celular, na correria de enviar algo para a redação.