Osvaldinho, parte 5

   Nesse instante, nem algo inimaginável, tipo um avião entrar voando pela parede do World Trade Center faria as pessoas tirarem o olhar daquela porta. A abertura ia aumentando e a luz do corredor fazia com que a sombra da silhueta de uma pessoa esguia invadisse a agência, desenhando-se no chão e na parede oposta.
   Era ele, aquele sombrio metro e noventa só podia ser dele. Mas algo parecia estranho no contorno daquele corpo, à altura do pescoço. Tampouco a pastinha fazia sombra pendurada na mão direita. No lugar dela, aparecia um objeto cilíndrico. Lentamente os olhares deixavam a parede e o chão, rumando – pescoços esticados – diretamente para o homem balançante que tentava se equilibrar na entrada do escritório.
   Osvaldinho, ele mesmo, o próprio. Mais o próprio do que sempre. Mais o próprio do que nunca. Era mais ele próprio do que antes sempre o fora. Camisa desabotoada, gola aberta e desalinhada, cabelos completamente desgrenhados, na mão uma garrafa de vodka barata, gravata solta, marcas de batom que marcavam o peito e iam da gola ao pé da orelha. Olheiras acentuadas, casaco preso pelo indicador sobre o ombro esquerdo e um cheiro da mistura cigarro-álcool-noite que, em segundos, inunda a agência inteira.
   Diante do silêncio boquiaberto de todos, e todas, a passos trôpegos ele evolui sala adentro. Já no centro, pára. Quase não conseguindo equilibrar-se, gira perigosa e lentamente sobre os calcanhares, fitando seus colegas um a um.
   No momento em que seus olhos encontram os de Adriana, que está em pé – imóvel e atônita atrás de sua mesa – as órbitas de Osvaldinho faíscam: “Já tem programa, hic, pra hoje, Adri?”
   Ele estava de volta, Osvaldinho estava de volta!

Osvaldinho, parte 4

   Para tristeza de Adriana, em uníssono, duas colegas responderam: Nada!
   Naquele dia nenhum trabalho andava. Uma peça que deveria ser entregue no início da manhã, atrasou. Uma campanha que seria apresentada no início da tarde, não ganhava corpo. Fotos deixaram de ser tratadas, gravações de jingles foram desmarcadas. “Vamos ligar”, ofertou uma das colegas. Sim, está na hora, “vamos ligar”. Ligaram! Nada, só chamou. Teria sido sequestrado? Sequestro relâmpago está muito na moda. Estaria ele num porta-malas, rodando pela cidade. Teria sido agredido? Quisera que os bandidos o deixassem com vida num morro qualquer desses que circundam a cidade.
   Ligar para a polícia, isso, deveriam fazer isso. Afinal era um amigo, um colega, um galanteador, um centro-avante, um homem em franca recuperação que poderia estar em apuros. Não. O que diriam para a polícia? Reclamariam do atraso de 58 minutos de um publicitário ao seu trabalho em plena segunda-feira? A polícia, por Deus, deve ter mais coisas a fazer do que cuidar do cartão ponto do Osvaldinho. Ligar para a casa dele… Isso, era a solução! Não, claro que não. Se ele morava sozinho e não estava em casa, logo, ninguém atenderia. E o tempo ainda estava virando, ficando para chuva, úmido, pesado, cerração da braba. E minha chapinha, pensou Adriana. Desespero.
   O único alheio e desligadão disso tudo era Seu Jorge, da manutenção predial. Chegou com sua escadinha em punho querendo saber qual lâmpada deveria ser trocada. “A que está apagada, né Seu Jorge.” Respondeu de forma ríspida Adriana, a sedutora sem vítima. Passava das 11h, quando seu Jorge terminou o serviço e pediu a Adriana o favor de abrir a porta para que ele passasse com sua escada e maleta de ferramentas. Num suspiro entediado ela levanta e vai ajudar o pobre homem.
   Ao caminhar para abrir a porta uma nesga de ilusão irrompe o peito, e que peito, de Adriana. Imaginava acionar a fechadura e encontrar do outro lado seu alvo, ele, Osvaldinho. Suas mãos suaram, sua boca secou, o coração acelerou-se. O sorriso voltou aos lábios, e que lábios, e com ele as sensuais covinhas apareceram. Ah, aquelas covinhas que tanto perturbaram, que foram alvo de desejo e muita falácia de Osvaldinho, agora estavam ali, a sua mercê. Desde que, é claro, ele estivesse do outro lado da porta. O que não aconteceu.
   O horário do almoço se aproximava, alguns já começavam a suspender suas atividades, juntar papéis, fechar softwares e, por isso mesmo, a atenção se desprende. De forma superficial e temporária, é verdade, mas por um segundo todos parecem distraídos com suas coisas, algo que ainda não havia ocorrido naquele turno de trabalho. Nisso, um ruído quebra de novo a desatenção. O barulho da maçaneta, seguido do ruído das dobradiças estabelecem imediato silêncio. Tal qual magia, a porta atrai o olhar de absolutamente todos os colegas para ela, e vai se abrindo lentamente…

Nesta sexta (29), o Osvaldinho finalmente chega à agência para protagonizar a última parte desta saga, fica de olho!

Osvaldinho, parte 3

   Era a voz de Lucas, o boy: “Que tal um chimarrão, pessoal?” Todos aderem. Muito mais como passatempo do que tradicionalismo. De mão em mão circula o amargo, enquanto a preguiçosa máquina do tempo aponta, recém 9h15. Falta pouco. Aqueles últimos 15 minutos parecem não passar.
   Alguém liga o som ambiente. O Alemão Vitor Hugo conversa com Mari Mezzari, jactando-se da vitória colorada no domingo anterior. Ouve-se um chiado, era a estagiária, Carla. Girava o botão, ponteiro do dial rumando a uma estação de pagode. Balbúrdia, revolta e reclamação geral! O pessoal da agência tinha muito bom gosto musical. Sintonizam, em comum acordo, os 107,7 da FM Cultura. Sob protestos da estagiária.
   Com isso, houve um certo relax geral, e quando a atenção se transforma de novo em tensão, já são 9h32. Céus! Onde estaria ele? Teria chegado durante a eleição da rádio? Estaria em sua sala? Talvez estivesse no elevador, preso. Sim, só assim, só preso para que o novo Osvaldinho chegasse atrasado. Deus! O que teria havido? Trânsito? Um acidente? Não, Adriana não suportaria. Quem sabe deveriam ligar pra ele? Não… Calma, sugeria-se Adriana. São apenas dois minutos de atraso. Ele deve estar chegando. Ele e sua pastinha. Sim, pois o novo Osvaldo, mundanamente, usava até pastinha com fechadura de segredo. O fim.
   É melhor esperar. Retocar a maquiagem seria uma ótima idéia. Ajudaria a passar o tempo e ela poderia, depois que ele entrasse, surpreendê-lo. Surgir triunfal, maquiada, linda, insinuante e decotada, claro. Foi-se então ao banheiro. Lá dentro, só Deus sabe o que fez. E só o diabo sabe o que pensou Adriana. O certo é que lá permaneceu por mais de meia hora. Lá fora, nada dele. Adriana sai do toalete com jeito esperançoso e olhar questionador. Cadê ele?, perguntavam seus olhos, mirando cada um dos silentes colegas. “Nada do Osvaldinho ainda?” – indagou, com voz trêmula…

Ei, confere na quinta (26) a penúltima parte!

Osvaldinho, parte 2

   As colegas pediam cuidado e lembravam que onde se ganha o pão, não se come a carne…’”. Determinada, Adriana avisava: “Aguardem! Quem viver, verá!”. Com esta afirmação, o expediente foi encerrado na agência de publicidade Merlin. A noite recém caía naquela sexta-feira, com a promessa de festas intermináveis e bebedeira indiscriminada em alguns pontos de Porto Alegre. Porém todos estes eventos teriam uma ausência em comum: Osvaldinho. 
   O homem já nem queria mais nada naquele dia. De tão sério, aparentava cansaço. Até o futebol das 19h foi vítima do descaso de Osvaldinho. A centroavância e a cerveja pós-jogo não seriam as mesmas sem o camisa nove. “Cara, tu sabes que antes do jogo passei pela sala de reuniões. Só as mulheres por lá. Está sabendo a razão?”, perguntou Flávio ao amigo Gabriel. “Tchê, se eu ouvi bem, parece que a Adriana armou um negócio para segunda-feira. Não sei dizer o que, apenas peguei um ‘quem viver, verá!’”.
   A ala masculina da agência nem imaginava o que estava por vir, enquanto a feminina aguardava com expectativa o movimento de Adriana. Os homens continuavam preocupados com a situação do amigo, mas pretendiam tomar alguma decisão a respeito só a partir da próxima ausência no futebol.
   Três dias depois, às oito e meia da manhã e o sol já se instalava alto no céu da capital dos gaúchos. Seu Francisco, porteiro da agência e grande figura do prédio, recebia todos os funcionários com um animado bom dia. No momento em que retomava a leitura da coluna de Ruy Carlos Ostermann, recebe o cumprimento de Adriana. Seu Francisco levanta a cabeça e faz uma pausa, necessária, de cinco segundos antes da resposta. “Bom dia, dona Adriana!”. A loira já entrava no elevador quando o porteiro sussurra para si: “Ahh se eu tivesse faculdade…”. E assim o flerte preferencial de Osvaldinho se encaminha, mais vistosa do que sempre, para o quinto andar.
   Abrem-se as portas do ascensor e Flávio, juntamente com Gabriel, encontram a colega num dos seus melhores momentos. Ela já havia avisado de que armas iria dispor. O jeans azul marinho, que demarcava seus quadris e os deixava no tamanho exato, entre irresistível e hipnotizante. O bolerinho branco, acompanhado de uma blusinha preta, transformam o decote em uma espécie de imã irritante, que encurta distâncias e atrai olhos masculinos diretamente para ele. E claro, o complemento fundamental, os scarpins de couro marrom.
   “Olá meninos. O Osvaldinho já chegou?”, perguntou Adriana. Flávio e Gabriel, em jogral, respondem, “Ainda…Não”. A musa da agência dispensa a dupla e dirige-se para a sala de criação. Osvaldinho só chegaria pelas 09h30. Até lá, Adriana tratou de deslocar alguns queixos e causar dores de cotovelo nos bracinhos invejosos das colegas de trabalho. Tudo bem, pensou ela. A espera valeria a pena, e não duraria muito. Afinal, Osvaldinho já não chegava mais atrasado no trabalho havia quatro rigorosos e pontuais meses.
   Maquiagem impecável, batom discreto e com certo brilho, olhos delineados e, o melhor, com direito a trato especial nos cílios. Que Osvaldinho, antigamente, adorava anunciar sua paixão pelos cílios apropriadamente longos e delicadamente curvilíneos de Adriana. Pois assim estava ela, que já o aguardava ansiosa.
   O relógio, pródigo, insistia em seu passo lento. As atividades, o telefone, os e-mails, tudo parecia num ritmo diferente naquela segunda-feira. Diferente, e tendo menos importância. Os minutos iam passando, implacáveis. A marcha dos 60 segundos torturava não só Adriana, mas também as outras meninas do escritório. Os homens continuavam, coitados, curiosos. Podiam sentir o clima tenso que pairava no ar, percorria teclados, porta-arquivos e chegava, pasmem, a cafeteira. Que naquele dia, com ineditismo, ficou desligada. Um espanto.
   Era possível ouvir o tic tac do relógio pendurado na parede da recepção, tamanho o silêncio da expectativa. Em meio a tanta espera, finalmente ele chega. O ponteiro grande chega ao ponto mais alto da máquina, são 9h. Faltam apenas 30 minutos para que Osvaldinho encontre a algoz de sua pretensa recuperação. Foi quando uma voz se desprendeu lá da Sala do Xerox, invadindo cada recanto da agência.

Quarta (27) continua!

Osvaldinho

a história foi escrita a seis mãos: as minhas, do Luiz e do Rodrigão… Logo, vocês já devem imaginar as característiscas do conto…

 

   Mudara tanto e de tal forma que surpreendera até os mais próximos. De cortejador destemido, a romântico incorrigível. Tal fato aguçou os amigos. Teorias, teses entre eles começaram a ser elaboradas aos montes, nas mesas de bar ou mesmo durante o trabalho. Afinal, que diabos acontecera com o Osvaldinho?
   Osvaldinho, o cortejador, deu lugar a Osvaldinho, o romântico. Quase um tímido. As mulheres, tão acostumadas a incessantemente ouvi-lo, já nem sabiam mais reconhecer a sua voz. Nada a ver com aquele que, outrora, não perdoava quaisquer decotes ou rabos de saia. Na festa do fim de ano do pessoal, sequer pulou na piscina. Pela primeira vez em 15 anos.
   “É passageiro”, garante o companheiro de ataque no futebol. “Ih, não sei não. Nunca tinha visto ele comprar flores. Aliás, acho que ele nem sabia onde tinha floriculturas na cidade”, desconfia. Os relatos variam, mas a conclusão sempre é a mesma: Osvaldinho está muito mudado.
   Certa feita, depois daquela festa, um tanto avoado no trabalho, Osvaldinho começou a sondar como seria a vida de casado. Logo ele, que dorme com o cachorro, e não tem nenhum objeto cor-de-rosa no apartamento. Questionava os amigos para tentar imaginar como seria a vida com uma mulher todos os dias sob o mesmo teto. Pior, diziam os amigos, ele perguntava sobre viver com a mesma mulher.
   Dias atrás, num happy hour, os mais maldosos sugeriram até que fizesse algum curso de decoração, tamanha a predisposição dele a falar sobre quadros e móveis. Inicialmente, pensaram que ele iria se mudar, hipótese descartada. Reforma? Também não. Casa nova pro cachorro, então? Não. Apenas queria organizar seu apartamento. Estranho!
   “Bichice, virou veado!”, resmunga o ex-parceiro de bar, abandonado recentemente por Osvaldinho. “Olha, eu acho que é alguma mulher. Dia desses até vi o Osvaldinho assoviando pela rua. Isso é coisa de homem que encontrou a mulher certa, seu moço”, especula a dona da banca de jornais em frente ao prédio dele.
   Questionado, Osvaldinho é evasivo nas explicações. Aquele papo de se tornar um cara mais organizado já não cola. Há desconfiança até de que o cusco está dormindo numa caminha, o cúmulo. Há algo por trás disso tudo. Aliás, há alguém. A questão é: loira ou morena? Baixa ou alta? Ele não confirma nada. Nem mesmo a existência da dita cuja.
   Curiosamente, nesse período de transição, as colegas da firma passaram a olhar Osvaldinho com outros olhos. O simpático ex-cafajeste agora era um partidão. Aos poucos, elas se aproximaram voluntariamente do novo homem sério do pedaço. Antes, mal davam oi e só o esnobavam em horário comercial.
   Boatos dão conta de que até café servem pra ele. Perguntam da vida pessoal e algumas arriscam saber o verdadeiro motivo para tamanha mudança. Talvez queiram receber os frutos dessa transformação, não se sabe ao certo. A única certeza entre os colegas de trabalho é que a curiosidade feminina girava em torno da moda inverno, de viagens a Buenos Aires e, agora, Osvaldinho. 
   Adriana, alvo preferido de Osvaldo em tempos inconsequentes, hoje vê nos seus generosos quadris e nos decotes voluptuosos armas obsoletas de sedução. Eles já não arrancam nada mais do que um bom dia do colega de agência. Surpreendida com a alteração de atitude, a loira comentava com as colegas e dizia que era algo passageiro, nada que um bolerinho branco, uma calça jeans justa e um scarpin não resolvessem.
   “Segunda-feira vocês vão ver gurias, vai cair a máscara do Osvaldinho”, provocou, para as amigas. “Ai, o que tu vais fazer, hein?”

Segunda-feira (25) tem a continuação!