Olhos de ressaca

capitu

Nunca tinha sido muito próximo aos livros. Não percebera, então, que aquele era bem mais que um simples olhar. Bem mais.

Dentre tantos relacionamentos líquidos, deixara de notar justo a sua Capitu. Não viu seus olhos, lembrou-se apenas na ressaca.

Agora fica no aguardo. Quem sabe de um próximo romance. Talvez algo do realismo, pois de poesia (e subjetividade) passou longe.

Textos baianos: Os seios na praia

Um paraíso chamado Praia do Forte

Um paraíso chamado Praia do Forte

Ainda que estas palavras entrem neste blog com na série “Textos baianos”, elas não são necessariamente sobre a Bahia, os baianos ou as baianas. O fato em si é que ocorreu a poucos metros de uma das piscinas naturais que a maré baixa proporciona na Praia do Forte, a uns 80 quilômetros de Salvador.

Uma mulher de meia-idade. Já, naturalmente, tendo passado há alguns anos do seu auge físico. Ela estava com os seios de fora, em meio a outras tantas jovens mais bonitas, entre crianças que por ali brincavam, e não estava nem aí, mesmo não tendo silicone algum.

Não era linda ou exibicionista. Tranquila e segura de si, deitada com os seios de fora lendo qualquer livro à beira-mar, numa manhã de abril, era, acima de tudo, livre. E isso em tempos em que se debate ferozmente o feminismo e o machismo. Em que revista prega como exemplo ser bela, recatada e do lar.

Debates, por vezes cegos, que não chegaram à praia. Ao menos não àquela mulher.

A internet matou a Playboy. E faz anos

Playboy logo 141118A internet matou a aura da Playboy. Faz tempo, já. Mas a data de morte foi mesmo só confirmada como esta terça-feira, 13 de outubro de 2015. Neste dia, os executivos da revista masculina mais famosa do planeta anunciaram que não iriam mais publicar fotos de mulheres nuas em suas páginas a partir de 2016.

Pudera, a concorrência é desleal. A mais básica busca no Google, “mulher pelada”, leva a qualquer punhet, digo, apreciador de plantão a ousadas imagens que nem na Playboy seriam publicadas. A internet matou a Playboy. E faz anos, da mesma forma que ela tortura jornais impressos que insistem em viver do passado. Não à toa que todas as 10 edições mais vendidas da história no Brasil tenham sido no século passado.

O fato divulgado nesta terça soa tão natural que não chega a ser grande surpresa, ainda que icônico, sem dúvida. É próprio da economia da internet, dilacerar modelos antigos de negócios em prol do pequeno individualismo. Hoje manda nude já virou até piada. A própria revista com as antigas hashtags #decotesdesexta e #lingerieday (pode estar invertido, porque nem as achei) fazia quase a mesma coisa: competir com seu próprio nicho de mercado.

Pornografia é, de longe, o conteúdo mais buscado e desejado na web. Escancara uma essência humana nem sempre deflagrada publicamente, que vem antes do ativismo por qualquer causa tanto envolvimento tanto na web quanto nas redes sociais hoje em dia.

À Playboy resta o duro caminho da reinvenção, rota já seguida por tantos outros produtos e marcas desde a disseminação em massa da internet. Não significa necessariamente o fim, mas sim um desafio tremendo a ser encarado com seriedade e coragem.

ps: de forma nostálgica, o link com as capas da Playboy desde 1975

Manhã de sábado

Insistentes raios de sol vão se espalhando pela casa após trespassarem as frestas da janela. A casa está em uma soberana tranquilidade, incomum para aquela hora da manhã. Mas hoje pode. hoje é sábado e o despertador está de folga depois de mais uma semana puxada.

Na cama, acordo. Só que ela não. Espero, desperto. Ela dorme profundamente. Cuido qualquer movimento para não importuná-la. Mas sigo despertando e ela, sonhando. Já quero levantar, ganhar o dia e ela, nada.

Inquieto, fico em dúvida. Há um mate, um texto pra ser feito. Tenho que arrumar a casa, a mesa, a vida. Mas com ela é mais difícil… Dormindo, ela percebe a pré-agitação. E não precisa de palavra alguma para me convencer a ficar. Sequer acorda.

Apenas se ajeita, de uma forma que só mulheres amadas sabem como fazer. Cola seu corpo no meu e mia um miado que se sente, mas não se entende. Uma prova irrefutável: ela me ama, e isso que importa. O mundo, e o sábado, que esperem um pouco mais.

Diários de Motocicleta: Uma quinta-feira em Rosario

Turista na contramão

Turista na contramão

Depois de quase duas horas que exigiram muita atenção na estrada – e um pedágio no fim dela – a chegada a Rosario pela 174 compensa devido à Puente Nuestra Señora del Rosario, cartão postal da cidade. Valeria ter dado uma carona nesta hora.

Maior cidade da província de Santa Fé com cerca de 1,1 milhão de habitantes, Rosario tem alguns problemas de metropóles já na entrada de seu círculo urbano, como pedintes nas sinaleiras – algo não visto pelas bandas de Nogoyá ou Tacuarembó.

Por outro lado, tem diversos outros atrativos também. Com tempo escasso, não deu para conhecer, mas listaria o clube Rosario Central e a Iglesia Maradoniana – que venera el D10S Diego Maradona, além das praias banhadas pelo Rio da Prata.

Outro atrativo, sem dúvida, está no livro de história. Mais precisamente na história de alguns filhos ilustres de Rosario, tipo o melhor jogador de futebol do mundo (Messi), a melhor jogadora de hockey do mundo (Luciana Aymar) e o melhor símbol man de revolução deste planeta (Che Guevara).

Aproveitando a sua geografia simples – Rosario é uma cidade com duas grandes avenidas que se cruzam e quadras divididas em quadrados – vale dar uma caminhada pelo Centro. Ainda mais se ela terminar no Monumento à bandeira – uma majestosa estrutura, com dezenas de pavilhões alviazuis.

O monumento à bandeira, que fica muito bonito à noite,  está estampado na nota de dez pesos, junto com o general Manuel Belgrano, que ao contrário das personalidades supracitadas não nasceu em Rosario.

Panorâmica

Panorâmica

Rápidas

¡Comandantes!

¡Los Comandantes!

Não sei se fora feito antes ou a toque de caixa na véspera. Fato é que cheguei a Rosario e um muro já estava pintado com a inscrição “Hasta Siempre Comandantes”, ao lado da imagem de Hugo Chávez e Néstor Kirchner.
Agora, sendo mais capitalista, lembra que em Rivera trocávamos 1 dólar por 8,68 pesos? Pois em Nogoyá estava a 5,5, em Rosario 5 e em Buenos Aires nem isso. A explicação de um cabista paralelo: “Os uruguaios estão desesperados por dólares e estão pagando alto para mantê-los por lá”.

Por uma nova melodia

No canto do bar, ela ouve sozinha uma canção sobre paixão. O indisfarçável sorriso cúmplice denúncia que conhece de cor tais versos.

Elegantemente trajada com um vestido negro como o luto, ela hoje já deixa à mostra um ombro, valoriza uma curva a mais. As dores, enfim, sempre passam com o tempo.

Agora esperançosa, ela aguarda ansiosamente um novo tom, uma música de amor. Quer conhecer outros versos e quiçá viver novas estrofes.