Um hiato de vida, do outro lado do mundo

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Das ruelas que passamos pela vida

Eram quase 22h. Eu estava, ao lado de mais umas seis ou sete pessoas, parado em um cruzamento qualquer da área central na cidade de Hamamatsu, a uns 16 mil quilômetros do canto de mundo que chamo de meu. Chove fraco, estaria meio escuro se não fosse a intensidade dos painéis publicitários de led nas lojas ao redor. Passam pouquíssimos carros na rua. Mas ainda assim todos esperam a sua vez de atravessar, pois o sinal está verde para os veículos.

Quando o sinal me libera, torno a caminhar a esmo por ruas e ruelas, cheia de lojinhas, bares e restaurantes. Nas fachadas, um idioma completamente estranho. É, sem dúvida, um brevíssimo hiato de vida. E, como Cortázar caminhando por Paris, perdi-me na certeza que iria me encontrar.

Apesar da hora já avançada, medo de assaltos ou qualquer coisa do tipo simplesmente não há nesta realidade, algo bem diferente daqui, infelizmente. Mas diferente também de países da Europa, por exemplo, onde se tem uma sensação de segurança praticamente a todo momento: no Japão não é uma sensação, e sim uma certeza.

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Noite em Hamamatsu

Ao longo da rota improvisada numa cidade nova para mim, cruzo com diversas pessoas, como jovens estudantes, caminhando distraidamente com seus celulares pelas ruas. Inclusive meninas de saias curtas, ao tradicional estilo mangá – elas com a total liberdade de andarem distraídas, bem como escreveu a Taiga em seu blog, TokyoRio.

Todos ali certamente mais preocupados com eventual e repentino terremoto do que com qualquer violência, porque ela praticamente inexiste. Até o retorno ao hotel, ainda tenho algumas surpresas e uma certeza, que o Japão, em muitas momentos, mais parece outro planeta do que apenas mais um país diferente do meu.

Do que se come pelo mundo

bentoo (1)Se há algo que nos marca em cada viagem, isso provavelmente está na mesa. Enquanto em abril tive que encarar de frente a temperada e apimentada comida mexicana – e aprender que feijão mexido e frio com nacho é sim algo bem bom de se comer – em junho o desafio foi comer a comida japonesa original.

E por original consideremos, naturalmente, a feita por e principalmente para japoneses… no Japão. Brinco que por esses lados do Atlântico, o brasileiro e sua criatividade ainda inventarão o sushi de frango grelhado com requeijão ou o nipo-brasileiro: o sushi de arroz e feijão. Em Tóquio, dos sushis que pude provar, em nenhum vi cream cheese, por exemplo.

No Japão, tudo o que era de comer pareceu mais in natura, com muita salada. E quase sempre com arroz, que diferente do soltinho brasileiro, é bem empapado – até para facilitar para comer com o hashi. Quem quer escapar pode apelar para as massas, facilmente encontradas no estilo japonês, que, digamos, não lembra muito aquela feita com a receita italiana. Algumas por um preço bem camarada.

Importante salientar: não tenha certeza que a refeição típica é aquecida. Nem sempre ela é, sendo muitas vezes fresca, na temperatura ambiente. Uma sopinha volta e meia acompanha, conforme as fotos.

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Outra característica bem distinta à brasileira é a separação quase metódica dos tipos de comida, como na foto aqui de cima – que é de um bentoo, o equivalente à marmita verde e amarela. “Japonês come tudo assim, cada coisa de uma vez”, me explicaram por lá. Hábito é hábito, afinal.

Imaginei como seria estarrecida a cara de um oriental ao me ver em casa comendo arroz, feijão e guisado tudojuntoemisturado. O mundo é bem grande, meu amigo.

ps1: o idioma japonês é um obstáculo imenso para a grande maioria dos ocidentais. Para facilitar na hora de pedir a comida, muitos restaurantes dispõem de fotos dos pratos. A partir daí, a mímica impera.

ps2: Todo mundo tem direito de escolher o que quiser comer quando se está viajando. Em Tóquio, opções – orientais e ocidentais – não faltam! A capital do Japão é a cidade com o maior número de restaurantes no mundo.

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Crônica de uma madrugada em aeroporto

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A380: uma gigante distração

O funcionário do aeroporto de Guarulhos desceu 36 degraus desde a plataforma até a pista. No topo, o ponto mais alto da escada ambulante mal chegava à altura do segundo andar de um A380, o maior avião comercial em atividade do mundo. Era início de madrugada e o gigante ali era a única atração off-line do momento para aqueles que tinham horas pela frente no saguão do embarque.

O A380 não completou um trimestre de atividade no Brasil. Sua imponente presença ainda chama a atenção. Pudera, não é qualquer máquina que faz caminhões parecerem carrinhos de fricção ao seu lado. Outros aviões também se apequenam quando lado a lado.

Mas seu embarque não é fácil. Antes de voar por cerca de 15 horas de São Paulo até Abu Dhabi (ou seria Dubai?) ele leva umas duas horas desde o primeiro vip até o último passageiro atrasado entrar na aeronave. Mesmo a observação do gigante, feita de um banco improvisado no café, torna-se algo bem cansativo – e desconfortável – com o passar do tempo, que insiste em se arrastar.

Ainda assim, reparar em toda a logística de um A380 pode ser mais interessante que checar, rechecar as redes sociais sonâmbulas no início de madrugada. Não à toa que o avião segue atraindo curiosos junto às janelas para a pista. Muitos, como eu, tirando fotos para logo em seguida se decepcionar com a qualidade da imagem, prejudicada pelos reflexos do saguão diante da escuridão em frente.

Aeroportos costumam ser lugares bacanas para observações. Cada passageiro e tripulante leva consigo uma história. Uma origem e um destino, que não necessariamente são na cidade presente. Idiomas, tradições e manias se cruzando aleatoriamente nestas esquinas da vida. Uns apressados, outros em marcha lenta de férias. Provavelmente para nunca mais se aproximarem outra vez.

Quase 2h. Finalmente inicia o taxiamento do A380. Em pouco mais de três minutos, ele sai da nossa frente e vai para a pista, de onde ganhará os ares noturnos em seguida. Tudo viraria um marasmo total ali no café. Mas ao menos o acaso decidiu dar um prêmio pela atenção dispensada. Tão logo o gigante partiu, vagaram preciosas poltronas com um conforto ok. Como nem tudo é perfeito, o som das obras da madrugada afastam qualquer possibilidade de paz sonora.

Um pequeno grupo de pessoas dorme à minha volta, na posição que lhe é possível no espaço da poltrona. E haja criatividade, além de coluna, para conseguir descansar, por melhor que seja na comparação com o banquinho da hora anterior. Invejo-os. Simultaneamente ao tempo que para eles passa mais rápido, vou sendo levemente torturado pelo sono, que tira a disposição e a concentração para a leitura do livro de bordo.

Sobra só a observação e a escrita, companheiras fiéis de um jornalista insone. E ainda me faltam três horas para o meu voo…

Brinde aos injustiçados

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Uma foto de 2013 tão atual quanto nunca havia sido

Que 2016 não foi dos anos mais fáceis, isso não há dúvida. Em livros de história do futuro é bem capaz que olhemos o que foram esses 365 dias e questionemos: “Como é que fizeram isso?”. Pudéssemos, por certo mudaríamos muitas das coisas feitas nesse período.

Mas, a bem da verdade, que ano que passa incólume na nossa avaliação? Toda trajetória é feita de erros e acertos, perdas e ganhos. Às vezes mais, às vezes menos em proporção. A banca paga e recebe, enfim.

Este ano, ao menos pelas pessoas que me cercam – o que pode ser simplesmente efeito da minha bolha social – parece que não deixará saudades alguma. Há pessoas dando graças a Deus por 2016 terminar como se janeiro de 2017 fosse a certeza da redenção.

O meu ano também não foi dos melhores, como o da aparente maioria. Porém ainda insisto em manter um otimismo teimoso, quase inexplicável. Se vou ter que lembrar dos momentos complicados deste ano, que ao menos não quero esquecer dos bons, que, se não foram maioria, tentaram compensar em felicidade, como em certa feita escrevi, por exemplo, aqui e aqui. São injustiçadas horas boas em meio ao dramalhão deste ano.

Nem tudo foi perdido. Nunca é. E, se ainda não encontramos o momento definitivo e insuperável desta existência carnal, temos chances. Isso já tem que nos bastar: a teimosia da esperança de acordar para um dia melhor. Nem que seja ano que vem.

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Hay de tener fe

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Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Florianópolis

“No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, provoca o famoso ditado em espanhol. Pero no solo brujas, sino también santas y dioses. Hay mucho más cosas entre el cielo y la tierra, podemos complementar, ainda no seu idioma original, assim como concluir que na hora do aperto não existe ateu.

Pois bem.

Anos atrás apresentei aqui a Nossa Senhora de Cidade Baixa, que na verdade era Nossa Senhora da Conceição disfarçada. Uma santa que me acompanhou no peito por alguns anos e hoje está guardada como uma querida relíquia em algum lugar da minha casa, ao lado do Santo Antônio que a substituiu no posto de pingente.

A verdade é que nutro grande respeito por ela, mas que a vida me afastou do catolicismo, aproximando-me do espiritismo. Tenho, contudo, muito carinho, em especial aos santos supracitados. Se existem e fazem milagres? No lo sé, pero que los hay, los hay.

E foi nessas obras do acaso que, após um congestionamento enorme na Lagoa da Conceição e a sequência de três motoristas mal-educados que não permitiram que eu trocasse de faixa, que mudei meu rumo, no meu último dia com 30 anos de idade. Conhecer o Projeto Tamar ficou para outra hora, que fôssemos a qualquer lugar longe daquele trânsito antônimo ao clima de verão.

Segui a esmo, então, a um dos poucos lugares não visitados em Florianópolis: o santuário da Imaculada Conceição, morro acima, na Costa da Lagoa. Igrejinha bonita, estilo barroca (?) e semelhante às mineiras que vi em Ouro Preto.

Após apreciada, chegara a hora de partir. Só que partir dali o carro não quis. Tentei uma, duas, 15 vezes e o veículo nem ligou. O cenário dramático contava com calor intenso, pouca água e sinal fraco de celular. Eis o que o homem de 30 anos age como filho mais uma vez e liga pelo socorro do pai.

Chega o velho: tenta-se uma ou duas soluções e não tem jeito. O negócio seria tentar pegar no tranco mesmo. Empurra-se o carro lomba acima e, antes da decida, de fora do carro reparo no outro lado da praça defronte à igreja e lá estava ela: Nossa Senhora da Conceição, abrigada por uma pequena gruta e cercada de velas devotas. Desci até mais perto para ver a imagem, sorri um sorriso imerecido de quem pede o tecnicamente impossível. E de lá escuto um motor: o carro pegou!

Depois ainda lembrei que não voltei a virar o rosto para agradecer, tamanha a surpresa com a inesperada partida do veículo. Ainda que ele tenha apagado em seguida, voltou a pegar no tranco e, sãos e salvos, todos chegamos onde tínhamos que chegar, quilômetros dali – para de lá trocar a bateria, claro.

À noite, rezei e agradeci à velha protetora da família, que já foi tanto à Cidade Baixa de Porto Alegre quanto ao alto de um morro com seu nome em Florianópolis apenas para dizer: pode contar comigo.

Há pelos

lisbela

Lisbela e o sol, uma parceria marcante

Havia apelos. Sozinha numa praça qualquer em pleno inverno era só o que lhe restava. De certo muitos foram ignorados, outros quiçá notados. E lá ficava o cão. Abandonado. Até que um dia virou Lisbela.

Desse dia pra cá já se passaram quase cem. Os primeiros, como não poderia deixar de ser, tiveram a marca da desconfiança. Receio do novo, daquela virada de vida tão boa e repentina, quanto surpreendente pra quem morou na rua. Precisava de mais tempo para crer. Teve. Assim como amor, comida, água e companhia.

E onde havia apelos, hoje só há pelos. Como um rastro de uma relação que, sim, deu certo. E de que, claro, Lisbela está em casa, num canto do sofá ou em alguma pose contorcionista para banhar-se de sol. Mas em casa, definitivamente, em casa.

Não compre, adote