Zumbido

Sleep, by Jean Bernard Restout (1771)

Morfeu, por Jean Bernard Restout (1771)

Já é madrugada. Quase toda a cidade dorme – ou ao menos está recolhida. Eu ainda não. Mais uma vez, o dia demorou a terminar. E recém foram vencidas todas as tarefas proletárias. Tarde da noite, como de praxe, enfim busco me atirar aos braços de Morfeu.

Passados todos compromissos e mesmo risadas do dia, o corpo anseia por algumas horas de descanso. Em meio ao breu do quarto, cá estou. Querendo fechar os olhos.

Mas algo teima em permanecer. Ainda que esteja tudo quieto, não há silêncio. Entre o tique e o taque do relógio a pilha da sala, percebo então: um zumbido. Fraco, mas constante. Leve a ponto de ser perceptível e baixo o suficiente para não gerar uma preocupação imediata de busca ao médico.

E ele não vai embora. Aliás, há quanto tempo será que ele zune aqui no meu ouvido esquerdo? Dias, semanas ou meses? Logo, qual foi a última vez em que eu – morador de centro urbano – percebi a ausência total de sons e ruídos?

Com um esforço da memória, consigo recordar apenas duas dessas vezes para responder à pergunta que me fiz. E lembrei de duas noites justamente por ter notado: “Nossa, o silêncio”. Nessas duas noites não havia ventiladores, ar condicionados, tique-taques, latidos de cachorros ou carros passando pelas ruas. E a falta disso me chamou a atenção.

Só duas noites em anos em que lembro que o silêncio reinou absoluto à minha volta. Noites em que um zumbido ainda não existia para me levar a outro questionamento: vale a pena todo esse barulho?
ps: Morfeu, aliás, é o deus do sonho na mitologia grega

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Quando eu conheci Jesus

Ou uma pequena via crucis na burocracia do trânsito de Porto Alegre

placa

Conheci Jesus pouco antes das 11 horas da manhã de quarta-feira. Enquanto ele exibia uma certa serenidade, eu estava furioso e – confesso – não cri neste senhor naquele primeiro momento, ao passo que entendia-me vítima de uma severa injustiça. Foi quando Jesus me disse: “Pensa, filho. Isso pode ter te livrado de uma situação muito pior ou até salvado a tua vida”.

Não que tenha ficado mais calmo, mas guardei as palavras de Jesus, apesar de duvidar um pouco delas. Logo depois, virei de costas e segui meu caminho. A pé, no caso, pois a moto com que andava foi guinchada justamente por Jesus, que cumpria ordens de agentes da Empresa Pública de Transporte e Circulação e da Brigada Militar.

A fins de contexto, minha infração foi ter trafegado com a moto sem placa, que havia caído dias antes. Parado em uma blitz, pouco adiantou eu ter um boletim de ocorrência relatando a perda da placa, a guia do Detran para a confecção de uma nova placa – já paga –, além de todo e cada documento e cópia requerida para esta enorme burocracia exigida por tal situação “inóspita”, como reconheceu um agente. Porém, ainda que compadecido com meu caso, e como ele cumpre ordens, mandou guinchar. Azar, o meu.

E Jesus levou minha moto.

Iniciava-se ali uma pequena via-crucis – claro que bem mais suave que a original. Era necessário vencer a burocracia e tirar a moto do depósito o quanto antes, pois vivemos uma época aqui em que tempo é, literalmente, dinheiro – no caso, pouco mais de R$ 22 por dia, pela tabela do Detran. E num fim de mês.

Lembrei-me de Jesus na primeira ida ao depósito, na manhã seguinte à blitz. Quando chegava lá – e bota lá, numa periferia limítrofe de Porto Alegre – percebi que alguém não poderia escutar as mesmas palavras que eu ouvi. Havia um motociclista estirado no chão, ferido. Caído, era acudido por pessoas simples, aparentemente desconhecidas, que o protegiam de um sol de quase meio-dia. Teria sido um destino meu evitado?

Entre idas e vindas, reencontrei Jesus e até troquei outras palavras com ele. Simpático, Jesus faz parte do povo. Sabe que a missão dada é árdua e seu trabalho não é simpático, quiçá injusto em alguns casos, mas precisa fazê-lo, pois até para ele é necessário ganhar a vida. Voltou a lamentar minha situação e me desejou sorte.

A burocracia pela placa nova – além de vistoria e emplacamento – foi vencida dois dias e meio após a blitz. Só que a autorização para enfim retirá-la apenas veio na quarta-feira seguinte. Esta nem tão pequena diferença fez o valor devido ao depósito mais que duplicar.

Passado tudo isso, o drama ainda resolveu se esticar um pouco mais na hora do resgate. Onde estaria a chave da minha moto, entre as centenas que estavam lá naquele verdadeiro cemitério de veículos, algumas há anos? Apesar de tanta taxa, erraram o mais simples dos protocolos e atrasaram um pouco mais a ressurreição veicular.

Quando ela enfim aconteceu, a primeira pessoa que vi do lado de fora foi Jesus. Tomava um café proletário, aquele de logo depois do almoço enquanto o serviço não aperta. Passando de moto, cumprimentei-o e levantei o punho em sinal de vitória. Ele sorriu.

Nuance

Fora um arrepio involuntário que entregara seu segredo. Quando percebeu, já era tarde. A reação espontânea juvenil quebrou a estratégia tão bem montada, com tantos olhares, frases e sorrisos subjetivos. Tudo ficou enfim exposto àquela indizível verdade.

O protegido âmago encontrara-se então à mercê daquele olhar mais atento, da interpretação óbvia dos fatos prólogos. Por causa de uma nuance corporal. Tão fora de hora quanto incontrolável. E, acima de tudo, dúbio.

Fora, enfim, desvelada. Será?

Por acaso, Tokyo Ska Paradise Orchestra

Tokyo Ska

Lembro que uma vez eu quis baixar uma música, então considerada rara. Após muito procurar, achei-a e apertei download. Já era tarde de domingo e fui dormir. Ali no meio da madrugada acordei e conferi o resultado: feliz, a canção enfim estava no computador após algumas horas – necessárias para baixar 3, 4 MB na internet daquela época.

Eram tempos completamente diferentes desses de hoje, em que tudo parece estar acessível, a pouco esforço, perto das nossas mãos – e ouvidos, no caso. Apesar de corriqueiro, reconheço, fico abismado com o que se tornou a internet atual quando lembro da cena daquela madrugada. Isso por ter vivido a época da conexão discada – e a aventura que era tentar baixar uma mera música.

Lembrei disso esses tempos ao me flagrar tornando-me fã de uma banda japonesa. Se por muitos anos, para eu conhecer qualquer grupo do outro lado do mundo precisaria desbravar – e muito – tantos lugares on e offline, desta vez foi bem diferente. Soube da existência deles vendo os stories de alguém que sequer conheço pessoalmente. Meia dúzia de cliques e alguns minutos depois, já havia percebido que gosto de Tokyo Ska Paradise Orchestra.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o grupo está em atividade desde o ano que eu nasci? Provavelmente eu seguiria mais 32 anos sem saber da existência deles se não fossem essas conexões rápidas, que fazem músicas e conteúdos ignorarem quaisquer fronteiras entre países e continentes.

Bueno. Por uma dessas coincidências aleatórias da vida, descobri que eles fariam um show em Buenos Aires logo no único sábado em que estaria na capital argentina. Tal fato me fez reviver uma situação que considerava havia muito encerrada: aguardar uma fila grande, a menos de 10°C, tarde da noite, para ir a uma casa noturna.

Foi cansativo para alguém casado, desacostumado a festas e shows e, talvez principalmente, com mais de 30 anos, mas valeu. Um show eletrizante do início ao fim, tal como esperava – e como poucos que vi. Fica o convite para conhecerem também. Basta meia dúzia de cliques e se quiserem começar aqui abaixo, fiquem à vontade:

ps: o show foi bem tarde. Começou às 3h e seguiu por mais de hora e meia. Como alguém que mora em Porto Alegre, tinha algum receio de sair tarde da madrugada em uma metrópole. Mas sair à noite em Buenos Aires significa ver pessoas e transporte público na rua, além de diversos lugares abertos 24 horas por dia, não importa a hora. Ruas ocupadas e bares cheios num sábado. Isso faz uma diferença enorme no cotidiano. Não seria bom pensar como importar isso à nossa boemia?

Aquel Enero

Mais no Instagram @wildakiba

Arte por Leo Medina

No conocía aquellos mares. Y tampoco aquellos vientos. Una brisa suave, pero también asustadora. Un encanto totalmiente desconocido. Un tipo ya experiente, el marino tuvo ganas de irse. Rumbar adelante.

Pero habia algo extraño. Un sentimiento raro le surgió: el miedo, que se iba tomandolo todo. Sin embargo, partió. Estaba ilusionado de una ilusión que le pareció linda. La más linda que ya tuvo.

¡Navegó! Pero las olas empezaram a crecer. Su ilusión, aunque más cerca, se quedó más lejos. El miedo, entonces, volvió fuerte. Tomó el barco. El camino se perdió e no hubo otro destino sino el naufrágio. El más grande naufrágio de aquel marino.

El mar, sin embargo, es viejo y también sabio. No quería la vida del marino. Quería darle una misteriosa lección. Algo que el marino tal vez solo vá a compreender un dia, más tarde. Muy más tarde que aquella mañana seguiente, cuando despertó después del naufragio.

Tras caerse, no se le recordaba como habia llegado hacia la playa. Estaba agotado, así mismo, él se levantó. A pesar del dolor, sabía que el mar habia le dado otra oportunidad de despertarse. Intentará recompensarlo, porque, al fin de todo, la ilusión se mantiene.

*Mais de quem fez o desenho, no Instagram

Brasil, América Latina?

latino americano

Não é novidade, mas não deixa de sempre (me) surpreender. Como o Brasil é isolado da identidade latino-americana de seus vizinhos de continente. A América, luta a luta, libertou-se do domínio espanhol, enquanto o gigante ali ao lado permanecia adormecido sob a tutela portuguesa.

Festejando o bicentenário de sua independência, o Chile tem nesses tempos de 2018 uma exposição na sua biblioteca nacional – cuja fundação é anterior ao famoso grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga –, na qual narra o processo de libertação e frisa que, após ela, o argentino San Martín seguiu ao Peru, para ajudar na independência daquele país.

Uma espécie de altruísmo? Talvez, mas está mais para uma missão que todos sabiam: enquanto houvesse um país colonizado por espanhóis na região, nenhuma independência estaria plenamente segura. Não à toa, houve diversas batalhas a Oeste do Brasil nas décadas iniciais do século XIX.

Isso tudo enquanto o rei Dom João VI recém apaixonava-se pelo Rio de Janeiro. Isso tudo aqui ao lado do Brasil. E, eu, jornalista caucasiano que recebeu boa educação no Brasil do século XX e XXI quando era estudante, nem lembro de ter visto em livros quando estava no colégio. Talvez por estar aprendendo mais sobre vassalos, suseranos e Napoleão do que os libertadores dos meus vizinhos.

Desde Chile: Un cajón para se conocer

cajon del maipo (1)

Certa feita uma amiga minha trocou a sua foto de perfil no Facebook por uma em que aparecia em frente a um lago e uma montanha. Perguntei se era na Suíça ou no Canadá, aquela vista. Ledo engano: Chile, um lugar bem mais perto da minha casa. Mais especificamente um local chamado Cajón del Maipo, a não muitos quilômetros de Santiago.

O nome “Cajón del Maipo” me chamou a atenção. Cajón, em português, é nada mais que caixão. Nome esquisito para um lugar, digamos, visitável. Mas perfeitamente compreensível na literalidade da língua espanhola. O cajón que batiza a região é porque todo aquele vale fica rodeado de montanhas, como se estivesse em uma grande caixa – sentido até semelhante com o nome da Bombonera, estádio do Boca, em Buenos Aires.

E Maipo é um dos rios que passam por ali. Simples e literal, assim.

cajon del maipo (2)A sensação deste “encaixotamento” é ainda mais presente quando se visita Embalse el Yeso, onde essa minha amiga foi tirar a foto dela. Poucos lugares são capazes de arrancar tantos “uau” por minuto quanto lá. Nesses tempos modernos, certamente serve de cenário para muitas fotos de perfil de Facebook.

De estrutura, mesmo, o embalse pouco tem – na verdade a empresa que administra a represa permite que agências de turismo levem gente até a beira da montanha onde trabalham. De lá sai a água que abastece a região de Santiago, então o banho sequer é permitido, apesar de que em outros pontos se possa fazer isso.

Ainda assim, mesmo que não haja um bar, um restaurante para se sentar, pedir um café ou uma cerveja e passar o dia reparando em cada curva delineada pela natureza, lá é lugar para contemplação e alguma caminhada em busca de um ângulo pouco mais espetacular. A vista impacta, até quando não é inverno, estação que, aposto, deve deixar o cajón muito mais bonito por conta da neve – e bem mais frio, claro. O Google dá uma ideia disso.

cajon del maipo (3)

É um caixão para, além de redes sociais, fixar a retina e guardar na memória.