Morreu, mas passa bem

Ainda sobre o Marcelo Yuka, tema do último post, mas principalmente acerca de jornalismo online. O músico morreu no sábado, 19 de janeiro. Mas duas semanas antes, em 3 de janeiro, ele também havia morrido.

Como assim? Bem, confusões. Morreu porque seu ex-colega d’O Rappa, Marcelo Lobato, publicou em seu Instagram uma mensagem de “valeu, Yuka. Sentiremos sua falta”. Coisa assim. Num breve texto, ainda que desse a entender, sequer anunciava de fato a morte do músico. Apesar de fraco, o pulso ainda pulsava.

Foi, porém, o bastante para pelo menos dois grandes veículos publicarem a morte de Marcelo Yuka. Julgaram que a pauta já estava apurada o suficiente e tocaram no ar. Tiveram que se desmentir nos minutos seguintes, quando a questão fora levemente esclarecida, com o assunto ganhando corpo em nível nacional na primeira quinta-feira do ano.

Conhecendo redação, dá para dizer: foi uma aposta. Tivesse morrido mesmo, teriam sido os primeiros a publicar. O que se ganharia mesmo com isso? Mais cliques? Um lugar melhor no Google? Talvez. Mas não vale a pena.

A pressa por um “furo” desses, em caso envolvendo morte – seja de artista famoso ou anônimo – é uma armadilha. Pare-se aqui para não entrar na seara da discussão ética sobre noticiar a morte de alguém vivo.

Coberturas que envolvem a morte requerem cuidado e respeito. Até porque, ao repórter, poucas situações são mais desagradáveis do que ter de fazer uma nota desmentindo uma informação dada poucas antes. Tornando-se um famoso caso do “morreu, mas passa bem”.

Jornalismo, e não só o online, cobra apuração e não correria.

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Por um jornalismo menos mal

teclado

Talvez a data ajude. Toda virada de ano acaba sendo momento propício para reflexões, tanto daquilo que fizemos errado e podemos melhorar quanto daquilo que acertamos. E vai ser preciso muita reflexão mesmo para lidar com este 2019 que se apresenta para nós, jornalistas.

Iniciaremos o ano com a credibilidade posta em xeque por aquele que subirá o rampa do Palácio do Planalto respaldado por 57 milhões de eleitores. Não que os que não votaram nele acreditassem por nós. Ou seja, a porrada vem à direita e à esquerda, sem muita distinção.

Mas por quê? Bom, aí a discussão vai ser extensa e não necessariamente encontrará um consenso. Não vai ser este mero blog que terá uma solução definitiva para o problema que é se fazer um bom jornalismo em épocas sombrias. Aqui, porém, pode ter uma reunião de pequenas ideias.

Uma delas vem da Nieman Lab, em artigo traduzido e publicado no Poder 360: “Jornalismo em 2019: Fazer menos mal, não apenas ‘mais bem’”.

O texto vai mais para a área de engajamento, contudo me provocou enquanto editor web. Remeteu a fatos para entender isso. Dois anos atrás, o dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano de 2016. Foi um alerta. Pois em 2018 foi “tóxico”. Entre essas duas, ainda houve “youthquake” – termo sobre mudanças causadas por jovens.

Na prática, as escolhes do Oxford podem não significar nada em um primeiro momento, mas têm muito a ver com o trabalho da imprensa. Não estaria o jornalismo, em meio a tantas plataformas e meios, criando mais ruídos do que explicações? E, ampliando a tese, não são esses ruídos que causam também sua própria deterioração?

“Fazer menos mal” deveria gerar eco a editores e repórteres. Se o jornalismo online já se consolidou nos últimos anos, de repente é o momento de buscar amadurecer. Encontrar o ritmo adequado para equilibrar informação, contexto e agilidade – três elementos necessários a uma boa matéria ou reportagem, mas que sozinhos podem tornar-se ineficientes. Ou ruídos. Especialmente numa época em que todos têm voz nas redes sociais.

É preciso saber filtrar o que é realmente relevante. Voltar umas casinhas para construir melhor cada matéria a ser publicada. Isso diferenciará redações sérias de meros republicadores de conteúdo oficial. E assim, pouco a pouco, recuperar o espaço perdido devido a ação daqueles que querem ver a imprensa fraca.

Que 2019 o jornalismo busque mais explicação e menos declaração.

Pontes ardidas

desamigo

Quando me dei conta, outubro terminara e diversas pontes ao redor de mim estavam ardidas em chamas. Caminhos interpessoais completa ou seriamente destruídos após uma sequência de dias que parecia não ter fim de discussões acaloradas geradas pelo acirramento político-eleitoral que grenalizou o Brasil.

Fui, tal qual milhões, para um dos lados. Convicto! E lamentei ao ver tantas pessoas com quem nutria consideração irem para o lado oposto de maneira tão feroz, para não dizer cega. Neste clima de decisão de campeonato, o cabo de guerra foi forte e, não raro, terminou sem vencedores nesta disputa, em que ninguém dos meus se beneficiou diretamente com o resultado das urnas. Encerrou com a ponte – muitas vezes construída nas redes sociais – ardendo em chamas. Destruída.

No rescaldo, somei um pequeno punhado de amizades desfeitas na maior das redes sociais, das quais uma eu lamento mais. Para outras dezenas, optei simplesmente em não saber mais nada a respeito via timeline – medida meio amarga, mas que considerei necessária, para evitar novas decepções com aquilo que me era exposto diariamente. Cada um tem direito à opinião e à expressão – e sou árduo defensor disso. Porém tenho a opção de querer ver ou não tal conteúdo. Em não podendo colaborar em debate e se sentir ofendido, melhor tirar o time de campo, afinal.

Mas fato é que algumas dessas pontes ruíram, porque, a bem da verdade, sequer precisariam ter sido erguidas. Eram não mais estruturas provisórias que, por algum motivo, por lá ficaram. Aquela pessoa desimportante que os funcionários de Mark Zuckerberg insistem em te deixar atualizado, quem não tem um caso desses?

Nestes dias de novembro, há ainda quase nove centenas de pessoas que podem me chamar de “amigo” na maior das redes. Raríssimos são os que sequer conheci. Porém a maioria não vai ou iria à minha casa, por exemplo. Preciso, de fato, um número tão grande? (E isso que há tantos outros com muito mais “amigos”)

Algumas dessas pontes entre mim e outras vidas e opiniões foram destruídas e ok, vida que segue. Entre perdas e ganhos, não são de se lamentar. Não para mim e imagino que a via contrária tampouco se importe – tenho que reconhecer que, se evito consumir conteúdo postado por outrem, o mesmo pode acontecer em relação a mim. É necessário reconhecer-se como apenas mais um.

Há outras pontes, entretanto, às quais será preciso dar um jeito de se reconstruir. Talvez alguém terá de ceder ou ter a humildade de buscar a reconciliação e propor um novo alicerce. Perdoar e pedir perdão por aquela defesa de posicionamento mais exaltada. Ainda não é 2019, mas apostaria que essa pode ser uma resolução de ano novo para muitos.

Nisso, um retuíte aleatório de alguém me traz essa mensagem quando comecei a escrever este texto:

Se esses ruídos eleitorais todos propõem uma reflexão sobre a vulgarização da quantidade de amigos, também podem nos fazer pensar da importância daquela amizade verdadeira abalada pela divergência de opiniões. Todos, inclusive nós, ao fim e ao cabo, têm seus defeitos. Mas: valeu a pena?

Pode ser que ainda esteja quente pelo calor desta eleição polarizada terminada há menos de um mês. Convém lembrar, porém, que governos e eleições vêm, vão e passam. Amizades das verdadeiras e parentescos, esses acabam ficando. Todo ano tem Natal.

O jornalismo, o zap e o divã

zap

O post anterior teve objetivo inicial de fazer uma breve provocação aos jornalistas. Mais pelo lado tecnológico e da necessidade de se manter próximo, especialmente, de novos e futuros leitores, sem apenas esperar que eles venham até os veículos – algo que, na era analógica, acontecia naturalmente.

Porém, até em razão do avançar da cobertura política, já se adiantou ao prenunciar o que haverá tão logo em breve: o jornalismo no divã. Agora não necessariamente falando sobre tecnologia e sim em termos de credibilidade. A questão que estas eleições estão escancarando é: por que devo acreditar em um jornal?

Talvez – pois aqui não haverá respostas, no máximo propostas de linhas de pensamento: a reflexão pode se fazer do cenário em que a leitura de veículos ficou cara e distante, seja por questões de tempo ou dinheiro para passar do paywall, essa barreira cada vez mais comum. Pouco a pouco nos últimos anos, a entidade “grande imprensa” se afastou de grande parcela do público. Isso ao mesmo tempo em que diversos sites, tanto com viés à esquerda ou à direita, surgiam como fontes.

Esse afastamento pode ter sido muito foco em jornalismo e pouco em comunicação. Um olhar demasiado sobre a influência do Facebook e suas constantes mudanças nos algoritmos que fez, esquecendo-se de outras formas de se conversar (e se informar). O WhatsApp, ainda que esteja instalado em praticamente todos os smartphones, quiçá tenha ficado em segundo plano nas redações, visto muito mais como um receptor de sugestões de pautas do que um emissor de conteúdo – mesmo que alguns jornais transmitam conteúdo pelo app. Alguém que tem tino para comunicação deu-se conta que aí havia uma grande ferramenta de massa.

Parêntese: aqui a jornalista Maria Carolina Santos faz uma brilhante análise do crescimento do “zap” em meio à “queda” da imprensa. É um baita texto, ainda que o alerta já havia sido dado meses antes, quando um estudo advertia sobre os planos pré-pagos de celulares que forneciam somente alguns aplicativos gratuitos, que, resumindo, davam ao leitor de baixa renda acesso ao ruído, entretanto impedia a verificação em algum site jornalístico. Aí, como escreveu o professor Luiz Ferraretto, a informação pendeu para os grupos de afinidade.

Tal situação pavimentou o caminho a um cenário em que as fake news deitaram e rolaram ao longo desta eleição. E, em boa parte, a favor do líder das pesquisas e provável futuro presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Só por isso que ele está perto de vencer o pleito? Claro que não. Há diversos outros fatores e vetores para sua provável vitória. Mas no que tange o jornalismo, essa é uma das mais importantes: o jornalismo acabou sobreposto a memes. A lacração venceu a apuração. E quando destacou-se, foi em parte desacreditado.

É preciso perceber e corrigir diversos pontos. Uma auto-análise. Em que momento o jornalismo se afastou assim da vida das pessoas? Distanciou-se a ponto de ofuscar a credibilidade de veículos com décadas no mercado. Houve algum esforço e preocupação para a contenção de notícias falsas. Contudo, ao que parece, o esforço focou demais no Facebook e esqueceu-se do WhatsApp. O jornalismo não viu isso?

A sobrevivência de um veículo em meio a um mercado em transformação é complicado, mas o jornalismo tem uma missão antes de tudo, que é a de informar. Então, o paywall é necessário (ou mesmo até ético) em matérias e reportagens de grande interesse público? Tão importante quanto: qual o meio termo para isso? O bom jornalismo sempre foi caro, afinal.

O jornalismo precisa de um divã para refletir sobre as diversas questões que analisará a partir deste outubro. Provavelmente levará tempo até entender tudo.

Desapegos

jornais - bancaPara que serve um jornal e para que serve o jornalismo?

O que parece um questionamento cuja resposta tenderia a ser instintiva e fácil torna-se uma pergunta complicada em redações por aí – em níveis regional, nacional e internacional. Talvez por que o nome da profissão derive de seu meio mais consagrado. É uma hipótese. Mas também é uma forma de apego.

Já são mais de 20 anos de internet comercial e pelo menos 17 de hard news na web. E ainda assim boa parte do jornalismo se vê apegado a um pedaço de papel que já está sendo vendido como substituto de tapete higiênico para cachorros na principal avenida da maior cidade do país.

Nesta mesma avenida, as bancas de revistas cada vez mais tornam-se apenas bancas. Em meio a crise de editoras outrora poderosas, o meio, igualmente impresso, perde destaque em vitrinas que já foram inteiramente suas para souvenirs e toda sorte de quinquilharias que possam render um dinheiro mais imediato ao dono do estabelecimento – alguns que já aceitam até Vale Refeição para vender Mickey de pelúcia:

banca jornais

São exemplos visíveis: o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor, além de retomar a credibilidade perdida em algum momento, quando, por alguma razão, afastou-se ou foi afastado do público ao qual costumava informar.

Vivemos o ínterim dos turnos de uma eleição que ficará marcada pela ampla propagação de notícias falsas e também por ser pleito em que as pessoas se informaram mais olhando a tela de um aplicativo de troca de mensagem no seu celular do que em um site de jornal. É o caminho para um Estado de desinformação e isso não é bom.

O público precisa voltar a confiar massivamente no jornalismo. Mas o jornalismo precisa dar essa garantia de que é confiável.

Por acaso, Tokyo Ska Paradise Orchestra

Tokyo Ska

Lembro que uma vez eu quis baixar uma música, então considerada rara. Após muito procurar, achei-a e apertei download. Já era tarde de domingo e fui dormir. Ali no meio da madrugada acordei e conferi o resultado: feliz, a canção enfim estava no computador após algumas horas – necessárias para baixar 3, 4 MB na internet daquela época.

Eram tempos completamente diferentes desses de hoje, em que tudo parece estar acessível, a pouco esforço, perto das nossas mãos – e ouvidos, no caso. Apesar de corriqueiro, reconheço, fico abismado com o que se tornou a internet atual quando lembro da cena daquela madrugada. Isso por ter vivido a época da conexão discada – e a aventura que era tentar baixar uma mera música.

Lembrei disso esses tempos ao me flagrar tornando-me fã de uma banda japonesa. Se por muitos anos, para eu conhecer qualquer grupo do outro lado do mundo precisaria desbravar – e muito – tantos lugares on e offline, desta vez foi bem diferente. Soube da existência deles vendo os stories de alguém que sequer conheço pessoalmente. Meia dúzia de cliques e alguns minutos depois, já havia percebido que gosto de Tokyo Ska Paradise Orchestra.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o grupo está em atividade desde o ano que eu nasci? Provavelmente eu seguiria mais 32 anos sem saber da existência deles se não fossem essas conexões rápidas, que fazem músicas e conteúdos ignorarem quaisquer fronteiras entre países e continentes.

Bueno. Por uma dessas coincidências aleatórias da vida, descobri que eles fariam um show em Buenos Aires logo no único sábado em que estaria na capital argentina. Tal fato me fez reviver uma situação que considerava havia muito encerrada: aguardar uma fila grande, a menos de 10°C, tarde da noite, para ir a uma casa noturna.

Foi cansativo para alguém casado, desacostumado a festas e shows e, talvez principalmente, com mais de 30 anos, mas valeu. Um show eletrizante do início ao fim, tal como esperava – e como poucos que vi. Fica o convite para conhecerem também. Basta meia dúzia de cliques e se quiserem começar aqui abaixo, fiquem à vontade:

ps: o show foi bem tarde. Começou às 3h e seguiu por mais de hora e meia. Como alguém que mora em Porto Alegre, tinha algum receio de sair tarde da madrugada em uma metrópole. Mas sair à noite em Buenos Aires significa ver pessoas e transporte público na rua, além de diversos lugares abertos 24 horas por dia, não importa a hora. Ruas ocupadas e bares cheios num sábado. Isso faz uma diferença enorme no cotidiano. Não seria bom pensar como importar isso à nossa boemia?

Jornalismo precisa ser muito mais que números

O bom humor é algo que não necessariamente faz gargalhar, mas que provoca reflexão. Vídeo recente do Porta dos Fundos pode ser um caso desses: “Tabela de conversão” satiriza a busca por uma manchete em um jornal carioca qualquer. Uma série de ocorrências sangrentas na periferia são levantadas – e ironizadas pelo editor – até se decidir pelo de uma pessoa branca esfaqueada em zona nobre levar o destaque da capa.

Bom mesmo se fosse apenas engraçado ou tragicômico e não tivesse quê de verdade. Ainda que, é claro, imagino e quero acreditar que os debates não são naquele nível do canal em redações reais – ou na maioria dessas. Mas me incomodou um pouco que o resultado não chega a ser tão diferente.

Óbvio que há uma série de critérios técnicos na definição do que é notícia e principalmente aquilo que vira manchete, tais como localismo e ineditismo. Pode, por exemplo, ganhar destaque o mais inusitado sobre o mais grave.

A verossimilhança do vídeo com algumas situações que já reparei na imprensa, porém, me incomodou. No âmbito regional e recente, aconteceram algumas situações das quais lembrei assim que vi o vídeo. Não por se dar destaque a um ou outro caso, todavia pela seleção daquilo que terá ou não repercussão futura.

Infelizmente, casos de homicídios não têm faltado na mídia gaúcha. E essa situação vem de muito tempo. Só que há uma clara impressão de que os casos mais graves – a exceção de chacinas, que volta e meia têm pipocado no noticiário – têm perdido suítes para alguns específicos, em que as vítimas eram casualmente mulheres, brancas e bonitas.

A questão é delicada, assim como o tema. A rigor, não há caso de homicídio que não mereceria uma nova matéria. Afinal, estamos falando de uma vida ceifada. Porém, diante da infinitude de casos, quando é impossível repercuti-los, quais escolher?

porta

O novo jornalismo – esse com ainda mais pressa para se publicar, menos repórteres e menor contato direto com o local dos crimes – vive o desafio de não se desumanizar. Não deixar crimes virarem meros números corriqueiros – a “terça-feira lá”, citada no vídeo. Em tempos de very hard news, o contexto é tesouro.

O jornalismo é e precisa ser uma ciência humana. Necessita tocar o público e as autoridades. Isso normalmente é consequência da boa apuração numa boa pauta. Alcançar manchete e ter repercussão deve ser visto como consequência. Antes do clique, o bom jornalismo tem como missão identificar e cobrar solução daquilo que está errado na sociedade. Em prol da sociedade.