Jornalismo precisa ser muito mais que números

O bom humor é algo que não necessariamente faz gargalhar, mas que provoca reflexão. Vídeo recente do Porta dos Fundos pode ser um caso desses: “Tabela de conversão” satiriza a busca por uma manchete em um jornal carioca qualquer. Uma série de ocorrências sangrentas na periferia são levantadas – e ironizadas pelo editor – até se decidir pelo de uma pessoa branca esfaqueada em zona nobre levar o destaque da capa.

Bom mesmo se fosse apenas engraçado ou tragicômico e não tivesse quê de verdade. Ainda que, é claro, imagino e quero acreditar que os debates não são naquele nível do canal em redações reais – ou na maioria dessas. Mas me incomodou um pouco que o resultado não chega a ser tão diferente.

Óbvio que há uma série de critérios técnicos na definição do que é notícia e principalmente aquilo que vira manchete, tais como localismo e ineditismo. Pode, por exemplo, ganhar destaque o mais inusitado sobre o mais grave.

A verossimilhança do vídeo com algumas situações que já reparei na imprensa, porém, me incomodou. No âmbito regional e recente, aconteceram algumas situações das quais lembrei assim que vi o vídeo. Não por se dar destaque a um ou outro caso, todavia pela seleção daquilo que terá ou não repercussão futura.

Infelizmente, casos de homicídios não têm faltado na mídia gaúcha. E essa situação vem de muito tempo. Só que há uma clara impressão de que os casos mais graves – a exceção de chacinas, que volta e meia têm pipocado no noticiário – têm perdido suítes para alguns específicos, em que as vítimas eram casualmente mulheres, brancas e bonitas.

A questão é delicada, assim como o tema. A rigor, não há caso de homicídio que não mereceria uma nova matéria. Afinal, estamos falando de uma vida ceifada. Porém, diante da infinitude de casos, quando é impossível repercuti-los, quais escolher?

porta

O novo jornalismo – esse com ainda mais pressa para se publicar, menos repórteres e menor contato direto com o local dos crimes – vive o desafio de não se desumanizar. Não deixar crimes virarem meros números corriqueiros – a “terça-feira lá”, citada no vídeo. Em tempos de very hard news, o contexto é tesouro.

O jornalismo é e precisa ser uma ciência humana. Necessita tocar o público e as autoridades. Isso normalmente é consequência da boa apuração numa boa pauta. Alcançar manchete e ter repercussão deve ser visto como consequência. Antes do clique, o bom jornalismo tem como missão identificar e cobrar solução daquilo que está errado na sociedade. Em prol da sociedade.

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Quer pagar quanto?

tuite

Dias atrás lancei uma pergunta despretensiosa no Twitter a fim de descobrir quanto que meus seguidores estavam dispostos a pagar pela assinatura digital de um veículo jornalístico. Esclareci que não se tratava de uma pesquisa científica ou coisa assim, até porque faltam aí diversas variáveis. O mote da questão remetia ao velho bordão das Casas Bahia: “Quer pagar quanto?”

Houve três faixas de preço: até R$ 9,90, até R$ 19,90 e até R$ 29,90. Em três dias 27 votaram, garantindo uma vitória acachapante da primeira e mais barata opção (78%). Outros 19% admitiriam desembolsar até R$ 19,90 para se informar. O restante, 3%, deu uma de mão aberta no levantamento e se dispôs a bancar R$ 29,90 – praticamente R$ 1 por dia – por um jornal online.

Apesar da vitória, ficou um palpite sensível: a opção de pagar até R$ 9,90 só saiu vencedora porque a pesquisa não ofereceu a alternativa: “Nada”.

A falta de disposição em não pagar pelo conteúdo jornalístico decorre de uma clara sensação de que as notícias – matéria-prima do jornalismo – hoje estão facilmente ao nosso alcance. E são, via de regra, gratuitas, através das redes sociais, por exemplo, onde manchetes dos links postados, seja por veículos ou por pessoas, já de certa maneira informam.

Conste-se também a imensa gama de canais por onde se informar – fenômeno esse projetado já no início do século, ou seja nos anos iniciais da internet comercial, quando dos primeiros passos da chamada web 2.0, que quebraria o modelo até então consolidado da comunicação emissor-mensagem-receptor.

E o modelo quebrou, de fato. Receptores tornaram-se emissores e multiplicadores de conteúdos. Em questão de pouco tempo, diversos canais alternativos e informativos surgiram na concorrência a veículos de comunicação já consolidados, alguns havia décadas. Nem todos necessariamente jornalísticos, mas sim uma espécie de simulacro, o qual já satisfaz a boa parte do público leigo e/ou ansioso por apenas uma determinada informação.

Importante frisar que paralelo a esta quebra, consolidaram-se nas redes sociais a distribuição de conteúdo. E de forma linear foram colocados um clique gratuito e um clique pago, por meio de paywall, ao mesmo tempo em que mudavam drasticamente o mercado publicitário, tomando para si uma verba que sustentava redações.

Ano após ano, portanto, o leitor (ou antigo receptor) desacostumou-se a ir atrás da notícia, pois neste vaivém ela de alguma forma acabava aparecendo. E até não muito tempo atrás, sempre de graça. Então, por que pagar? E, se pagar, quanto?

Determinar quanto custa o trabalho jornalístico é algo subjetivo, porque mudam, de texto para texto, a quantidade de tempo empregado, gastos com transporte, telefone, internet, entre outras variáveis, como um bom servidor, necessários para a produção e propagação do conteúdo. Lado a lado poderão estar publicações prontas em minutos e reportagens feitas ao longo de semanas. Contudo faz-se necessário, e já com urgência, entender a mudança de cenário, agora, com internet – e o mobile – à frente do tradicional impresso.

A mesma aposta para um produto nem sempre agradável

Pesa ao jornalismo, principalmente ao diário de hard news, ainda ter que “vender” notícias nem sempre agradáveis ao leitor, ao invés de fatos ou conveniências que lhe proporcionem algum tipo prazer, semelhante à sensação quando se compra algo que gosta ou se procura. Em outras palavras, vender jornalismo pode significar ter que buscar receitas com um produto que nem todo mundo gostaria de comprar.

um break bem-vindo porque o texto é grande e foi impossível não lembrar deste filme:

ok, retomando

Em uma linha geral, a rentabilização na internet passa por conhecer os dados do consumidor e saber como tomar pouco de dinheiro de cada um. Receita que, apesar de trabalhosa, se parece mais segura que o contrário, receber muito de poucos – base da publicidade que passou décadas aportando o jornalismo.

Os veículos mais antigos necessitam reconhecer que, apesar de tanto tempo de história, há todo um trabalho que precisa ser reiniciado quase que do zero, situação que coloca novos portais ao lado de nomes consagrados. Disputam o clique de um mesmo leitor. E ele, se estiver disposto, irá querer pagar pouco e ter retorno.

Pouco, neste caso, pode ser sinônimo de estabilidade. E isso é o contrário do que os jornais tradicionais brasileiros parecem apostar. Pouco não significa promoção. A pergunta que motivou o tuíte citado foi originada a partir da busca por assinaturas em jornais consagrados no Brasil.

Três dos maiores e mais acessados veículos jornalísticos do país usam de promoções na esperança de atrair assinantes. Em São Paulo, Folha e Estadão cobram apenas R$ 1,90 no primeiro mês para depois multiplicar o valor: a Folha para R$ 29,90 e o Estadão, R$ 21,90. O Globo, do Rio, busca uma medida mais equilibrada e paulatina: R$ 9,90 nos seis primeiros meses e dobra para R$ 19,90 a partir do sétimo.

No Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente. GaúchaZH tem a mais arrojada promoção, cobrando R$ 4,90 no primeiro ano de assinatura, só que, a partir de então, o preço quase quadruplica e salta para R$ 18,90. Principal concorrente em Porto Alegre, o Correio do Povo oferece a assinatura por R$ 14,90 nos primeiros seis meses, com o preço praticamente dobrando, indo para R$ 29,90, do sétimo mês em diante.

Também da Capital, o Jornal do Comércio tem um modelo de negócio semelhante à assinatura do impresso, com planos mensal, trimestral, semestral e anual, com desconto progressivo. Enquanto assinar por um mês custa R$ 24,90, o preço do anual torna o gasto por mês a R$ 20,80 – mediante o pagamento único de R$ 249,60. Para efeitos de comparação no âmbito regional, o Diário Popular, de Pelotas – uma das maiores cidades do interior gaúcho – tem praticamente todo o seu conteúdo restrito apenas para os assinantes. A assinatura, sem promoções, custa R$ 9,90 por mês.

Veículos nascidos na internet já adotam uma política de preço levemente mais baixa, ainda que sua cobertura seja em nível nacional. O Jota, especializado em conteúdo jurídico, cobra R$ 19,90 por mês dos assinantes, oferecendo aí outros tipos de seções, como newsletters especializadas. O Nexo pede R$ 12. Ambos dão dois meses de graça na compra do plano anual.

Se não uma luz, um exemplo

Uma breve olhada para o cenário internacional deve esmiuçar o trabalho desenvolvido pelo The New York Times, que desde o ano passado já superou o número de 2,6 milhões de assinantes exclusivamente digitais. Em 2018, o NYT alcançou a casa do bilhão de dólares de receita com assinantes – contando aqui também os assinantes do impresso, ainda responsáveis por boa parte do bolo, frise-se.

O esforço recente resultou numa virada sadia, ocorrida nesta década: hoje o The New York Times fatura mais com assinaturas do que com publicidade. O preço de uma assinatura digital básica não tem promoção, mas tampouco varia: US$ 6. Na conversão de julho de 2018, é mais barato que quatro dos sete jornais brasileiros supracitados.

Compreender o fenômeno do New York Times e considerar suas variáveis com o mercado brasileiro – que são muitas – talvez seja entender o norte para o caminho da rentabilidade dos veículos jornalísticos online. A partir daí direcionar os esforços tanto na produção do conteúdo a ser oferecido quanto onde e como buscar potenciais novos leitores dispostos a pagar para se informar.

Não existe fórmula mágica, existe sim um mercado novo a ser pensado pelos publishers. E como toda novidade é necessário conquistar o novo leitor, tanto com preço, como com conteúdo. Não adianta comparar assinaturas de jornais a modelos de streaming como Netflix e Spotify ignorando os tópicos preço e qualidade do produto entregue. Só a partir daí acontece a fidelização e, consequentemente, a rentabilização.

Promoções, claro, são parte importante de estratégias de marketing e seu poder não deve ser desprezado. No entanto, diante de fatores como principalmente a instabilidade econômica atual e o alto índice de desemprego nacional, oferecer um preço fixo mensal pode ser mais atrativo do que fazer o valor ao qual o leitor se acostuma a pagar dobrar em questão de tempo.

Numa situação em que a consagrada teoria de McLuhan virou algo do passado, o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor.

 

*Artigo também publicado no Observatório da Imprensa

Pitacos da Copa – Comemora, Le Pen!

Franca

Marine Le Pen, esta Copa do Mundo é pra você. Pra você e para todos os franceses. Comemore Le Pen, festeje com todos os seus compatriotas – incluindo aqui aqueles cujos antepassados chegaram da África, assim como todos aqueles que optaram por seguir Alá e não Jeová ou por não seguir ninguém. A Copa do Mundo é de todos vocês, sem exceção.

Queria ter visto meu Brasil, do mulato Neymar, do negro William e do goleiro com ascendência alemã, Alisson, ficar com a taça. Mas dessa vez não deu. Ao que parece, a França do futebol – tal qual o Brasil fizera décadas atrás – percebeu as benesses da miscigenação dentro de campo. A cancha coloca a todos na horizontal. Pouco importa nome de família ou ascendência. Cor, preferências, religião são assuntos da porta do vestiário para fora.

Talvez por não ter um estereótipo perfeito ou uma fórmula mágica predominante, o futebol seja tão apaixonante. E é assim porque é democrático. O mais democrático dos esportes, certamente, o qual todos que entram em campo sabem que podem ganhar, seja com mais ou menos dificuldades. Não importa se tenham vindo da Coreia do Sul ou dos rincões da África, das quentes cidades panamenhas ou das frias islandesas. A chance existe. Sempre.

Agora, ser campeão mundial é mais complicado, reconheçamos. E aí, se for reparar, uma misturinha sempre cai bem. Do cara mais sério com o mais descontraído, do crente com o baladeiro, do que veio de longe e daquele que sempre esteve aqui. Não existe fórmula mágica, mas um time campeão normalmente conta com esses elementos. Juntos. O futebol campeão dá as boas vindas à mistura. Até porque já tentaram provar que uma raça seria superior a outra e não deu certo. Convenhamos.

Festeje, Le Pen. Comemore sem preconceito algum ao lado dos franceses de todas as querências. A seleção de vocês fez por merecer. Allez les bleus!

ps: faço a minha mea-culpa também. Admito que no início da Copa eu olhava a França mais como uma seleção importada do que uma equipe nacional. Burrice. Ainda bem que a internet está aí também para nos fornecer conhecimento e não apenas nos manter dentro de bolhas polêmicas. Faço também questão de compartilhar este tuíte, do jornalista Andrei Netto, que mora há anos na França:

Um prêmio

premio asdep

Entre fins de outubro e começo de novembro, nossa equipe no Correio do Povo dividiu-se. Enquanto eu, como editor chato, cobrava diariamente, os repórteres Bernardo Bercht e Lou Cardoso desdobravam-se em pesquisas, telefonemas, entrevistas e decupagens. Tudo por uma matéria que havíamos decidido fazer, com atenção especial, sobre um assunto delicado e não tão bem aprofundado: feminicídio.

Aposto que nós três aprendemos muito sobre o assunto e, particularmente eu, me assustei um pouco com a realidade inerente a este crime. Daí surgiu o título: “Feminicídio: uma ameaça constante e próxima”. No dia em que enfim a matéria foi ao ar, ainda houve uma certa correria para produzir fotos – feitas pelo Fabiano do Amaral e com auxílio dos então “estagiários” Angelo Werner e Ariadne Kramer.

O resultado, uma matéria multimídia que, se impressa, preenche 15 folhas de ofício – revisadas por mim e pela Mauren Xavier naquela noite –, está disponível aqui.

Pouco mais de cinco meses depois daquela noite, todo aquele trabalho foi agraciado com o segundo lugar no prêmio de jornalismo da Associação de Delegados do Rio Grande do Sul. Um reconhecimento da área policial ao nosso esforço em esclarecer melhor a realidade deste crime e o trabalho da Polícia em combatê-lo.

Ao receber o primeiro prêmio das nossas carreiras, eu, em nome do Bernardo e da Lou, agradeço e faço o convite para que leiam e debatam a matéria.

 

Jornalismo, Folha e Facebook

Folha

Foi ainda na surdina dos primeiros sons da cuíca deste carnaval que a Folha deu um grito que fez barulho no meio jornalístico brasileiro: não iria mais publicar no Facebook e azar! Embasou seus argumentos em uma matéria que certamente foi uma das mais lidas daquele 7 de fevereiro. E boa parte dos leitores, aposto, foram jornalistas tentando entender: como é possível hoje em dia um jornal sem uma página de Facebook?

Abriu-se um debate e tanto. Um bom assunto para conversas tanto em redações quanto em mesas de bar. Loucura ou não, a já empoeirada página da Folha – com seus quase 6 milhões de fãs – “terminou” com a matéria anunciando a saída.

É bem cedo para se avaliar, claro. Porém desde então já se podia imaginar o cenário. A Folha disse que saiu por, entre outros fatores, não concordar com as novas mudanças do algoritmo do Facebook e por notar que, além disso, sua audiência via essa rede social havia caído bastante.

A importância dos dados

Logo, aí já se percebe uma característica importantíssima para quem quer se manter no meio online: conhecimento de dados. Diz o jornal que os acessos a seu site provenientes do Facebook tiveram uma queda brusca no período de um ano: “A participação da rede social nos acessos externos caiu de 39% em janeiro do ano passado para 24% em dezembro”.

Ainda sobre a audiência do Facebook, outra crítica – não da Folha e sim do jornalista Pedro Burgos – tem relevância. Aponta que é cada vez mais passa a se custar dinheiro para atrair o leitor de FB; convertê-lo em assinante é raro; esse leitor fica menos tempo na página; e estratégia para “bombar” nas timelines não necessariamente passa por produzir um bom conteúdo jornalístico. Bons argumentos, com certeza.

O professor Sérgio Lüdtke vai mais ou menos na mesma linha. Para ele, a Folha dá um sinal claro que agora quer “apertar mais o paywall”. Receber para mostrar o conteúdo. “Mostra que muda a sua lógica e abre mão ou minimiza a importância estratégica de gerar grande volume de audiência para, provavelmente, se fixar num leitor mais fiel.”

Saber onde e como trabalhar a audiência é um dos caminhos de sucesso para os publishers do meio digital. Há, porém, uma provocação relevante não tão levantada no dia, mas bem escrita pelo editor do Jornal do Comércio, Paulo Antunes, questionando o trabalho do jornal na rede social. “A impressão que fica é que a Folha, apesar de apontar que houve queda no engajamento dos seus seguidores no Facebook, não está muito preocupada com engajamento. Está preocupada com tráfego (em dezembro, sua audiência em page views caiu expressivos 17,86%, segundo dados do IVC)”, escreve ele, citando que, em seu último dia no Facebook, a Folha postou nada menos que 76 vezes – sendo 74 links e duas fotos. Em janeiro, a equipe do jornal publicou apenas dez vídeos, que são conhecidos por ser um grande potencializador de audiência nas páginas.

Redes sociais e distribuição

redes folha

Voltando ao anúncio da Folha, outro trecho chamou a minha atenção – e provavelmente despertou a inveja alheia em muitos editores de jornais Brasil afora. Além dos 5,95 milhões de fãs no Facebook – e outros 2,2 milhões nas páginas das editorias –, a Folha “também tem perfis atualizados diariamente no Twitter (6,2 milhões de seguidores), Instagram (727 mil) e LinkdIn (726 mil)”. Todos seguem atualizados.

Com exceção do Instagram, que mais faz um posicionamento de marca, os outros dois, que somados totalizam praticamente 7 milhões de seguidores, distribuem links com acesso direto ao site.

Ou seja, ao decidir deixar de atualizar no Facebook, a Folha aposentou apenas um de seus canhões. Os outros seguem na ativa. E com números poderosos. Ainda tem o Google, que, conforme o jornal, fez seus acessos aumentarem no mesmo período de declínio da rede de Mark Zuckerberg.

O conteúdo da Folha circula bastante por canais internos – aplicativo, pushes e newsletters – e externos, como outras newsletter, o Canal Meio por exemplo. Isso sem contar com o próprio amigo internauta que, por sua conta, vai lá no site do jornal e joga nas suas redes. Estamos falando de um dos maiores jornais de um país com mais de 200 milhões de habitantes, afinal.

Somando os fatores, então, entende-se que a saída da Folha foi algo pensado e desenhado há tempos e a recente mudança do algoritmo acaba por ter sido somente a gota d’água.

Vamos comprar essa briga?

28182626595090A Folha, em sua carta, quis incentivar uma cisão com o Facebook – coisa que boa parte dos editores gostaria, mas que provavelmente não têm estofo, porque o tombo seria bem maior. O jornal incentiva seus pares a um movimento semelhante: “Quanto mais redações tomarem uma decisão parecida, melhor para o jornalismo profissional”, afirmou o editor executivo da Folha, Sergio Dávila, ao Knight Center.

Passada uma semana, sigo achando um movimento ousado da Folha. Não sei se se inicia aqui uma pequena revolução entre mídias e a maior rede social do mundo. E é bom frisar pequena, porque a Folha, apesar de seus números expressivos perante à imprensa brasileira, não deixa de ser apenas mais uma página grande dentre milhares para o Facebook.

A saída da Folha, em se mantendo definitiva, tornaria-se talvez relevante de fato se fosse acompanhada, mais cedo ou mais tarde, por outros grandes jornais. No entanto, corre grande risco de ser uma mudança vazia, se os usuários da rede social não sentirem sua falta e os outros players seguirem no ritmo atual.

Lüdtke lembra que já se compraram brigas com o Facebook anos atrás, nem sempre com o resultado esperado – o Estadão por um tempo postou só fotos e não links e depois voltou discretamente ao modus operandi de sempre. Ele cita a Globo, mas ressalta que a sua estratégia é diferente da Folha, pelo fato da emissora carioca ter um site sem paywall – algo que já não acontece com todos os seus vídeos.

Mas mais como um movimento – seja em nome do bom jornalismo, como prega a Folha – já é um mérito. Uma tentativa de deixar de ser refém do Facebook. Uma guinada com um quê de impensável até bem pouco tempo atrás. Os resultados merecem observação de perto.

Eu jornalista, ano 10

Curso

Queira ou não, o dia 9 de janeiro acaba sendo, pra mim, um dia para se celebrar. Como já falado aqui, é o meu aniversário de formatura, o dia em que me tornei um jornalista profissional. Situação que soa às vezes tão dúbia, que acarreta umas quantas frustrações diárias com raros momentos de uma euforia quase única na vida dos profissionais redações afora.

O nono aniversário do meu canudo, porém, foi um pouco mais especial. Numa nem tão ocasional coincidência, tive minha segunda experiência docente, ao ministrar a oficina de texto webjornalismo em Porto Alegre.

Num mar tão agitado como esse que o jornalismo – especialmente na web – navega, é bom parar para refletir um pouco: para onde estamos querendo ir com este modo que agimos?

Algumas horas de debate regado a café fazem bem tanto para quem está começando como quem já está por aí há algum tempo.

Uma década até aqui

telha10anos

10 anos

Em uma matéria jornalística, quando se quer dar uma dimensão mais exata dos fatos, aproximar o texto do leitor, não raro usa-se números. Algarismos unidos que, juntos, são capazes de aproximar um fato do cotidiano das pessoas.

Pois então, usemos. Temos aqui dez anos, completos às 16h34 deste 15 de outubro de 2017. Passaram-se, logo, uns 3,650 dias desde a primeira e bobinha postagem de boas vindas. De lá pra cá, foram 452 textos publicados, além de outros cinco misteriosamente pendentes – incluindo um texto pronto desde 2014 e até hoje na fila, sabe-se lá o porquê.

São, já devidamente preenchidas, 120 meses de arquivos. Um por mês. O mais legal é que esta caixa de arquivo conta um pouco de algumas fases da minha própria vida. Ou do meu próprio texto. Mistura realidade e ficção, mistura histórias próprias e de outros, com causos nas linhas e nas entrelinhas escritas ou pensadas em bares noite afora. A isso somam-se teses, jornalismo e muito papo sério.

Aos poucos, lê-se umas modificações e tanto. Evolução da escrita? Talvez. Um olhar mais crítico, com certeza. Há reflexões, comentários, lamentações e relatos de observações feitas desde aqui, ali e até do outro lado mundo.

Enfim, obrigado por teu minuto de atenção e por fazer parte disso, amigo leitor.