Jornalismo, Folha e Facebook

Folha

Foi ainda na surdina dos primeiros sons da cuíca deste carnaval que a Folha deu um grito que fez barulho no meio jornalístico brasileiro: não iria mais publicar no Facebook e azar! Embasou seus argumentos em uma matéria que certamente foi uma das mais lidas daquele 7 de fevereiro. E boa parte dos leitores, aposto, foram jornalistas tentando entender: como é possível hoje em dia um jornal sem uma página de Facebook?

Abriu-se um debate e tanto. Um bom assunto para conversas tanto em redações quanto em mesas de bar. Loucura ou não, a já empoeirada página da Folha – com seus quase 6 milhões de fãs – “terminou” com a matéria anunciando a saída.

É bem cedo para se avaliar, claro. Porém desde então já se podia imaginar o cenário. A Folha disse que saiu por, entre outros fatores, não concordar com as novas mudanças do algoritmo do Facebook e por notar que, além disso, sua audiência via essa rede social havia caído bastante.

A importância dos dados

Logo, aí já se percebe uma característica importantíssima para quem quer se manter no meio online: conhecimento de dados. Diz o jornal que os acessos a seu site provenientes do Facebook tiveram uma queda brusca no período de um ano: “A participação da rede social nos acessos externos caiu de 39% em janeiro do ano passado para 24% em dezembro”.

Ainda sobre a audiência do Facebook, outra crítica – não da Folha e sim do jornalista Pedro Burgos – tem relevância. Aponta que é cada vez mais passa a se custar dinheiro para atrair o leitor de FB; convertê-lo em assinante é raro; esse leitor fica menos tempo na página; e estratégia para “bombar” nas timelines não necessariamente passa por produzir um bom conteúdo jornalístico. Bons argumentos, com certeza.

O professor Sérgio Lüdtke vai mais ou menos na mesma linha. Para ele, a Folha dá um sinal claro que agora quer “apertar mais o paywall”. Receber para mostrar o conteúdo. “Mostra que muda a sua lógica e abre mão ou minimiza a importância estratégica de gerar grande volume de audiência para, provavelmente, se fixar num leitor mais fiel.”

Saber onde e como trabalhar a audiência é um dos caminhos de sucesso para os publishers do meio digital. Há, porém, uma provocação relevante não tão levantada no dia, mas bem escrita pelo editor do Jornal do Comércio, Paulo Antunes, questionando o trabalho do jornal na rede social. “A impressão que fica é que a Folha, apesar de apontar que houve queda no engajamento dos seus seguidores no Facebook, não está muito preocupada com engajamento. Está preocupada com tráfego (em dezembro, sua audiência em page views caiu expressivos 17,86%, segundo dados do IVC)”, escreve ele, citando que, em seu último dia no Facebook, a Folha postou nada menos que 76 vezes – sendo 74 links e duas fotos. Em janeiro, a equipe do jornal publicou apenas dez vídeos, que são conhecidos por ser um grande potencializador de audiência nas páginas.

Redes sociais e distribuição

redes folha

Voltando ao anúncio da Folha, outro trecho chamou a minha atenção – e provavelmente despertou a inveja alheia em muitos editores de jornais Brasil afora. Além dos 5,95 milhões de fãs no Facebook – e outros 2,2 milhões nas páginas das editorias –, a Folha “também tem perfis atualizados diariamente no Twitter (6,2 milhões de seguidores), Instagram (727 mil) e LinkdIn (726 mil)”. Todos seguem atualizados.

Com exceção do Instagram, que mais faz um posicionamento de marca, os outros dois, que somados totalizam praticamente 7 milhões de seguidores, distribuem links com acesso direto ao site.

Ou seja, ao decidir deixar de atualizar no Facebook, a Folha aposentou apenas um de seus canhões. Os outros seguem na ativa. E com números poderosos. Ainda tem o Google, que, conforme o jornal, fez seus acessos aumentarem no mesmo período de declínio da rede de Mark Zuckerberg.

O conteúdo da Folha circula bastante por canais internos – aplicativo, pushes e newsletters – e externos, como outras newsletter, o Canal Meio por exemplo. Isso sem contar com o próprio amigo internauta que, por sua conta, vai lá no site do jornal e joga nas suas redes. Estamos falando de um dos maiores jornais de um país com mais de 200 milhões de habitantes, afinal.

Somando os fatores, então, entende-se que a saída da Folha foi algo pensado e desenhado há tempos e a recente mudança do algoritmo acaba por ter sido somente a gota d’água.

Vamos comprar essa briga?

28182626595090A Folha, em sua carta, quis incentivar uma cisão com o Facebook – coisa que boa parte dos editores gostaria, mas que provavelmente não têm estofo, porque o tombo seria bem maior. O jornal incentiva seus pares a um movimento semelhante: “Quanto mais redações tomarem uma decisão parecida, melhor para o jornalismo profissional”, afirmou o editor executivo da Folha, Sergio Dávila, ao Knight Center.

Passada uma semana, sigo achando um movimento ousado da Folha. Não sei se se inicia aqui uma pequena revolução entre mídias e a maior rede social do mundo. E é bom frisar pequena, porque a Folha, apesar de seus números expressivos perante à imprensa brasileira, não deixa de ser apenas mais uma página grande dentre milhares para o Facebook.

A saída da Folha, em se mantendo definitiva, tornaria-se talvez relevante de fato se fosse acompanhada, mais cedo ou mais tarde, por outros grandes jornais. No entanto, corre grande risco de ser uma mudança vazia, se os usuários da rede social não sentirem sua falta e os outros players seguirem no ritmo atual.

Lüdtke lembra que já se compraram brigas com o Facebook anos atrás, nem sempre com o resultado esperado – o Estadão por um tempo postou só fotos e não links e depois voltou discretamente ao modus operandi de sempre. Ele cita a Globo, mas ressalta que a sua estratégia é diferente da Folha, pelo fato da emissora carioca ter um site sem paywall – algo que já não acontece com todos os seus vídeos.

Mas mais como um movimento – seja em nome do bom jornalismo, como prega a Folha – já é um mérito. Uma tentativa de deixar de ser refém do Facebook. Uma guinada com um quê de impensável até bem pouco tempo atrás. Os resultados merecem observação de perto.

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Eu jornalista, ano 10

Curso

Queira ou não, o dia 9 de janeiro acaba sendo, pra mim, um dia para se celebrar. Como já falado aqui, é o meu aniversário de formatura, o dia em que me tornei um jornalista profissional. Situação que soa às vezes tão dúbia, que acarreta umas quantas frustrações diárias com raros momentos de uma euforia quase única na vida dos profissionais redações afora.

O nono aniversário do meu canudo, porém, foi um pouco mais especial. Numa nem tão ocasional coincidência, tive minha segunda experiência docente, ao ministrar a oficina de texto webjornalismo em Porto Alegre.

Num mar tão agitado como esse que o jornalismo – especialmente na web – navega, é bom parar para refletir um pouco: para onde estamos querendo ir com este modo que agimos?

Algumas horas de debate regado a café fazem bem tanto para quem está começando como quem já está por aí há algum tempo.

Uma década até aqui

telha10anos

10 anos

Em uma matéria jornalística, quando se quer dar uma dimensão mais exata dos fatos, aproximar o texto do leitor, não raro usa-se números. Algarismos unidos que, juntos, são capazes de aproximar um fato do cotidiano das pessoas.

Pois então, usemos. Temos aqui dez anos, completos às 16h34 deste 15 de outubro de 2017. Passaram-se, logo, uns 3,650 dias desde a primeira e bobinha postagem de boas vindas. De lá pra cá, foram 452 textos publicados, além de outros cinco misteriosamente pendentes – incluindo um texto pronto desde 2014 e até hoje na fila, sabe-se lá o porquê.

São, já devidamente preenchidas, 120 meses de arquivos. Um por mês. O mais legal é que esta caixa de arquivo conta um pouco de algumas fases da minha própria vida. Ou do meu próprio texto. Mistura realidade e ficção, mistura histórias próprias e de outros, com causos nas linhas e nas entrelinhas escritas ou pensadas em bares noite afora. A isso somam-se teses, jornalismo e muito papo sério.

Aos poucos, lê-se umas modificações e tanto. Evolução da escrita? Talvez. Um olhar mais crítico, com certeza. Há reflexões, comentários, lamentações e relatos de observações feitas desde aqui, ali e até do outro lado mundo.

Enfim, obrigado por teu minuto de atenção e por fazer parte disso, amigo leitor.

Guerra de gritos e versões

greve jose cruz

Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

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Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

A ausência do Prêmio Esso como reflexão

Sabemos, é a crise. Essa danada que faz fechar empresas mundo afora, além de fazer milhares de trabalhadores. Testemunha-se, como nunca antes, no meio da comunicação. Aquele dito de “não está fácil pra ninguém” poucas vezes foi realmente tão verdadeiro. Inclusive aos que não são atingidos pelo voo do passaralho, com o acúmulo de funções.

E a crise, em especial a do Petróleo, fez a ExxonMobil cancelar a edição 2016 do tradicional(íssimo) Prêmio Essom ainda em 2016. Pela primeira vez depois de mais 60 anos consecutivos. Até não chega a surpreender. Afinal só em 2015 a empresa gastou R$ 123.200,00 em prêmios para competentes jornalistas. Em épocas de Lava Jato, para que repetir a dose com… jornalistas? Esses mesmos, que produzem esse jornalismo.

Não houve em 2016, numa decisão divulgada em maio. Passados quase nove meses, não se sabe se haverá em 2017. Se a “pausa para reformulação” primeiramente anunciada foi um hiato ou um fim. Coincidência de 2016, além da suspensão do Prêmio Esso, foi a escolha da “pós-verdade” como palavra do ano. Algo que ganha força a partir do declínio do bom jornalismo ou com, no mínimo, o fato de o leitor não saber onde está o bom jornalismo, que significa, em outras palavras, que o público, em algum espaço de tempo passou a questionar a grande mídia.

Ao bom jornalista, fica o convite à reflexão do que se pode fazer para melhorar o próprio trabalho, como numa tarefa de formiga, que, pouco a pouco, faz o bolo crescer. A névoa da pós-verdade é um incentivo à boa apuração, à clareza dos fatos, para não deixar arestas ou questionamentos de quem ganha com ela. No fundo, um desafio. É tempo de reforçar a credibilidade da imprensa. E só com bom jornalismo se faz isso.

Bom para o trabalho, também, de analisar as coberturas, especialmente àqueles que estão na academia. A turbulência política e a mudança drástica dos atores e partidos que hoje estão no poder e a forma como são tratados, especialmente pelo mainstream da mídia, é quase um tema pronto de monografias, dissertações e teses para estudantes que não permitem-se afastar muito das redações – que, costumeiramente, podem ser bem diferentes de como são pintadas em salas de aula.

 

Das opiniões de cada um

olho-magico

Realidade é algo muito maior que um olho mágico

São momentos de turbidez, sem dúvida. Há os que achem que pouco muda, há os que temem o início de uma era perigosa neste 2017, após um 2016 de resultados democráticos, mas que não necessariamente representam a voz da maioria mundo afora. Ou, pior, representam uma voz de poucos que falam muito. Extremistas.

Extremos, o mundo sabe, não resultam em lembranças salutares.

O extremo tem seu lado cativante, é importante perceber. Expressar-se sem pudores ou vírgulas. EM CAIXA ALTA para dar mais ênfase. Colocar para fora, enfim, o que se sente, o que se pensa no íntimo. Danem-se os freios da boa conduta social ou da chamada netiqueta (justo nesses tempos, alguém se lembra deste termo?).

Mas se por um lado o extremismo oferece essa sensação de liberdade aos comentários e teses – seja no exagerado te amo quanto na virulenta crítica – ao mesmo tempo isso diminuí consideravelmente a visão de mundo. A imposição da opinião é oposta ao contexto, hoje tão necessário em épocas de bolhas.

Se há alguma coisa que se aprende ao se conhecer novas pessoas, lugares ou culturas é de que pontos de vista são infinitos. Se são melhores ou piores, cabe à própria consciência julgar – ou preferir nem fazê-lo. Porém, saber dialogar com opiniões divergentes é, no mínimo, um convite à inteligência. Ao menos mal não faz.

É uma questão de comunicação, sim, o debate e o esclarecimento do extremismo. Debate, aliás, algo suprimido com a massificação das redes sociais, onde muitos acreditam naquilo que lhe convêm.

Foi algo evolutivo: há 13 anos o Orkut conectava ex-colegas de colégio ou ex-vizinhos. Hoje, o Facebook liga ao crush desconhecido que fizeram check-in em determinado lugar. Antes, mal havia espaço para discussão em redes sociais, hoje se posta qualquer conteúdo e existe a possibilidade de pagar para que ele alcance ainda mais gente.

Cabe à própria pessoa, claro, decidir o que fazer com relação às próprias opiniões e querer entender ou não que vive numa bolha, seja na sua rede social virtual ou na real. Mas o comunicador, principalmente o jornalista, não tem direito a renunciar à diversidade de opiniões. Especialmente se trabalha num grande veículo de… comunicação.

A credibilidade ou, como gostam alguns, o seu prestígio, depende disso. Com o tempo se percebe.