Guerra de gritos e versões

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Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

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Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

A ausência do Prêmio Esso como reflexão

Sabemos, é a crise. Essa danada que faz fechar empresas mundo afora, além de fazer milhares de trabalhadores. Testemunha-se, como nunca antes, no meio da comunicação. Aquele dito de “não está fácil pra ninguém” poucas vezes foi realmente tão verdadeiro. Inclusive aos que não são atingidos pelo voo do passaralho, com o acúmulo de funções.

E a crise, em especial a do Petróleo, fez a ExxonMobil cancelar a edição 2016 do tradicional(íssimo) Prêmio Essom ainda em 2016. Pela primeira vez depois de mais 60 anos consecutivos. Até não chega a surpreender. Afinal só em 2015 a empresa gastou R$ 123.200,00 em prêmios para competentes jornalistas. Em épocas de Lava Jato, para que repetir a dose com… jornalistas? Esses mesmos, que produzem esse jornalismo.

Não houve em 2016, numa decisão divulgada em maio. Passados quase nove meses, não se sabe se haverá em 2017. Se a “pausa para reformulação” primeiramente anunciada foi um hiato ou um fim. Coincidência de 2016, além da suspensão do Prêmio Esso, foi a escolha da “pós-verdade” como palavra do ano. Algo que ganha força a partir do declínio do bom jornalismo ou com, no mínimo, o fato de o leitor não saber onde está o bom jornalismo, que significa, em outras palavras, que o público, em algum espaço de tempo passou a questionar a grande mídia.

Ao bom jornalista, fica o convite à reflexão do que se pode fazer para melhorar o próprio trabalho, como numa tarefa de formiga, que, pouco a pouco, faz o bolo crescer. A névoa da pós-verdade é um incentivo à boa apuração, à clareza dos fatos, para não deixar arestas ou questionamentos de quem ganha com ela. No fundo, um desafio. É tempo de reforçar a credibilidade da imprensa. E só com bom jornalismo se faz isso.

Bom para o trabalho, também, de analisar as coberturas, especialmente àqueles que estão na academia. A turbulência política e a mudança drástica dos atores e partidos que hoje estão no poder e a forma como são tratados, especialmente pelo mainstream da mídia, é quase um tema pronto de monografias, dissertações e teses para estudantes que não permitem-se afastar muito das redações – que, costumeiramente, podem ser bem diferentes de como são pintadas em salas de aula.

 

Das opiniões de cada um

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Realidade é algo muito maior que um olho mágico

São momentos de turbidez, sem dúvida. Há os que achem que pouco muda, há os que temem o início de uma era perigosa neste 2017, após um 2016 de resultados democráticos, mas que não necessariamente representam a voz da maioria mundo afora. Ou, pior, representam uma voz de poucos que falam muito. Extremistas.

Extremos, o mundo sabe, não resultam em lembranças salutares.

O extremo tem seu lado cativante, é importante perceber. Expressar-se sem pudores ou vírgulas. EM CAIXA ALTA para dar mais ênfase. Colocar para fora, enfim, o que se sente, o que se pensa no íntimo. Danem-se os freios da boa conduta social ou da chamada netiqueta (justo nesses tempos, alguém se lembra deste termo?).

Mas se por um lado o extremismo oferece essa sensação de liberdade aos comentários e teses – seja no exagerado te amo quanto na virulenta crítica – ao mesmo tempo isso diminuí consideravelmente a visão de mundo. A imposição da opinião é oposta ao contexto, hoje tão necessário em épocas de bolhas.

Se há alguma coisa que se aprende ao se conhecer novas pessoas, lugares ou culturas é de que pontos de vista são infinitos. Se são melhores ou piores, cabe à própria consciência julgar – ou preferir nem fazê-lo. Porém, saber dialogar com opiniões divergentes é, no mínimo, um convite à inteligência. Ao menos mal não faz.

É uma questão de comunicação, sim, o debate e o esclarecimento do extremismo. Debate, aliás, algo suprimido com a massificação das redes sociais, onde muitos acreditam naquilo que lhe convêm.

Foi algo evolutivo: há 13 anos o Orkut conectava ex-colegas de colégio ou ex-vizinhos. Hoje, o Facebook liga ao crush desconhecido que fizeram check-in em determinado lugar. Antes, mal havia espaço para discussão em redes sociais, hoje se posta qualquer conteúdo e existe a possibilidade de pagar para que ele alcance ainda mais gente.

Cabe à própria pessoa, claro, decidir o que fazer com relação às próprias opiniões e querer entender ou não que vive numa bolha, seja na sua rede social virtual ou na real. Mas o comunicador, principalmente o jornalista, não tem direito a renunciar à diversidade de opiniões. Especialmente se trabalha num grande veículo de… comunicação.

A credibilidade ou, como gostam alguns, o seu prestígio, depende disso. Com o tempo se percebe.

Sobre Berlim

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Mais de uma vez tratou-se aqui de de quando tragédias alheias, em proporções maiores ou menores, atingem a nós, enquanto jornalistas – profissionais seguros dentro de uma redação, recebendo, apurando e transmitindo a informações nem sempre boas ao grande público.

Neste caso mais recente foi o caminhão que avançou sobre uma feira em Berlim. Um mercado de Natal, algo tão comum na Alemanha, sobre o qual eu e minha mulher havíamos conversado na véspera. Nunca fui a um, tampouco estive na Alemanha na época natalina, mas fiquei curioso tamanho o brilho dos olhos da mulher ao falar sobre eles. Passeio típico de família, tradição germânica de anos.

E Berlim, logo Berlim. Que cidade, caro(a) leitor, que cidade! Um lugar que transpira história, que não esconde o seu passado até recente de dor, mas que ao mesmo tempo abre-se à modernidade e à globalização. A própria praça sobre a qual o caminhão avançou tem sua história de superação e reconstrução contra o horror da guerra. Cosmopolita como poucas. De longe, uma das cidades mais interessantes de se conhecer.

Talvez este seja o principal alvo do terror ao semear o medo: a harmonia. Entristeceu-me ver um jornalista tido como intelectual falar em meio à notícia de que, com o atentado, Angela Merkel precisaria rever sua política com imigrantes. Como se os imigrantes fossem culpados e não vítimas deste mesmo terror.

Menos mal que, horas depois, veio o relato de um brasileira que lá mora: a cidade estava absolutamente normal. Triste, claro, com o incidente, mas não tornara-se arredia, ainda que nas primeiras horas. É certamente a melhor resposta ao atentado: a normalidade do cotidiano, a mesma mão estendida a quem é de fora.

muro

Para lembrar novas lamentações, não. O muro já faz isso

PS: Cobri de Porto Alegre, a milhares de quilômetros de Berlim, então não tenho como relatar o clima exato na cidade e nem como estavam as suas redes sociais. Chamou a atenção o pedido da Polícia de Berlim, via Twitter: “Fique calmo, vá para casa e não espalhe rumores”. Também pedia a todos que tinham vídeos e fotos do incidente em Breitscheidplatz enviassem diretamente aos policiais e não compartilhassem nas redes sociais. Com o perfil sendo atualizado constantemente, a gestão de crise foi excelente – claro, olhando de longe, volto a frisar.

Lembrei que na Porto Alegre do último ano precisamos publicar pelo menos duas vezes uma matérias com a Brigada Militar desmentindo suposto arrastão em algum lugar. Pouco tempo atrás, teve até blog de jornalista conceituado publicando notícia de arrastão em bairro nobre – inexistente, segundo a polícia. Que seja da assustada Berlim um exemplo do bom uso das redes em próximos eventos dramáticos. Jornalismo e credibilidade, nessas horas que ele são ainda mais úteis.

More essential than ever

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The Times are changing

Dentre seus fatos marcantes, 2016 ficará marcado também por sua palavra eleita pelo Dicionário de Oxford: “post-truth“, a “pós-verdade”. Analisando bem, soa como um quê distópico, ainda mais com seus expoentes, como o presidente eleito norte-americano e, no caso do país que escolheram a palavra, o Brexit.

Faz tempo que teorizo em conversas na redação ou mesmo nas boas mesas de bar. Diante de tanta informação neste mundo em que todos são mídia, cabe ao (bom) jornalista propor-se o papel de curador da informação. Nesta época em que todo mundo tem condições técnicas de dar um furo, a credibilidade faz-se cada vez mais importante.

E aqui é bom pontuar: credibilidade não rima com chuvas de likes e shares nas redes sociais.

Se algo não mudou nesta acelerada época ultra e permanentemente conectada é a construção da credibilidade. Ela é lenta (e tem que continuar sendo), exige dedicação, apuração e trabalho. Existem muitas tentações para perdê-la. Volta e meia acontecem do meio para o fim do expediente, quando já está um pouco cansado: “Será? Mas tá todo mundo dando isso”.

Dentro deste contexto há ainda uma dificuldade e tanto que está consumindo jornalões e que custa a ser superada: a própria manutenção do webjornalismo. Em mais de 20 anos de internet comercial – sendo pelo menos 15 no hardnews – ainda não foi encontrado o modelo ideal para a sobrevivência dos bons sites. Não à toa, também, as redações vão se esvaziando num momento em que cada vez mais empresas contratam gente para produzir conteúdo.

Neste mundo conectado, o leitor não está acostumado a pagar e talvez haja um senso comum de que não é caro para se fazer um bom jornalismo. Errado. Por outro lado, os anunciantes conseguem direcionar suas peças publicitárias por um valor bem mais barato com Google e Facebook, por exemplo.

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O buraco é bem mais embaixo, mas a boa e velha assinatura, então, surge como um possível desafogo, ainda que não solução para hoje. É o que tenta o tradicional The New York Times com o anúncio aqui em cima – que tem uma chamada que, num primeiro olhar, parece até bobinha, mas quando refletimos em todo o contexto, vimos que é bem exata para estes tempos de pós-verdade.

O valor é barato e cheio das promoções. Certamente mais acessível do que se eu morasse em Manhattan e quisesse lê-lo em papel pela manhã. Mas, por outro lado, se o até o NYT “se vende” por um preço menor, ele – e todos os outros jornais – nunca estiveram tão próximos de um público muito maior que suas cidades. Só que não é apenas pelo caça-clique que se manterão em novos horizontes.

Textos para o Laion

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A foto acima é uma das recordações etílicas mais divertidas da minha vida. Éramos jovens e recém-formados. Tu me deste este copo como recordação da tua festa. Da tua alegria. Eu lembro que iria embora, mas tu mostraste que o copo não era para ser só uma lembrança. E o usamos por mais de hora a seguir. Que porre! Que alegria!

A alegria coroava o momento que para nós havia iniciado em março de 2005. Eu juro que lembro até hoje da primeira vez que ouvi o teu nome na lista de chamada. “Eu tenho um colega chamado Laion! Preciso ser amigo dele”, pensei. O objetivo principal seria um dia te presentear com uma espada de Thundera.

A espada de Thundera eu fiquei devendo, mas como compensação lembrei de ti assim que abriu uma vaga para trabalhar conosco no Correio do Povo. Deu certo! Foram três anos de uma parceria absurda, da qual sinto falta até hoje e não é pelo luto de agora. Sozinhos, nós dois fizemos uma das principais coberturas do site em meio a um plantão de 2013.

Sempre pude contar contigo. Como colega, como editor e, principalmente, como amigo.

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Acordar com notícias ruins é algo estarrecedor. Somos irrompidos de um sono gostoso e, até sem café (grande vício nosso!), aceleramos a procura de notícias, algo intrínseco à nossa profissão. Devo ter arregalado os olhos quando soube. Imediatamente pensei em ti e numa fração de segundos lembrei que tu não tinhas ido a Buenos Aires, que viajava pouco.

Mas agora era a final. Tu devias ter ido. “Caralho-caralho-caralho”, pensei na hora. Abri Twitter, mergulhei nesta tragédia para saber não só o que tinha ocorrido, quando, onde, como, por que, mas em busca de uma notícia redentora. Essa eu não encontrei, apesar de ser um dos últimos a desistir.

Foi quase como uma forma de negação, mas nesse momento, por longas três horas, trabalhei como se estivesse ao teu lado na redação, procurando esclarecer detalhes e acompanhando quaisquer novidades sobre buscas ou resgates. Infelizmente não achei nem escrevi a notícia que eu queria.

Ao longo dessas horas, recebi umas três ou quatro ligações, além de um punhado de mensagens. Ou perguntavam por ti ou procuravam me reconfortar. Aí eu vi, meu velho, o quão forte foi nossa amizade. Afinal, não nos víamos já há algum tempinho e ainda assim eu era alguma referência tua. Dessa vez não só pelos cabelos parecidos.

Ainda preciso chorar mais, admito. As pancadinhas até agora são um prenúncio de uma dor maior e mais representativa que é esta tua precoce partida. Não mudará nada, mas ajudará a superá-la. Meu amigo, se já fazias falta nas mesas de bar e nos campeonatos de videogame quando moravas em Chapecó, imagina agora.

Ficou um vazio imenso, como o copo acima, que certa noite transbordou felicidade. Hoje, mais que tudo, é uma grande lembrança.

Vou te prometer superar mais essa, até porque tenho a certeza que tu nunca iria querer teus amigos tristes por tua causa. E por ter a certeza de que tu estavas feliz com a viagem, com os rumos da tua carreira, depois daquela maluca curva de 2014. Deixas exemplo de coragem, além de grande parceria e profissionalismo.

Segue na luz, parceiro!