Ideologia, a palavra proibida da vez

Há uma palavra que vem sendo demonizada pela política brasileira, ideologia. Apesar de ser um substantivo, o termo é usado como se adjetivo fosse. “Fulano tem ideologia”, acusam uns. “Não se governa com ideologia”, bradam outros, afundando o nível do bom debate.

É esquecido, porém, que ideologia é tão inerente à política quanto a própria palavra “política” – que até dois anos atrás era ela a Geni da vez, a ponto de ser caudilhos tão rodados buscarem esconder-se sob um manto alegado da “nova política”, numa espécie de roupagem nova que deram ao trocar nomes de “partidos” – esse outro termo perseguido tempos atrás.

A verdade é que “ideologia” e “política” não são, tampouco devem ser entendidas, como ofensas. Integram a salada de termos que compõem uma democracia. Não há problema de ter ideologia, seja ela qual for, faz bem ser político e dado a diálogos com outrem. Problema é impô-la à força.

A média do eleitorado brasileiro precisa saber escapar de pequenas armadilhas como essas e a focar-se no debate que realmente interessa às suas comunidades, de municípios ao país. Cai bem também que agentes políticos deixem de criar essas situações, para torná-las o que são, de fato: ridículas.

Embates, rasos assim, ou forçam uma polarização que não é salutar à população ou fortalecem, junto a quem não acompanha o noticiário, o imaginário de que “políticos são todos iguais”. Não são, mas é preciso acompanhar para saber.

Nesse cenário, quando campanhas não agressivas entre os candidatos são mais exceções do que regras, os eleitores vão mais se afastando do processo do que aderindo a ele. Enquanto em 2016, um em cada quatro votantes optaram por não ir às urnas em Porto Alegre, em 2020 foi praticamente um em cada três.

Claro, tem o contexto da pandemia. Mas pode estar acontecendo uma fadiga desse debate pouco profundo, que fustiga e engana aquele que é pouco interessado em política. Ainda falta uma maior cultura de debate político na sociedade, algo que jovens parecem estar se interessando mais do que a geração passada. Esses, por sinal, que nasceram já sob a democracia brasileira.

Ideologias fazem a política, e não há problema algum nisso. Cabe a sociedade debater, escolher e moldar a sua política.

Quando estive perto de D10S

Eu ainda estava nos meus primeiros dias da primeira vez que fui a Buenos Aires. Turista jovem e fã de futebol, acabei em uma partida do Boca, em uma tarde ensolarada de dezembro. Não era qualquer partida e sim uma possível definição de título argentino.

Foi quando estive mais perto de Deus.

Se não o mais famoso e divino, certamente um dos mais idolatrados naquele canto de mundo, que eu aprendia a amar. Era Diego Armando Maradona lá, el D10S para muitos que ali, tanto os que vestiam azul e ouro, como outros tantos que gostam de outras cores na jaqueta.

Naquela época, Maradona recém havia assumido a seleção da Argentina. Comandaria uma das maiores paixões daquele povo. Mas naquele momento não era treinador ou dirigente. Era torcedor. A Bombonera estava lotada e pulsava, numa atmosfera incrível.

Antes da bola rolar, quando a câmera que captava imagens para o telão encontrou Maradona em seu camarote, houve o êxtase. “Marado, Marado”, gritavam. Devotavam aqueles milhares.

Foi inesquecível ver Diego. Mesmo de longe. Aquela cena me ensinou muito sobre o ser argentino. ¡Gracias y que en paz descanse!

Numa homenagem a Maradona, o Direto ao Ponto desta quarta foi sobre ele:

Coragem

Pouco tempo atrás, ela descobriu que já consegue correr sozinha. Mas também percebeu que existem muitos riscos por aí, quando não se está no colo do papai ou da mamãe. Coisas grandes ou desconhecidas, barulhos assustadores na rua e nos seus portões, que a fazem brecar por um instante. Maria Flor se assusta e, sem perceber, vai conhecendo o que é o medo.

Mas também sabe que há muito para ser descoberto e tocado com as próprias mãos. Quando nem se tem um ano e meio ainda, a gente recém começou a caminhar – e que ninguém venha cortar esse barato. A rua é grande, o bairro é ainda maior, a cidade, enorme. (E isso que ela nem tem ideia do quanto esse mundo tem uma infinidade de lugares, culturas e pessoas.)

É preciso andar em frente! E é nessa hora que ela pega a minha mão. Ou melhor, o meu dedo – porque até a mão do papai ainda é grande. Agarra firme, e volta a seguir adiante em seu desbravamento, passo por passo. Segurando firme, ela sabe que tem em quem confiar ao lado – e, se for preciso, um colo, porque ninguém é de ferro, afinal.

Aí a coragem nunca falta. E nunca faltará! Adiante. O mundo que se prepare.

Pílulas pandêmicas: a montanha-russa

Tem dias como ontem em que penso, confiante, que em poucos meses isso tudo já vai ter passado.

Tem dias como hoje, que parece que não dá mais para aguentar nem mais uma tarde em casa sequer.

Quero abraços, brindes, ar livre e cheio. Mas também não quero pessoas do meu grupo em risco.

Sinto falta do toque, do cumprimento, de comemorar gol em estádio lotado. Porém atendo para não descuidar no cotidiano.

E assim vamos vivendo, como numa montanha-russa de sentimentos. Do acordar até o dormir.

Há sete meses – e por mais sei lá quantos – ora esperançoso, ora deprimido. E cada vez mais exausto.

Hora do conto – Ruína y Leveza

Um nariz de cera introdutório

Lembro que botei o olho naquele livro no dia em que o Gonzaga o ganhou, na redação do Correio do Povo. Flertei com a obra, assim como muito já fiz antes, dentro e fora de livrarias. Aquela coisa, uma hora a gente se encontra. Sem pressa. Mais cedo ou mais tarde, certamente, leria Ruína y Leveza, de Júlia Dantas, pelo simples fato de ter simpatizado com o nome, a temática e o texto na orelha.

Como tantas outras vezes, dentro e fora de livrarias, o tempo passou e aquela atração meio que caiu no esquecimento. Só alguns anos mais tarde que nos encontramos. Mas forcei, admito. Em um hiato de leitura, “ainda no tempo em que as redações eram cheias”, recordei o Gonzaga, que de pronto me emprestou o livro. O mundo ainda girava normalmente e a ideia era devolvê-lo dali a alguns. Só que teve uma pandemia no meio do caminho.

Ruína, em meio a mudanças forçadas de rotina, até começou a ser lido, porém no arruma aqui e ali do dia a dia acabou esquecido na mochila do trabalho, que, devido ao home office, nunca mais foi ao trabalho. Por semanas a fio ficou pendurada, como uma decoração da casa.

Pois bem. Recuperado meses depois, voltou à lembrança, ainda que atrás de outros que, mesmo chegando depois, tinham preferência na leitura. O tão momento de encontro entre eu e aquela obra de uns anos atrás, então, acabou sendo apenas no meio das férias, em plena pandemia.

Do livro

Minha mãe, professora de português e literatura, sempre alertou que os romances às vezes começam devagar e só tomam jeito mesmo mais pro meio do livro. Não deixa de ser verdade e, talvez por esse ensinamento materno, valorizo demais uma boa arrancada de texto. A partir disso, aliás, que Gabriel García Márquez se tornou meu escritor favorito.

Nunca tinha lido nada da Júlia, mas o início de Ruína nos prende – literalmente na história – de tal maneira que torna-se incômodo não continuar a ler. Claro, longe de compará-la a Gabo, entretanto a história da protagonista Sara não deixa de nos cultivar a curiosidade de acompanhar a jornada, seja em Porto Alegre, seja em rincões do interior da América Andina.

Sara, desde o começo, me soou tão conhecida. Por também ser do meio da comunicação de Porto Alegre, por suas dúvidas (nem tão) existenciais assim, por sua luta e descoberta de destino. A personagem tem muito paralelo com histórias de jovens comunicadores da capital gaúcha, com a diferença que ela tem a coragem e o incentivo de seguir com uma ideia que lhe chegou no susto.

O formato não linear do romance ajuda a conhecê-la melhor. E ao longo de uma autodescoberta, Sara faz uma ode não-forçada à liberdade sem que sua história escorregue em clichês, que já poderiam ser esperados nas primeiras páginas.

Ao construir sua coragem e desprendimento, a ex-publicitária vira aquelas personagens que gostaríamos de conhecer pessoalmente, de ouvir como foram os detalhes acontecidos e narrados ao longo dos 13 capítulos do livro.

E Sara, quando parte na última página de Ruína y Leveza, deixa a saudade para quem não a acompanhará mais nos dias seguintes.

Sara

Sara me lembrou quando estive quase que por acaso em Bogotá, em agosto de 2012. Me lembrou uma noite fria em que só eu e uma japonesa dormíamos em um quarto meia boca e com diversos beliches de um hostel qualquer e barato da capital colombiana. Muitas e muitas Saras devem passar por lá.

A japonesa, recordo eu, era diferente do estereótipo criado por nós, ocidentais, daquele país. Meio desarrumada, ainda que bastante respeitosa – estava preocupada em não fazer barulho quando saísse, de madrugada, para não me acordar. Tímida, ela mal falava espanhol e estava do outro lado do seu mundo, sozinha. E viajando.

Parte minha certamente toparia seguir com Sara interior latino-americano a dentro, porém a outra parte vive como a primeira fase da personagem. Com menos drama e mais estabilizado, por certo. Mas hoje vai se tornando alguém com cada vez menos experiências que só a estrada e os momentos únicos pelo mundo ensinam.

Dentro do quarto

Ou: Enquanto Maria Flor adormece

Tem uma pandemia fora do teu quarto
Tem uma pandemia, mas aqui ela não importa
Porque dentro do quarto só há nós dois.

À meia luz, ouvimos músicas e decoramos os acordes desses momentos
Dentro do quarto, nos aconchegamos
Se precisar, viro balanço, viro cama, sou porto seguro.

Protegidos, não damos bola para as incertezas que estão da porta pra fora
Não agora, porque esses minutos são só nossos
Tão nossos quanto passarão a ser as memórias dessas músicas.

Dia a dia, a pandemia vai passando
E pouco a pouco, vamos guardando esses acordes,
Viram lembranças de quando o teu sono vem.

Não seria, mas há meses todos os dias são assim
Por causa de um vírus, por causa de uma pandemia
Que danado, esse bichinho.

Mas, quem diria?

Quando isso passar – e queremos que passe logo
Pra gente sair do quarto, enfim, tranquilos
Quanto tudo passar, ainda vou sentir saudade disso.

Os acordes desses momentos

Aqui, e tão longe

O poente de Santiago, Chile | abril/2018

Sonhei longe hoje à noite. Estive em Buenos Aires, que ali era era tão simples de chegar, mas também andei pelas ruas centrais de Montevidéu. Deve ser o frio desses dias, deve ser a saudade. No sonho, eu sabia que conhecia muito bem aquelas calles, que sempre me deixam tão à vontade na vida real.

Dias atrás me bateu uma saudade de Lisboa, essa cidade que sinto que preciso conhecer bem melhor. Da mesma forma, ainda quero voltar a caminhar mais por Paris para reparar nos detalhes que mal notei em um agosto passado. E até hoje mal acredito que já estive no Japão.

Já há muito tempo em casa, venho sentido falta de embarcar numa viagem longa. De voltar a sentir aquele clima de aventura de se arriscar em outro idioma, de estudar mapas e, principalmente, de andar por esquinas pelas quais provavelmente jamais voltarei.

O mundo é grande e antigo. Ele espera. Ainda vai haver tempo e época para desbravá-lo. Seja a partir de uma banda aqui pelo pampa, seja por terras e idiomas tão, tão diferentes. O mundo é grande. E isso vai passar.

Sobre relógios e vidas

Detesto relógios. E ainda assim tenho uns dois ou três na prateleira da minha sala. Funcionando, porque uma vez minha mãe me ensinou que não se deixa relógio parado em casa, porque não é algo bom. Haja pilhas.

Adiante, adiante. O tempo passa entre tiques e taques sem fim entre o silêncio da madrugada. Nessa hora que fecho os olhos por um segundo a mais. E lá estou eu de volta à casa da minha avó, que hoje já não resta tijolo em cima de tijolo e agora é só um fantasma no labirinto da minha mente e que me conduz ao passado através de memórias.

Esses tiques e taques eram comuns lá. Assim como a minha mãe, minha avó também me deu ensinamentos sobre relógios: eles só são acertados para frente, e não importa se for necessário dar 11 voltas no ponteiro maior. O tempo não volta, afinal!

Mas, se não volta, como que fui parar naquela casa em um piscar de olhos? Diante de uma memória antiga como um retrato, uma outra dúvida vem: quantas vidas vivemos na nossa vida?

Acordo. É cada pergunta que a gente se faz de madrugada, como houvesse um momento em que teremos dado sentido às coisas. Desisto. Levanto e vou dormir, pois se ontem era neto em cama quentinha, hoje sou pai de sono leve.

No caminho para o quarto, o canto de olho espia a prateleira. São três relógios ali. Mas um está parado. Justo o único que me veio de herança da minha avó. Ele é a corda e tem algo em si quebrado, parece que seu tempo já passou. Hoje virou enfeite. Ou lembrança do que foi em outra vida.

As tantas tragédias de uma tragédia

Dentre as tantas tragédias que uma pandemia causar, uma delas é a naturalização do desastre. E isso aconteceu no Brasil. Se no começo do ano havia pontadas de consternação com as notícias de centenas de mortos diariamente na Itália por Covid-19, seis meses depois, em algum momento depois daquele susto inicial, o brasileiro acostumou-se e incorporou à rotina que uns mil, 1,1 mil ou 1,2 mil compatriotas perderam a vida todos os dias.

Ok, quando passa disso existe um ar de surpresa e de repente até uma preocupação. Da mesma forma que, quando esse índice baixa de 800, brilha um quê de esperança de que essa situação toda esteja enfim acabando. Não, não está. Pelo contrário. O brasileiro, esse ser tão acostumado com a morte alheia, talvez tenha dificuldade para perceber e por isso perdeu a guerra para o coronavírus.

O derrotismo para o vírus é parte do dia a dia brasileiro. Seja por falta de coordenação sanitária nacional ou por puro cansaço mesmo. E tanto foi derrotado que quer logo retomar a sua vida, nem que seja essa chamada agora de o “novo normal”. Vive-se o quanto der. À noite se confere o saldo de mortos do dia. Quem puder, siga em frente.

“Vai ter vírus mesmo, então que se deixe ir para a rua, porque esse lance de quarentena cansa muito.” Aqui reside outra das tragédias brasileiras, a desigualdade, que tem se mostrado muito mais cruel com quem não tem como simplesmente ficar em casa. Discursos de empresários à parte, não é fácil pedir pra um autônomo não ir à luta nesse país de informais. Ou quando a maioria das famílias do Brasil não ganham R$ 3 mil ao longo de um mês.

Além de liderança firme, faltou comoção em nível suficiente para sensibilizar o brasileiro. O drama em Manaus talvez tenha sido longe demais das outras capitais. Ignorar problemas periféricos não deixa de ser um costume nacional.

Ao fim, vítimas foram transformadas em números e gráficos, e aparecem todos os dias na TV. Mais recentemente estão disfarçadas em um novo índice, a “média móvel”. Assim que o brasileiro assiste à pandemia. Ele sabe, no fundo, que há histórias e até tragédias por trás de cada algarismo mostrado. Talvez volta e meia até se comova. O problema, também, é que a tragédia e mesmo o desastre fazem parte do seu dia a dia há anos, sempre fizeram, em maior ou menor grau. Especialmente quando ele vê os jornais.

Não deve ter Revéillon, mas quem sabe não inventam algo – ou que saia logo esta vacina – até fevereiro para salvar o carnaval, já que a vida está teimando voltar ao normal. Até porque – e essa é outra causa de derrota tão típica do Brasil – nesse país sempre se encontra esperança. Não raro personficada em um salvador da pátria.

O problema é que às vezes o Brasil se engana.

Pílulas pandêmicas: a janta

Era uma janta com cansaço cúmplice. O casal não disfarçava as longas horas trabalhadas em casa em paralelo aos cuidados com a bebê de um ano, que acredita-se estar alheia a quase todo caos causado por um preocupante ser microscópico.

Eis que a Ana diz: “Bom, ao menos estaremos de férias em menos de dois meses”. Ela para, me olha em dúvida. “O que a gente vai fazer?” Respondi que, primeiramente, o grande objetivo era chegar vivo e, se possível, saudável às férias. O resto se vê depois. Setembro é perto, porém ainda tão longe.

Foi uma frase estranha, mas verdadeira. Ainda que a gente nunca saiba com certeza se vai viver mais 15 minutos ou décadas a fio, costumamos pensar que estaremos do lado de cá nos próximos tempos. Mas esse momento tem abalado algumas convicções.

Realmente, não imaginaria que pudesse dar uma resposta dessas tão cedo, ainda aos 34 anos de idade. Porém, a verdade, é que são tempos estranhos, esses que vivemos.

Seguimos jantando. Foi mais uma noite, antes de mais um dia de isolamento. E assim vamos indo.