O sonho do Rodrigo

O sonho do Rodrigo era engravidar. Literalmente. Até dizem as más línguas que quem ele queria que realizasse esse desejo seria um certo chef francês, mas isso é outra história. Fato é que, ébrio ou não, ele não escondia: o sonho do Rodrigo era engravidar.

Rodrigo sempre foi desses caras que sabe das coisas. Apesar de não ter filhos, como poucos ele metamorfoseia-se de amigo a pai, filho, tio, irmão e, por que não?, mãe. Pessoas assim são raras, porém, reconheçamos, encarnar essa última personagem é ainda mais difícil, pois não há vínculo maior que o da mãe.

E acho que isso explica o sonho dele. Imagino eu que a ideia de ser mãe é para ele ter um canal que enfim dê vazão sem precisar disfarçar a todo aquele companheirismo, cuidado e amor que só um espírito superior, como é o caso do Rodrigo, tem. Coisas da vida.

Lembrei disso madrugada dessas, quando o silêncio da casa havia sido bruscamente rompido por um choro da Maria Flor. Um choro desses de assustar e dar dó. Foi questão de segundos até eu, um pai presente e tal, chegar ao quarto dela e oferecer o braço do conforto e da garantia que tudo vai ficar bem.

No que, sem abrir os olhos e nem parar completamente de chorar, ela murmurou como quem pergunta, exclama e torce ao mesmo tempo: “Mamãe?!”. Fiquei feliz por estar escuro nesta hora para que ela não visse a cara que devo ter feito em reação.

Mas tudo bem, com o tempo, coube a mim se acostumar, porque, mesmo com todo o meu currículo de idas à pracinha, de chocolates contrabandeados, já entendi que nada supera o vínculo original. Por mais que eu tente concorrer, sou só o pai, aquele que ela reconhece depois.

E aí eu lembro das conversas do Rodrigo. O Rodrigo sonha certo.

Divisões

Rayssa Leal, uma inspiração inesperada | Foto: Wander Roberto/COB

Nesta Olimpíada esquisita de ano pandêmico e ímpar, acho que não vou esquecer o quanto curti e vibrei com as provas do skate. E também que lamentei não assistir e comentar as finais com meu melhor amigo – que se meteu numa bolha da direita tremendamente difícil de tirar. Pena. Aquela dupla que fomos quando adolescentes – ele em cima do carrinho e eu só enganando – teria curtido nos ver adultos assim.

São, enfim, tempos esquisitos, de muita bolha e ainda pouca rua. Mas isso é mutável. Desde que Rayssa Leal dançou divertidamente em meio a uma final olímpica, isso momentos antes de receber uma cortejada medalha de prata, já reparei em algumas meninas de skate por aí. Pode não ter nada a ver com a conquista ainda tão recente dela. Mas pode ter. Tomara!

Se há um esporte que se mostrou acessível a variados biotipos e mesmo níveis acadêmicos – competiram em Tóquio de estudantes do ensino fundamental a doutora em neurociência – esse é o skate. Numa época de tanta divisão, é bom se alegrar com facetas democráticas.

Porto de Bons e Alegres Ares

Cais Mauá. Foto: Maria Ana Krack/PMPA

De cais a cais navego entre os tempos desses lugares nem tão próximos, e ainda assim tão juntos – e meus.

Caminho nas cidades através das viagens que já se foram, mas também nas que virão. Porque sempre há um destino nesses meridianos que as minhas latitudes encontram.

E param. E ficam.

Reconheço-me entre o mate e o chimarrão. Ando de Palermo ao Mont’Serrat. Desde a Bombonera ao Beira-Rio. Da feria de San Telmo ao Brique da Redenção.

Enxergo um Laçador em plena 9 de Julio ao passo que me deparo com o Obelisco no Parcão. E como se o Rio da Prata desse na Andradas, eu sigo. Eu flano.

Venho. E sempre volto. (para as minhas cidades)

Caminho por tantas ruas que me encontro ao longo dos anos. Andei jovem ali, voltei adulto aqui. Ainda seguirei quando estiver tão velho quanto o eco do tango de Gardel no Odeon.

De Porto al puerto. Respirando desses ares. Alegre.

Recuerdo desde Puerto Madero | 2008

Esse texto foi o “trabalho final” para o curso de extensão Cartografia das Cidades, da PUC-RJ. A meta era criar uma paisagem, por meio de fotos, textos, colagens. Ou versos (e recordações, por que não?).

Da nossa essência

“O que somos nós se não a nossa essência?”

Foi esse o questionamento que ficou martelando na minha cabeça após ter visto e revisto algumas vezes o curta de animação “Juntos Novamente” (“Us Again”), lançado uns dias atrás no Disney+.

Nele, um casal de passado aparentemente feliz e dançante inicia a história em seu apartamento. Há música no ar, que contagia a esposa. O mesmo, porém, não se replica no homem, que, velho e amargurado, prefere o sofá – e o silêncio. Isso até ela partir, a solidão chegar e ele, graças a um milagre chuvoso, rejuvenescer. Claro, ele então parte atrás dela enquanto a chuva cai.

Enfim. É um curta e, em seis minutos se conhece todo roteiro em torno desta busca.

Mas depois do embalo de um bom ritmo do funk e do soul, me ficaram perguntas, ao fim do filme: o que nós somos resiste ao tempo? O quanto as concessões da vida nos transformam? E quanto já nos transformaram? Tudo isso não é filosofia demais para um simples curta que assisti acompanhado da minha filha no sofá de casa?

Noite dessas imaginei um encontro entre um Tiago de 20 e poucos anos e que recém começava a explorar ruas por aí e um eu já na casa dos 30 e tantos, mais velho – e provavelmente mais sisudo por conta do tempo acumulado. Acho que eles ainda teriam pontos de convergência importantes, ainda que por certo esbarrariam em convicções quase conflitantes, especialmente para um mesma pessoa.

Apesar de algum esforço, não consegui imaginar direito como seria essa conversa. Mas torci para eles se darem bem e que, ao fim, tenham reconhecido a própria essência.

A praça, a vida e os desafios

Uma pracinha às vezes tem tantos desafios quanto a vida

Para um segundo, se achar preciso. Isso é o receio, que nada mais é que uma das tantas formas do medo. A gente necessita um pouco disso, mas não ao ponto de nos paralisar.

Respira. Vai. Isso é a coragem, o que nos faz encarar (superar ou não é outra coisa) os desafios nem sempre previstos que sempre surgem à nossa frente, não importa aonde estejamos.

Segura firme. Procura aquilo que te dá segurança para o próximo passo. Se não houver um apoio físico, busca cultivar uma mão amiga pra te ajudar a seguir nesses momentos. (e às vezes é essa mão que nos carrega)

Por fim, se não souber o que oferecer a um desconhecido, quem sabe dê-lhe um abraço. Alguns não irão merecê-lo, e os tempos hoje são esquisitos, mas sempre é bom cultivar empatia por aí.

Avisos do destino ou não, parece até uma receita pra vida, mas foi só a observação das aventuras de uma menina que estava prestes a completar dois anos numa ida à pracinha depois de muito tempo e com outras crianças ao redor.

Feliz aniversário, minha filha! (a mão amiga do pai sempre estará ao teu alcance)

Super ponto azul

Já é quase século XII quando o turista espacial de classe média enfim consegue desembarcar na Lua e deixar por algumas semanas esse calor insuportável que tem feito na Terra há décadas.

Deu sorte! Soube logo ao passar pela imigração estelar que hoje, na Lua, é dia de Super Terra, em que a visão do planeta está 27 vezes maior e mais brilhante do que o normal. “Um espetáculo”, dizem os agentes que por lá trabalham, tentando vender uma entrada para o mirante Neil Armstrong. “É melhor ainda no bar Yuri Gagarin”, cochicha outro.

Com poucos recursos, instala-se na base e espia na janela do piano bar da estação compartilhada mesmo. Não demora muito e “uaaau!” Maravilha-se com o esplendor proporcionado por aquela vista. De um azul indefinível, a Super Terra ficará em sua memória por muito tempo – assim como as prestações em criptoespaçomoedas desta viagem.

Como todo bom turista, a contemplação dura cinco segundos. Tempo de sua mão chegar até o bolso do traje para pegar o seu iPhone geração 80 e apertar o botão em busca de uma imagem para subir em sua rede social de fotos. Afinal, o que é uma viagem, seja para onde for, sem rede social de fotos?

Entre diversos sons “clic”, “clic”, “clic”, a versão ultramoderna do aparelho de telecomunicações internético registra o momento, ao lado de outros semelhantes, portados por dezenas que vieram à Lua aparentemente pela primeira vez.

Satisfeito, o turista deixa a janela e volta-se à animada banda que tocava no bar. Só minutos depois lembra-se, enfim, de conferir o as imagens na galeria. Desapontado, deu-se conta que nunca havia zoom suficiente que transformasse naquela Super Terra o que, para seu celular – para qualquer celular –, seria sempre apenas um pálido ponto azul no céu.

Pílulas pandêmicas: o gol

Jogo qualquer da Premier League, temporada 2025/26. Wason Shak decidiu o jogo e decretou a vitória apertada do Liverpool por 1 a 0. Terminada a partida, Anfield vibrava como nas grandes comemorações. Clima de festa, celebração em um estádio sempre abarrotado, faça chuva ou faça sol.

E então aí despertou em mim aquele sentimento definido por uma palavra muito utilizada desde março de 2020: gatilho. Bateu saudade de um estádio abarrotado de gentes dos mais variados tipos, unidos ali por um sentimento comum. Desconhecidos em êxtase como se fossem irmãos.

Lembrei em meio a essa avalanche da última vez que pisei no estádio do meu time, poucos dias antes deste clima de medo se instalar por completo. Já era o fatídico março de 2020 e a partida foi de Libertadores, às vésperas do tão esperado primeiro Gre-Nal da competição – que, com mais de 50 mil pessoas presentes, marcou o que ainda é o último jogo com público em Porto Alegre.

Desde então, já tem um ano dessa montanha russa que oscila entre esperança e desespero. Às vezes o fim do túnel parece mais perto, afinal já é pós-pandemia na Austrália. Mas às vezes, parece que não têm fim, essas “duas semanas mais críticas” que teimam em sempre se avizinhar.

Gatilho, saudade, a falta da minha cidade, dos meus lugares e de uma época relativamente normal. Superados esses instantes de reflexão ainda olhava o Anfield virtual do Fifa 2021 no videogame com o inevitável questionamento “quando será que voltaremos?”, inevitavelmente seguido por outro: “Como será que voltaremos?”

Mesmo apaixonado por futebol, terá eu tão breve a coragem de abraçar um desconhecido – qualquer desconhecido – para gritar gol?

Clandestino na própria cidade

Foi como começar de novo. E, num ato banal que hoje me exige uma dose de coragem, suspirei e decidi seguir em frente. A cena que outrora foi tão corriqueira até ganhou um contexto levemente épico. Coloquei o capacete, subi na bicicleta. Apertei o botão: abri o portão e me fui cidade afora.

A paisagem que era tão comum ganhou o que pareciam contornos novos. E, como se reconhecesse a um amigo, passei a procurar detalhes rua a rua a partir do bairro Auxiliadora num caminho sem destino pelo cenário que por anos foi somente parte do trajeto casa-trabalho-casa.

Na via mais esvaziada gente, agora há mais traços. Do que se foi e do que será. Detalhes de como andou a vida nesses meses atípicos de medo do invisível. Sinais das transformações que virão daqui para frente. As casas têm mais gente agora, enquanto as ruas, mais pedidos por ajuda, no que parece ser uma faceta desses novos tempos.

Porto Alegre é uma cidade que tem um coração verde. Chama-se Parque da Redenção. É para lá que confluem as diferentes faunas de gentes da capital gaúcha. Seus cantos e bancos, se falassem, teriam o cotidiano das ruas na ponta de suas línguas. Estar lá é, afinal, estar em Porto Alegre.

Muitas e muitas vezes já sentei em qualquer banco ali, em variados momentos e com tantos e tantos tipos de companhia. Agora, contudo, estava só e clandestino, mesmo em plena tarde agradável de sol. Em tempos de regras de isolamento, talvez o certo seria não estar ali. Quieto, observo o vem e o vai daqueles poucos que, como eu, circulavam em tempos pandêmicos.

Olhando ao redor, tentava reconhecer a alma daquele lugar que frequento desde criança. Sob a sombra das árvores, notei apenas que não haverá nada normal enquanto a Redenção estiver esvaziada em tarde de sol por conta de algo que, dia após dia, nubla ou apaga a tantos nas redondezas. Tem, sem dúvida, um clima um estranho no ar.

Retomei o caminho de volta prestando atenção às novas mensagens de muros, as que deixei de notar nos últimos meses – no último ano (!). O que será que eles poderiam contar depois de meses sem vê-los? Em meio a tapumes, havia protestos: “Bolsocaro”, diziam uns cartazes na avenida, enquanto em outro muro, o picho exclamava, em plena perimetral: “O Brasil não merece o Brasil”.

Parei por um minuto. Achei que ele tinha razão.

*Crônica feita para a aula do curso de extensão Cartografias da Cidade, da PUC-Rio