Errei. Ou momento confessional nº 17

Essa onda de denuncismo que vivemos acabou por revirar algumas memórias não tão boas minhas. Memória que até então poderia considerar meio tola, mas, se parar para analisar, talvez tenha doído um pouco mais do que imaginei em quem ouviu.

Uma memória baixa e desprezível, com certeza. A qual, hoje, me arrependo.

Eram idos de início de século. No colégio, onde, apesar de já adolescentes, a maldade dos comentários infantis – sempre os mais maldosos! – ainda estava bem presente. Agora não lembro direito em qual ocasião surgiu o atrito entre eu e um colega, que àquela época eu não sei, mas hoje parece mais claramente esclarecido entre homossexual ou bissexual – honestamente não sei pela pura falta de contato posterior.

Nunca tivemos uma amizade verdadeira, todavia relativamente nos dávamos bem. E, pensando hoje, como esse período escolar deve ter sido complicado para ele, que gostava de teatro e não de futebol, que andava e conversava mais com as gurias do que com a bagaceirada abobada que éramos nós, os guris. Difícil.

Nunca fui muito adepto ao bullying. Porém, em retrospectiva, reparo agora que fiz pouco para combatê-lo. E do pouco que combati surgiu a tal situação desta memória. Em alguma discussão sobre trabalho, a qual me irritei com este colega – que também deve ter falado algo para me tirar bem do sério. Independente, eu errei mais, ao deixar a sala onde estávamos com um palavrão seguido do soco moral: “Sua bicha!”.

Foi tanto um xingamento mais ofensivo da minha parte que o normal porque eu não era disso. Já meio que me arrependi de ter pegado tão pesado na hora, mas, irritado, nada fiz na direção contrária. O caso tampouco teve dimensões maiores e sequer levei o então temido bilhete na agenda.

O tempo passou, no fim eu e ele até terminamos o último ano um pouco mais próximos devido a uma amiga em comum. Nunca pedi desculpas pela falta de respeito, contudo carrego esta memória que é mais para cicatriz. E, se não pode mudar o passado, ao menos norteia o futuro em direção de mais tolerância e respeito para com os outros.

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Eu jornalista, ano 10

Curso

Queira ou não, o dia 9 de janeiro acaba sendo, pra mim, um dia para se celebrar. Como já falado aqui, é o meu aniversário de formatura, o dia em que me tornei um jornalista profissional. Situação que soa às vezes tão dúbia, que acarreta umas quantas frustrações diárias com raros momentos de uma euforia quase única na vida dos profissionais redações afora.

O nono aniversário do meu canudo, porém, foi um pouco mais especial. Numa nem tão ocasional coincidência, tive minha segunda experiência docente, ao ministrar a oficina de texto webjornalismo em Porto Alegre.

Num mar tão agitado como esse que o jornalismo – especialmente na web – navega, é bom parar para refletir um pouco: para onde estamos querendo ir com este modo que agimos?

Algumas horas de debate regado a café fazem bem tanto para quem está começando como quem já está por aí há algum tempo.

Cruel economia

Porquinho

É quase um mantra, algo que repetem como se fosse necessário crer: “A economia está melhorando, a economia está reagindo”. Deveríamos acreditar piamente que o pior já passou, que o Brasil vive novos tempos e que a pujança estará ao nosso alcance logo mais – especialmente se tais reformas forem aprovadas.

Mas há alguma coisa que parece errada. “A Selic nunca esteve tão baixa”, eles dizem. Fato, verdade! “A inflação está baixando”, concordo. Porém, o bolso segue meio vazio, e algumas sinapses cerebrais são feitas. Com certa dificuldade, ok, porque economia é algo assustadoramente complicado de se entender. Só que quando trocam-se números frios por dinheiro, a conta faz um pouco mais de sentido.

E o que não faz sentido são todos esses números, em tese, positivos. Eu tenho moto, por exemplo. Já faz 12 anos. Desde então, nunca tinha conseguido colocar R$ 40 para completar o tanque. Atualmente, “com a nova política de preços da Petrobras”, esse valor passa dos R$ 50. Já não lembro a última vez que disse “completa” num posto.

Gás de cozinha, eletricidade, plano de saúde… o reajuste mais leve apenas nesses três boletos que vencem todo mês foi de 27%. Muito maior que o índice usado para aumentar meu salário proletário, que por mais que mal sobre no fim do mês, ainda me coloca entre os 20% mais ricos da população. Aliás, receber mais que 80% da população brasileira e escrever um texto reclamando de economia é algo que me deixa chocado.

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Não bastasse esta crise (ou a saída dela) afetar o meu bolso, passou a mudar drasticamente o meu passado. E confesso ser essa uma das motivações para começar escrever isso tudo. Ao passar na frente de dois dos restaurantes do querido bairro Menino Deus, onde a vó morou por toda a minha infância – e até já depois dela.

Um deles, talvez o que mais fomos tanto em saudosos almoços festivos de família quanto em qualquer terça-feira sem comida em casa, está vazio e já bem empoeirado por dentro, sem móveis outrora tão utilizados. Uma história oca. O outro, esse mais de ocasiões especiais, ostenta em plena avenida as cores desbotadas de outros anos e uma grande placa “Aluga-se” na frente.

Textos baianos: Saudade do Morro

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Havia 66 notificações pedindo alguma atenção em apenas um aplicativo de rede social. Isso sem falar nas mensagens, que sempre apareciam às dezenas quando o celular encontrava um mínimo de conexão. Tinha ainda os e-mails. Sisudos, carregados de compromissos, eles.

Mas havia também o mar! Bem em frente. E não apenas uma, mas quatro praias de águas verdes e pedrinhas multicoloridas de encantar crianças – e, ok, adultos também. Morro de São Paulo, Bahia. Uau, que diferença para seu xará do Sudeste. Sois verdadeiramente opostos batizados com o mesmo nome.

Ante aos compromissos de vidas permanentemente digitais, ondas. Ininterruptas. Não de dados, mas de vida. Uma vida mais simples e pacata. Mais ligada à natureza do que às possibilidades provindas de um cartão de crédito. Ondas que, pouco a pouco, carregam o peso de dias que quase não tinham fim na rotina do trabalho.

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Num mundo tão sem pausas, um recomeço à beira-mar do Morro de São Paulo é revigorante.

Quase um e-book

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Ainda sobre números e comemorações dos 10 anos, estão abaixo separadas mais de 22 mil palavras distribuídas em 67 posts, organizados de forma cronológica, quase que numa montanha-russa de assuntos e situações.

Esses textos não são necessariamente os melhores – até porque gosto é algo individual –, mas os mais marcantes para quem os escreveu e gastou algum tempo para revê-los. Seja pelo resultado final ou pela motivação da primeira letra – o “insight”, como dizem os amigos publicitários em sua língua-mãe.

Tudo isso selecionado na base da correria, em menos de uma semana e diagramado muito toscamente em Microsoft Word 2016, em horas vagas em casa. Foi uma corrida para vencer o deadline exato dos dez anos. Vencido, esse post foi para o limbo, de onde foi retirado um mês depois.

Publicar ou não publicar, era a questão. Porque não ficou exatamente como se imaginou. Faltou alguma coisa, um quê de design e uma revisão mais aprimorada, quem sabe. Enfim.

Mas vai para o ar agora. Até pelo que representa ter um blog de uma década de vida. É uma trajetória e tanto. E o mais legal disso é revisitar textos antigos e, se em alguns se vê um traço de qualidade, em tantos outros o sentimento é de vergonha alheia por um dia aquilo ter sido publicado.

Um blog, como esse, nunca deixou de ser um diário, mesmo que a periodicidade esteja bem longe disso. Porém, também é um registro de diversas fases e inspirações de parte importante de uma vida. No caso, a minha.

Dez anos, 3,6 mil dias de um blog que nasceu sem ter um prazo ou objetivo bem definido, que já mudou a rota algumas vezes. E seguirá mudando, porque a vida é assim. Então, não te esqueça: é tosco. Bem tosco. Mas é de coração:

http://e.issuu.com/embed.html#31432530/55417330

E se não conseguir acessar, tenta direto neste link.

Uma década até aqui

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10 anos

Em uma matéria jornalística, quando se quer dar uma dimensão mais exata dos fatos, aproximar o texto do leitor, não raro usa-se números. Algarismos unidos que, juntos, são capazes de aproximar um fato do cotidiano das pessoas.

Pois então, usemos. Temos aqui dez anos, completos às 16h34 deste 15 de outubro de 2017. Passaram-se, logo, uns 3,650 dias desde a primeira e bobinha postagem de boas vindas. De lá pra cá, foram 452 textos publicados, além de outros cinco misteriosamente pendentes – incluindo um texto pronto desde 2014 e até hoje na fila, sabe-se lá o porquê.

São, já devidamente preenchidas, 120 meses de arquivos. Um por mês. O mais legal é que esta caixa de arquivo conta um pouco de algumas fases da minha própria vida. Ou do meu próprio texto. Mistura realidade e ficção, mistura histórias próprias e de outros, com causos nas linhas e nas entrelinhas escritas ou pensadas em bares noite afora. A isso somam-se teses, jornalismo e muito papo sério.

Aos poucos, lê-se umas modificações e tanto. Evolução da escrita? Talvez. Um olhar mais crítico, com certeza. Há reflexões, comentários, lamentações e relatos de observações feitas desde aqui, ali e até do outro lado mundo.

Enfim, obrigado por teu minuto de atenção e por fazer parte disso, amigo leitor.

A cidade e a bike

Era para ser um breve adendo à esta matéria do Henrique Massaro para o Correio do Povo. Acabou que virando um breve artigo, mas que acabou não indo para o papel pela perda do prazo deste que o escreveu. Ao menos hoje já inventaram a internet e aqui se faz possível a publicação =)

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Andava em uma esteira na cidade de Hamamatsu, no Japão, poucos meses atrás. O trajeto era em um elevado paralelo à estação central de trem. Lá chegando, reencontrei uma cena que me remeteu a locais como, especialmente, a Alemanha: bicicletas. Às dezenas, quiçá centenas. Todas ali estacionadas, enquanto seus donos estavam em lugares e até cidades diversas pela região. Cito Alemanha, porque já vi com meus próprios olhos, mas em quantos mais lugares ao redor do mundo acontece isso?

Pois bem, o nome disso é planejamento. Talvez este seja o segredo – que nem é tão misterioso assim, convenhamos – para o sucesso e a popularização das bikes. Torná-la um modal. Cotidiana. Poder usá-la para ir até um ponto e de lá pegar um ônibus, trem ou o que seja. Na certeza de que ela estará lá na volta. Integrá-la à cidade, em suma.

Porto Alegre vive um debate mais acirrado sobre o papel da bicicleta há mais de seis anos, desde o fatídico atropelamento coletivo na Cidade Baixa. De lá para cá, a Capital ganhou não mais que um punhado de quilômetros de ciclofaixas e ciclovias. Mas talvez não tenha integrado seus ciclistas – e aqui abre-se um viés crítico: o quanto alguns de fato quiseram se integrar – e não se impor – enquanto esbravejavam bordões rancorosos como “Mais amor, menos motor”?

Num mundo poluído, o futuro agradece se andarmos mais de bicicleta, com certeza. Só que soa utópico simplesmente abandonar carros, motos e outros meios de transporte já consagrados. Da mesma forma que é vazio dizer que se incentiva a bike sem promover tanto a segurança quanto o conforto de quem pedala por aí. Que tal amenizarmos nossos ânimos e encontrarmos um meio-termo? A cidade, estejam certos, agradecerá.