Quando é preciso conhecer

Tem horas que as palavras faltam. Tem momentos que servem apenas para o exercício da admiração. Transmitir isso via qualquer rede social é impossível, mas segue uma tentativa:

É ímpar ver de perto um cenário tão conhecido por fotos e cartões postais e mesmo assim lançar um olhar juvenil. São poucos os locais que têm esta capacidade no mundo. Não à toa alguns desses foram eleitos maravilhas.

Chegar às cataratas tem muito disso. Mas lá, tanto no Brasil quanto na Argentina, não apenas se vê, se sente muito. É muito mais que água, que respingos que encharcam em poucos minutos. Há toda uma força envolvida, impossível de ser traduzida com meros três vídeos.

É preciso conhecer. É preciso viajar e conhecer novos horizontes, até os que parecem tão familiares.

Rumo ao Oeste

cataratas

Sem legendas possíveis

É preciso ir ao Oeste, pensei. Reflexão que veio bater à mente e cresceu desde o meio do ano passado, quando em rápida viagem de trabalho ao Recife (lá no lado contrário), notei tantos e tantos “brasileiros” ao longo do caminho.

Por brasileiros, entenda-se esta grande e heterogênea mistura de cores, etnias e sotaques. Elementos nem sempre tão distintos no Sul do país, onde europeus colonizaram o povo e a cultura mais parece se assemelhar mais às bandas do Rio da Prata do que a que ressoa ao Norte das araucárias paranaenses.

Então, fazia-se – e ainda faz-se – necessário olhar o Oeste do mapa. Este interior longe do mar. Calhou o destino de o primeiro horizonte a ser desbravado nesta direção fosse Foz do Iguaçu, que sequer é o ponto mais a Oeste que conheço neste país, mas é um início de caminho, de uma rota a ser traçada.

Em pouco mais de 24 horas nestes ares, novos horizontes inspiraram textos que ainda serão escritos, como em outras épocas. Voltamos em breve, assim que as férias terminarem.

Até que um dia, Lisbela

lis

A mirar las vueltas de la vida…

Por onde andou Lisbela? Não se sabe, com exceção de uma praça, onde ela estava sozinha e faminta certo dia. Perdida ou abandonada, hoje é algo que apenas ela pode guardar em lembranças e revelar em gestos ainda assustados.

Dá pra imaginar, porém, o que sofre um bichinho de rua ao relento do inverno porto-alegrense. Especialmente o de 2016, que fez dias consideráveis de um frio chato. E nem vamos comentar sobre a incômoda umidade em que ficam as praças, as ruas, tudo.

Seus dois olhinhos, que sustentam o costume de um olhar firme, viram decerto algumas das mazelas que assombram mesmo humanos. Esses à margem, quando em condições miseráveis, obscuros e anônimos por entre o cotidiano de grandes cidades.

Até aquele dia. Quando mirou a pessoa certa, mirou seu resgate. Da praça saiu e ganhou uma casa, ainda que provisória. Recebeu cuidados e carinhos, que não encontrava na rua. Mesmo percorrendo toda a vizinhança, seu passado não foi encontrado naquelas redondezas. Rebatizou-se, então. Virou, aí sim, Lisbela.

Dias depois, seus dois olhinhos ganharam outro alguém, quase como numa cena clichê de amor à primeira vista. E bem mais do que isso: a agora Lisbela ganhou um lar. Nunca soube da expectativa que provocou, chegou desconfiada, atenta a mais aquela reviravolta que a vida lhe dava neste inverno. Mas desta vez uma virada para melhor. Quem disse que a vida não pode ser boa, afinal?

Por onde Lisbela andou já ficou num passado que está a distanciar-se. Um pretérito perfeito, que aconteceu e se concluiu no passado. A vida hoje é presente.Ela comprova que é bem mais fácil quando se tem um sofá, um pouco de comida e carinho à disposição. Que o futuro traga coisas boas para se olhar.

Não compre, adote❤

ps: não basta arranjar um lar, tem que ter Instagram (!): @lisbelacanina

À Laura

lauraFelicidade.
Palavra com quase mais sílabas
do que dentes que tinhas na boca até bem pouco.

Até bem pouco, aliás, eras só expectativa
a imaginação de como seria
o cabelo, os olhinhos, o sorriso.

Sorriso fácil, sorriso lindo.
Laura linda, tão cheia de futuro
mas já com um quê nostálgico.

De saudade do dia em que chegaste
do que sorriste, do que andaste.
Da saudade das tuas pequenas descobertas.

Algumas das quais eu já estava lá
a torcer, a te cuidar. Como hoje.
E como por todo o resto da minha vida.

Eleições? Justo agora

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Quatro anos em poucos segundos: em breve | Foto: TSE

Vivemos tempos de ressaca, nesta época pós-impeachment. Paira por aí uma aguda desilusão política, ainda que disfarçada de excesso de convicção. Isso num momento em que perdemos a capacidade de diálogo em redes sociais. Não precisamos de muitas palavras para virar logo coxinha/golpista ou petralha/comunista. Sem meio termo nesta época de opiniões fortes.

Mergulhados em crise de representação, em menos de um mês vamos às urnas eleger aqueles que mais influenciam diretamente na nossa vida cotidiana, prefeitos e vereadores. Legislativo municipal, inclusive, coberto de maneira deficiente pela mídia em geral apesar de sua importância e impacto mais imediatos, diga-se de passagem.

Se não se atentar tanto à campanha, às vezes dá a impressão que ela mal começou. Ao menos em Porto Alegre, mal que mal se vê números das siglas e de seus candidatos. Talvez seja uma higienização forçada após anos de poluições. Campanha em si, igualmente pouca. Quando o material chega, em meio a toda esta crise institucional da sociedade, passa a impressão que há mais candidatos preocupados com o bem-estar dos animais do que, veja só, direitos humanos.

Defender direitos humanos virou em algum momento ser defensor de bandido, conforme os entendidos juízes de Facebook. Na campanha, é bola fora e, ainda que não seja atribuição do legislativo municipal – e sim do Estado –, o que não falta em Porto Alegre é gente prometendo mais segurança. Como isso vai acontecer? Não dá tempo de descobrir mais a fundo.

Não dá tempo, porque não há tempo. Juntos, os candidatos a representantes da população têm apenas dez minutos para pedir votos na TV e no rádio. Dez minutos compartilhados, poucos segundos para cada um – período insuficiente até para ler este parágrafo em certos casos. Cortaram o tempo que o eleitor tem para analisar seu candidato justo em um momento de grave crise de representação política.

É, mais do que nunca, uma eleição a jato. Mal começou, tem feriado no meio – num quase irônico Dia da Independência – e já vai terminar. Ao fim, tudo pode continuar igual e mal vamos reparar que fomos às urnas.

Diário de um trânsito louco

O trânsito de Porto Alegre não faz sentido. Já fiz diversas teses e desisti de publicar todas, por simples e pura desilusão. Como toda cidade de médio e grande porte, tem seus pontos mais complicados e seus estresses diários, nos quais todos estamos expostos, sejamos pedestres ou motoristas. São situações corriqueiras, que, bem ou mal, testam nosso humor e principalmente a paciência.

Chegando ao jornal mais cedo, acelerei a moto para aproveitar o sinal verde para mim. E ainda que estivesse verde para mim, um pedestre resolveu atravessar, ignorando o fato de que eles estaria autorizado a cruzar a rua e eu obrigado a parar em cinco segundos.

Buzinei. Mais até para chamar a atenção e alertar do risco do que para reclamar, juro. Mas cada um entende como quer e assim que passei ouvi algum xingamento indecifrável àquela velocidade. Num ato instintivo e até incomum pra mim, levantei o dedo do meio sem nem olhar para trás.

Não gosto de carregar mágoas no trânsito. Até xingo muito, mas normalmente o outro motorista não ouve, porque não dou volume à reclamação. No fundo, sou um resmungão. Um rabugento que não gosta de peleias pela rua.

Ter insultado o cara me incomodou um pouco, mais por mim do que por ele. Ocorreu, no entanto, que minutos depois pude me redimir. Aproveitando espaços por entre os carros, consegui chegar ao jornal, mas, na última faixa de segurança, andei quando um carro havia parado. Só deu tempo de acenar ao casal que começava a atravessar, como se me desculpasse.

Logo em seguida parei para esperar a abertura da garagem do jornal e vinha passando o casal que estava na faixa. De cima da moto, juntei a palma das duas mãos e baixei a cabeça. Recebi uma piscadela de “tudo bem” em retorno. Tudo bem, sem rancor algum.

Melhor assim. Entre xingamentos e discussões de trânsito, é bem melhor ter a humildade de pedir desculpa por eventuais erros e, quando se tem sorte, até ser desculpado do que chegar em casa contando que xingou três gerações de alguém que estava no carro ao lado.

A sujeira ao invés da sorte

trevo

Era um início de tarde de 31 de agosto, quando me deparei com uma árvore, que, em sua raiz, havia muitos trevos. Desde criança, sempre que vejo trevos paro para procurar algum de quatro folhas, como o que vi uma única vez, há muitos anos. Vai que tenho sorte.

Mas admito que não era nem questão de superstição, e sim pela curiosidade que dispensei atenção às folhas. Olhei, procurei e nada, dentre as dezenas ou centenas de trevos que ali estavam, neste agosto de 2016. O máximo que encontrei foi uma garrafa pet, verde, camuflada em meios aos trevos.

Além da falta de sorte, sujeira.

Passos depois, houve um pequeno foguetório, buzinas nos carros que andavam na avenida próxima e, não esquecerei, uma única mulher numa janela de prédio batendo sua panela. Tive vontade de gritar para ela parar com aquele irritante barulho. Porém, não o fiz, ao reparar que ela ficou sozinha em sua manifestação de breves minutos. Não encontrou respaldo ou resposta na vizinhança.

Foi um passeio curto, de poucos minutos, mas quando voltei para casa, meu país já tinha até outro presidente no poder.