A velha política

ex-presidentes 2013

Dias atrás, o professor Marcelo Soares recompartilhou uma icônica foto do poder brasileiro. Desta vez, no entanto, não foi o impacto de ver cinco presidentes (e um intruso) juntos numa mesma imagem que me impactou, como quando a vi pela primeira vez. E sim a legenda usada por Marcelo: “Muito zoei essa foto. Mas é um documento de um Brasil que acabou. Não tem santo na foto, mas já fomos melhores que iffo daí”.

Causa certo nó a reflexão do professor, mas não deixa de ser verdadeira. E de repente deu até uma saudade da chamada velha política. E isso em nada tem a ver com coronelismo, “político de estimação” ou afins. Mas sim com convivência democrático-respeitosa com o lado oposto. Ou, por que não dizer, diálogo?

Bateu saudade até de chamá-los de “farinha do mesmo saco”, tratando lados opostos como iguais – “os políticos”. Até porque a farinha de hoje, certamente não é igual àquela. Nem parecida, as relações exteriores que o digam.

Jair Bolsonaro não será eternamente o inquilino do Palácio Planalto. Mais cedo ou mais tarde, ele sairá. Mas, mantendo o embalo de queimar pontes até mesmo com aliados e denegrir adversários, é de se pensar seriamente que talvez não seja ele quem passe a faixa presidencial ao sucessor quando este dia chegar.

Depois deste dia, pousaria Bolsonaro para uma foto de estadista com seus antecessores, ou mesmo com seu sucessor, se este não for seu seguidor? Dentro deste ambiente de polarização, caso a oposição venha a ganhar, chamaria Bolsonaro como representante de um pensamento majoritário de uma época no Brasil?

Talvez a foto – tirada a caminho do velório de Nelson Mandela – com FHC, Dilma, Lula, Sarney e Collor, além do intruso, seja realmente um documento digital de um Brasil pré-polarizado que acabou.


ps: na pesquisa pra este post, descobri o nome do “intruso”. É o ministro Renato Mosca, então chefe do Cerimonial da Presidência

Inadjetivável!

sorriso

Gostava muito da época em que a boemia era uma constante na minha vida – e nas minhas noites. Uma época bem antes do #sextou de hoje em dia, até porque integrei um grupo que não tinha preconceito com noite alguma. Foi um tempo em que era possível dormir tarde e acordar cedo no dia seguinte de forma regular.

Com os bons amigos que tenho desde aquela época, sempre nos ativemos à palavra. Nas formas objetivas e, principalmente, subjetivas de passar uma mensagem – ou definir certos atributos em corpos alheios. Numa dessas vezes, o Rodrigão saiu-se com uma boa. Resumiu uma situação em um único termo, que nada e tudo dizia ao mesmo tempo: “Inadjetivável!” Assim, exclamado.

Claro, ele não inventou a palavra. Mas não lembro de ter ouvido esse curioso adjetivo antes e, desde então, reservei-o para apenas momentos especiais, nos quais exclamar inadjetivável! torna-se muito mais legal que qualquer expressão batida como “sem palavras”.

Pois bem, este tempo boêmio passou. A decantação da palavra pelo álcool ficou cada vez mais rara, à medida que anos e boletos se acumulam. No entanto, a visa segue nos reservando situações especiais. Principalmente nas madrugadas. Ainda que não seja no bar, mas sim no quarto da tua filha, quando vais só dar (mais) aquela conferidinha pra ver se está tudo bem com aquele soninho.

Metido que és, tu vais ajeitar a posição dela, pra que durma ainda melhor dentro daquele berço, que muito te custou, mas que valeu cada esforço. E ficarás, como de praxe, um segundinho a mais contemplando, apesar do cansaço, apesar do horário avançado e do despertador temprano.

E é nessa hora que furtivamente pode acontecer. Ela, mesmo dormindo um lindo sono infantil, vai sorrir um sorriso lindo, inocente, fugaz e sem dentes. Inadjetivável, a sensação, meu caro. Inajetivável!

Eu não sou ninguém para dar conselhos, e tampouco escrevo aqui para isso. Colocar filho neste mundo acarreta uma responsabilidade e tanto. E sem volta. Cansa, é estressante e rouba a tua liberdade de outrora – inclusive a boemia. Mas, ainda assim, é inadjetivável! o sentimento que isso gera. Assim, com exclamação no fim.

Matinal, 150

Às 7h03 desta sexta-feira, atingimos uma marca importante. Foi neste momento – cedinho, conforme proposto – que a 150ª newsletter Matinal foi enviada a nossa base de leitores. O número da edição também coincidiu com a data redonda de seis meses do início oficial do projeto, pensado, editado e tocado conjuntamente com os colegas Paulo Antunes e Filipe Speck.

Uma curiosidade que é bom lembrar: o Matinal nasceu a partir de muita conversa em bares e cafeterias por aí, locais apropriados para os grandes debates jornalísticos. Nesses ambientes, que ora tinha cerveja, ora um expressinho à disposição, discutíamos muito a mídia local, a cobertura de determinadas pautas, além, claro, de planos para mudar o mundo.

De uma dessas várias discussões que nasceu a ideia de criar uma newsletter local. Surgiu, lembro ainda, no Centro de Porto Alegre, provavelmente na volta do Mercado Público, em 2018. A partir de então, mais conversa, pesquisas, inúmeras reuniões e litros de café para se chegar perto do modelo que é enviado diariamente hoje.

Com uma boa bagagem de jornalismo digital, nós três desde o início definimos uma meta para o trabalho: contexto. Em meio a tanto ruído, com tanto “li por cima”, era bom ter um lugar onde que fosse possível entender de um assunto de maneira ágil. E a partir de lá ter as fontes para o aprofundamento da questão.

Outra diretriz: valorizar a mídia local como um todo. Nós três temos experiências dentro dos grupos que editam os maiores jornais de Porto Alegre. Sabemos, especialmente, as qualidades de cada um. O Matinal virou também um canal em busca de ampliar o acesso a outros meios de comunicação. Abrir, o quanto possível, o espectro do leitor.

Vivemos tempos polarizados e complexos para o jornalismo. Em 150 vezes, tentamos ajudar a esclarecer um pouco esse cenário, a partir do cotidiano de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Ainda há bem mais pela frente, e estamos dormindo tarde e acordando cedo para chegar lá.

Um podcast

Ou: vendendo um pouco mais do meu peixe

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Neste 1º de outubro, o Correio do Povo completou 124 anos de história. De dez de todos esses anos, eu faço parte. Ainda imberbe como repórter da primeira equipe exclusiva da web do jornal e, de 2013 para cá, editor.

Ao longo deste tempo meu na redação, fiz alguns quantos trabalhos que considero especiais – muitos linkados na página “O jornalista Tiago”, neste mesmo blog.

Colaborei também em uns processos de inovação do jornal. O mais recente deles é em um dos novos podcasts que o CP lançou em seu aniversário. Estou à frente do Direto ao Ponto, que busca aprofundar um pouco uma determinada notícia do dia, além de oferecer um breve giro de notícias ao ouvinte.

É um trabalho de formiguinha, que por certo ainda tem muito a ser melhorado. Neste caminho, seria uma honra contar com a tua audiência, em diversas mídias, ou diretamente neste link. E, claro, tuas críticas.

Os acordes do tempo

Violão

Certa feita, um inspirado Mario Quintana sentenciou:

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família”

E quem ousaria discordar de um Quintanar desse? O poeminha carregado de verdade me faz olhar desconfiado a um certo relógio de corda que hoje tique-taqueia na casa do meu pai em Florianópolis – mas que antes por anos deu as horas na sala da minha avó, no Menino Deus. Algo me diz que um dia ele pode voltar a Porto Alegre. Espero que ainda leve algumas décadas.

Há mais desses por aí. Só que nem sempre marcam os minutos. Ando, por exemplo, reconhecendo o relógio de Quintana no meu violão. Pinho, esse, que já não é nenhum guri e acompanha andanças minhas há 19 anos, época em que pestana ainda me era um desafio. Antes disso, soou acordes tocados pelo meu tio. O ano da fabricação, escrito à mão no papel ao fundo de sua caixa acústica, também já vai ficando antigo: 1994.

Esse Di Giorgio acompanhou-me em diversas situações (e cabelos). Me viu mais ao rock, ao reggae, ao samba, à bossa nova. Viveu anos de intensa relação, tal como o ostracismo ao ver-me adulto e compromissado com outras rotinas. No entanto, sempre esteve à mão e por perto. E ainda que o descuidasse algumas vezes, sempre providenciei seus reparos.

Foi do meu tio, é meu. Mas agora vai se preparando para um novo salto geracional. Com seu som, ainda muito elogiado por quem o ouve, conquista dia a dia a mais nova integrante da família. Maria Flor, quem diria, com quatro meses já o notou e se mostra atenta a seus sóis, lás e mis, sejam eles diminutos ou em sétima maior.

Com seus olhinhos, repara curiosa ora no vaivém da mão esquerda, ora na batida da ou o dedilhado da mão direita. Espectadora para encher de orgulho o projeto de músico que viveu (vive?) em mim. No ritmo desses dias, sorrindo, mal noto: pouco a pouco estou sendo devorado.

Diários paternos: aquele sorriso em meio ao sono

Flor sorrindo

É uma coisinha surpreendente. Quando vê, aparece sorrateiro, o sorriso da minha filha, em meio ao seu sono. É lindo e gostoso, vê-la neste momento. Em especial neste momento exato de mundo em que vivemos, quando sorrir é, não raro, um ato de coragem e por que não rebeldia.

O dela tenho certeza que por enquanto é só inocente mesmo. Sortuda, vive alheia do noticiário que a cerca. Eu, já com alguma casca de vida, gosto de imaginar a razão que a faz sorrir enquanto dorme. E não me venham com essa história de espasmos quando posso imaginar poesias.

Quais os sonhos de Maria Flor, eu me pergunto – normalmente babando a duas ou três dúzias de centímetros dela. Divirto-me imaginando que ela sonha com uma teta enorme, cheinha do melhor leite. Ou então algum recuerdo nostálgico de como era sua vida até alguns meses atrás, quando ela era umbilicalmente ligada ao ser que lhe apresentou o que é o amor (…nesses tempos de cólera – não resisti).

Memórias pregressas de vidas passadas, quem sabe. Ou então flashes de resquícios das palhaçadinhas que pais, avós, tias e dindos lhe fazem – porque em pouco tempo todos já adoram o seu sorriso iluminado em meio ao duro cotidiano.

Seja o que for, minha filha, se depender de mim, motivos para sorrir não lhe faltarão. A dureza do mundo que se acostume.

Uma carta ao Twitter

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Hey, passarinho, vem cá.

Oi, Twitter. Faz tempo que queria ter esse diálogo – ok monólogo, já que quando se trata de denúncias tu não costuma prestar muita atenção. E queria porque gosto de ti. Como tu tem muitos dos meus dados, sabe que nossa relação começou no quase pré-histórico ano  de 2009. Mudamos bastante, creio que sempre procurando evoluir. Fiquei feliz em te ver crescer, ganhar relevância e fazer frente àquela outra rede social. Muito já recorri a ti para buscar atualidades de última hora e as encontrei. Passarinho querido, és parte da minha rotina há anos. (como bem sabem os teus dados)

Mas precisamos conversar. E não se ofenda com a pergunta, querido Twitter. Mas o que houve contigo? Que ares andaste frequentando para tornar o teu – e nosso – ambiente tão tóxico? Aquele suspiro nerd e inovador lá do início há muito apagou-se e, por aqui, vejo ódio, ofensas e preconceito desenfreados por ti. Isso é por audiência? Até sei que combates um que outro perfil de vez em quando. Da mesma forma, é uma situação complicada. A liberdade de expressão e a censura são separadas por uma linha tênue.

Ainda assim: és conivente demais, caro passarinho. E como quem gosta de ti, lhe digo: jamais entraria em teus domínios pela primeira vez hoje se chegasse e visse o cenário que está aí posto. Sempre te defendi, sempre quis o teu bem e, por isso, ainda que sinceramente desesperançoso, torço por melhoras.

Voa, passarinho. Existe horizonte. Dá para ir mais alto que essa montanha de lixo!