O que passou e o caminho a seguir

Em meio a cuidados de uma bebê de um ano e para não esquecer de limpar tudo com água, sabão e álcool gel quando necessário, as últimas férias também foram um período para uma breve e tímida tentativa de leitura. Apesar de escassas, renderam.

Destaco dois textos que acabam sendo um farol para o campo da esquerda em tempos pandêmicos de bolsonarismo no Brasil. “Dentro do Pesadelo”, um artigo de Fernando Barros e Silva na edição 164 da revista piauí, e o livro “Amanhã Vai Ser Maior”, de Rosana Pinheiro-Machado.

O primeiro é daqueles textos ainda raros na imprensa brasileira, com palavras certas em tons adequados. Grave. Há uma tendência no jornalismo brasileiro – e acabo por estar nisso – de amenizar o adjetivo ante a uma situação conflitante. Costumam sair termos como “racista” e “machista” para dar lugar ao vago “polêmico”.

O texto na piauí, porém, como o próprio nome já sugere, remete a algo pesado de alguém que cobriu a última eleição presidencial e o primeiro ano e meio do novo governo. Não que o que esteja acontecendo não pudesse ter sido esperado, vide a trajetória anterior do atual ocupante do Planalto. E aponta “cegos”, “omissos” e “cínicos” (inclusive nós, da imprensa) ao longo deste caminho:

O que define o bolsonarismo é o desprezo pelo Congresso, pelos partidos, pelas instituições, pela imprensa livre, pela sociedade civil organizada. Ele gosta do caos, ele gosta de dar tiros. Sua opção política funciona porque ele tem o Exército às suas costas. O projeto autoritário de Bolsonaro passa pela atrofia do poder civil e do estado laico, dois pilares da vida democrática.

Os tempos são duros, em especial para quem pensa à esquerda do espectro político. De 2016 pra cá, duras derrotas em diferentes níveis. Mas esse cenário começou a se desenhar quando, afinal? E o que fazer agora? Rosana Pinheiro-Machado, se não tem uma fórmula mágica, traz contexto e projeções em seu livro – um dos que mais fiz marcações na vida.

É preciso, explica ela, entender onde, quando e porque esse movimento de extrema-direita teve início para evitar novos erros que levem a futuras derrotas. Não basta apenas encher a boca e gritar “Eu avisei” na cara de qualquer um que esteja insatisfeito ou arrependido com o que está acontecendo. Vai ter que ter muito diálogo para começar a tentar a reverter a situação.

O que ocorreu no Brasil não se deu em função de um surto coletivo, mas de um não rompimento com nosso passado autoritário e com as estruturas que perpetuam a desigualdade.

Crônica de litoral, parte 3

Praia

Talvez seja por ter vivido um tempo livre no Litoral Norte gaúcho, por ter visto esse cenário tão característico de outra forma e, em especial, com outra velocidade. Mas passada toda infância, adolescência e, sei lá, primeira parte da vida adulta, a ida à praia fora do veraneio ainda me causa uma espécie de fascinação.

O movimento menor dessas cidades litorâneas em outonos e invernos acaba por fazer eu me sentir um intruso, um observador da vida alheia, ao contrário do verão. Na época de calor, eu e meus conterrâneos – e seus carros de placas “Porto Alegre” – dominamos esses lugares. Avacalhamos a tranquilidade, numa verdadeira revolta dos haoles, para usar uma expressão praiana.

Agora, não.

É maio, já faz até um friozinho. E tudo está mais calmo perto do mar. Ainda que, em razão deste tempo pandêmico, esteja mais movimentado do que acredito ser o verdadeiro normal para esta época do ano. Pela quantidade de gente pela rua, certamente teve porto-alegrense quarentener que veio passar um tempo e quase idosos adiantando a sonhada mudança de CEP antes planejada para a aposentadoria.

A fuga de Porto Alegre em umas férias em meio à pandemia me trouxe agora para cá como um turista inesperado em destino arredio. Tudo está diferente do que quase três meses atrás, quando vim pela última vez, em meio ao carnaval. Fazia calor e coronavírus era pauta da parte internacional do jornal, apenas. Não passou 90 dias, mas a distância parece muito maior.

Ainda que esteja esse meio termo – além desse clima esquisito que nos obriga a usar máscaras por aí – andando por ruas de paralelepípedos tortos pesco uma sensação de décadas atrás, impedida hoje. A de perambular a esmo por entre a vizinhança, como se a praia fora do verão fosse uma cidade fantasma, algo que enchia a imaginação dos pequenos.

Éramos crianças e era tudo nosso. Entre as casas fechadas, passeávamos no jardim alheio. Em meio à grama já alta, reparava em detalhes de varandas que não eram minhas e encontrava objetos esquecidos por seus donos na hora de partir, e que por certo virariam ali adiante ecos nostálgicos de verões passados.

Bem antes de pensar em ser jornalista, eu indagava naqueles gramados: quem passou parte da vida ali? Que histórias esse lugar viu? Velhas casas na praia, se falassem, sempre teriam uma boa história pra contar.

Mas histórias, essas, que não deverão despertar curiosidade à minha filha como a mim fazem. Ela, que andou na freeway pela primeira vez fora do verão, já chega nessa realidade diferente, de mansões e janelões nos condomínios, de casa na praia equipada como na cidade grande – só que devidamente demarcada com a cerca que veio a se tornar uma característica do litoral. E sem mais explorações em jardins alheios.

Como alguém que por muitas vezes já veio para cá, não consigo não me espantar ao notar que, agora, até mesmo o conforto apareceu, no lugar do improviso. Saiu a televisão velha que mal pegava um canal e a decoração esquisita e entrou o wifi e a Netflix. O litoral, antes tão longe, tem se transformado em Região Metropolitana da Capital.

Da praia em que eu fui quando criança para que ela irá daqui em diante, resta, como sempre, só o mar. Esse, sim, mais constante que o velho vento Nordeste que sopra por aqui.

A tempestade na Espanha

Plaza Mayor

Ninguém sabe ao certo quando a pandemia vai terminar, quando a vida, doravante em uma “nova realidade”, emergirá a pleno. Mas depois de algumas semanas de muita dor e milhares de tragédias familiares, o sol parece estar próximo de raiar em alguns lugares, como a Espanha.

Nesta semana, iria entrevistar duas amigas minhas que moram por lá, para o podcast Direto ao Ponto. Iria ser entrevista, virou conversa – que é o que acontece quando as boas entrevistas fluem. Ficou um relato claro de que a pandemia não é “gripezinha” e sim um problema de dimensões catastróficas à sociedade.

Como tudo na vida, essa pandemia vai passar, com mais ou menos dor por aqui. Não foi a primeira grande crise sanitária, provavelmente não será a última. A diferença é que nessa podemos salvar melhor os registros, para quem sabe tirar lições para o futuro, de como atravessaremos essa tempestade.

O resultado está aqui.

 

Obrigado Mariana e Terena por ajudarem nesse relato. Fico feliz pela ajuda, e ainda mais, por saberem que vocês estão bem.

Reflexões pandêmicas 1

Ciao

Penso muito sobre o futuro. Mais especificamente desde maio do ano passado, por ter uma razão em especial para torcer por um futuro melhor. Não mais para mim, mas para minha filha, a quem espero que permaneça neste plano algumas décadas a mais depois que eu me for.

Nunca havia sido uma prática recorrente minha, admito. Mas, desde então, procuro ajudar de alguma forma na construção de um futuro melhor. Seja em pequenos atos, seja mudando hábitos. Tornou-se uma meta de vida que a Maria Flor cresça e viva num mundo melhor que o do Tiago. Um plano simples e ousado.

No dia em que essas linhas são escritas, completamos aproximadamente um mês em casa. Por recomendação e temor. São tempos pandêmicos, porém ela nem desconfia. Talvez tenha notado que tem ficado em casa mais tempo e venha descobrindo algo que chamará de saudade – da profe e dos amiguinhos da creche, dos avôs, da bisa (aliás, que lamentável ter uma bisavó e não poder curtir esse tempo junto) –, mas Maria Flor se concentra mais em dar seus pequenos passos agora.

E enquanto minha filha tenta pôr uma perna na frente da outra, eu tento, sem nenhuma convicção, projetar para onde caminhamos enquanto sociedade. Já não é nem mais uma situação de quando sairemos dessa, e sim como. Que mundo ela encontrará lá fora assim que as portas de casa estiverem liberadas de novo?

Reflito. A pandemia é uma montanha-russa. Ora estamos bem, ora apavorados, como bem narrou a xará famosa da minha menina. Já com menos certeza que no início dos dias em casa, imaginei um mundo bem melhor para nós. Pra mim, esse momento, único em nossa geração, prova que estávamos em uma direção errada. E, transformando caos em chance, poderemos sair dessa se soubermos surfar uma onda de solidariedade e equidade, com o maior ajudando o menor.

Tento remar para essa marola. Tornei-me mais generoso ao meu redor. Além de contribuir, ajudei a divulgar canais de doações por meio de um dos veículos que sou editor. Sem dúvida, vivo este momento como um privilegiado, no conforto do meu lar, abastecido, com meu salário em dia – e ao menos ainda sem perspectiva de redução. Mas é nessa ajuda que vimos que a situação não é nada boa ali na rua.

Como fechamos os olhos para isso por tanto tempo?

E aí vem a depressão. Porque não adianta só ser cool e dar uma força para o comércio local, comprar alguns alimentos para doar etc, se, para o que está em jogo, a mudança precisa ser muito maior. E depois de ler uma análise macroeconômica, meu sorriso desbotou um tanto. Números e austeridade voltam com suas taxas, enquanto não resolvemos nem o humanismo da situação.

Será que, apesar de tudo isso que estamos sendo obrigados a passar, vamos voltar a incorrer nos mesmos erros? Continuaremos achar a desigualdade uma consequência normal e natural da vida?

Vai ser preciso um esforço muito maior por um futuro de mundo melhor. Pensar do que pequeno para o grande. Ver-nos todos como humanos e não apenas como números. Ainda na dúvida do que vem pela frente, acredito que o normal que vivemos até o início de 2020 já não existe mais. Resta refletir – e atuar – na busca do que queremos.

Março de 2020

temporal pippo

Foto: @PippoRodri

No início tudo tinha um quê de lenda, histórias que aconteciam além mar. Mas, pouco a pouco – com nosso pouco caso –, foi chegando mais perto e mais perto e mais perto.

Com o tempo a fechar, estouraram os primeiros trovões a confirmar o prenúncio: uma tempestade estava para chegar. No ar, a apreensão com aquilo desconhecido que vinha enfim ao nosso encontro.

Bem verdade que, nos primeiros dias, ainda não parecia, assim, que iria assustar (tanto). Eis nosso maior engano. Em questão de dias, absolutamente tudo ficou diferente.

Como um temporal, alastrou-se rápido. Escondeu os último dias de verão. À base do receio, determinou à maioria apenas a vista da janela do isolamento, transformando o cenário e a nossa percepção.

E quando nos demos conta, apesar do sol e do calor na rua, tudo na verdade era só chuvarada, daquelas de ofuscar esperança, com raios e trovões que caem sem dar pista de quando isso terá fim.

Escrevo para lembrar no futuro: março de 2020 mudou nossa rotina, talvez pra sempre enquanto estivermos aqui. O primeiro mês do resto das nossas vidas.

Minha vó, uma centenária

gladys vicente tiago

Das nossas últimas fotos

Foi num 26 de março como hoje, mas 100 anos atrás, que nasceu a menina que iria se tornar a minha avó, a pequena Gladys Eunice. Foi a primeira a vir ao mundo dentre os meus quatro avós, e a única já na cidade onde, 65 anos depois, eu cheguei, Porto Alegre.

Por conta do centenário, tenho pensado um pouco mais nela nesses últimos dias. E, devido a toda essa situação, encontro um paralelo entre aquele momento e o presente. O que ela representou e o que eu penso agora.

A vó veio a um mundo e uma cidade em busca de regeneração pós-traumática, ainda que talvez menos ansiosa com o acompanhamento em tempo real de notícias. O planeta e a capital gaúcha, naqueles dias, buscavam reerguerem-se do recém passado surto de gripe espanhola.

Aquela pandemia, que acabou por tornar-se a pior do século passado, ceifou a vida de pelo menos 1,3 mil dos 190 mil moradores de Porto Alegre. Não reconheço nem por foto a minha bisavó, mas agora, sendo pai, consigo imaginar a preocupação dela, grávida, diante daquela ameaça invisível que ainda não tinha sido totalmente superada em 1919.

E consigo entender a alegria que foi a chegada da minha vó naquele 26 de março. Uma bebê, e hoje sei disso, ao mesmo tempo que catalisa nossos piores temores, nos dá a força da maior esperança de que as coisas melhorem. Pra ela, pro mundo. Pro mundo dela.

Nesses tempos de pandemia, Maria Flor serve como um alento. E, sem que saiba me dá uma força enorme para novos tempos que hão de vir. Creio que 100 anos atrás foi assim também entre aqueles que talvez tenha visto o rosto em retrato em preto e branco.

No tempo em que estivemos juntos aqui, sempre tive um amor enorme e uma ótima relação com a minha vó. Passados quase dez anos desde que ela subiu de andar, guardo no coração provas de amor feitas não só em palavras, mas também em atitudes. Até por isso não consigo compreender aqueles que ainda têm seus avós, esses seres maravilhosos, arriscarem-se a sair na rua a esmo, acreditando em mitos e contrariando a ciência.

Hoje, se minha avó ainda estivesse no número 222 da rua Dona Augusta, eu certamente não a visitaria, mesmo que doesse. Seria o gesto de amor à minha, agora, centenária vovó. Espero, realmente, que quem ainda tem a sorte de ter avós, também adie um pouco a visita.

liniers abuelos

Por Liniers

 

Tempos duram passam, vamos aprender isso. E dão lugar a novas eras de esperança, palavra essa tão bonita e tão querida. Como um beijo de vovó.

Matinal, ano 2

logo_matinal

Talvez o fato de ter o radical “jornal” no nome da nossa profissão de “jornalista” nos cause certo conservadorismo. Não necessariamente no campo político, e sim nas práticas com o nosso ofício, além de uma certa dificuldade com o que é novo. Um apego.

Porque jornal sempre vai ser aquele emaranhado de papéis e letrinhas que estava à nossa mesa no café da manhã. E o jornalista ainda é visto como aquele ser que fica até altas horas numa redação. Quiçá ainda carrega fama de boêmio, literato ou as duas coisas. Além, claro, de sempre ter uma tia para perguntar quando irá vê-lo no Jornal Nacional.

Bem, os tempos mudaram.

Já está alcançando a maioridade a primeira geração que nunca precisou de uma conexão discada para acessar a internet – e, consequentemente, ver, ouvir e ler alguma coisa pela web. Redes sociais são verdadeiros centros de informação de última hora há anos. E o 5G está batendo a porta.

Mesmo assim, nesse contexto todo, insisto: quando falamos em jornal, imaginamos aquele velho emaranhado de papel (quando já nem tomamos café da manhã com calma).

De repente, essa dificuldade em se despender desse meio físico e limitado complique um pouco a visão empreendedora do jornalismo. Em um país de mais de 200 milhões de habitantes, ainda são raros os sites jornalísticos nativos do ambiente digital. O que dirá outros formatos.

Isso, é claro, trata-se de uma generalização. Há tentativas de escapar da bolha, de romper o meio mais tradicional do jornalismo para, assim, realizar a missão nossa de bem informar. Nisso, muito me orgulho de fazer parte de uma tentativa até aqui bem sucedida: o Matinal Jornalismo, que completou um ano de atividades nesta semana. E está em expansão.

A newsletter começou basicamente como um resumo informativo de notícias de Porto Alegre e Rio Grande do Sul, buscando aquilo que hoje é precioso neste tempo ágil nesta época de jornalismo declaratório ultraveloz: contexto. Nosso objetivo sempre foi que o leitor do Matinal se informasse bem daquele assunto que a gente escolhia repercutir – e aqui entra outro pequeno tesouro desses tempos internéticos, a curadoria.

Mas é só um e-mail? Sim. Com um trabalhão por trás que, ainda que tenha 11 anos de carreira, me fez sentir a satisfação de se fechar uma edição – momento sempre tão celebrado por editores de jornais mundo afora e que eu, um jornalista de web, mal conhecia, pois a minha parte é estar permanentemente conectado.

Ao longo de um ano e quase 250 edições editadas, fechadas e enviadas, considero o Matinal um sucesso. Crescemos, ganhamos e fidelizamos leitores, estamos fixando nosso espaço na rotina de muita gente – que, imagino eu, acordava e mergulhava em redes sociais em busca de notícias locais. Aqui eles encontraram essa demanda.

Construímos pontes, também. E o que era uma newsletter informativa hoje é um Grupo de Comunicação, com três veículos diferentes, a própria news, a Revista Parêntese e a newsletter do Roger Lerina, com a programação e notícias culturais de Porto Alegre. Se três pessoas representavam o Matinal um ano atrás, hoje somos 15.

Claro, temos grandes desafios pela frente. Aos poucos, iniciamos o processo de rentabilização do nosso trabalho, tarefa extremamente complicada quando se trata de jornalismo. As pessoas ainda não se acostumaram a pagar por notícias, tendência que, quero não estar errado, vejo que está mudando paulatinamente. Ainda tem uma série de ajustes, que percebemos ou não, estamos fazendo. Tentando crescer. E tudo isso por e-mail.

Se vai dar certo? Espero que sim. Fato é que, em uma internet muito volátil – um tempo atrás ouvi que o e-mail tinha acabado, seria tudo via Facebook (!) –, creio que furamos uma bolha. Vencemos o primeiro ano, e queremos muitos pela frente. Trabalhamos para isso. Um brinde, então! Que venha o ano 2.