Um legado olímpico de verdade

Vôlei e seus dramas

Vôlei e seus dramas

No momento que comecei a escrever este texto estava sofrendo na torcida pelo vôlei. Era a terceira partida no dia, por sinal. Poucas horas antes vi a prova do levantamento de peso e umas quantas do atletismo. Sem contar os outros tantos esportes que acompanhei desde a manhã. Dentre eles, até o futebol, numa espiada sem maior interesse.

Ao longo desses dias olímpicos na redação do Correio do Povo, debatemos e teorizamos regras, táticas e estratégias para se alcançar a vitória em sets, rounds, períodos, quartos e tempos que seja. Foram muitos, o que torna um trabalho exaustivo em algo legal e histórico de se reportar.

Desde o início, tudo tinha uma data para acabar. Aí a rotina retoma a normalidade e, pouco a pouco, não apenas nós do Correio do Povo, mas o Brasil como um todo vai voltando ao seu mundo de imersão futebolística. É irreversível.

A partir da segunda-feira pós-Jogos o Brasil tem um legado a zelar e manter. Depois do Rio, o país tem novos heróis a celebrar, gente quase anônima até 15 dias. É dever de uma nação olímpica entender como legado não apenas ginásios, metrô e a logística, e sim a cultura que adquiriu ao longo de 16 intensos dias de Olimpíadas.

Isaquías Queiroz e Erlon Souza, heróis improváveis | Foto: Alexandre Loureiro/Exemplus

Isaquías Queiroz e Erlon Souza, heróis improváveis | Foto: Alexandre Loureiro/Exemplus

Manter viva a cultura esportiva com a qual o país conviveu é um dos maiores, se não o maior, legado dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E também o maior desafio dos próximos governos, com a pena de ver arenas modernas virarem imensos elefantes brancos – ou não se transformarem nas escolas prometidas.

O esporte muda vidas e o esporte é muito mais que futebol, como provaram campeões olímpicos brasileiros forjados na dificuldade e na falta de incentivo. A partir do fim dos Jogos Olímpicos, uma geração inteira de atletas terá a oportunidade de desfrutar do que e pode ter de melhor em termos de infraestrutura.

Medalhas, se vierem, serão bem-vindos, mas o ganho para a sociedade como um todo não será possível de ser medido em um simples quadro de cores e números.

Rafaela Silva, uma medalhista de ouro | Foto: Márcio Rodrigues / CBJ

Rafaela Silva, uma medalhista de ouro | Foto: Márcio Rodrigues / CBJ

Agora, mais do que nunca, a bola está com o Brasil. E ela não é de futebol.

Quando eu aprendi a vaiar

Não lembro quando foi que me ensinaram a vaiar. Remontei minha memória esportiva e o máximo que consegui buscar é que já sei isso faz tempo. Por certo uma herança de algum Gre-Nal de décadas passadas. Até hoje carrego este costume, adquirido ao longo de anos de arquibancada em estádios de futebol e dezenas de competições. Ainda que me nego a vaiar meu próprio time, quando ele não está bem, nem por protesto. Por quê? Porque sei que isso deve atrapalhar os jogadores pelos quais eu torço.

Claro, assim como eu, muitos milhões de brasileiros aprenderam a vaiar adversários ainda durante a tenra infância e não poupem um “uh” a atletas em arenas olímpicas por aí. Com o não-desportivo intuito de mais atrapalhar o adversário do que ajudar minha equipe.

As vaias de fato atrapalharam o saltador francês Renaud Lavillenie, na final do salto com vara dos Jogos Olímpicos do Rio. Vi a prova: ele claramente teve a sua estratégia destruída pelo brasileiro Thiago Braz. E justo quando se viu pressionado, ouviu as vaias – algo incomum para um atleta de ponta como ele. Foi saltar atordoado e, como sabido, não conseguiu bater a marca de Braz.

Lavillenie ainda teve a infelicidade de comparar o que ouviu ao ocorrido na Berlim nazista. Ou se comparar a Jesse Owens. Ambas análises equivocadas. Arrependeu-se, mas não a tempo de livrar-se de uma nova e sonora vaia num dos momentos mais sublimes da carreira de um esportista: o pódio olímpico. De lá, chorou. Diante do mundo, em um evento agregador realizado numa cidade famosa por seu alegre carnaval.

Foi humilhante, como ele escreveu. Mas lamentável também. Cabe a reflexão, por nós, brasileiros. Somos um país hospitaleiro, alegre, feliz. O que aconteceu no Engenhão, agora visto por todo o contexto, nada tem a ver conosco. Dava para ter saído por cima.

A vaia na competição pode até ser do jogo em alguns esportes e como nossa cultura é limitada a futebol, vôlei ou outros esportes coletivos – onde o clima é mais acirrado – achamos natural este barulho todo. Mas é uma oportunidade para aprender que não vale para todos. Já a vaia na consagração olímpica beira a maldade. No caso de Lavillenie, foi um erro vingando outro. E foi contra não só o espírito olímpico, assim como o espírito do carioca.

Menos mal que panos quentes foram postos em cima de toda a situação. Melhor assim. Sempre importante aprender com os erros. Deles nossos.

Milonga querida

surMilonga querida, que toca temprano por la mañana del domingo. Que toca lentamiente y llevame hasta un pasado que ya no me recuerdo mas. Pero lo siento. Sé que está allá, en el interior del alma.

Milonga querida, con tu nostálgico sonido traiga el aire de la paz desde el pampa viejo, de las casas de los abuelos. Aunque sea solo por unos raros minutos. En una mañana de domingo.

Uma livre inspiração que veio na ida para um plantão dominical. Talvez esteja ouvindo bastante o “Cantos do Sul da Terra”, o que é ótimo.

Contexto da corneta olímpica

Tiago Camilo rio 2016

Tiago Camilo, um vencedor: quatro Olimpíadas, duas medalhas | Foto: Marcio Rodrigues/CBJ

Não gosto deste tipo de corneta, mas é normal, vamos lá. Acontece sempre com torcedores brasileiros na primeira semana dos Jogos Olímpicos – quando a grande maioria das medalhas distribuídas são as de modalidades individuais, ainda um calcanhar de Aquiles no esporte brasileiro e, dentre as quais, apenas o judô consegue relativo sucesso.

Então. Amanheceu o sexto dia de Olimpíadas no Rio de Janeiro e o Brasil tem apenas dois pódios – e, especialmente hoje, espero que este dado fique desatualizado em poucas horas. É um pouco aquém do esperado, claro. Há, já, aquele grito contido na garganta e bons resultados sem medalhas começam a incomodar.

Mas antes de sair corneteando atletas a esmo, que tal antes contextualizar alguns fatos? Até para se embasar. É rápido, prometo. Sugiro, para isso, a leitura de apenas duas matérias da revista piauí – ok, nem tão rápido assim. Uma escancaram em alguns parágrafos uma grave promessa não cumprida, que se reflete direto no Rio: “Governo não gastou com atletas metade do previsto”.

Conforme a matéria, aquilo que eram R$ 690 milhões e investimento para colocar o Brasil num audacioso top-10 do quadro de medalhas virou R$ 328 milhões (até dezembro de 2015). Chegou menos da metade do apoio acenado. Grave, não é?

A segunda reportagem, que na verdade é a versão completa do primeiro levantamento, aprofunda o problema. Afinal, não adianta apenas dinheiro no bolso, é necessário equipamentos, ginásios, locais para treinar, enfim.

Houve uma promessa para se criar polos esportivos de Norte a Sul – algo que, pelo amor de Deus, como não existe isso ainda hoje? Pouco saiu do papel. E deste pouco alguns ainda nascem já com um problema de gestão, pois toda quadra nova gera uma conta de luz e uma conta d’água, sem falar nos outros gastos. Quem pagará a nova conta nesses tempos de crise?

Gestão é o que diferenciará uma arena poliesportiva moderna de um imenso elefante branco – não esqueçamos da Copa! Lembremos aqui que são estes ginásio que deverão treinar tanto atletas de ponta, quanto – e principalmente! – crianças com potencial de serem novas Rafaelas Silvas, por exemplo. O esporte brasileiro não pode depender de milagres de encontrar uma Daiane dos Santos fazendo piruetas na pracinha.

Dinheiro, salientemos, não “compra” pódios olímpicos. Existem outros tantos fatores para chegar à consagração. Mas também seria injusto cobrar os resultados especulados por políticos quatro anos atrás com metade do investimento tendo se tornado realidade.

As duas leituras acima são, enfim, contextualizadoras e até certo ponto revoltantes por tal descaso, ou seja, têm os ingredientes sempre presentes no texto do bom jornalismo. Aqui registro meus parabéns aos autores Cristina Tardáguila, Juliana Dal Piva e Raphael Kapa.

Mais a mais, também não é feio reconhecer e parabenizar as finais inéditas na ginástica, o sexto lugar na canoagem, as quartas de final na esgrima ou um eventual quinto lugar no judô. Tem um gosto mais amargo que o doce pódio, claro, mas é importante ressaltar o feito dos atletas.

Olimpismo (e gestão no esporte) não se restringe a vitórias.

Rio, seu cafajeste

O Rio é como um cafajeste de marca maior: tão lindo e deslumbrante quanto a má-fama que carrega consigo há anos por conta de um comportamento distante do ideal que esperamos.

Talvez nem devêssemos elogiá-lo e sim superá-lo, afinal nosso país tem tantas e tantas outras belezas naturais. Mas o Rio sempre conquista. Como resistir à sua ginga malandra, a sua cor-Brasil? Ou, na forma bem direta – e cafajeste de ser: como não se apaixonar pelas curvas do Rio?

Rio

Sejam curvas de garotas (ou garotos, a quem preferir) de Ipanema, das ondas da calçada de Copacabana ou da geometria do Pão-de-Açúcar. Difícil ignorar, quem dirá esquecer desde a primeira vez.

Uma lista de defeitos, quem sabe, seria capaz de escancarar este cafajeste carioca. E não faltam: violência e o medo constantes, é a desigualdade revoltante, o Hell de Janeiro que o Brasil deixou florescer perto da praia.

De repente, devia-se evitar o Rio. Só que como resistir a olhar uma vez mais a Enseada de Botafogo, a uma espiadela ao Cristo Redentor lá no alto? Ou como não pensar em ir a um jogo no Maracanã? Rio, cê não presta!

O Rio é um cafajeste de marca maior, não à toa que conquista a todos. Tem um sem-número de defeitos, solenemente ignorados diante de sua divina beleza, que a cada amanhecer samba na nossa cara, diante de qualquer desdém.

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Rio, ah, o Rio.

Fotos: Rio2016

Além do mapa – quando o Google tirou os painéis olímpicos do Rio

Dias atrás estive no Rio de Janeiro. Desta vez a trabalho. Bancada por uma empresa, a pauta óbvia era as melhorias que a cidade está passando com as obras visando os Jogos Olímpicos – que, de fato, deram outra cara principalmente ao Centro Histórico carioca e sobre isso escrevi aqui.

Apesar do pouco tempo, nunca andei tanto pelo Rio quanto nestes dois dias de pauta. E apesar de ficar positivamente impressionado com a melhora na mobilidade, me entristeceu ao reparar uma tentativa de “esconder” favelas e/ou outras áreas, digamos, não tão atrativas da Cidade Maravilhosa aos olhos dos turistas.

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Foto via Rap Nacional Download

Algumas favelas a beira de avenidas tinham suas fachadas escondidas por coloridos painéis alusivos aos Jogos Olímpicos, principalmente na Linha Vermelha, que faz a ligação do centro com o aeroporto do Galeão, onde a maioria das delegações desembarcará. Obviamente, a Prefeitura do Rio negou que o objetivo era “esconder” as comunidades.

O plano de decoração, no entanto, naufragou graças a uma iniciativa de ninguém menos que o Google. O especial “Além do Mapa”, que faz o convite escancarado ao mundo que não poderá enxergar além do painel: “Entre nas comunidades do Rio de Janeiro, lar de mais de 1,4 milhão de pessoas”.

Um dos mais especiais multimídia mais completos que já vi inicia com um texto esclarecedor: “O Rio é uma cidade dividida. Tem o lado que todo mundo conhece, Copacabana, Ipanema, mas tem um outro lado. O das favelas. A cada cinco pessoas, uma vive nas favelas. Quando você olha no mapa de perto do Rio de Janeiro, a maioria das favelas ainda são um buraco cinza no mapa, como se não tivesse nada”, diz, antes do convite: “Para você descobrir, você precisa entrar e entender”.

alem do mapa

Convite feito, então. Separe alguns vários minutos e mergulhe nesta realidade genuinamente carioca.

Um perigo chamado resignação

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Abrir os punhos nos faz sangrar?| Imagem: EBC

Existe um grande perigo que nos cerca, nestes dias de notícias ruins. Nem sempre perceptível, mas determinante na nossa vida: a resignação. Ela, que surge como um caminho mais tranquilo ante a todas estas infindáveis discussões. Ela se aproxima e oferece um confortável “deixa pra lá”.

Diz o dicionário Michaelis: resignar(-se) é “conformar-se pacientemente, sem se revoltar”. E aqui não viso pregar a revolta em si, mas a insistência na defesa daquilo que acreditamos ser o certo e o justo – e que, em certa hora, sim, cansa de se defender.

A resignação é suspirar imaginando que um eventual governo Donald Trump possa não ser tão ruim assim – ainda mais agora que ele aparece crescendo nas pesquisas, mesmo após ser ridicularizado no início da campanha. Houve quantidade expressiva de eleitores norte-americanos que resignou-se, pois. Um muro de xenofobia pode ser bom nestes tempos tão conectados, afinal. Quem sabe não copia-se o modelo daqui a dois anos no Brasil?

Resignar-se ao ter de receber parcos salários parcelados como rotina e não como exceção. E ouvir que é necessário o sacrifício em nome de um bem que não tem prazo para chegar. “Não pense em crise, trabalhe”, eles ressoam.

Ir à luta contra a resignação, nesses casos, é ter de ouvir xingamentos de quem está preso no trânsito por causa do protesto, é ler absurdos de novos mentores dos tempos ultra-modernos nas redes sociais. Ter de encarar gente que incita o ódio, gente que não gosta de contexto ou que ignora fatos contraditórios por apego ao discurso.

A resignação nos minimiza, nos deixa a mercê do perigoso Gahn Bin Arra. “Ah, não é o prefeito, o governador ou o presidente que vai mudar a minha vida.” A resignação é uma água quentinha para nossas mãos geladas. É lavar as mãos e aceitar uma realidade cada vez mais “1984”. Só faltará o Ministério do Amor.