O dia seguinte

Livro dia seguinte

Meio esgualepado, mas com conteúdo

Quando dei por mim lá estava correndo em direção às escadas, refutando toda a tranquilidade que havia planejado para aqueles minutos vespertinos. Às pressas, então, recolhi cadeira, revista e chimarrão e pus-me atrás da cachorra. A leitura no terraço do prédio ficara para outra hora. Uma hora em que eu tivesse a certeza de qua Lisbela não encontraria com os gatos do 401.

Desci e logo depois me arrumei e fui trabalhar, tal como reza a minha cartilha proletária. Nem passou pela minha cabeça de que o livro poderia ter ficado na laje, abandonado em meio à correria. Choveu – e não foi pouco – aquela noite.

Antes de dormir ainda o procurei. Mas mesa de jornalista é aquilo. Tem revista, caneca, jornal e, claro, contas. Tudo a ser conferido, guardado, lido – e pago. Não encontrar um livro específico já em meio ao breu da madrugada soou mera trivialidade, portanto.

Foi, sim, na manhã seguinte que me dei conta. E, puta que pariu, de fato concluí que a chance de o livro ter ficado lá em cima era enorme. “Mas que grande bosta, Tiago”, penitenciei-me, já ao vê-lo posto no sol para secar, pela faxineira do prédio. “E ainda me custou quase 50 contos.”

Há, no entanto, um detalhe – revelado só no quinto parágrafo de propósito. O livro reúne crônicas do Vitor Necchi. E, ironicamente para esta situação, é intitulado “Não existe mais dia seguinte”, lançado no mês passado pela Editora Taverna.

Pois teve.

Se na hora que o vi já me preparei psicologicamente para desembolsar seus R$ 44 para um novo exemplar, ao abri-lo, me surpreendi. Não tinha nada de tinta borrada, nem mesmo a dedicatória que ele fez pra mim e minha mulher – por sinal foi essa a primeira pergunta que a Ana fez ao saber do ocorrido.

O livro do Vitor, tal como seu autor, sobreviveu àquela noite de tormenta e chegou ao dia seguinte. Com elegância. Precisou de algum isolamento, um tempo ao sol e à luz para se recuperar. Mas seu conteúdo está lá e, diria, em ótima forma. Passada a tempestade, houve enfim um descobrimento. Do professor que agora também é escritor.

Alguém que escreveu diversas sacadas “que eu gostaria de ter escrito”, para usar a mesma provocação que o então futuro autor nos passava quando lia referências nas salas da Famecos. Nessas sequências de chuva e sol, é sempre bom se reencontrar nas metáforas da vida e da literatura.

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Livros dos meus mestres

livros

Este trata-se de um post que vem para esta página com cerca de 24 horas de atraso. Mas tudo bem, a vida é corrida. E em homenagem ao Dia do Livro, celebrado nesse 29 de outubro que recém passou, festejo esta foto de dois livros, de duas pessoas com extrema relevância para a minha formação.

O primeiro já falamos por aqui, um biografia do professor Marques Leonam, um marco no aprendizado de uma geração inteira de jornalistas gaúchos no que tange o ofício do repórter, a busca pela notícia. O segundo, “Não existe mais dia seguinte”, apesar do nome pós-apocalíptico – que até poderia ser apropriado a muitos derrotados eleitorais nesse segundo turno – é uma obra mais amena: o primeiro livro do professor Vitor Necchi.

O lançamento desses dois livros neste ano acabou por ser uma feliz coincidência – também pelo fato em que ambos geraram grandes filas e abraços apertados. Na Famecos da primeira década deste século, Leonam e Vitor, não nesta ordem, foram os responsáveis por ministrar as disciplinas de redação aos futuros jornalistas que frequentavam aquelas salas de aula – dentre eles, eu.

Se Leonam pregava o tino da reportagem, Vitor ensinava o refinamento do bom texto – e a diferença que isso faz para o leitor. A aula dos dois se complementava: jornalismo é uma missão em prol da cidadania, mas também pode ser uma arte e, como tal, deve se moldar para atingir os mais variados públicos – culto, popular, gonzo…

Então, com um dia de atraso, contudo ainda fazendo referência ao Dia do Livro, meu muito obrigado aos professores, que tanto contribuíram na minha formação.

O jornalismo, o zap e o divã

zap

O post anterior teve objetivo inicial de fazer uma breve provocação aos jornalistas. Mais pelo lado tecnológico e da necessidade de se manter próximo, especialmente, de novos e futuros leitores, sem apenas esperar que eles venham até os veículos – algo que, na era analógica, acontecia naturalmente.

Porém, até em razão do avançar da cobertura política, já se adiantou ao prenunciar o que haverá tão logo em breve: o jornalismo no divã. Agora não necessariamente falando sobre tecnologia e sim em termos de credibilidade. A questão que estas eleições estão escancarando é: por que devo acreditar em um jornal?

Talvez – pois aqui não haverá respostas, no máximo propostas de linhas de pensamento: a reflexão pode se fazer do cenário em que a leitura de veículos ficou cara e distante, seja por questões de tempo ou dinheiro para passar do paywall, essa barreira cada vez mais comum. Pouco a pouco nos últimos anos, a entidade “grande imprensa” se afastou de grande parcela do público. Isso ao mesmo tempo em que diversos sites, tanto com viés à esquerda ou à direita, surgiam como fontes.

Esse afastamento pode ter sido muito foco em jornalismo e pouco em comunicação. Um olhar demasiado sobre a influência do Facebook e suas constantes mudanças nos algoritmos que fez, esquecendo-se de outras formas de se conversar (e se informar). O WhatsApp, ainda que esteja instalado em praticamente todos os smartphones, quiçá tenha ficado em segundo plano nas redações, visto muito mais como um receptor de sugestões de pautas do que um emissor de conteúdo – mesmo que alguns jornais transmitam conteúdo pelo app. Alguém que tem tino para comunicação deu-se conta que aí havia uma grande ferramenta de massa.

Parêntese: aqui a jornalista Maria Carolina Santos faz uma brilhante análise do crescimento do “zap” em meio à “queda” da imprensa. É um baita texto, ainda que o alerta já havia sido dado meses antes, quando um estudo advertia sobre os planos pré-pagos de celulares que forneciam somente alguns aplicativos gratuitos, que, resumindo, davam ao leitor de baixa renda acesso ao ruído, entretanto impedia a verificação em algum site jornalístico. Aí, como escreveu o professor Luiz Ferraretto, a informação pendeu para os grupos de afinidade.

Tal situação pavimentou o caminho a um cenário em que as fake news deitaram e rolaram ao longo desta eleição. E, em boa parte, a favor do líder das pesquisas e provável futuro presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Só por isso que ele está perto de vencer o pleito? Claro que não. Há diversos outros fatores e vetores para sua provável vitória. Mas no que tange o jornalismo, essa é uma das mais importantes: o jornalismo acabou sobreposto a memes. A lacração venceu a apuração. E quando destacou-se, foi em parte desacreditado.

É preciso perceber e corrigir diversos pontos. Uma auto-análise. Em que momento o jornalismo se afastou assim da vida das pessoas? Distanciou-se a ponto de ofuscar a credibilidade de veículos com décadas no mercado. Houve algum esforço e preocupação para a contenção de notícias falsas. Contudo, ao que parece, o esforço focou demais no Facebook e esqueceu-se do WhatsApp. O jornalismo não viu isso?

A sobrevivência de um veículo em meio a um mercado em transformação é complicado, mas o jornalismo tem uma missão antes de tudo, que é a de informar. Então, o paywall é necessário (ou mesmo até ético) em matérias e reportagens de grande interesse público? Tão importante quanto: qual o meio termo para isso? O bom jornalismo sempre foi caro, afinal.

O jornalismo precisa de um divã para refletir sobre as diversas questões que analisará a partir deste outubro. Provavelmente levará tempo até entender tudo.

Desapegos

jornais - bancaPara que serve um jornal e para que serve o jornalismo?

O que parece um questionamento cuja resposta tenderia a ser instintiva e fácil torna-se uma pergunta complicada em redações por aí – em níveis regional, nacional e internacional. Talvez por que o nome da profissão derive de seu meio mais consagrado. É uma hipótese. Mas também é uma forma de apego.

Já são mais de 20 anos de internet comercial e pelo menos 17 de hard news na web. E ainda assim boa parte do jornalismo se vê apegado a um pedaço de papel que já está sendo vendido como substituto de tapete higiênico para cachorros na principal avenida da maior cidade do país.

Nesta mesma avenida, as bancas de revistas cada vez mais tornam-se apenas bancas. Em meio a crise de editoras outrora poderosas, o meio, igualmente impresso, perde destaque em vitrinas que já foram inteiramente suas para souvenirs e toda sorte de quinquilharias que possam render um dinheiro mais imediato ao dono do estabelecimento – alguns que já aceitam até Vale Refeição para vender Mickey de pelúcia:

banca jornais

São exemplos visíveis: o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor, além de retomar a credibilidade perdida em algum momento, quando, por alguma razão, afastou-se ou foi afastado do público ao qual costumava informar.

Vivemos o ínterim dos turnos de uma eleição que ficará marcada pela ampla propagação de notícias falsas e também por ser pleito em que as pessoas se informaram mais olhando a tela de um aplicativo de troca de mensagem no seu celular do que em um site de jornal. É o caminho para um Estado de desinformação e isso não é bom.

O público precisa voltar a confiar massivamente no jornalismo. Mas o jornalismo precisa dar essa garantia de que é confiável.

A aula da vila

Leonam por Lenara Pothin

Leonam | Foto: Lenara Pothin / Famecos

O Mestre Leonam foi de longe o melhor professor de jornalismo por características únicas, marcantes e singulares. Leonam tem o dom de cativar um jovem a ser um bom repórter por meio de sua oratória singular. E não raro suas aulas tornavam-se marcos na formação de profissionais. Por serem únicas, algumas grudam na memória.

Uma dessas aulas era a que ele apresentava o trabalho de ir à vila. Qualquer uma. Ele pedia isso a alunos de classe média alta, na maioria brancos e, logicamente, frequentadores de uma universidade privada de Porto Alegre, cuja mensalidade, já naquela época, era mais cara que o salário mínimo atual, de 2018. A capital, como tantas outras, jogou suas vilas e favelas para áreas mais periféricas da cidade, não tão próximas àquela sala de aula onde Leonam passava conhecimentos. Ou seja, para muitos alunos ali, não era uma paisagem conhecida.

Eu já tinha ido a algumas vilas, mas não podia dizer-me um conhecedor – e tampouco posso dizê-lo hoje. E cumprir o desejo do mestre de “ir a uma vila, sem pauta, para fazer uma matéria” era considerado um pouco excêntrico. “Precisa mesmo?” Quando ele sugeriu, houve algum resmungo em resistência. Nada, porém, que superasse a lábia do Leonam. Ao fim da aula, mesmo que fosse 22h30, eu iria naquele momento para cumprir o que me fora pedido.

Claro que não fui na hora. Embarquei rumo à Vila Cruzeiro, uma das mais perigosas de Porto Alegre, uns dias depois. Já sem a coragem do momento, admito que pedi companhia/escolta ao meu ex-padrasto – um negro e conhecedor de muitos recantos da capital gaúcha. Foi, ao fim, desnecessário. Entrei por algumas vielas, entrevistei umas pessoas e voltei pra casa são e salvo logo depois.

A matéria da vila foi inesquecível. Não por ser boa e sim pela didática da reportagem. Naquele momento experimentei o confronto que o jornalismo propicia. Ouvi versões antagônicas de quem esperava por atendimento em um posto de saúde e de quem não pode atender melhor. Apesar do objetivo mútuo, ali havia um forte confronto de versões. Reportei da melhor forma que considerava possível então. Nem lembro da nota, mas ganhei um elogio digno de colocar em um quadro: “Isso não só mostra o domínio da linguagem jornalística como a presença de um repórter a serviço da cidadania”.

A aula do Leonam era sobre jornalismo, visava formar repórteres. Mas poderia ser justamente aquilo, de cidadania. Fazer gente de classe alta colocar o pé na terra da rua esburacada de uma vila, onde a maioria das famílias se sustentam com míseras centenas de reais, deveria ser uma pública. Desvendar o que há atrás dos muros das avenidas, a realidade crua de milhões de brasileiros nos tornaria melhores cidadãos. Vivemos num país com demandas importantes há anos. Só que a maioria delas está distante dos centros das cidades. Sem esse conhecimento, pouco a pouco, tornamo-nos insensíveis à nossa própria realidade de cidade, estado e país.

Apesar de ter o conhecimento na palma das mãos, falta-nos, enquanto brasileiros de classe média e alta, vivência com a dificuldade para nos enxergarmos como sociedade. Existem diversas desigualdades a serem corrigidas para que, assim, o Brasil possa crescer como um todo – e não como uma geringonça onde quase 30% de toda a riqueza do país está nas mãos de 1%.

É preciso conhecer o Brasil de verdade.

Por acaso, Tokyo Ska Paradise Orchestra

Tokyo Ska

Lembro que uma vez eu quis baixar uma música, então considerada rara. Após muito procurar, achei-a e apertei download. Já era tarde de domingo e fui dormir. Ali no meio da madrugada acordei e conferi o resultado: feliz, a canção enfim estava no computador após algumas horas – necessárias para baixar 3, 4 MB na internet daquela época.

Eram tempos completamente diferentes desses de hoje, em que tudo parece estar acessível, a pouco esforço, perto das nossas mãos – e ouvidos, no caso. Apesar de corriqueiro, reconheço, fico abismado com o que se tornou a internet atual quando lembro da cena daquela madrugada. Isso por ter vivido a época da conexão discada – e a aventura que era tentar baixar uma mera música.

Lembrei disso esses tempos ao me flagrar tornando-me fã de uma banda japonesa. Se por muitos anos, para eu conhecer qualquer grupo do outro lado do mundo precisaria desbravar – e muito – tantos lugares on e offline, desta vez foi bem diferente. Soube da existência deles vendo os stories de alguém que sequer conheço pessoalmente. Meia dúzia de cliques e alguns minutos depois, já havia percebido que gosto de Tokyo Ska Paradise Orchestra.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o grupo está em atividade desde o ano que eu nasci? Provavelmente eu seguiria mais 32 anos sem saber da existência deles se não fossem essas conexões rápidas, que fazem músicas e conteúdos ignorarem quaisquer fronteiras entre países e continentes.

Bueno. Por uma dessas coincidências aleatórias da vida, descobri que eles fariam um show em Buenos Aires logo no único sábado em que estaria na capital argentina. Tal fato me fez reviver uma situação que considerava havia muito encerrada: aguardar uma fila grande, a menos de 10°C, tarde da noite, para ir a uma casa noturna.

Foi cansativo para alguém casado, desacostumado a festas e shows e, talvez principalmente, com mais de 30 anos, mas valeu. Um show eletrizante do início ao fim, tal como esperava – e como poucos que vi. Fica o convite para conhecerem também. Basta meia dúzia de cliques e se quiserem começar aqui abaixo, fiquem à vontade:

ps: o show foi bem tarde. Começou às 3h e seguiu por mais de hora e meia. Como alguém que mora em Porto Alegre, tinha algum receio de sair tarde da madrugada em uma metrópole. Mas sair à noite em Buenos Aires significa ver pessoas e transporte público na rua, além de diversos lugares abertos 24 horas por dia, não importa a hora. Ruas ocupadas e bares cheios num sábado. Isso faz uma diferença enorme no cotidiano. Não seria bom pensar como importar isso à nossa boemia?

A memória de um 11 de setembro

museu memoria

Ainda lembro bem daquela terça-feira. Assim que cheguei da aula, por volta do meio-dia, soube de todo o ocorrido. A TV não parava de passar aquelas imagens. As torres gêmeas de Nova York atacadas e posteriormente caindo. Parecia cena filme holywoodiano. De lá para cá, muita coisa mudou.

Mas bem antes de 2001, houve um outro e lamentável 11 de setembro. Em 1973, no Chile. Aquele 11 de setembro alterou a vida de um país inteiro e junto dele afetou diretamente a vida de cerca de 40 mil famílias.

Conheci um pouco mais a história e a narrativa daquele dia – e dos anos seguintes – durante uma visita ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, em abril passado. É um lugar forte, de reflexão.

Entrevistei o diretor do museu dias depois. Virou matéria pro Correio do Povo, porém aqui vai o texto completo, livre das limitações de espaço. Uma entrevista na qual se ressalta: é importante lembrar para não esquecer.

“Democracia é uma construção coletiva”

Museo memoria

40 mil histórias contadas | Foto: Divulgação

“É importante educar em uma nova cultura de respeito, de bom trato, da ética dos direitos humanos, recordando o que aconteceu, mas ajudando as pessoas a refletir sobre o que está acontecendo agora com esses temas, com nossos indígenas, com os temas de gêneros, a migração, entre outros”, conclui Francisco Estévez.

Estévez é chileno e trabalha em Santiago, mas sua fala poderia ser adaptada a diferentes realidades e sociedades da América Latina – e também do mundo, nesses tempos de polarização. Ele é o diretor do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, um dos 15 museus mais populares do continente e o mais visitado do Chile.

Se museus normalmente levam a um passado que pode vir a despertar curiosidade ou mesmo nostalgia, o Museu da Memória, não. Dentro do prédio – projetado por arquitetos brasileiros – o conteúdo remete a um período sombrio do país: a ditadura, que durou de setembro de 1973 até março de 1990. E que deixou um saldo oficialmente reconhecido de 40.018 vítimas, sendo 3.065 mortos ou desaparecidos.

O convite à reflexão ocorre de forma interativa. No museu, pode-se desde ouvir o último discurso do presidente deposto Salvador Allende, no fatídico 11 de setembro de 1973, a ver a cobertura jornalística da época da reabertura. Isso passando por lembranças dolorosas em memória das vítimas, dispostas ao longo dos três andares da casa.

Com a democracia chilena se aproximando dos seus 30 anos – e com alternância entre esquerda e direita no poder – Estévez crê que seja necessário não esquecer do período sob o general Augusto Pinochet. Principalmente para que uma época dessas não ressurja.

“Na América Latina, estamos vivendo um ressurgimento de posições negacionistas, que pretendem revisar e justificar o que aconteceu na ditadura. São provocações na hora de revisar os atos de violações cometidos pelo Estado chileno, argumentando que não haveria incorrido nenhum abuso de direito”, diz. “Este é o nosso maior desafio como museu.”

Citando uma pesquisa a qual atestou que 57% dos jovens chilenos que cursam o oitavo ano do ensino básico concordaria viver em uma ditadura desde que ordem e segurança fossem garantidas, ele afirma: “É importante que todas estas gerações dialoguem sobre o tema”.

Recheado de histórias individuais e coletivas, por meio de fotos, vídeos, documentos e gravações, o museu foi visitado por cerca de 150 mil pessoas no ano passado. Os visitantes foram oriundos de 187 países, sendo Brasil e Estados Unidos a maior parte dos estrangeiros que passaram por lá. Houve também “um aumento significativo” de venezuelanos que repassaram a história da ditadura chilena, segundo Estévez. O Chile, por sinal, é um dos destinos mais procurados pelos venezuelanos que optaram por deixar o país nos últimos anos.

Encarando a história

Mas que história é essa? Passadas quase três décadas, debater ditadura no Chile segue como um tabu. Igualmente como em outros lugares, há quem denuncie e quem apoie. “Opositores do museu reclamam do caráter não-histórico da iniciativa, já que somente mostra uma parte da ‘verdade’, aquela que dos ativistas da esquerda e partidários da Unidade Popular. Consideram que o período entre 1973 e 1978 (até a promulgação da lei da Anistia) correspondente a uma situação de guerra interna. Assim não haveria vítimas e sim baixas de guerra”, explica Estévez.

Não é só. “Alguns intelectuais exigiam a inclusão de um ‘contexto histórico’, no qual estaria marcado pela deterioração do processo democrático chileno, o que explicaria a extrema repressão depois do 11 de setembro. Neste caso, não negam as atrocidades da ditadura e ainda menos a necessidade de um lugar de memória, mas igualam a retórica revolucionária do governo de Allende com a violência do golpe”, acrescenta. Para esses – contextualiza Estévez – o golpe militar se deu pelo medo do comunismo e a ameaça de um processo semelhante ao que aconteceu em Cuba.

“Uma luta memorial segue presente entre quem disputa o status de vítima. No entanto, hoje em dia a interpretação histórica favorece majoritariamente aqueles que sofreram as atrocidades da ditadura”, conclui o diretor do museu.

Críticas na internet

Esse embate acaba se transferindo para a internet. “Há certo ódio que recebemos diariamente nas nossas redes sociais. Isso porque há pessoas que negam o ocorrido”, avalia Estévez. Ainda assim, a página oficial do museu no Facebook tinha, no início de agosto, uma avaliação de 4,6 numa escala que vai até 5. Além de 152,7 mil fãs.

Entre junho e julho, a página do Museu da Memória e dos Direitos Humanos no Facebook recebeu 32 avaliações ou recomendações. Dessas, sete foram negativas – com duas estrelas ou uma, numa escala de até cinco. “A memória tem que ser um conjunto da sociedade e não de um setor político”, criticou Christian Chamorro, cuja foto de perfil é um capacete medieval. Já uma mulher, identificando-se como Ines Canales e com uma foto de cachorro no perfil, apenas justificou sua única estrela ao museu com a frase: “Humanoides desgraçados”.

Apresentando-se como um chileno morador de Nova York, Cristian Subiabre foi mais enfático em sua crítica: “Isso é uma mentira, feita para branquear os assassinatos e atrocidades da esquerda, ainda impunes”, postou, citando um político comunista que, segundo ele, seria responsável direto por pelo menos seis assassinatos. “O museu não vai falar sobre isso.”

No lado real, o museu reconhece que já foi alvo de protestos ao longo de sua história, mas sem ataques diretos às dependências, onde, na entrada, está a declaração universal dos direitos humanos, proclamada pela ONU, em 1948.

Democracia

Francisco Estévez afirma que o museu procura estabelecer canais de diálogo, inclusive na internet, quando lançou uma campanha #quepasasiolvido (o que acontece se esqueço). “Temos muita gente que nos ataca, mas a satisfação que outros defendem a oportunidade de ter um lugar que recorda o que nunca mais deve acontecer em um país: a violência exercida do Estado com a destruição da democracia”.

E democracia, na opinião dele, é “uma construção social, política e cultural”. Logo, é algo que corre riscos. “A democracia é uma responsabilidade comum, coletiva e cidadã. E quando isso se abandona então a democracia fica em um estado de fragilidade”, define. “Efetivamente se requer um compromisso permanente de educação e também um envolvimento dos atores sociais, os jovens e a política.”

Numa época de polarização extrema, tempos como os que o museu reporta podem voltar. E até por isso Estévez valoriza a importância do Museu da Memória e dos Direitos Humanos: “O que acontece é que se esquece que nunca, na democracia, é aceitável dar um golpe de Estado para resolver os antagonismos políticos”.