Diários paternos: o bico

bico

Foi uma sensação esquisita, como se eu estivesse oferecendo algum tipo de droga ilícita e entorpecente à minha filha quando, pela primeira vez, fui colocar um bico em sua boca. Receoso, olhando para o lado para ver se algum fiscal de paternidade aparecia do nada, em meu quarto já meio escuro naquela noite.

Ao fim, dei o bico – ou, se preferirem, chupeta. Segurei até me certificar que ele já ficava sozinho lá, indo e vindo naquela boquinha, como se fosse um gracioso e cheio seio lactante. E em poucos minutos, o bebê se acalmou para enfim adormecer.

É preciso ter convicção para encarar a criação de um filho. É necessário escolher alguém para confiar cegamente e trilhar aquele caminho, ainda que existam vários outros – e alguns desses prometendo verdadeiros milagres no que tange a criação.

Digo isso porque não mais que 100 horas antes daquela cena no quarto, um médico pediatra, à saída do Hospital onde a Maria Flor nasceu, recomendou-nos peremptoriamente: “Jamais usem bico”. Listou que só fazia mal etc etc. Seria, praticamente, um pecado de nossa parte.

Dias antes da Flor nascer, porém, outra pediatra conversou conosco e desmistificou o assunto: “Pode dar, claro. Ajuda a acalmar”. A única recomendação foi não deixá-lo em um pano pendurado, de forma que o bebê venha a acreditar que aquilo faz parte de seu corpo. “No mais, não faz mal coisa nenhuma.”

E esse é só um dos tantos assuntos nos quais surgem de médicos especialistas a conselheiros familiares para dar uma receita completamente antagônica. Vai ter um momento em que será necessário escolher alguém para se acreditar, porque às vezes não há uma verdade absoluta sobre uma determinada situação. E novas situações não faltam com um bebê em casa.

É preciso ter convicção parar encarar a criação de um filho!

(ao fim e ao cabo, apesar de certa insistência, minha filha não ficou muito fã ou usuária assídua do bico. O que fiz então? Respeitei sua decisão)

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Um recorte para se guardar

argentina x catar

Foto: Eduardo Beleske/PMPA

Porto Alegre, pouco depois da 18h de 23 de junho de 2019. Na saída de jogo da Arena do Grêmio, aglomeram-se no mesmo T2 e muitas vezes lado a lado: gremistas e colorados; brasileiros e argentinos; homens e mulheres; brancos e negros; gente que descerá perto do Bela Vista e gente que descerá perto da Conceição.

No ônibus, o clima é um misto de predominante satisfação com a vitória e classificação da Argentina de Lionel Messi sobre o Catar na Copa América com o breu do início de noite de domingo que se anuncia da janela.

Mas ainda há espaço para mais futebol. E, pouco a pouco, conforme a conexão vai permitindo, descobre-se que tem Brasil em campo. Em Copa do Mundo, por sinal. A prorrogação atesta que, no mínimo, a seleção feminina venderá caro a derrota para a favorita França.

Atualizam-se aplicativos em busca de informações, alguém ouvindo rádio chega a dizer que foi gol do Brasil, causando burburinho no fundo do coletivo. Não se confirma. Outro mais sortudo tem ali algum alternativa que lhe permite assistir à partida em meio ao ônibus lotado. E, ao contrário de outros horários e momentos na mesma cidade, indiferente aos índices de violência.

O ônibus vai andando, as pessoas vão descendo e voltando às suas vidas. Talvez com a certeza que tive quando cheguei à minha parada: o futebol é muito mais legal quando todo mundo está junto, independente de cores e credos.

Diários paternos: a grande viagem

Tiago Flor e pilates

Em verdade sempre houve um motivo especial que me fez gostar de viajar para onde quer que fosse: a sensação de viver um momento único, proporcionado pela aleatoriedade de estar em um determinado espaço de tempo em um específico lugar, com exatamente aquelas pessoas que por lá passam – ou não – naquele minuto exato. E essa sensação se torna mais forte quando isso acontece em lugares em que jamais estive e que provavelmente nunca mais voltarei.

É quando me sinto mais vivo, justo ao ser anônimo no mundo, mero espectador. Porque, se parar pra pensar, a gente esquece a maioria dos dias da nossa vida. Em especial quando entramos na rotina proletária de sempre aguardar o próximo quinto dia útil do mês seguinte – o que é uma necessidade obrigatória para a maioria da população, incluindo o meu caso.

Onde tu estavas em 23 de maio de 2017? Ou então em 14 de março de 1999? Eu não faço ideia, e tampouco isso é relevante. Aposto que tu, salvo sejas uma exceção, também não deves lembrar, caro(a) leitor. Porém eu recordo bem de, pelo menos, uma semana de julho de 2008, quando viajei a Havana ao experimentar pela primeira vez a sensação de estar longe de casa, em um lugar totalmente desconhecido. Ter a prova de que sou apenas um em bilhões e de que este planeta é enorme, ainda que às vezes não pareça.

Desde então, ano a ano, tenho para mim outras dessas semanas – que ora foram cinco dias, ora foram 15. Que me fizeram beber com estrangeiros desconhecidos mais de uma vez em hostels de seis países da América Latina e também me oportunizaram uma conversa interessantíssima com um baiano qualquer no Pelourinho, ver músicos excelentes nas ruas de Lisboa e Madri, além de observar aquelas duas jovens estudantes japonesas caminhando tarde da noite e tranquilamente numa rua qualquer de uma cidade chamada Hamamatsu, no Japão. Isso dentre tantos momentos.

Mas repare: não é sobre quantidade de cidades ou países conhecidos que estamos falando e sim sobre a forma como acumular lembranças e experiências ao longo da vida. Viajar, pra mim, tornou-se uma forma de aprendizado, de quebra de preconceitos, de criação de empatia e, acima de tudo – como disse –, de fazer com que eu me sinta vivo, que eu registre a minha própria vida ao longo dos anos. Seja reparando no silêncio do metrô de Tóquio, caminhando às margens do Tâmisa ou também pensando em tudo o que já vi que poderia ser aplicado ao trânsito da minha cidade – além do que Porto Alegre e o Brasil deveriam exportar para além-mar.

Bom, só que este é um texto sobre paternidade, tal como o título sugere. Precisava, contudo, desta longa introdução. Pra entender também que se pode acumular, e muito, tanto lembranças quanto experiências sem sair de casa. Em se ter uma nova vida para se cuidar. Se eu me lembro que em agosto de 2013 enfim cumpri o clichê necessário de se fotografar a Torre Eiffel, da mesma forma nunca esquecerei o início da manhã de 15 de maio. Quando, na minha cidade, eu estava onde devia estar, com pessoas que estavam ali naquele hospital por uma aleatória escala de plantão, e que presenciaram, junto comigo, com minha mulher e a dra. Lizi o choro inaugural da Maria Flor, minha filha.

Depois de todos aqueles quilômetros, e o desejo de percorrer tantos outros, o lugar mais especial do mundo naquele momento foi na minha terra. Desde então, metaforicamente, uma nova e grande viagem teve início. Pouco antes de eu sair de férias – e férias essas em que, após quase uma década, não vão ter passada alguma por estrada, rodoviária ou aeroporto qualquer. Um recesso no qual a maior parte do tempo ficarei em casa. Mas que, igualmente, vou guardando, aprendendo, saboreando e registrando cada momento que já percebi o quão especial é.

Porque não deixa de ser uma grande viagem, a paternidade. Por enquanto com um nenê que se encaixa quase que perfeitamente apenas sobre meu tórax, porém que daqui a pouco já vai pular para dar seus primeiros passos – deixando só o registro que guardo por esses dias.

Ela crescerá para ter suas experiências e lembranças. Aqui ou ali, com amigos de fé ou com pessoas que cruzarão especificamente por um momento na vida dela. O mundo é enorme, minha filha, aprendi isso. E ele vai estar ao teu alcance.

Diários paternos: das armadilhas

mao florContei há dois meses da vez que conheci Jesus. O que não escrevi foi dos momentos subsequentes àquele encontro e, mais especificamente, à primeira esbarrada em burocracia gerada pela situação. A verdade é que transbordava em mim uma enorme indignação misturada com raiva. “Logo eu, que pago todos os meus impostos! Queria ver se fosse com um deputado! Ah, esses órgãos públicos só tiram dinheiro do trabalhador honesto… do cidadão de bem!”, bufava eu.

Havia caído numa armadilha. Por sorte, percebi isso rápido. Não sem antes de experimentar este amargo gosto da injustiça, o qual – creio eu – foi o tempero principal de milhões de votos que decidiram a eleição passada. Estava puto com o sistema! “Corruptos!”

E pensei isso mesmo eu estando errado. Ora, apesar de não querer sacanear ninguém, não estava fazendo nada de errado e justo na minha vez o jeitinho brasileiro não existiu. Enfim, algumas centenas de reais depois, a situação foi resolvida dentro dos trâmites reconhecidos pelas autoridades.

A questão aqui, porém, é a armadilha. Como jornalista, acabo me considerando alguém informado, com base em desconfianças e informações. Só que nem sempre o ofício de dentro de uma redação conta com o aspecto emocional, algo demasiadamente forte, em especial quando se sente na própria pele.

Lembrei disso dias atrás. Chuviscava e Maria Flor tinha seis dias de vida. Precisava levá-la para tomar a primeira vacina em posto de saúde. Era ou naquele momento, ou só na semana seguinte. Inesperadamente, do meu âmago surgiu um questionamento: “Mas será mesmo?” Uma breve sinapse cerebral perguntou se era realmente necessário eu “expor” minha a sabe-se lá o que que estava concentrado naquela seringa.

Outra armadilha, naturalmente. Essa, reconheço, foi bem mais tranquila de superar, ainda que ver a nenê chorando após uma picadinha no braço não seja das situações mais legais para um pai de primeira viagem.

No entanto, se para mim foi fácil, para muita gente não é. Nem duas semanas depois disso, leio que a maioria das vacinas obrigatórias está com a cobertura abaixo da meta. E isso provavelmente disseminado após uma onda de desinformação gerada internet afora. A já velha falta de contextualização e de fontes factíveis causando estragos pela sociedade.

É preciso estar atento e forte, como diria Caetano. Ao menos a minha certeza de que a Terra é esférica é inabalável. (Creio eu)

Eu e a Maria Flor

pezinhos

Não chorei quando a Maria Flor nasceu, ainda que estivesse bem emocionado logo após o término do parto. Por tudo o que falavam sobre o momento mais esperado dos últimos nove meses, isso me causou estranheza, admito. Naturalmente estava muito feliz, mas acho que estava, sim, mais aliviado por dar tudo certo. Grato a Deus, ao mundo espiritual e a todo corpo médico, fiquei extremamente feliz em especial pela Ana, porque era um sonho que ela tinha faz tempo: ser mãe! E naquele fim de madrugada, ela enfim o alcançava.

Àquele momento, carregava comigo uma peculiar observação, que ficou na minha cabeça depois da consulta na pediatra, antes do parto. “Mãe é mãe, o título é automático. Já o pai precisa conquistar esse posto. E isso acontece só lá pelos três meses, se o pai for bem presente”, disse a médica. Ou seja, a nenê nasce sabendo que tem mãe, só que ignora o fato que tem um pai. E ela tem um vínculo natural com a Ana bem mais forte que o meu, é indiscutível.

Antes de ela falar isso eu já conversava com a barriga. E eu nunca tinha me imaginado conversando com uma barriga até a minha esposa engravidar. Aí veio a Flor e foi natural a “necessidade” de estar por perto, para ajudar a ela poder comprovar e ter em seus primeiros pensamentos: “Ah, aquele cara que eu ouvia era tu”.

Quando então ela nasceu, não que houvesse qualquer desconfiança, mas, enfim, eu não era quem ela reconheceu automaticamente. E a recíproca não deixou de ser verdadeira. Eu tinha um nenê ali na frente, que saiu a barriga da minha mulher. Não deixa de ser uma parte minha. Mas eu precisaria conquistá-lo.

A gente, por conta da natureza, precisava ser “apresentado” ou simplesmente se “reconhecer”. E não foi bem isso que aconteceu nas primeiras horas. Até porque estávamos em um ambiente hospitalar, onde as pessoas vêm toda hora, pegam o bebê, furam-no, dão banho, fazem testes mil. Quem primeiro me chamou de pai foi alguma enfermeira. Tudo isso é necessário, obviamente, porém há uma quebra de intimidade muito grande ao longo do período do hospital.

Veio o dia de sair, então. E já depois da alta, quando estávamos só aguardando o auxílio para sair do quarto, foi que aconteceu o esperado clímax. A Ana deu uma rápida saída e fiquei, enfim, só eu com a Maria Flor no colo. Especialistas diriam que ela teve um espasmo ou qualquer coisa assim, pois recém-nascidos mal conseguem enxergar et cetera. Eu conto é que ela me deu um sorriso! O seu primeiro sorriso para mim.

Ali, com aquele sorriso de boas vindas, de reconhecimento, que a ficha caiu e, nossa!, ali eu entendi de fato que tinha me tornado… pai. Chorei e chorei bastante, enfim. Foram as lágrimas mais felizes em 33 anos, quatro meses e 19 dias de existência. Lágrimas felizes e sinceras, de quem enfim nascia como pai.

Zumbido

Sleep, by Jean Bernard Restout (1771)

Morfeu, por Jean Bernard Restout (1771)

Já é madrugada. Quase toda a cidade dorme – ou ao menos está recolhida. Eu ainda não. Mais uma vez, o dia demorou a terminar. E recém foram vencidas todas as tarefas proletárias. Tarde da noite, como de praxe, enfim busco me atirar aos braços de Morfeu.

Passados todos compromissos e mesmo risadas do dia, o corpo anseia por algumas horas de descanso. Em meio ao breu do quarto, cá estou. Querendo fechar os olhos.

Mas algo teima em permanecer. Ainda que esteja tudo quieto, não há silêncio. Entre o tique e o taque do relógio a pilha da sala, percebo então: um zumbido. Fraco, mas constante. Leve a ponto de ser perceptível e baixo o suficiente para não gerar uma preocupação imediata de busca ao médico.

E ele não vai embora. Aliás, há quanto tempo será que ele zune aqui no meu ouvido esquerdo? Dias, semanas ou meses? Logo, qual foi a última vez em que eu – morador de centro urbano – percebi a ausência total de sons e ruídos?

Com um esforço da memória, consigo recordar apenas duas dessas vezes para responder à pergunta que me fiz. E lembrei de duas noites justamente por ter notado: “Nossa, o silêncio”. Nessas duas noites não havia ventiladores, ar condicionados, tique-taques, latidos de cachorros ou carros passando pelas ruas. E a falta disso me chamou a atenção.

Só duas noites em anos em que lembro que o silêncio reinou absoluto à minha volta. Noites em que um zumbido ainda não existia para me levar a outro questionamento: vale a pena todo esse barulho?
ps: Morfeu, aliás, é o deus do sonho na mitologia grega

O coração da minha vó

Certa feita eu me exibia. E era congratulado pela minha ouvinte, uma das pessoas mais queridas que já conheci na vida: minha avó materna. Contava para a Vó Dorva qualquer coisa que tinha aprendido na aula e ela, entre “óóós” e interjeições de espanto mostrava-se uma atenta espectadora daquele menino pagando de inteligente. Era um neto falando bonito, afinal.

Devia ser alguma coisa que tinha aprendido na aula de ciências. Logo eu, e mesmo assim a vó não me contestava. Naturalmente já nem lembro o que contava para ela naquela ocasião. Até a parte da revelação mais forte, a de que todas as ações do nosso corpo são controladas pelo cérebro, esse órgão complexo e maravilhoso.

Aí a vó espantou-se de verdade e – isso eu lembro bem – pareceu de fato ter aprendido algo em meio àquele sermão. “Eu sempre achei que o que mandava no nosso corpo era o coração”, me respondeu ela. Eu tinha uns 11 anos, havia experimentado pouco ou nada das emoções da vida. E recordo de como achei de uma beleza tão simples aquela resposta.

E ainda acho. Minha vó viveu quase 70 dos seus 72 anos de vida acreditando que era o coração quem nos coordenava tudo, portanto. Talvez por isso que ela foi a viúva mais devotada que já conheci (e que hoje por certo é feliz ao lado do vô, seja onde for) ao mesmo tempo que amava o Sílvio Santos aos domingos na TV. Isso sem falar no amor em forma de Nescau quentinho e torrada para o neto que acordava depois de dormir na casa dela.

Um amor. Minha vó era um amor em pessoa. Eu sempre lembro daquela cena como seu exemplo maior de pureza ante a um mundo cada vez mais duro e objetivo. Porque é preciso se deixar levar pelo coração, em muitas vezes. É lá que moram as pessoas que amamos. De verdade. E azar do cérebro.