Sobre nenês e cachorros

flor e lis

Guardo com muito carinho a lembrança da Kuki deitada no chão frio de alguma noite fria de meia estação de 2008. Era madrugada e eu, inteiramente concentrado, escrevia o que veio a se tornar o meu Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo logo em seguida.

Deitada e sem receber a mínima atenção, a Kuki ficou por um longo tempo ali, apenas por fazer companhia. Não era início da nossa relação, então com dois anos, e por isso ela solidificou ainda mais o carinho e o amor que tenho por ela.

Ao longo dos anos, alguns outros cachorros cruzaram a minha vida e minha casa. Alguns por pouco tempo, como a Duda, e outros da rua para a casa, como a Lisbela, minha atual mascote.

A Lisbela, cuja história já contei por aqui, chegou assustada em casa e levou algum tempinho para se adaptar. Mas pouco a pouco se acostumou até dominar o sofá – e todos os outros recantos da casa. Ela era plena e centro das atenções. Isso até a chegada da Maria Flor.

E muitas vezes a gente se perguntava como seria a essa relação, entre o nenê e a catiora. Ainda que a Lis sempre fosse amistosa, tínhamos algum receio quanto a presença de uma “concorrente” no centro das atenções. Bobagem nossa.

Desde o primeiro dia – ou na verdade desde antes, quando só ela ouvia o novo coração da casa – a relação foi ótima. E agora, nas minhas manhãs de babá, quando geralmente ficamos só nós três em casa, vejo na Lis uma cumplicidade e carinho com a Flor que um dia a Kuki teve por mim. É algo que parece pouco, mas garante uma paz e harmonia.

O mundo seria melhor se adotássemos mais cachorros.

O clima e o Natal

Kiribati

Eu tinha dez anos quando a novela “O Fim do Mundo” passou na TV. Foi uma novela atipicamente curta, apenas 35 capítulos – o que não deixava de ser paradoxalmente assustador, já que o fim proposto seria bem mais rápido que o normal. No derradeiro capítulo, como esperado, o mundo terminou. Foi por meio de uma sequência de bizarrices toscamente assombrosas – lembro de uma mula sem cabeça correndo na cidade fictícia.

No entanto aquilo me assustava. E até hoje, penso eu, não gostaria de presenciar o fim do mundo como ele era na minha infância, com monstros colossais ou asteroides imparáveis. Só que, como ser humano, e mais especialmente agora como pai, o passar dos anos criou em mim um novo medo maior: a emergência climática a qual atravessamos. E da qual, provavelmente, não passaremos.

Não deixa de ser um fim do mundo. Porém, a conta gotas. O que, assustadoramente, cria em nós enquanto sociedade, discursos negacionistas ou resignados. Retira-nos o poder de ação em massa. De quebra, quaisquer ações verdadeiramente eficientes demandariam revoluções, cá entre nós, impensáveis na economia. Foi um xeque-mate do planeta em nós, humanos.

Vejo o cenário de hoje, e o dos próximos anos, e me assusto. Já nem tanto por mim, mas pela minha filha. A paternidade vem com o instinto de proteção às crias. E às vezes é inconsciente. Coincidência ou não, desde que Maria Flor veio ao mundo, tornei-me um pouco mais verde. Deixei um pouco de lado a teoria e passei à prática.

Tudo o que fiz é muito pouco – e será desprezível frente ao todo. Ainda assim é uma parte que me cabe para passar um pouco de esperança. Até porque passar essa consciência ecológica adiante é algo essencial ao futuro dela. Maria Flor deverá preocupar-se desde cedo com o bom uso da água e as emissões de carbono, mas também com povos longínquos e às vezes quase imperceptíveis no mapa.

Crises de imigração serão cada vez mais constantes quando a terra natal tornar-se árida ou ser inundada, porque – não de repente – o clima mudou. E no primeiro natal da minha filha, eu gostaria de ensiná-la: Jesus Cristo, além de preocupar-se com o próximo, foi um refugiado.

Farol nas sombras

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Sem vaidade, mas fiquei genuinamente feliz e satisfeito ao saber da aprovação de uma ex-estagiária minha em seu Trabalho de Conclusão de Curso. A minha, agora, colega Lívia Rossa tratou sobre curadoria no jornalismo – um tema que, a meu ver, merece atenção especial por esses tempos.

Pude ajudá-la no TCC ao ser entrevistado. Já não estou há pouco tempo como editor no Correio do Povo e, mais recentemente, também atuo diariamente na confecção da newsletter Matinal. Como se não bastasse, há 12 anos respondo pela comunicação na Federação Gaúcha de Judô. Alguma coisa já vi e já tive que decidir sobre caminhos a seguir, portanto.

Quando ela falou comigo, o que seria um café virou almoço. Aquela coisa corrida, sem muito tempo pra pensar. O que pode tornar toda entrevista mais genuína, como de fato foi. A Lívia perguntando, eu pensando e respondendo com um olho no prato e outro no relógio. Uma rotina de trabalhador proletário.

A Lívia fez perguntas difíceis, admito. Mas ótimas para se refletir, assim, de supetão, quando somos mais honestos. Ao ser questionado sobre qual o papel do jornalismo hoje em dia, ainda consegui bolar uma metáfora que, sinceramente, espero que tenha sido usada no texto dela, de tão poética que ficou. Era algo como que o jornalismo deveria ser um farol em meio aos atuais tempos obscuros.

E, sim, deveria. E deve!

Podemos trocar a metáfora dos ares sombrios para ruidosos. Talvez seja mais adequado, porque o que ofusca hoje não é a claridade da informação, e sim a quantidade de barulho em volta. É muita gente falando. É muita versão para um fato. É muita autoridade falando absurdo – e às vezes, principalmente, só para aparecer.

Há tempos que tenho uma bronca com o jornalismo declaratório. Cada matéria de “fulano diz” talvez necessite de outra, a do contraponto. Só que aqui temos um leitor apressado, que, ao fim, pode vir a perder o contexto, por mais links, gráficos – e todas as outras possibilidades da internet – que se tenha à disposição. Nisso, elogio – e muito – o Nexo e o El País pelo jornalismo que produzem. Creio que jornalistas deveriam se inspirar mais nesse norte que ambos seguem.

Fato é que o modus operandi jornalístico mudou de uns anos pra cá. Se, quando comecei a frequentar redações, pouco mais de dez anos atrás, havia o embate impresso x internet, hoje, com a massificação de smartphones – que são outra forma de se consumir o jornalismo, diferente do que simplesmente “na internet” –, agora há o desafio cada vez mais permanente da edição, ou, se olharmos com calma, da curadoria.

A provocação é: se temos tudo, que tipo de material dispomos ao alcance do nosso leitor?

É papel, penso eu, do bom jornalista separar o joio do trigo em meio a todo esse zumzumzum. Para o grande e apressado público as fontes podem estar mais opacas – aqui entra outro desafio: é preciso recorrentemente se enxergar como leitor para pensar curadoria e edição. Nas redes sociais afora, muita gente disfarça panfletagem como jornalismo exatamente para tentar confundir hoje em dia. Passar à frente a versão desejada. “Precisa ter olhos firmes, pra este sol, para esta escuridão”, já alertaram Gil e  Caetano.

Temos que saber bem qual conteúdo devemos propagar. É preciso ser farol em tempos obscuros.

No mais: parabéns, Lívia! Que a nota 10 no TCC seja o início de uma grande carreira.

À luz

Amanheceu uma sexta-feira ensolarada para mim – e outros tantos milhões. Minha filha, ainda cedo, acorda e já indica que todos na casa não terão mais cochilos nos minutos seguintes. É maravilhoso, mas cansa, a paternidade. Cansa, mas é maravilhoso.

Uma ligação, porém, nubla o ambiente. Trabalho. Com a notícia de que a noite anterior não terminou para uma jovem. Não a conheci, mas já tinha escrito seu nome certa feita em algum texto. Lamento profundamente não ter mais de fazer isso, porque com 14 anos deveríamos ter a vida inteira pela frente.

Em meio a esse breu, te desejo luz, menina. Muita luz!

A velha política

ex-presidentes 2013

Dias atrás, o professor Marcelo Soares recompartilhou uma icônica foto do poder brasileiro. Desta vez, no entanto, não foi o impacto de ver cinco presidentes (e um intruso) juntos numa mesma imagem que me impactou, como quando a vi pela primeira vez. E sim a legenda usada por Marcelo: “Muito zoei essa foto. Mas é um documento de um Brasil que acabou. Não tem santo na foto, mas já fomos melhores que iffo daí”.

Causa certo nó a reflexão do professor, mas não deixa de ser verdadeira. E de repente deu até uma saudade da chamada velha política. E isso em nada tem a ver com coronelismo, “político de estimação” ou afins. Mas sim com convivência democrático-respeitosa com o lado oposto. Ou, por que não dizer, diálogo?

Bateu saudade até de chamá-los de “farinha do mesmo saco”, tratando lados opostos como iguais – “os políticos”. Até porque a farinha de hoje, certamente não é igual àquela. Nem parecida, as relações exteriores que o digam.

Jair Bolsonaro não será eternamente o inquilino do Palácio Planalto. Mais cedo ou mais tarde, ele sairá. Mas, mantendo o embalo de queimar pontes até mesmo com aliados e denegrir adversários, é de se pensar seriamente que talvez não seja ele quem passe a faixa presidencial ao sucessor quando este dia chegar.

Depois deste dia, pousaria Bolsonaro para uma foto de estadista com seus antecessores, ou mesmo com seu sucessor, se este não for seu seguidor? Dentro deste ambiente de polarização, caso a oposição venha a ganhar, chamaria Bolsonaro como representante de um pensamento majoritário de uma época no Brasil?

Talvez a foto – tirada a caminho do velório de Nelson Mandela – com FHC, Dilma, Lula, Sarney e Collor, além do intruso, seja realmente um documento digital de um Brasil pré-polarizado que acabou.


ps: na pesquisa pra este post, descobri o nome do “intruso”. É o ministro Renato Mosca, então chefe do Cerimonial da Presidência

Inadjetivável!

sorriso

Gostava muito da época em que a boemia era uma constante na minha vida – e nas minhas noites. Uma época bem antes do #sextou de hoje em dia, até porque integrei um grupo que não tinha preconceito com noite alguma. Foi um tempo em que era possível dormir tarde e acordar cedo no dia seguinte de forma regular.

Com os bons amigos que tenho desde aquela época, sempre nos ativemos à palavra. Nas formas objetivas e, principalmente, subjetivas de passar uma mensagem – ou definir certos atributos em corpos alheios. Numa dessas vezes, o Rodrigão saiu-se com uma boa. Resumiu uma situação em um único termo, que nada e tudo dizia ao mesmo tempo: “Inadjetivável!” Assim, exclamado.

Claro, ele não inventou a palavra. Mas não lembro de ter ouvido esse curioso adjetivo antes e, desde então, reservei-o para apenas momentos especiais, nos quais exclamar inadjetivável! torna-se muito mais legal que qualquer expressão batida como “sem palavras”.

Pois bem, este tempo boêmio passou. A decantação da palavra pelo álcool ficou cada vez mais rara, à medida que anos e boletos se acumulam. No entanto, a visa segue nos reservando situações especiais. Principalmente nas madrugadas. Ainda que não seja no bar, mas sim no quarto da tua filha, quando vais só dar (mais) aquela conferidinha pra ver se está tudo bem com aquele soninho.

Metido que és, tu vais ajeitar a posição dela, pra que durma ainda melhor dentro daquele berço, que muito te custou, mas que valeu cada esforço. E ficarás, como de praxe, um segundinho a mais contemplando, apesar do cansaço, apesar do horário avançado e do despertador temprano.

E é nessa hora que furtivamente pode acontecer. Ela, mesmo dormindo um lindo sono infantil, vai sorrir um sorriso lindo, inocente, fugaz e sem dentes. Inadjetivável, a sensação, meu caro. Inajetivável!

Eu não sou ninguém para dar conselhos, e tampouco escrevo aqui para isso. Colocar filho neste mundo acarreta uma responsabilidade e tanto. E sem volta. Cansa, é estressante e rouba a tua liberdade de outrora – inclusive a boemia. Mas, ainda assim, é inadjetivável! o sentimento que isso gera. Assim, com exclamação no fim.

Matinal, 150

Às 7h03 desta sexta-feira, atingimos uma marca importante. Foi neste momento – cedinho, conforme proposto – que a 150ª newsletter Matinal foi enviada a nossa base de leitores. O número da edição também coincidiu com a data redonda de seis meses do início oficial do projeto, pensado, editado e tocado conjuntamente com os colegas Paulo Antunes e Filipe Speck.

Uma curiosidade que é bom lembrar: o Matinal nasceu a partir de muita conversa em bares e cafeterias por aí, locais apropriados para os grandes debates jornalísticos. Nesses ambientes, que ora tinha cerveja, ora um expressinho à disposição, discutíamos muito a mídia local, a cobertura de determinadas pautas, além, claro, de planos para mudar o mundo.

De uma dessas várias discussões que nasceu a ideia de criar uma newsletter local. Surgiu, lembro ainda, no Centro de Porto Alegre, provavelmente na volta do Mercado Público, em 2018. A partir de então, mais conversa, pesquisas, inúmeras reuniões e litros de café para se chegar perto do modelo que é enviado diariamente hoje.

Com uma boa bagagem de jornalismo digital, nós três desde o início definimos uma meta para o trabalho: contexto. Em meio a tanto ruído, com tanto “li por cima”, era bom ter um lugar onde que fosse possível entender de um assunto de maneira ágil. E a partir de lá ter as fontes para o aprofundamento da questão.

Outra diretriz: valorizar a mídia local como um todo. Nós três temos experiências dentro dos grupos que editam os maiores jornais de Porto Alegre. Sabemos, especialmente, as qualidades de cada um. O Matinal virou também um canal em busca de ampliar o acesso a outros meios de comunicação. Abrir, o quanto possível, o espectro do leitor.

Vivemos tempos polarizados e complexos para o jornalismo. Em 150 vezes, tentamos ajudar a esclarecer um pouco esse cenário, a partir do cotidiano de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Ainda há bem mais pela frente, e estamos dormindo tarde e acordando cedo para chegar lá.