Santiago de Chile

santiago coracao

Bienvenido

Os dias em Santiago foram intensos, como relatado recentemente. Havia pegado algumas informações com uns conhecidos e, na base do tato, descobri outras. Então resolvi fazer aquela internet do bem e compartilho aqui algumas dicas úteis a viajantes que, Google afora, acabaram por aportar por aqui. Dicas, essas, que eu mesmo estava atrás no mês de março.

O Chile é caro?
Sim. Boa parte dos locais tem um preço meio salgado em relação aos brasileiros (mais especificamente aos porto-alegrenses). Ainda assim, há itens que variam demais. Um exemplo extremo é um blusão de lã de alpaca. Dá para comprar um por 7 mil pesos (uns R$ 40)  em uma feira de artesanato ao lado do Patio Bellavista. Mas encontra-se praticamente o mesmo modelo a 50 mil (R$ 285) no aeroporto – onde, claro, tudo é mais caro, bem mais caro, no caso. Em compensação, o vinho é barato e de qualidade. Principalmente se for comprado em supermercado.

Santiago é segura?
Uma medição de segurança que faço é observar se as pessoas andam com a mochila ou a bolsa para frente em locais movimentados. Digamos que 20% das pessoas que reparei faziam isso. A verdade tragicômica é: não vi cenários que assustassem a quem é brasileiro morador de cidade grande. Como ponto positivo, as pessoas ficam até tarde na rua caminhando.

Um bom bairro para ficar?
Fiquei no bairro de Providencia, o qual achei bem localizado, seguro e perto de locais interessantes. Voltaria a me hospedar lá.

Chegando lá, como faz para ir do aeroporto ao meu hotel?
Ao hotel direto tem serviços de transfers direto do aeroporto. Usei o Transvip na chegada e foi de boa. Em abril de 2018, deu 7500 pesos por pessoa.

Tem jeito de ir mais barato?
Sim, pela empresa Turbus. Pega-se um ônibus no aeroporto e desce em um terminal interligado à rede de metrô, na estação Universidad de Santiago. Isso, apesar de não descer necessariamente na porta do hotel, faz o custo de transporte cair à metade em comparação ao transfer. Nesse mesmo terminal, pode-se pegar ônibus a Valparaíso e Viña del Mar.

O metrô é tranquilo?
Ele é normalmente cheio, mas muito constante. Suas seis linhas se espalham ao longo de quase toda a cidade. É necessário comprar um cartão para se andar no metrô. Ele não é individual e pode ser utilizado por casais e/ou grupos. Aqui está o site oficial com as linhas e há também um aplicativo, que pode ajudar na navegação por lá. É um dos melhores metrôs que já peguei por aí.

E o preço?
Atenção, o preço varia conforme o horário do dia. São três faixas de tarifas, variando de 630 a 760 pesos. O link amigo, por cortesia.

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Desde Chile: As férias

chile

O noticiário no Brasil pegava fogo nos primeiros dias de abril e logo eu – um jornalista de redação – de férias. E sem o menor peso na consciência de estar perdendo mais “uma cobertura histórica”, tentei aproveitar o fato de o Chile não ter fronteira com o meu país para desopilar deste grande incêndio — o qual eu, como mídia, em parte ajudei a criar.

Férias, porém, não são necessariamente descanso. Nas duas primeiras noites que dormi em Santiago deitei exausto. Por gosto ou quem sabe desejo inconsciente de evitar locais com conexão à internet e às notícias brasileiras. Azar do Instagram, as fotos que ficassem para mais tarde. Caiu consideravelmente meu tempo na internet nesse período.

Viagem boa é aquela que o corpo sente fisicamente. Isso para a cabeça desbravar novos horizontes. Sejam eles mirantes, vinhedos, um centro histórico, praças ou histórias locais. A capital do Chile, aí, desponta como um local que preenche bem esses requisitos.

santiago panoramica

Santiago é uma metrópole fácil de se encontrar, com um metrô eficiente e um quê multicultural, além de ser convidativa para longas caminhadas e perto de montanhas, onde a vista vai mais longe. Aos pés da cordilheira, é em grande parte, plana.

Fiquei uma semana por lá. Ainda que volta e meia me encontrasse com o turbilhão brasileiro ao parar para ler manchetes dos jornais, Santiago e o Chile me ajudaram a encontrar um descanso necessário para alguém que vive o cotidiano diário de uma redação inundada de notícias do Brasil – que, olha, não são fáceis.

Gracias, Santiago. ¡Que lo pase bien!

Desde Chile: Então veio o cachorro

Snoopy

Bem avisou Snoopy na tirinha acima: “Então veio o cachorro”. Se os desenhos de Charles Schulz representassem uma espécie de gênese do mundo, provavelmente, então, a vida começou no Chile, tamanha é a quantidade de cachorros de rua que por lá estão.

Claro, a minha mostra foi um tanto quanto pequena territorialmente falando. Quatro cidades apenas. Em todas, porém, parecia que sempre havia um vira-latas por perto. Um não, mais. Na maioria das vezes tirando uma soneca, completamente alheios ao movimento ao redor. Admito certa inveja da relação com o sono que eles têm.

E não são quaisquer cachorros. São grandes, peludos e relativamente gordos – em contraste à maioria dos quatro patas que vejo caminhando por Porto Alegre. Não raro andam, ou dorme, em hordas pelas calçadas da vida.

A relação com os humanos parece ser boa. Em Valparaíso, cheguei a encontrar até mesmo um pequeno espaço para doação de comidas aos caninos. Dois dias antes, em Santiago, um cusco dormia tranquilamente seguro ao lado da roda de uma viatura policial. Duas horas depois, voltei ao local e ele ainda estava ali.

Nas quatro realidades que pude ver, os cachorros são parte do cenário chileno – assim como vulcões, o oceano e a confusão de gente em Santiago, tal qual explicou Snoopy. O cachorro veio e venceu no Chile.

ps: cachorro em espanhol é “perro”. Mas o idioma local tem lá suas peculiaridades. No Chile, entende-se por “cachorro” mesmo, com o “ch” um pouco mais puxado, para “tchô”. 

Desde Chile: A montanha e o clichê

andesSe há um grande clichê ao se viajar de avião, certamente esse é o ato de fotografar, lá do alto da janelinha. Sejam nuvens, a decolagem, o pouso, o mar ou as variadas paisagens vistas a 30 mil pés de altura.

Particularmente, e muito graças às aulas do professor Elson Sempé nos tempos de Famecos, procuro não apenas tirar uma foto por tirar. Busco – ainda que nem sempre alcance – uma boa imagem a partir das técnicas aprendidas naquelas noites de PUCRS.

Até por isso tenho lá alguma birra com fotos no avião. Depois de tanta decepção entre a expectativa e resultado, já prometi a mim mesmo não tirar mais, porque normalmente o resultado não fica bom. Mas foi só ver a aproximação à Cordilheira dos Andes, que essa convicção desapareceu. Mais uma vez.

E, de novo, as imagens não ficaram como esperado. Não conseguiram traduzir bem o “uau” genuíno daquela aproximação, na fronteira entre a Argentina e o Chile, destino da vez.

Tudo bem, tudo bem. Ao menos a experiência guardei bem comigo. Quanto à foto, quem sabe acerto na próxima?

Meu fantasma

Tenho um fantasma que habita em mim. Um fantasma abstrato, contudo de uma presença impressionante. Um fantasma que certa feita foi feito de concreto e tijolos, mas que hoje já não existe mais, a não ser na memória de quem o conheceu. Uma recordação a cada dia que passa mais longínqua.

Esse fantasma tinha endereço. Morava no coração do bairro Menino Deus. Desde que foi ao chão, vaga por aí, entre antigas fotografias – desde as em preto e branco até as compostas por pixels – e lembranças alheias. Sobrevive, ainda que seu tempo seja contado, pois já existem gerações que não o conheceram pessoalmente.

Em breve chegará o dia em que aquele endereço na rua Dona Augusta tornar-se-á completamente desconhecido. Nunca hão de saber que lá o ambiente de um prédio mais novo qualquer era outro. Totalmente distinto. Tinha cheiro próprio, tinha vida, tinha alma. Foi um refúgio seguro ao longo de décadas, não só para mim. Tinha, acima de tudo, meus avós como seus habitantes.

Mas agora seu tempo é passado. Mesmo que insista em resistir no presente. Como um fantasma que surge em sonhos completamente aleatórios. Sai do vazio e transforma-se em cenário de um passado gostoso. Quase como uma máquina do tempo que nos saca da vida adulta diretamente à tenra infância.

É dúbio revê-lo. Bom e mau, porque às vezes veste a carapaça de um casarão mal assombrado. Como a faceta de um fantasma em meio à cidade grande. Cidade que o próprio cotidiano atual já não reconhece. O bairro de hoje cresceu em altura. Abdicou dos inúmeros gramados nos jardins em busca de vistas para o pôr do sol a uns poucos privilegiados.

Uma dentre tantas casas fantasmas, que viveriam a sombra de prédios se ainda fossem de concreto e tijolos. Cada qual com seus donos, todas fantasmas que deixaram a rua e agora residem em fotos. Que residem em memórias e residem em mim enquanto houver lembrança.

Hora do Conto – dos relatos perfeitos

cronica gaboHá uma vantagem de ser um leitor tardio de Gabriel García Márquez: sua obra é muito vasta. Se não for feito um intensivo e sim degustado pouco a pouco, é possível ler seus livros e textos de tempos em tempos, por um longo período. É o meu caso, um leitor de Gabo há apenas dez anos.

Um breve parêntese: primeiro livro que li dele foi logo “Cem Anos de Solidão”. Certa feita, em um horário de almoço no meu estágio, ganhei uns minutos a mais, porque meu então chefe viu o livro que estava lendo. “Pode continuar aí que eu seguro as coisas um pouco.”

Pero bueno. Meu García Márquez deste início de 2018 foi “Crônica de uma morte anunciada”, publicado originalmente em 1981. Bom contextualizar que o autor era, como vocês devem saber, jornalista. E, usando a mescla da linguagem jornalística com o enredo de romance, criou aqui um de seus melhores relatos. É um livro, mas poderia ser lido em um jornal.

A história conta sobre a morte de Santiago Nasar – “condenado” pelo crime de ter, supostamente, desvirginado uma noiva em alguma pequena cidade caribenha. Revisitada anos depois do assassinato, a história relatada inicia horas antes da morte até a hora do crime, com citações de dias seguintes.

É uma climatização capaz de jogar o leitor no ambiente daquela “terça-feira que começava sombria”, antes da chegada do navio que trazia o bispo – evento para o qual todos do lugar haviam se mobilizado.

“Questões de honra são lugares sagrados aos quais só os donos do drama têm acesso. ‘A honra é o amor’”

O texto, que de quebra oferecer volta e meia aquelas frases definitivas para serem relidas a qualquer momento, não deixa de ser um dos ápices não só do autor, mas do jornalista Gabriel García Márquez. Se toda reportagem fosse contada como o relato do narrador do livro, o jornalismo seria bem mais completo – e certamente mais consumido. Além de ter uma qualidade muito superior.

doodle gabo

Texto publicado no dia em que Gabo completaria 91 anos, lembrado por este doodle acima

 

Quando me abordaram em Bogotá

bogota

Certa vez estive em Bogotá. Foi uma viagem completamente ao acaso – definida, semi-planejada e realizada em menos de um mês. Dentre as poucas recomendações que ouvi e li, era de que a polícia era muito vigilante nas ruas da capital da Colômbia, que eu poderia ser parado a qualquer momento, que poderia ser revistado até mesmo para entrar em shoppings centers.

Num rápido contexto, basicamente tudo o que eu ouvia sobre a Colômbia até então, eram notícias negativas. Nos anos 90, o país, para mim, era basicamente Farc, cocaína, tráfico e um pouco de café. Lembro de uns 10 anos antes de eu ir para lá de um tio meu falando que para ir na esquina “precisava cuidar com os tiros”.

Obviamente ele nunca esteve na Colômbia. Naturalmente, o que vi lá era bem diferente daquela impressão errônea vendida. Ainda que, em 2012, notei resquícios de uma violência marcante no passado, como, por exemplo, a forte atuação da polícia nas ruas de Bogotá.

Comentei aqui mesmo naquela época. E não foi nem uma, nem duas, mas várias vezes que fui parado por policiais naqueles dias – certa feita, um estava até à paisana. Mostrava minha mochila, meu passaporte e às vezes respondia algumas perguntas para enfim ser liberado. Sempre com respeito.

621941-970x600-1Lembrei disso esta semana com a ação do Exército em morros do Rio de Janeiro, onde soldados estão fichando todos moradores de algumas áreas para comprovar se há ou não antecedentes criminais. Nestes tempos de redes sociais, é claro, diversos debates saltaram. De um lado, críticas, do outro argumento que o Rio vive momento delicado, que exige medidas específicas e drásticas. Também há a linha clássica: de que quem não deve não teme – e não tem nada de esconder em uma abordagem.

Ações extraordinárias ocorrem em momentos extraordinários. Dia desses conversei com um boliviano que visitava Porto Alegre e ele sabia da crise de segurança no Rio, porém não tinha ideia que a capital fluminense sequer é a terceira no número de assassinatos por 100 mil pessoas no Brasil. “O Rio tem muita mídia”, expliquei pra ele.

Se ao menos houvesse um plano de segurança apresentado devidamente à sociedade – sendo claro com a bancadora da operação e principal vítima da violência –, esse fichamento que flerta com o autoritarismo poderia ser justificado. Mas não é o que parece. Não estou, nem vivo a realidade do Rio, ok, mas ainda não há notícias sobre ação semelhante em outras zonas da cidade, como Ipanema e Leblon.

Justo a ausência de ações integradas em todo o território que me fizeram lembrar de Bogotá. Eu fui abordado em zona turística da capital colombiana, em La Candelaria. A Colômbia, apesar dos exageros e da desinformação difundida, teve um grande problema de segurança há poucas décadas. Combatido, não sei se de todo resolvido, mas hoje o país passa outra imagem a seus vizinhos. Muito mais saudável e turística, frise-se.

Que o Rio – e todo o Brasil – precisam de ações drásticas na área da segurança, talvez ninguém duvide. Porém que sejam ações de verdade e não racismo e criminalização de favelas maquiados em ano eleitoral.