A praça, a vida e os desafios

Uma pracinha às vezes tem tantos desafios quanto a vida

Para um segundo, se achar preciso. Isso é o receio, que nada mais é que uma das tantas formas do medo. A gente necessita um pouco disso, mas não ao ponto de nos paralisar.

Respira. Vai. Isso é a coragem, o que nos faz encarar (superar ou não é outra coisa) os desafios nem sempre previstos que sempre surgem à nossa frente, não importa aonde estejamos.

Segura firme. Procura aquilo que te dá segurança para o próximo passo. Se não houver um apoio físico, busca cultivar uma mão amiga pra te ajudar a seguir nesses momentos. (e às vezes é essa mão que nos carrega)

Por fim, se não souber o que oferecer a um desconhecido, quem sabe dê-lhe um abraço. Alguns não irão merecê-lo, e os tempos hoje são esquisitos, mas sempre é bom cultivar empatia por aí.

Avisos do destino ou não, parece até uma receita pra vida, mas foi só a observação das aventuras de uma menina que estava prestes a completar dois anos numa ida à pracinha depois de muito tempo e com outras crianças ao redor.

Feliz aniversário, minha filha! (a mão amiga do pai sempre estará ao teu alcance)

Super ponto azul

Já é quase século XII quando o turista espacial de classe média enfim consegue desembarcar na Lua e deixar por algumas semanas esse calor insuportável que tem feito na Terra há décadas.

Deu sorte! Soube logo ao passar pela imigração estelar que hoje, na Lua, é dia de Super Terra, em que a visão do planeta está 27 vezes maior e mais brilhante do que o normal. “Um espetáculo”, dizem os agentes que por lá trabalham, tentando vender uma entrada para o mirante Neil Armstrong. “É melhor ainda no bar Yuri Gagarin”, cochicha outro.

Com poucos recursos, instala-se na base e espia na janela do piano bar da estação compartilhada mesmo. Não demora muito e “uaaau!” Maravilha-se com o esplendor proporcionado por aquela vista. De um azul indefinível, a Super Terra ficará em sua memória por muito tempo – assim como as prestações em criptoespaçomoedas desta viagem.

Como todo bom turista, a contemplação dura cinco segundos. Tempo de sua mão chegar até o bolso do traje para pegar o seu iPhone geração 80 e apertar o botão em busca de uma imagem para subir em sua rede social de fotos. Afinal, o que é uma viagem, seja para onde for, sem rede social de fotos?

Entre diversos sons “clic”, “clic”, “clic”, a versão ultramoderna do aparelho de telecomunicações internético registra o momento, ao lado de outros semelhantes, portados por dezenas que vieram à Lua aparentemente pela primeira vez.

Satisfeito, o turista deixa a janela e volta-se à animada banda que tocava no bar. Só minutos depois lembra-se, enfim, de conferir o as imagens na galeria. Desapontado, deu-se conta que nunca havia zoom suficiente que transformasse naquela Super Terra o que, para seu celular – para qualquer celular –, seria sempre apenas um pálido ponto azul no céu.

Pílulas pandêmicas: o gol

Jogo qualquer da Premier League, temporada 2025/26. Wason Shak decidiu o jogo e decretou a vitória apertada do Liverpool por 1 a 0. Terminada a partida, Anfield vibrava como nas grandes comemorações. Clima de festa, celebração em um estádio sempre abarrotado, faça chuva ou faça sol.

E então aí despertou em mim aquele sentimento definido por uma palavra muito utilizada desde março de 2020: gatilho. Bateu saudade de um estádio abarrotado de gentes dos mais variados tipos, unidos ali por um sentimento comum. Desconhecidos em êxtase como se fossem irmãos.

Lembrei em meio a essa avalanche da última vez que pisei no estádio do meu time, poucos dias antes deste clima de medo se instalar por completo. Já era o fatídico março de 2020 e a partida foi de Libertadores, às vésperas do tão esperado primeiro Gre-Nal da competição – que, com mais de 50 mil pessoas presentes, marcou o que ainda é o último jogo com público em Porto Alegre.

Desde então, já tem um ano dessa montanha russa que oscila entre esperança e desespero. Às vezes o fim do túnel parece mais perto, afinal já é pós-pandemia na Austrália. Mas às vezes, parece que não têm fim, essas “duas semanas mais críticas” que teimam em sempre se avizinhar.

Gatilho, saudade, a falta da minha cidade, dos meus lugares e de uma época relativamente normal. Superados esses instantes de reflexão ainda olhava o Anfield virtual do Fifa 2021 no videogame com o inevitável questionamento “quando será que voltaremos?”, inevitavelmente seguido por outro: “Como será que voltaremos?”

Mesmo apaixonado por futebol, terá eu tão breve a coragem de abraçar um desconhecido – qualquer desconhecido – para gritar gol?

Clandestino na própria cidade

Foi como começar de novo. E, num ato banal que hoje me exige uma dose de coragem, suspirei e decidi seguir em frente. A cena que outrora foi tão corriqueira até ganhou um contexto levemente épico. Coloquei o capacete, subi na bicicleta. Apertei o botão: abri o portão e me fui cidade afora.

A paisagem que era tão comum ganhou o que pareciam contornos novos. E, como se reconhecesse a um amigo, passei a procurar detalhes rua a rua a partir do bairro Auxiliadora num caminho sem destino pelo cenário que por anos foi somente parte do trajeto casa-trabalho-casa.

Na via mais esvaziada gente, agora há mais traços. Do que se foi e do que será. Detalhes de como andou a vida nesses meses atípicos de medo do invisível. Sinais das transformações que virão daqui para frente. As casas têm mais gente agora, enquanto as ruas, mais pedidos por ajuda, no que parece ser uma faceta desses novos tempos.

Porto Alegre é uma cidade que tem um coração verde. Chama-se Parque da Redenção. É para lá que confluem as diferentes faunas de gentes da capital gaúcha. Seus cantos e bancos, se falassem, teriam o cotidiano das ruas na ponta de suas línguas. Estar lá é, afinal, estar em Porto Alegre.

Muitas e muitas vezes já sentei em qualquer banco ali, em variados momentos e com tantos e tantos tipos de companhia. Agora, contudo, estava só e clandestino, mesmo em plena tarde agradável de sol. Em tempos de regras de isolamento, talvez o certo seria não estar ali. Quieto, observo o vem e o vai daqueles poucos que, como eu, circulavam em tempos pandêmicos.

Olhando ao redor, tentava reconhecer a alma daquele lugar que frequento desde criança. Sob a sombra das árvores, notei apenas que não haverá nada normal enquanto a Redenção estiver esvaziada em tarde de sol por conta de algo que, dia após dia, nubla ou apaga a tantos nas redondezas. Tem, sem dúvida, um clima um estranho no ar.

Retomei o caminho de volta prestando atenção às novas mensagens de muros, as que deixei de notar nos últimos meses – no último ano (!). O que será que eles poderiam contar depois de meses sem vê-los? Em meio a tapumes, havia protestos: “Bolsocaro”, diziam uns cartazes na avenida, enquanto em outro muro, o picho exclamava, em plena perimetral: “O Brasil não merece o Brasil”.

Parei por um minuto. Achei que ele tinha razão.

*Crônica feita para a aula do curso de extensão Cartografias da Cidade, da PUC-Rio

A saudade dos detalhes

Postei essa foto pouco mais de um ano, quando a pandemia já era realidade, mas em um momento imediatamente anterior à adoção generalizada das políticas de isolamento. Havia uma sinalização de que seriam duas semanas de restrições, talvez um pouco mais, em que pararíamos, pra depois, aos poucos, retomarmos a vida.

Como se sabe, a previsão foi errada, tragicamente errada.

“Tudo pode ter um lado bom” e “Dias bons estão por vir” são mensagens tão esperançosas que soam até ingênuas em épocas atuais. Porém cabe a nós acreditar, ainda que seja difícil, ainda que seja distante.

Ao longo desse tempo, cresceu a saudade de encontrar mensagens como essa e outras tantas andando pela minha cidade – a qual redescobri quando passei a desbravá-la de bicicleta, nos idos de 2019.

Poucos dias atrás, descobri que gosto na verdade de “derivar” pelas cidades, as outras e a minha. E esse acabou sendo o gancho para a minha crônica de estreia na Revista Parêntese, disponível aqui para assinantes da Matinal. Eu tenho saudade de reconhecer seus contornos e suas fachadas, de ler suas mensagens tão escancaradamente escondidas nos muros por aí.

Espero, com saúde, poder revê-la a pleno em breve. É o meu desejo para este teu aniversário, Porto Alegre. Cuidemo-nos!

Pílulas pandêmicas: o guarda roupa

Não foi nem uma, nem duas as vezes que abri meu guarda roupa desde março do ano passado e quase olhei espantado: “Nossa, pra que tanto”, questionei-me. E isso sem nunca ter sido adepto de banhos de loja, ou acumulador de peças de variados modelos e cores.

Não que as roupas que tenho pousaram ali de uma hora para outra, mas a pandemia me fez reparar a desnecessária quantidade de camisas, bermudas e afins que possuo. Pois vai fazer um ano que basicamente “me arrumo” para com as mesmas pessoas, mais ou menos com as mesmas roupas. E a vida segue assim.

Faz um ano que a rotina está essa bagunça, um ano que não vou a bares ou a jogos de futebol. Que as saídas à rua são apressadas, um ano que as coisas estão caóticas. E ainda não parece ter uma perspectiva de um fim definitivo para tudo isso.

Quando houver, por respeito a todas as dificuldades que se enfrenta, que o excesso de consumo seja repensado.

Verões e avós

Dizem as memórias dos meus pais que com dez dias de vida eu fiz minha primeira viagem. Para a praia. Para a casa dos meus avós, no meu primeiro janeiro. Não sei quanto tempo fiquei no Quebra-Mar naquela vez. Sei sim que muitas outras vezes retornei nos anos seguintes.

Quando a gente é criança e não tem noção ainda dos privilégios que temos, como poder transformar o verão em uma estação mágica. Por motivos de praia e avós. É um tempo de vida que, sem ter a exata dimensão, quebramos rotinas e aprofundamos laços. Seja aprendendo a valorizar as férias do colégio, seja ganhando mimos que só avós proporcionam – às vezes furtivamente.

No meu imaginário infantil, verão e avós estavam sempre, sempre ligados. Era uma espécie de rotina que se seguiu desde aquele pioneiro janeiro até a época em que eu estava entrando na faculdade, quando até já podia dirigir o carro do vô. Claro, nem sempre foram meses, às vezes foram semanas ou mesmo dias de convívio próximo naquele apartamento apertado. Suficientes, contudo, para criar e aprofundar memórias.

Memórias, essas, que com o passar dos anos foram ficando para trás, tal como as cenas daquela praia antiga, aquela sem grades entre as casas. E que eu pensei que a Maria Flor não iria conhecer nada disso.

Se se ambientar em uma praia sem divisões vai ser impossível, ao menos eu errei a previsão quanto à permanência e, ainda bem, aos avós. Num tempo cada vez mais corrido, nesse meio de fevereiro, Maria Flor completa um mês perto do mar. Um mês correndo pela grama, catando conchinhas na areia e descobrindo coisas que na cidade ela não costuma ver. Ao lado dos pais, de uma avó e uma bisavó – uma privilegiada e tanto, essa menina.

Em pleno verão pandêmico e sem carnaval, minha filha descobriu que não só com amigos que a gente constrói relações. E como é bom ficar semanas a fio sem aulas, na praia e com avós. Que não faltem mais lembranças dessas por vir.

2020 e AmarElo

Disse algumas vezes que o álbum AmarElo me ajudou a atravessar o nervoso mar de 2020. Em alguns dos muitos momentos mais tensos desse ano turbulento, me apeguei à letra e aos sons das músicas do Emicida. Mas, pensando cá, onde exatamente que AmarElo me ajudou? Foi na positividade. E fez de melodias o polo oposto do noticiário que estive (e estou) imerso, cheio das âncoras pesadas da dura realidade. AmarElo me foi ar na hora do sufoco.

Impossível não reagir ao ouvir repetidas vezes que “tudo, tudo, tudo, tudo que nóis tem, é nóis” enquanto minha filha crescia, mesmo ela ficando mais tempo em casa, mesmo tendo que abrir mão de umas brincadeiras tão salutares na primeira infância. Ou então escutar “cale o cansaço, refaça o laço, ofereça um abraço quente” depois de dias tempestuosos. – e que não foram poucos

Muitos dos versos desse trabalho tiveram e seguem tendo em mim um verdadeiro efeito terapêutico. E não precisam ser rebuscados ou com lições de moral. Eu os considero de uma simplicidade linda e tocante.

Talvez o meu inconsciente queira que eu retribua isso em 2021. Não através de composições, mas por positividades. Dei-me conta ao reparar que ao fim deste primeiro mês do ano, distribuí ao menos dois elogios gratuitos a pessoas de fora do meu círculo, as quais certamente nem lembram de mim corriqueiramente.

Tive o trabalho de entrar em contato e falar uma coisa boa, sem esperar nada em troca. Parece pouco, porém sabemos que é tão raro, isso de não deixar para depois. Da mesma forma que disse palavras de carinho sincero a velhas amigas que estão com pequenos rebentos em casa.

Passei algo bom, de maneira inesperada para elas. Fiz sorrir, sorri de volta. Numa época tão complicada, gestos simples podem ser lindos e tocantes. Se é influência de AmarElo ou até uma meta para 2021, não sei. Mas gosto deste verso: “Seja luz nesse dia cinzento”.

Da impermanência

Dez anos atrás eu cursava a pós-graduação em jornalismo digital e me via um tanto frustrado naquelas aulas do curso de especialização. Enquanto via poucos recursos e não muitos debates sobre prática do webjornalismo em si, notava certo entusiasmo que considerava até exagerado com as redes sociais.

Era uma época da Primavera Árabe e que Facebook e Twitter ganhavam, dia após dia, relevância – tanto para o jornalismo, quanto para a sociedade. Ferramentas capazes de levar a informação driblando meios oficiais, eram disruptivos. Efeitos colaterais como a disseminação de fake news ainda eram inocentemente ignorados, na maioria do tempo – tal como em momentos da minha graduação em jornalismo.

Apostava-se muito no Facebook como uma alternativa de futuro viável tanto ao jornalismo quanto praticamente à internet em si. Ouvi, naquela época, uma frase que me marcou: “O e-mail morreu”. Seria, segundo aquele pensamento, substituído por mensagens instantâneas, sejam no Facebook ou em alguma rede vindoura.

Oras, aquilo já estava indo longe de mais. Eu que ainda usava um @hotmail.com, senti com um golpe. Mas como assim? Contrariado discordei da tese, mas, em linhas gerais, talvez tenha sido voto vencido na turma.

Nesta terça, 5 de janeiro, enviamos a primeira edição do ano 3 da newsletter Matinal. Foi o primeiro e-mail enviado na nova década deste veículo que nasceu neste que posso considerar um meio, o e-mail. E desde então vem crescendo – ao todo já são mais de 400 envios, desde março de 2019.

Ao longo desse tempo, não me convenço que somos “resistência” ou tampouco “inovadores”. Estamos, sim, aproveitando uma das ondas da internet que apareceu naquele momento para nós.

Também me dou conta que o famigerado 2020 marcou um distanciamento grande meu com o Facebook. Enquanto perfil pessoal, foi o ano de menos postagens e interações em mais de uma década até aqui. Certamente o ano com o menor número de mensagens trocadas – isso também influenciado pela pandemia, já que o chat de trabalho acabou migrando para o WhatsApp ou os canais de vídeo.

Claro que a rede de Zuckerberg segue relevante, contudo me parece cada vez mais claro que seu auge, ao menos no Brasil, passou. Ainda que as outras ondas que seguem altas, como o WhatsApp e o Instagram, seguem em alta.

Tenho pra mim, ao longo de quase 25 anos de convívio, que nada é definitivo na internet. Por mais forte que uma tendência surja e se imponha, sempre há ciclos – e, se não inovações, renovações. Se antes os e-mails iam com correntes ou mensagens, hoje podem ter cara de jornal. E isso sem esquecer que usamos gifs, outrora substituídos por .jpgs, para piadinhas por aí.