Yakecan

Foi uma checagem maior do que a comum. Uma espiadela no Twitter, um pouco mais de atenção ao telejornal durante o almoço, ouvido atento ao rádio (sempre ele). Isso enquanto os uivos dos ventos não davam trégua na janela – aliás, nem quis imaginar como estariam os vidros do apartamento do 11º andar em que já morei.

A manhã, ainda que dedicada principalmente à distração de uma criança com três anos recém completados, teve suas pitadas de medo e de receio com o tempo. O vento, o frio. Era o som do céu, Yakecan. Em maio. Não era para ter veranico agora? O que será que mudou?

A resposta está no ar (e também na água), pois.

Lembro que falamos até cansar – e meio que abolir – a expressão “novo normal”, projetando transportes, hábitos e cidades no que seria, e ainda será, o pós-pandemia da Covid. Ao mesmo tempo, apesar de tantos alertas, já paramos para pensar como será o nosso novo normal climático?

Acho que existe uma espécie de ânsia paralítica de se buscar evitar o pior, que seria o aumento da temperatura da atmosfera em 3, 4 graus Celsius até o fim do século. Só que parece impossível não chegar lá e, mesmo pouco menos, já terá sido bem grave. O que se transforma numa letargia que, pouco a pouco, fará com que nos acostumemos a fenômenos mais extremos, anos mais quentes, frios mais gélidos, estiagens ainda mais secas e temporais cada vez mais severos.

Não necessariamente nesta ordem.

Uma volta esperada

Revelei fotos – sim, costume antigo – dia desses pela primeira vez em 2022 e, enquanto as olhava, algo me chamava a atenção. Era algo talvez escondido, que custei a me dar conta, mesmo que estivesse em quase todas as imagens. Quando enfim percebi o que me tinha de gritante não deixei de me surpreender. Eram… sorrisos.

Depois e cerca e dois anos, eles voltaram a ser elementos constantes das fotografias de família e amigos e novamente apareciam com destaque e sem censuras ou restrições. Nesta leva, voltavam em sua maioria a estarem destapados de máscaras as quais haviam sido incorporados desde de março de 2020.

Eu sei, eu sei. A pandemia não acabou, o Brasil está deste jeito e tudo mais. Ok. Sorrir, então, não deixa de ser um ato de coragem e até resistência nesses tempos de pandemia e guerras. Que eles não sejam para cantar vitória, mas para mostrar: ainda estamos aqui, ainda gostamos das nossas pessoas, apesar disso tudo.

Agora parece que vem uma nova onda e já até perdemos a conta de qual será, se quarta, se quinta. Acho que ainda tem bastante estrada pela frente até os respiros de liberdade serem destemidos, profundos e literalmente a plenos pulmões até em lugares fechados de higiene duvidosa. Mas que, neste trajeto, não percamos mais o costume de sorrir.

Brasil de 2022

Recolhe e confere as poucas coisas que chegaram doadas e alheias até si. São uns pacotes de macarrão, um que outro quilo de arroz. Roupas velhas e algumas fraldas aleatórias preenchem a sacola de provisão que auxiliará ao menos nas próximas horas a família periférica.

O Brasil da pandemia, além de ameaçá-la com o vírus, também provocou a volta da fome, enquanto tantos se polarizavam num inócuo debate entre vida e economia. Diante da escassez de saídas, o jeito foi se aprumar na esquina e torcer pela bondade de motorista alheio.

Acontece que até ali já apareceu concorrência. Se não na mesma esquina, nas próximas e nas próximas. Há muitos e muitos pedindo algo por aí. Teriam histórias tristes pra contar, sobre como foram parar nesta situação. Foi em algum momento dos últimos dois anos que a corda arrebentou de vez.

Contariam. Mas não dá tempo, a sinaleira é rápida e só permite o apelo em questão de segundos. Então vai só o resumo rabiscado num cartaz, que invariavelmente tem códigos similares como FOME, AJUDA. Em letras garrafais como a urgência exige.

Teriam histórias pra contar, mas parece que nos últimos meses têm se mesclado às paisagens, às margens das ruas. Com uma inflação dessas é normal passar fome, pelo jeito. A comoção talvez tenha diminuído e em época de farinha pouca, meu pirão primeiro.

O Brasil da retomada (?) da pandemia – que talvez esteja rumando para o abismo enquanto grita – já nem os nota. Tem pressa.

E por essa pressa é bom não ficar muito tempo parado. A sinaleira fechou, chegou a hora. Cada um por si. Enquanto na outra esquina a criança corre para pendurar torrones nos retrovisores, uma mãe suspira na rua ao lado do hipermercado, faz um sinal da cruz e levanta o cartaz pedindo o seu socorro.

Três livros para as eleições de 2022

Charge de Galvão Bertazzi

Há muitos caminhos para a construção de um voto. Passam por crenças, ideologias, experiências, notícias e balanços. Quero adicionar, também, contexto. Em especial a uma eleição que se mostra demasiado importante na história da democracia brasileira.

Afora o noticiário, há três livros que gostaria de sugerir a quem tem alguma indecisão com relação ao seu candidato nas eleições presidenciais de 2 de outubro. Acho que vão ajudar a contextualizar a forma sobre como chegamos a esse momento, e talvez abrir mais horizontes a muitos que tentam entender a complexidade deste país chamado Brasil.

Óbvio, há tantos e tantos outros livros, artigos, textos e fotos a mais para se embasar votos. Essa é uma lista que pode crescer muito ainda. Mas, pudesse eu recomendar apenas três, seriam esses, porque sociologia, tecnologia e racismo são pontos que se destacam para este momento.

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado
É preciso entender como Jair Bolsonaro, um deputado de sete mandatos vendendo-se como nova política, chegou ao poder. Foi uma conjuntura de fatos, sim. Mas é preciso compreender fundamentalmente como o discurso da extrema-direita colou em grande parte da população, inclusive na de baixa renda, para se construir alternativas ao radicalismo.

Máquina do Ódio, de Patrícia Campos Mello
Eleições têm regras para se deixar a disputa entre os candidatos mais justas. Essas regras foram sistematicamente quebradas em 2018 internet afora. Aproveitando-se de um judiciário lento e de um terreno fértil ao ódio nas redes sociais, a desinformação correu solta. O livro é um exemplo da contribuição que o bom jornalismo pode fazer à democracia.

Racismo Estrutural, de Sílvio Almeida
O Brasil é majoritariamente negro. Mas quantos negros há em postos-chave de poder, seja na esfera privada, seja na pública. E por quê? Quem visa um país mais justo precisa compreender as diferenças das dificuldades da vida de negros e brancos, acabando com o mito da igualdade racial. Leitores brancos que leem a partir da perspectiva de um intelectual negro podem ter muito a aprender um pouco mais sobre o Brasil real.

Pra trás e pra frente

É março de 2022 e vou dormir impressionado após maratonar uma série em podcast, cujo nome modernoso é “audiosserie”, mas que nada mais é que uma velha radionovela. Aquilo que fazia sucesso em lares Brasil afora quando minhas avós tinham algo perto da idade que eu tenho hoje.

A bem da verdade, uns 15 anos atrás, já quase formado, tive uma disciplina na faculdade que foi quase que inteiramente voltada à produção de uma radionovela. Confesso que até foi divertido, mas achei uma perda de tempo. E ainda não estou convencido de que não foi.

Mas hoje, veja bem, sou editor de um jornal cujo principal formato é uma newsletter, esse modelo voltado ao e-mail e criado em priscas eras da internet. Os colegas com os quais iniciei essa jornada dividiram comigo as aulas do curso de Especialização em Jornalismo Digital, entre 2010 e 2012.

Jamais esqueço que ali nos garantiram que o e-mail estava com os dias contados!, assim, com ponto de exclamação e tudo, tamanho era o entusiasmo. O futuro, ao menos o visto naquela época, pertencia às redes sociais. Em especial ao Facebook – esse mesmo site que hoje parece ser mais referência a pessoas com idades mais próximas à da minha mãe do que à minha.

(hehe, eu dedico cada edição do Matinal a essa lembrança)

Dia desses, aliás, inserimos um gif (!) na nova newsletter do grupo (veja bem como vai o negócio). O gif, esse mesmo formato mais leve que o jpeg. Teve um quê de inovador, achamos nós. Um verdadeiro culto àquela configuração de imagem desprovida de megapixels e que tanto fora carregada em internet discada décadas atrás.

Essas voltas que o mundo dá são engraçadas. Em internet, não se pode ter rancor, pois sempre parece que cruzamos ontem com soluções que precisaremos amanhã.

Pílulas pandêmicas: os abraços

Eu vou querer abraços. Muitos abraços.

E mais, bem mais: quero dar (e receber) beijos apertados! Debater ideias mirabolantes com amigos em mesas de bares sujinhos por horas a fio; Traçar planos com conhecidos nos bares limpos; Quero a arte do encontro aleatório novamente. Não ter pressa no elevador, nem receio de lugar fechado. Viajar pra Bahia; E depois pra Europa; E depois pra mais longe, e além; Aliás, quero andar de avião de novo, nem que seja pra reclamar da fila na hora da saída. Quero a permissão para espirrar em paz; E ver tosses sem constrangimentos; Quero nem saber mais o que é perdigoto; Ignorar gotículas e esquecer máscaras-de-proteção-individual. Tomar chimarrão na roda; Qualquer roda. Quero gritar gol e abraçar meus amigos, e quem mais estiver na arquibancada; Berrar a plenos pulmões, com a baba refletindo contra a luz do sol, azar; Xingar até a terceira geração do juiz por marcar qualquer falta duvidosa perto da nossa área; Pedir cerveja em meio à multidão para depois correr para o banheiro lotado. Quero ir à praça sem regra de distanciamento; Ver as crianças brincarem sem saber o que o tempo estava ruim; Sem nem precisar passar álcool gel.

E tudo isso vai começar com a volta dos abraços descompromissados e cotidianos! Quando isso passar.

Elza

Não lembro exatamente quando conheci Elza Soares. O que recordo é que ela me causava um quê de incômodo. Não sabia, tampouco soube por muito tempo, explicar o porquê. Mas aquele som estridente da sua voz e o corpo desafiando o tempo eram algo que me tiravam um pouco do conforto.

Hoje eu entendo um pouco mais. Era racismo, puro e simples.

Não que eu fosse um racista propriamente dito, só que hoje entendo que fui criado em um ambiente em que este mal é algo estruturado na sociedade – a mesma que Elza venceu e brilhou.

À minha volta, negros sempre estavam presentes. Mas, por muito tempo, eram poucos e um tanto à margem do crescimento de mais um jovem branco de classe média em Porto Alegre.

Felizmente, a gente pode evoluir e, quando quer, pode buscar compreender o mundo que se vive na base da empatia, na base do conhecimento. Não somos perfeitos e crescemos rodeados de preconceitos que devemos lutar para desconstruir. Isso é uma lição que nem todo mundo aprende, mas deveria pelo menos tentar.

Elza Soares morreu numa tarde de quinta-feira. E eu que sou tão acostumado a saber e noticiar mortes de conhecidos, confesso que me peguei triste, de verdade.

Havia anos que Elza já não me causava incômodo nenhum, muito pelo contrário. Se não virei propriamente um fã de toda a sua obra, sou um grande admirador de sua vida, de sua força, de seu exemplo. Jamais sequer estive perto dela e a considero tão importante para a minha evolução como espírito e como pessoa em sociedade.

Obrigado, Elza!

***

A propósito, dois livros que li recentemente são de grande ajuda a quem busca entender mais sobre a estrutura do racismo na sociedade brasileira e seus danos: “Racismo Estrutural”, de Silvio Almeida; e “Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório.

Um ótimo ano para se deixar no passado

Ainda que termine melhor do que acabou, por toda a dor e aflição causadas ao longo de sua passagem, 2021 será um ótimo ano para chamar de “passado”. Mesmo que, junto a ele, a esperança de passar pela pandemia tenha se fortalecido, em seus dias e meses retornaram agruras que deviam ter ficado em épocas pretéritas.

O negacionismo recente fez voltar a pleno cenas como crianças nas sinaleiras, fome crescente, inflação alta, entre outros tantos problemas que lembram mais o país do fim do século passado do que o que o Brasil se tornou ao longo da primeira década deste. Mesmo que haja correntes de solidariedade, sempre parece insuficiente, por conta da grande desigualdade de distribuição de renda.

É desumano não se incomodar com essa situação. Porém, há alguns anos a humanidade do brasileiro polarizado pode ser questionada e, para muitos, todo o sofrimento alheio parece não existir.

O ano que termina trouxe sim esperança, um tempero de quase todo ano novo. Não é diferente com 2022, ainda que desde já se saiba que a polarização vai crescer em níveis altíssimos ao longo das semanas deste novo ciclo. Vai ser preciso força, convicção e determinação para colocar as coisas do passado no passado.

Com todos os seus tradicionais problemas, o Brasil é lindo e pode ser mais do que isso de hoje. É preciso resgatá-lo.

A bici

É um trabalho de formiguinha, em que quase cada ação individual conta, ainda que não seja notada. Assim que procuro trabalhar algumas questões ambientais com a Maria Flor, que do alto de seus dois anos e meio de vida, começa a compreender o que pode e o que não pode ao seu redor. A pauta, que se já tem um tom de urgência hoje, será muito mais presente quando a geração dela chegar à idade adulta.

Nisso, há algum tempo, reduzimos o deslocamento de carro entre a casa e a escolinha. Ao mesmo tempo que reparamos nos detalhes do caminho e da cidade, ela internaliza que o carro pode não ser tão imprescindível para nós como pareceu em outros tempos. Afinal, dá até pra ir à pracinha de bike. (Além de que andar de bici com o papai é legal!)

Dia desses, porém, chegou a hora de ir buscá-la e uma pequena crise de sinusite em mim insistiu em não passar. Até por segurança, optei pelo carro. Chegando lá, como sempre, ela corre, me abraça, mas estranha algo. E então pergunta: “Cadê bici?”

Pode parece pouco, mas para um pai é gratificante ver que algumas boas lições se consegue passar adiante. Que venham as próximas, o mundo espera bastante da gente, Flor.