Crise de quem?

cirkula

Houve um desafio e tanto sugerido pelo Carlos Corrêa uns dias atrás. Destrinchar esta crise no mercado literário, após os pedidos de recuperação judicial de Cultura e Saraiva. Se há uma impressão – comprovados por índices de mercado – de que as pessoas leem cada vez mais, como assim essas perdas milionárias? Que é crise é essa, afinal?

Ele falou comigo e com o sabido do Luiz Gonzaga Lopes para tocar a pauta. Entre pesquisas, ligações e entrevistas, foi surgindo uma reportagem, que é está na capa do +Domingo, do Correio do Povo deste 9 de dezembro de 2018.

Na minha contribuição, entendi um pouco mais este pequeno universo das livrarias de bairro. Desde como podem funcionar bem quando em parcerias até o poder de revitalização que conseguem gerar – quem não gosta de ter uma simpática livraria por perto – e sem precisar ir até um shopping center?

Outra coisa, descobri que hoje é bem mais fácil – e quiçá até lucrativo – publicar um livro. Com custos caindo até 40% na comparação com o ano passado. A crise, então, é de quem? Ah, e-books? Bom, isso é coisa só de quem lê vorazmente. Em pleno 2018, quase 2019, o consumo de literatura é algo sensorial. “As pessoas gostam de sentir o cheiro do livro”, disseram-me dois entrevistados, em diferentes contextos, ao longo da apuração.

Enfim, o texto no todo é grande e tem a opinião de muita gente do meio a respeito do mundo dos livros – especialmente nas bandas aqui do Sul. A versão online está disponível neste link.

ps: da minha parte, fiquei feliz em conhecer a livraria Cirkula – que também é editora e café. Daqueles recantos literários apaixonantes que encontramos bairros afora. Recomendo este passeio, caro(a) leitor. Fica ali no Bom Fim. 

ps2: no fim do ano passado, por ocasião dos dez anos deste blog, subi no Issuu um arquivo de word mal diagramado que defini como “quase um e-book”. Com a matéria, descobri que hoje é até fácil publicar um livro. Quem sabe um dia, quem sabe.

Anúncios

Repensar o Rio como capital

museu nacional

Museu Nacional do Brasil, no Rio

Uns anos atrás estava eu e meu pai resolvendo alguns problemas aleatórios em mesa de bar. À nossa pauta chegou a situação do Rio de Janeiro, ainda antes da eclosão de todo este escândalo de corrupção que fariam os fluminenses verem quatro de seus ex-governadores serem presos.

Ex-morador do bairro do Catete, o pai, convicto, defendeu a tese de que a mudança da capital para Brasília destruiu com o Rio de Janeiro. Para ele, menos do que todo o investimento na construção de uma metrópole do zero seria suficiente para manter o Rio em ótimas condições.

A invenção de Brasília quebrou o Rio, defende ele. Faz sentido. À época, enviamos a sugestão de pauta à coluna “E se” da Superinteressante – até contei aqui. Nunca saberemos, mas talvez e provavelmente o Rio de Janeiro fosse uma cidade melhor se fosse capital ainda hoje.

Lembrei da ideia e voltei a notar que ela não era tão absurda como algumas soluções tomadas em mesa de bar são ao ler este ensaio no Nexo Jornal. Nele, o diplomata Igor Abdalla sugere transformar o Rio em uma cidade federal – lembrando que diversos países têm duas capitais.

O Rio, ele cita, é ainda hoje sede diversos órgãos do governo federal, grande presença das Forças Armadas e por aí vai. O Rio é cosmopolita. É a cidade do Museu Nacional, da Academia Brasileira de Letras, da Biblioteca Nacional, entre tantos outros órgãos que levam o rótulo deste país.

E isso afora de toda um resquício imperial em suas ruas, algumas delas carregadas com parte importante de diversos momentos marcantes da história brasileira. Se Salvador foi capital por mais tempo, o Rio era a capital em momentos determinantes do desenvolvimento enquanto sociedade.

rio antigo

Para o bem e para o mal, o Rio é uma das principais vistas que o mundo tem do Brasil. Nosso principal cartão postal. E está necessitando de um resgate, de fato. Histórico e econômico. Revitalizá-lo como capital, cidade federal ou qualquer coisa que o ajude, fará bem, também, ao Brasil. É preciso repensar o Rio de Janeiro.

*Segunda foto retirada do site da Biblioteca Nacional, originalmente disponível neste link

Pontes ardidas

desamigo

Quando me dei conta, outubro terminara e diversas pontes ao redor de mim estavam ardidas em chamas. Caminhos interpessoais completa ou seriamente destruídos após uma sequência de dias que parecia não ter fim de discussões acaloradas geradas pelo acirramento político-eleitoral que grenalizou o Brasil.

Fui, tal qual milhões, para um dos lados. Convicto! E lamentei ao ver tantas pessoas com quem nutria consideração irem para o lado oposto de maneira tão feroz, para não dizer cega. Neste clima de decisão de campeonato, o cabo de guerra foi forte e, não raro, terminou sem vencedores nesta disputa, em que ninguém dos meus se beneficiou diretamente com o resultado das urnas. Encerrou com a ponte – muitas vezes construída nas redes sociais – ardendo em chamas. Destruída.

No rescaldo, somei um pequeno punhado de amizades desfeitas na maior das redes sociais, das quais uma eu lamento mais. Para outras dezenas, optei simplesmente em não saber mais nada a respeito via timeline – medida meio amarga, mas que considerei necessária, para evitar novas decepções com aquilo que me era exposto diariamente. Cada um tem direito à opinião e à expressão – e sou árduo defensor disso. Porém tenho a opção de querer ver ou não tal conteúdo. Em não podendo colaborar em debate e se sentir ofendido, melhor tirar o time de campo, afinal.

Mas fato é que algumas dessas pontes ruíram, porque, a bem da verdade, sequer precisariam ter sido erguidas. Eram não mais estruturas provisórias que, por algum motivo, por lá ficaram. Aquela pessoa desimportante que os funcionários de Mark Zuckerberg insistem em te deixar atualizado, quem não tem um caso desses?

Nestes dias de novembro, há ainda quase nove centenas de pessoas que podem me chamar de “amigo” na maior das redes. Raríssimos são os que sequer conheci. Porém a maioria não vai ou iria à minha casa, por exemplo. Preciso, de fato, um número tão grande? (E isso que há tantos outros com muito mais “amigos”)

Algumas dessas pontes entre mim e outras vidas e opiniões foram destruídas e ok, vida que segue. Entre perdas e ganhos, não são de se lamentar. Não para mim e imagino que a via contrária tampouco se importe – tenho que reconhecer que, se evito consumir conteúdo postado por outrem, o mesmo pode acontecer em relação a mim. É necessário reconhecer-se como apenas mais um.

Há outras pontes, entretanto, às quais será preciso dar um jeito de se reconstruir. Talvez alguém terá de ceder ou ter a humildade de buscar a reconciliação e propor um novo alicerce. Perdoar e pedir perdão por aquela defesa de posicionamento mais exaltada. Ainda não é 2019, mas apostaria que essa pode ser uma resolução de ano novo para muitos.

Nisso, um retuíte aleatório de alguém me traz essa mensagem quando comecei a escrever este texto:

Se esses ruídos eleitorais todos propõem uma reflexão sobre a vulgarização da quantidade de amigos, também podem nos fazer pensar da importância daquela amizade verdadeira abalada pela divergência de opiniões. Todos, inclusive nós, ao fim e ao cabo, têm seus defeitos. Mas: valeu a pena?

Pode ser que ainda esteja quente pelo calor desta eleição polarizada terminada há menos de um mês. Convém lembrar, porém, que governos e eleições vêm, vão e passam. Amizades das verdadeiras e parentescos, esses acabam ficando. Todo ano tem Natal.

O dia seguinte

Livro dia seguinte

Meio esgualepado, mas com conteúdo

Quando dei por mim lá estava correndo em direção às escadas, refutando toda a tranquilidade que havia planejado para aqueles minutos vespertinos. Às pressas, então, recolhi cadeira, revista e chimarrão e pus-me atrás da cachorra. A leitura no terraço do prédio ficara para outra hora. Uma hora em que eu tivesse a certeza de qua Lisbela não encontraria com os gatos do 401.

Desci e logo depois me arrumei e fui trabalhar, tal como reza a minha cartilha proletária. Nem passou pela minha cabeça de que o livro poderia ter ficado na laje, abandonado em meio à correria. Choveu – e não foi pouco – aquela noite.

Antes de dormir ainda o procurei. Mas mesa de jornalista é aquilo. Tem revista, caneca, jornal e, claro, contas. Tudo a ser conferido, guardado, lido – e pago. Não encontrar um livro específico já em meio ao breu da madrugada soou mera trivialidade, portanto.

Foi, sim, na manhã seguinte que me dei conta. E, puta que pariu, de fato concluí que a chance de o livro ter ficado lá em cima era enorme. “Mas que grande bosta, Tiago”, penitenciei-me, já ao vê-lo posto no sol para secar, pela faxineira do prédio. “E ainda me custou quase 50 contos.”

Há, no entanto, um detalhe – revelado só no quinto parágrafo de propósito. O livro reúne crônicas do Vitor Necchi. E, ironicamente para esta situação, é intitulado “Não existe mais dia seguinte”, lançado no mês passado pela Editora Taverna.

Pois teve.

Se na hora que o vi já me preparei psicologicamente para desembolsar seus R$ 44 para um novo exemplar, ao abri-lo, me surpreendi. Não tinha nada de tinta borrada, nem mesmo a dedicatória que ele fez pra mim e minha mulher – por sinal foi essa a primeira pergunta que a Ana fez ao saber do ocorrido.

O livro do Vitor, tal como seu autor, sobreviveu àquela noite de tormenta e chegou ao dia seguinte. Com elegância. Precisou de algum isolamento, um tempo ao sol e à luz para se recuperar. Mas seu conteúdo está lá e, diria, em ótima forma. Passada a tempestade, houve enfim um descobrimento. Do professor que agora também é escritor.

Alguém que escreveu diversas sacadas “que eu gostaria de ter escrito”, para usar a mesma provocação que o então futuro autor nos passava quando lia referências nas salas da Famecos. Nessas sequências de chuva e sol, é sempre bom se reencontrar nas metáforas da vida e da literatura.

Livros dos meus mestres

livros

Este trata-se de um post que vem para esta página com cerca de 24 horas de atraso. Mas tudo bem, a vida é corrida. E em homenagem ao Dia do Livro, celebrado nesse 29 de outubro que recém passou, festejo esta foto de dois livros, de duas pessoas com extrema relevância para a minha formação.

O primeiro já falamos por aqui, um biografia do professor Marques Leonam, um marco no aprendizado de uma geração inteira de jornalistas gaúchos no que tange o ofício do repórter, a busca pela notícia. O segundo, “Não existe mais dia seguinte”, apesar do nome pós-apocalíptico – que até poderia ser apropriado a muitos derrotados eleitorais nesse segundo turno – é uma obra mais amena: o primeiro livro do professor Vitor Necchi.

O lançamento desses dois livros neste ano acabou por ser uma feliz coincidência – também pelo fato em que ambos geraram grandes filas e abraços apertados. Na Famecos da primeira década deste século, Leonam e Vitor, não nesta ordem, foram os responsáveis por ministrar as disciplinas de redação aos futuros jornalistas que frequentavam aquelas salas de aula – dentre eles, eu.

Se Leonam pregava o tino da reportagem, Vitor ensinava o refinamento do bom texto – e a diferença que isso faz para o leitor. A aula dos dois se complementava: jornalismo é uma missão em prol da cidadania, mas também pode ser uma arte e, como tal, deve se moldar para atingir os mais variados públicos – culto, popular, gonzo…

Então, com um dia de atraso, contudo ainda fazendo referência ao Dia do Livro, meu muito obrigado aos professores, que tanto contribuíram na minha formação.

O jornalismo, o zap e o divã

zap

O post anterior teve objetivo inicial de fazer uma breve provocação aos jornalistas. Mais pelo lado tecnológico e da necessidade de se manter próximo, especialmente, de novos e futuros leitores, sem apenas esperar que eles venham até os veículos – algo que, na era analógica, acontecia naturalmente.

Porém, até em razão do avançar da cobertura política, já se adiantou ao prenunciar o que haverá tão logo em breve: o jornalismo no divã. Agora não necessariamente falando sobre tecnologia e sim em termos de credibilidade. A questão que estas eleições estão escancarando é: por que devo acreditar em um jornal?

Talvez – pois aqui não haverá respostas, no máximo propostas de linhas de pensamento: a reflexão pode se fazer do cenário em que a leitura de veículos ficou cara e distante, seja por questões de tempo ou dinheiro para passar do paywall, essa barreira cada vez mais comum. Pouco a pouco nos últimos anos, a entidade “grande imprensa” se afastou de grande parcela do público. Isso ao mesmo tempo em que diversos sites, tanto com viés à esquerda ou à direita, surgiam como fontes.

Esse afastamento pode ter sido muito foco em jornalismo e pouco em comunicação. Um olhar demasiado sobre a influência do Facebook e suas constantes mudanças nos algoritmos que fez, esquecendo-se de outras formas de se conversar (e se informar). O WhatsApp, ainda que esteja instalado em praticamente todos os smartphones, quiçá tenha ficado em segundo plano nas redações, visto muito mais como um receptor de sugestões de pautas do que um emissor de conteúdo – mesmo que alguns jornais transmitam conteúdo pelo app. Alguém que tem tino para comunicação deu-se conta que aí havia uma grande ferramenta de massa.

Parêntese: aqui a jornalista Maria Carolina Santos faz uma brilhante análise do crescimento do “zap” em meio à “queda” da imprensa. É um baita texto, ainda que o alerta já havia sido dado meses antes, quando um estudo advertia sobre os planos pré-pagos de celulares que forneciam somente alguns aplicativos gratuitos, que, resumindo, davam ao leitor de baixa renda acesso ao ruído, entretanto impedia a verificação em algum site jornalístico. Aí, como escreveu o professor Luiz Ferraretto, a informação pendeu para os grupos de afinidade.

Tal situação pavimentou o caminho a um cenário em que as fake news deitaram e rolaram ao longo desta eleição. E, em boa parte, a favor do líder das pesquisas e provável futuro presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Só por isso que ele está perto de vencer o pleito? Claro que não. Há diversos outros fatores e vetores para sua provável vitória. Mas no que tange o jornalismo, essa é uma das mais importantes: o jornalismo acabou sobreposto a memes. A lacração venceu a apuração. E quando destacou-se, foi em parte desacreditado.

É preciso perceber e corrigir diversos pontos. Uma auto-análise. Em que momento o jornalismo se afastou assim da vida das pessoas? Distanciou-se a ponto de ofuscar a credibilidade de veículos com décadas no mercado. Houve algum esforço e preocupação para a contenção de notícias falsas. Contudo, ao que parece, o esforço focou demais no Facebook e esqueceu-se do WhatsApp. O jornalismo não viu isso?

A sobrevivência de um veículo em meio a um mercado em transformação é complicado, mas o jornalismo tem uma missão antes de tudo, que é a de informar. Então, o paywall é necessário (ou mesmo até ético) em matérias e reportagens de grande interesse público? Tão importante quanto: qual o meio termo para isso? O bom jornalismo sempre foi caro, afinal.

O jornalismo precisa de um divã para refletir sobre as diversas questões que analisará a partir deste outubro. Provavelmente levará tempo até entender tudo.

Desapegos

jornais - bancaPara que serve um jornal e para que serve o jornalismo?

O que parece um questionamento cuja resposta tenderia a ser instintiva e fácil torna-se uma pergunta complicada em redações por aí – em níveis regional, nacional e internacional. Talvez por que o nome da profissão derive de seu meio mais consagrado. É uma hipótese. Mas também é uma forma de apego.

Já são mais de 20 anos de internet comercial e pelo menos 17 de hard news na web. E ainda assim boa parte do jornalismo se vê apegado a um pedaço de papel que já está sendo vendido como substituto de tapete higiênico para cachorros na principal avenida da maior cidade do país.

Nesta mesma avenida, as bancas de revistas cada vez mais tornam-se apenas bancas. Em meio a crise de editoras outrora poderosas, o meio, igualmente impresso, perde destaque em vitrinas que já foram inteiramente suas para souvenirs e toda sorte de quinquilharias que possam render um dinheiro mais imediato ao dono do estabelecimento – alguns que já aceitam até Vale Refeição para vender Mickey de pelúcia:

banca jornais

São exemplos visíveis: o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor, além de retomar a credibilidade perdida em algum momento, quando, por alguma razão, afastou-se ou foi afastado do público ao qual costumava informar.

Vivemos o ínterim dos turnos de uma eleição que ficará marcada pela ampla propagação de notícias falsas e também por ser pleito em que as pessoas se informaram mais olhando a tela de um aplicativo de troca de mensagem no seu celular do que em um site de jornal. É o caminho para um Estado de desinformação e isso não é bom.

O público precisa voltar a confiar massivamente no jornalismo. Mas o jornalismo precisa dar essa garantia de que é confiável.