A ausência do Prêmio Esso como reflexão

Sabemos, é a crise. Essa danada que faz fechar empresas mundo afora, além de fazer milhares de trabalhadores. Testemunha-se, como nunca antes, no meio da comunicação. Aquele dito de “não está fácil pra ninguém” poucas vezes foi realmente tão verdadeiro. Inclusive aos que não são atingidos pelo voo do passaralho, com o acúmulo de funções.

E a crise, em especial a do Petróleo, fez a ExxonMobil cancelar a edição 2016 do tradicional(íssimo) Prêmio Essom ainda em 2016. Pela primeira vez depois de mais 60 anos consecutivos. Até não chega a surpreender. Afinal só em 2015 a empresa gastou R$ 123.200,00 em prêmios para competentes jornalistas. Em épocas de Lava Jato, para que repetir a dose com… jornalistas? Esses mesmos, que produzem esse jornalismo.

Não houve em 2016, numa decisão divulgada em maio. Passados quase nove meses, não se sabe se haverá em 2017. Se a “pausa para reformulação” primeiramente anunciada foi um hiato ou um fim. Coincidência de 2016, além da suspensão do Prêmio Esso, foi a escolha da “pós-verdade” como palavra do ano. Algo que ganha força a partir do declínio do bom jornalismo ou com, no mínimo, o fato de o leitor não saber onde está o bom jornalismo, que significa, em outras palavras, que o público, em algum espaço de tempo passou a questionar a grande mídia.

Ao bom jornalista, fica o convite à reflexão do que se pode fazer para melhorar o próprio trabalho, como numa tarefa de formiga, que, pouco a pouco, faz o bolo crescer. A névoa da pós-verdade é um incentivo à boa apuração, à clareza dos fatos, para não deixar arestas ou questionamentos de quem ganha com ela. No fundo, um desafio. É tempo de reforçar a credibilidade da imprensa. E só com bom jornalismo se faz isso.

Bom para o trabalho, também, de analisar as coberturas, especialmente àqueles que estão na academia. A turbulência política e a mudança drástica dos atores e partidos que hoje estão no poder e a forma como são tratados, especialmente pelo mainstream da mídia, é quase um tema pronto de monografias, dissertações e teses para estudantes que não permitem-se afastar muito das redações – que, costumeiramente, podem ser bem diferentes de como são pintadas em salas de aula.

 

O Brasil ainda não entendeu o carinho que recebeu da Colômbia

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Foto: Vítor Silva / SSPress / Botafogo

Depois da comoção mundial do #ForçaChape o que mais se notou no estádio Nilton Santos, o famoso Engenhão, foram as novas cores dos assentos com o distintivo e as cores do Botafogo. Ficaram à mostra devido ao baixo público no jogo entre Brasil e Colômbia que serviu para arrecadar fundos à Chapecoense.

A falta de um estádio lotado nesta situação escancara que o brasileiro não teve a percepção exata do que aconteceu em Medellín há quase dois meses. Não do acidente e sim do dia seguinte: comovidos com a tragédia, 100 mil colombianos foram o estádio Atanasio Girardot – e muitos ficaram de fora dos portões por falta de espaço nas arquibancadas – não pelo futebol, mas sim por uma incansável solidariedade.

Dentre as vítimas fatais daquela tragédia, lembre-se, não havia sequer um colombiano, e sim brasileiros, paraguaios, bolivianos e um venezuelano. Nenhum deles era alguma pessoa famosa para comover a região por si só.

A mera comparação do tamanho do público no Rio e em Medellín é injusta também. Por uma série de fatores, que vão desde a comoção do calor do momento, da proximidade com o acidente e passam também pelo valor do ingresso (o mais barato era quase 10% do salário mínimo) e do horário – na Colômbia a homenagem foi mais cedo, às 18h45.

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Em Medellín não se notou a cor dos assentos

Porém, o baixo público e até um pouco de descaso com o evento em si mostram, mais uma vez, a falta de empatia do Brasil para com seus vizinhos sul-americanos. Num exercício de reflexão, seria difícil imaginar a cena ao contrário, de uma comoção no Brasil pela morte de dezenas de colombianos em Curitiba, por exemplo.

Em regra geral, o brasileiro sempre parece estar mais atento ao que acontece nos Estados Unidos do que aqui ao seu lado. O próprio turista, se pode, prefere antes ver de perto os Alpes na Europa do que a grandeza dos Andes.

Ironicamente, a manchete de alguns sites do Brasil enquanto ocorria o jogo era sobre a possível construção do muro na fronteira dos Estados Unidos com a América Latina.

Apesar da boa ação dos presentes no Engenhão, o jogo entre Brasil e Colômbia soou como uma oportunidade perdida. Tanto de agradecer ao povo colombiano por aquele lindo e carinhoso alento num momento tão dolorido, quanto para a Chape, que desde então ganhou milhares de novos seguidores e fãs em redes sociais, mas segue precisando de uma boa grana para reerguer-se.

O mundo é sempre maior que a nossa opinião

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O mundo é bem maior do que qualquer reprodução

Uma pequena continuação do post passado, talvez com ideias mais claras. A questão dita ali não é censurar a opinião, mas não deixar-se enganar pelo espectro da própria convicção. É necessário buscar a maior clareza possível, sempre, principalmente quando se fala a pequenas multidões, como são (ou eram) os leitores de jornais.

Por exemplo: dias atrás um colunista daqui de Porto Alegre escreveu que sua meta de vida é trabalhar até os 100 anos, que seu pai ou avô também labutaram terceira idade a dentro. Alcançá-los será motivo de orgulho ao jornalista com fama de intelectual na praça e espaço garantido a propagar suas opiniões desde uma redação ou estúdio com ar condicionado, sem falar no salário pago em dia e dos mimos do cordel dos puxa-sacos.

Neste assunto, mais recentemente, a revista Exame tentou emplacar uma comparação com Mick Jagger (!!) exemplificando como pode ser “ótimo” desde que haja preparação para isso. Uma matéria que deve ter lá seu mínimo embasamento, mas que soa muito mais como publicidade do governo da hora do preocupação com o bem-estar geral. Ainda mais se considerar a mudança editorial em cinco anos:

Não há nada de errado trabalhar até quando for possível, ignorar a aposentadoria. Porém acatar esse pensamento como majoritário acaba por demonstrar uma ignorância imensa da cidade, Estado e país em que se vive, onde trabalho, talvez na maioria dos casos, não seja sinônimo de prazer e sim de obrigação.

O Brasil – que já foi muito mais desigual, é verdade – é um país cuja média salarial não chegava a R$ 2,5 mil em 2016, com possível tendência de queda devido à recessão. Nas duas maiores capitais do Nordeste, essa média não chegava a R$ 1,7 mil. E só aqui estamos falando de 4 milhões de pessoas.

Tais números apenas para a questão ficar na esfera econômica. Há uma série de outros fatores, como esforço (e lesão) físico e exposição a riscos, que facilmente podem ser ignorados se o dito articulista – trabalhe ele em jornal ou não – mantiver-se concentrado apenas no computador à sua frente enquanto pensa qual ideia tornará pública a seguir.

Fará bem a eles (e seus leitores) perceber o quão grande é o mundo e suas diversas realidades. Muito maior que quantidade de likes, RTs e compartilhamentos que qualquer post. E bem maior que qualquer opinião de gente que não lembra a última vez que andou de transporte público na própria cidade no horário de pico.

ps: talvez seja bom para o contexto lembrar que vivemos num mundo onde oito pessoas têm a mesma riqueza que outros 3.600.000.000 seres humanos.

Das opiniões de cada um

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Realidade é algo muito maior que um olho mágico

São momentos de turbidez, sem dúvida. Há os que achem que pouco muda, há os que temem o início de uma era perigosa neste 2017, após um 2016 de resultados democráticos, mas que não necessariamente representam a voz da maioria mundo afora. Ou, pior, representam uma voz de poucos que falam muito. Extremistas.

Extremos, o mundo sabe, não resultam em lembranças salutares.

O extremo tem seu lado cativante, é importante perceber. Expressar-se sem pudores ou vírgulas. EM CAIXA ALTA para dar mais ênfase. Colocar para fora, enfim, o que se sente, o que se pensa no íntimo. Danem-se os freios da boa conduta social ou da chamada netiqueta (justo nesses tempos, alguém se lembra deste termo?).

Mas se por um lado o extremismo oferece essa sensação de liberdade aos comentários e teses – seja no exagerado te amo quanto na virulenta crítica – ao mesmo tempo isso diminuí consideravelmente a visão de mundo. A imposição da opinião é oposta ao contexto, hoje tão necessário em épocas de bolhas.

Se há alguma coisa que se aprende ao se conhecer novas pessoas, lugares ou culturas é de que pontos de vista são infinitos. Se são melhores ou piores, cabe à própria consciência julgar – ou preferir nem fazê-lo. Porém, saber dialogar com opiniões divergentes é, no mínimo, um convite à inteligência. Ao menos mal não faz.

É uma questão de comunicação, sim, o debate e o esclarecimento do extremismo. Debate, aliás, algo suprimido com a massificação das redes sociais, onde muitos acreditam naquilo que lhe convêm.

Foi algo evolutivo: há 13 anos o Orkut conectava ex-colegas de colégio ou ex-vizinhos. Hoje, o Facebook liga ao crush desconhecido que fizeram check-in em determinado lugar. Antes, mal havia espaço para discussão em redes sociais, hoje se posta qualquer conteúdo e existe a possibilidade de pagar para que ele alcance ainda mais gente.

Cabe à própria pessoa, claro, decidir o que fazer com relação às próprias opiniões e querer entender ou não que vive numa bolha, seja na sua rede social virtual ou na real. Mas o comunicador, principalmente o jornalista, não tem direito a renunciar à diversidade de opiniões. Especialmente se trabalha num grande veículo de… comunicação.

A credibilidade ou, como gostam alguns, o seu prestígio, depende disso. Com o tempo se percebe.

Brinde aos injustiçados

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Uma foto de 2013 tão atual quanto nunca havia sido

Que 2016 não foi dos anos mais fáceis, isso não há dúvida. Em livros de história do futuro é bem capaz que olhemos o que foram esses 365 dias e questionemos: “Como é que fizeram isso?”. Pudéssemos, por certo mudaríamos muitas das coisas feitas nesse período.

Mas, a bem da verdade, que ano que passa incólume na nossa avaliação? Toda trajetória é feita de erros e acertos, perdas e ganhos. Às vezes mais, às vezes menos em proporção. A banca paga e recebe, enfim.

Este ano, ao menos pelas pessoas que me cercam – o que pode ser simplesmente efeito da minha bolha social – parece que não deixará saudades alguma. Há pessoas dando graças a Deus por 2016 terminar como se janeiro de 2017 fosse a certeza da redenção.

O meu ano também não foi dos melhores, como o da aparente maioria. Porém ainda insisto em manter um otimismo teimoso, quase inexplicável. Se vou ter que lembrar dos momentos complicados deste ano, que ao menos não quero esquecer dos bons, que, se não foram maioria, tentaram compensar em felicidade, como em certa feita escrevi, por exemplo, aqui e aqui. São injustiçadas horas boas em meio ao dramalhão deste ano.

Nem tudo foi perdido. Nunca é. E, se ainda não encontramos o momento definitivo e insuperável desta existência carnal, temos chances. Isso já tem que nos bastar: a teimosia da esperança de acordar para um dia melhor. Nem que seja ano que vem.

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Hay de tener fe

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Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Florianópolis

“No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, provoca o famoso ditado em espanhol. Pero no solo brujas, sino también santas y dioses. Hay mucho más cosas entre el cielo y la tierra, podemos complementar, ainda no seu idioma original, assim como concluir que na hora do aperto não existe ateu.

Pois bem.

Anos atrás apresentei aqui a Nossa Senhora de Cidade Baixa, que na verdade era Nossa Senhora da Conceição disfarçada. Uma santa que me acompanhou no peito por alguns anos e hoje está guardada como uma querida relíquia em algum lugar da minha casa, ao lado do Santo Antônio que a substituiu no posto de pingente.

A verdade é que nutro grande respeito por ela, mas que a vida me afastou do catolicismo, aproximando-me do espiritismo. Tenho, contudo, muito carinho, em especial aos santos supracitados. Se existem e fazem milagres? No lo sé, pero que los hay, los hay.

E foi nessas obras do acaso que, após um congestionamento enorme na Lagoa da Conceição e a sequência de três motoristas mal-educados que não permitiram que eu trocasse de faixa, que mudei meu rumo, no meu último dia com 30 anos de idade. Conhecer o Projeto Tamar ficou para outra hora, que fôssemos a qualquer lugar longe daquele trânsito antônimo ao clima de verão.

Segui a esmo, então, a um dos poucos lugares não visitados em Florianópolis: o santuário da Imaculada Conceição, morro acima, na Costa da Lagoa. Igrejinha bonita, estilo barroca (?) e semelhante às mineiras que vi em Ouro Preto.

Após apreciada, chegara a hora de partir. Só que partir dali o carro não quis. Tentei uma, duas, 15 vezes e o veículo nem ligou. O cenário dramático contava com calor intenso, pouca água e sinal fraco de celular. Eis o que o homem de 30 anos age como filho mais uma vez e liga pelo socorro do pai.

Chega o velho: tenta-se uma ou duas soluções e não tem jeito. O negócio seria tentar pegar no tranco mesmo. Empurra-se o carro lomba acima e, antes da decida, de fora do carro reparo no outro lado da praça defronte à igreja e lá estava ela: Nossa Senhora da Conceição, abrigada por uma pequena gruta e cercada de velas devotas. Desci até mais perto para ver a imagem, sorri um sorriso imerecido de quem pede o tecnicamente impossível. E de lá escuto um motor: o carro pegou!

Depois ainda lembrei que não voltei a virar o rosto para agradecer, tamanha a surpresa com a inesperada partida do veículo. Ainda que ele tenha apagado em seguida, voltou a pegar no tranco e, sãos e salvos, todos chegamos onde tínhamos que chegar, quilômetros dali – para de lá trocar a bateria, claro.

À noite, rezei e agradeci à velha protetora da família, que já foi tanto à Cidade Baixa de Porto Alegre quanto ao alto de um morro com seu nome em Florianópolis apenas para dizer: pode contar comigo.