Crônica de uma madrugada em aeroporto

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A380: uma gigante distração

O funcionário do aeroporto de Guarulhos desceu 36 degraus desde a plataforma até a pista. No topo, o ponto mais alto da escada ambulante mal chegava à altura do segundo andar de um A380, o maior avião comercial em atividade do mundo. Era início de madrugada e o gigante ali era a única atração off-line do momento para aqueles que tinham horas pela frente no saguão do embarque.

O A380 não completou um trimestre de atividade no Brasil. Sua imponente presença ainda chama a atenção. Pudera, não é qualquer máquina que faz caminhões parecerem carrinhos de fricção ao seu lado. Outros aviões também se apequenam quando lado a lado.

Mas seu embarque não é fácil. Antes de voar por cerca de 15 horas de São Paulo até Abu Dhabi (ou seria Dubai?) ele leva umas duas horas desde o primeiro vip até o último passageiro atrasado entrar na aeronave. Mesmo a observação do gigante, feita de um banco improvisado no café, torna-se algo bem cansativo – e desconfortável – com o passar do tempo, que insiste em se arrastar.

Ainda assim, reparar em toda a logística de um A380 pode ser mais interessante que checar, rechecar as redes sociais sonâmbulas no início de madrugada. Não à toa que o avião segue atraindo curiosos junto às janelas para a pista. Muitos, como eu, tirando fotos para logo em seguida se decepcionar com a qualidade da imagem, prejudicada pelos reflexos do saguão diante da escuridão em frente.

Aeroportos costumam ser lugares bacanas para observações. Cada passageiro e tripulante leva consigo uma história. Uma origem e um destino, que não necessariamente são na cidade presente. Idiomas, tradições e manias se cruzando aleatoriamente nestas esquinas da vida. Uns apressados, outros em marcha lenta de férias. Provavelmente para nunca mais se aproximarem outra vez.

Quase 2h. Finalmente inicia o taxiamento do A380. Em pouco mais de três minutos, ele sai da nossa frente e vai para a pista, de onde ganhará os ares noturnos em seguida. Tudo viraria um marasmo total ali no café. Mas ao menos o acaso decidiu dar um prêmio pela atenção dispensada. Tão logo o gigante partiu, vagaram preciosas poltronas com um conforto ok. Como nem tudo é perfeito, o som das obras da madrugada afastam qualquer possibilidade de paz sonora.

Um pequeno grupo de pessoas dorme à minha volta, na posição que lhe é possível no espaço da poltrona. E haja criatividade, além de coluna, para conseguir descansar, por melhor que seja na comparação com o banquinho da hora anterior. Invejo-os. Simultaneamente ao tempo que para eles passa mais rápido, vou sendo levemente torturado pelo sono, que tira a disposição e a concentração para a leitura do livro de bordo.

Sobra só a observação e a escrita, companheiras fiéis de um jornalista insone. E ainda me faltam três horas para o meu voo…

Tenha cuidado, Rafael!

carta_liniers5O mundo não está nada fácil, Rafael! Tenha cuidado.

Te juro, queria te prometer mundos, fundos, fantasias e alegrias. Basicamente isso: um grito de gol, que vais descobrir que é uma dos momentos de mais efêmera alegria desta tua nova encarnação – especialmente pela Libertadores. Mas teremos uma caminhada um pouco árdua pela frente.

Tu chegas numa época quase sombria, ainda que tua avó me condene por falar isso. Diz ela que ando bem pessimista, ainda que, infelizmente, entendo-me mais como realista nestes dias. Trabalho com notícias e vejo que elas não estão nada boas. Então, furtivamente te peço: vai por mim.

Não leve a mal, não foi bem por nossa culpa, mas tu vens para uma realidade que enfrenta velhos problemas que talvez tenhamos pensado que já estavam resolvidos, além de novos desafios que sequer imaginamos. Tudo isso tu saberá identificar, fique tranquilo.

E é justamente por isso que tu vens, Rafa. Tu, já do alto dos teus quase 50 centímetros (quase meio metro, cara), representas uma baita de uma esperança para nós. Ela e tu só vão crescer, dia após dia. Porque se as coisas estão complicadas, sim, mas tu vais ter uma grande luz para encarar a vida.

Calma. Essa missão não é só tua. Tu vai ter vários amigos ao teu lado e aqui vou te citar só alguns: a Laurinha, a Sofia, o Vinícius, a Cecília, a Clarice e todos esses que estão chegando contigo. Claro, inclui o agora-irmão-mais-velho Luan neste barco. Além da Liz e da Raíssa. (Três irmãos por estes dias é um privilégio, hein)

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Rafa, o mundo não é fácil e por isso tens que conhecê-lo para compreendê-lo melhor. Provavelmente não será possível ir a todos os países e cidades, mas, sempre que saíres de casa para ir aí na esquina buscar o pão para o café da tarde, não esquece da chave que abre todas as portas: teu sorriso. A partir dele, transparecerás toda a tua luz e bondade que vais receber desta turma em que estão tua mãe, teu pai, teus avós e teus tios, como este que te escreve agora. É bastante gente, em um monte de lugar, para tu teres a certeza de que nunca estarás sozinho.

Estuda, Rafa. Precisamos de conhecimento para perceber e entender o que é a verdade no que nos rodeia. Para não acreditar em qualquer coisa numa era com excesso de falas e pouco contexto. Mas não deixa de te divertir. Com o tempo perceberás que risadas gostosas são das lembranças mais marcantes que temos. E espero poder estar contigo em várias destas.

Com amor,
Tio Tiago

ps1: As tirinhas que ilustram este post são de um argentino chamado Ricardo Liniers. Espero que tu leias muito ele ao longo da tua vida. Esta faz parte de uma carta aberta que ele desenhou à sua afilhada e que me inspirou para escrever para ti. A íntegra dela está aqui nesta apresentação:

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ps2: Apenas para eu me lembrar, porque gostaria de nunca esquecer: terminei este texto depois das 23h de um domingo, 9 de abril. A tia Ana dorme serenamente do meu lado no sofá, teu avô Celso foi para a cama agora há pouco. Todos ansiosos pela tua chegada, prevista para daqui a cerca de nove horas. Durante o dia, traçamos até um mapa astral teu, como se fosse possível reunir todas as melhores qualidades para te oferecer.

Rafa, tenha certeza: ainda que o mundo não esteja nada fácil, amor não te faltará.

Olhos de ressaca

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Nunca tinha sido muito próximo aos livros. Não percebera, então, que aquele era bem mais que um simples olhar. Bem mais.

Dentre tantos relacionamentos líquidos, deixara de notar justo a sua Capitu. Não viu seus olhos, lembrou-se apenas na ressaca.

Agora fica no aguardo. Quem sabe de um próximo romance. Talvez algo do realismo, pois de poesia (e subjetividade) passou longe.

Desculpe não falar francês, Zaz

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Zaz: uma cantora irriquieta

É, de fato, uma pena não ser fluente em francês. Uma pena, pois impede ao espectador compreender tudo o que se passa no universo musical da cantora Zaz, que se apresentou em Porto Alegre na noite desta terça-feira, diante de um Auditório Araújo Vianna lotado.

Falante – apesar da barreira linguística entre ela e a maioria dos fãs à frente –, bem-humorada e simpática, ela abriu a turnê brasileira no Rio Grande do Sul em um show que durou cerca de 1h40min.

Por aqui, a francesinha espoleta ainda passará por Rio, São Paulo e Brasília, antes de rumar para o Hemisfério Norte para daqui a um mês e pouco estar cantando a um público nativo de idiomas mais complicados, no Japão.

Em sua segunda apresentação na Capital, Zaz não poupou energia. Acompanhada de seis grandes músicos, ela desfilou sucessos próprios e regravações. E tudo num ritmo frenético, com direito a muitos pulos, caretas e dancinhas improvisadas, além de gritos num português torto: “Maix fórrtê!”.

“Je veux”, “Les Passants” e “Paris sera toujours Paris” foram apenas três das muitas canções que ecoaram nas bandas da Redenção ao longo da noite. Entre tantas outras cujas o jornalista, preso à ignorância linguística, não saberia escrever da forma correta. Apenas cantarolar e bater palmas.

Se é difícil para a maioria do público de Porto Alegre compreender a língua materna de Zaz, para a francesa, arriscar-se no português também não é nada fácil. Mas ela encarou o desafio. Antes, porém, viajou pelo espanhol, cantando o clássico “Dos Gardenias”, dos cubanos do Buena Vista Social Club. Em seguida, aí sim, entregou-se ao idioma dos fãs do momento ao cantar “Samba em Prelúdio”, de Vinicius de Moraes.

Definitivamente, mais uma francesa ganhando o mundo com sua voz. Tal como Edit Piaf? O tempo responderá. Mas se depender do talento e da alegria de estar em um palco, sim.

A apresentação, que contou com um cenário em constante transformação devido aos efeitos das projeções de iluminação, contou com a participação de duas cantoras daqui, entre elas Valeria Houston Barcellos, em duetos que afloraram emoção – sensação que a boa música gera.

*Texto ampliado da matéria publicada no CP após o show

Eu sempre voltei, Porto Alegre

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Dos temporais que encaramos juntos…

Uns anos atrás li uma crônica da escritora Carol Bensimon, que até hoje traz uma definição que adotei para falar de Porto Alegre: “Nós quebramos pratos às vezes, mas voltamos a nos entender”.

Da minha parte, lhes garanto: estamos quebrando pratos como nunca! A vida longe do pôr do sol do Guaíba nunca tornou-se tão atraente como nestes dias. Ruídos na nossa relação, não têm faltado. Mas por respeito não os cito aqui e, irônica e maldosamente, apenas recomendo: olhem ao redor, leiam os jornais.

A vida não está fácil neste polo meridional brasileiro.

Porém temos um vínculo forte, precisamos admitir também. Porto Alegre, fosse uma pessoa, seria alguém que relutaria a ligar neste domingo para desejar-lhe feliz aniversário. Seria alguém merecedora, sem dúvida, mas talvez não quisesse vê-la de perto neste momento. Admito, contudo: de mim, receberia essa ligação por volta das 20h. Seria cínico, como quem fez pouco caso e passou o dia ocupado demais para uma cortesia.

Ligaria porque respeito o nosso passado. A canção-clichê diz “Porto Alegre me tem”. É um pouco verdade, através das minhas recordações em muitos de seus cantos, alguns dos quais já nem existem mais senão em minha nostalgia infantil. São já três décadas divididas em pequenos espaços de tempo em diferentes ruas, bairros e épocas daqui.

Ligaria, também, porque incrivelmente ainda acredito no nosso futuro – ainda que não muito nestes imediatos anos, deixemos claro. E mesmo quebrando mais um prato, a raiz é forte. Tal qual a esperança. Não é tão mais difícil te imaginar uma cidade melhor.

Aliás, o encanto de grande cidade pequena – ou de pequena cidade grande – é que é raro. Porto Alegre o tem, ainda que insista em sair crescendo de forma atabaolhada e que sua gente tenha mania de se encantar por “modernidades” bestas que transformam o antigo em velho, maltratando a própria história.

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…na certeza de uma bonança vindoura

Não sou, tampouco serei fiel a Porto Alegre. Declaro amores a outros lugares, pego a freeway ou decolo do Salgado Filho com um sincero sorriso no rosto. Reparo e às vezes simpatizo ao encontrar aquilo que não acho aqui. Eu gosto de viajar. Mas eu sempre voltei, Porto Alegre.

Força oculta

motos

A rua estava completamente trancada. Era horário de pico de uma quarta-feira, com a maioria das pessoas indo de casa. Não havia escapatória no trânsito. O jeito era esperar as mais de 10 mil pessoas e seus cartazes passarem pela avenida central ali adiante.

O inerte destino se aplicava até para as motos. Resignado, reparei no banco na calçada e atraquei, aproveitando para tirar o capacete, refrescar o rosto e, dali, esperar. Ideia que, em minutos, foi copiada por outros três motociclistas.

Coincidentemente, era uma parada de ônibus. E lá havia uma senhora, que contou estar há mais de uma hora esperando o ônibus distante cerca de 150 metros dali, completamente parado e atrasado em meio aos muitos carros ao redor.

O cenário beirava o distópico a quem trabalhou o dia inteiro e só ansiava por chegar logo em casa. Mas, incrivelmente, não havia irritação entre desaventurados que ali trocaram alguns comentários e, totalmente estranhos, provavelmente nunca mais se falarão na vida.

“Eu achava que as coisas iam melhorar quando ela saísse. Mas não, esse aí é muito pior. São tudo sujo. Tem mais é que cair mesmo”, comentou a senhora. “Eu já sou aposentada, mas o que eles querem fazer com a previdência é um absurdo”, disse.

A mulher que tinha descido da moto depois de trabalhar o dia inteiro concordou, ainda que estivesse ali forçadamente devido ao trânsito. Ninguém se atreveu a chamar os manifestantes de “vagabundos” por estarem protestando contra a reforma da previdência. Ninguém criticou, apesar do pesar que era estar ali.

Houve uma cumplicidade involuntária entre anônimos no meio de uma massa. Claro que era um grupo pequeno. Mas talvez não sejam tão poucos, esses grupos. Talvez esteja havendo um novo despertar das ruas.

O que poderá estar para acontecer adiante?

Uma vez em Lisboa

Lisboa

Lisboa: abril/2015

Nunca havia ido a Lisboa, até descobrir que, se desconsiderar qualquer lógica temporal, eu sempre estive por lá. Foi quando ouvi o fado ao caminhar por suas ruas, na Alfama ou às sombras de seus monumentos de uma gente tão familiar à minha.

Senti-me em casa em Lisboa ao reconfortar o ouvido com palavras de português, esse idioma tão complicado para o resto do mundo, independente se a fronteira começa a partir da Espanha ou da Argentina. Ao transpor com naturalidade essa barreira de falar “ão”.

E assim como tantos outros sobre o Rio Tejo, certa vez também tive que partir sem data para voltar, mas aí já com uma certeza. Deixei em Lisboa algo de mim, que me faz querer retornar outra e outra vez. Chama-se saudade.