Diários paternos: aquele sorriso em meio ao sono

Flor sorrindo

É uma coisinha surpreendente. Quando vê, aparece sorrateiro, o sorriso da minha filha, em meio ao seu sono. É lindo e gostoso, vê-la neste momento. Em especial neste momento exato de mundo em que vivemos, quando sorrir é, não raro, um ato de coragem e por que não rebeldia.

O dela tenho certeza que por enquanto é só inocente mesmo. Sortuda, vive alheia do noticiário que a cerca. Eu, já com alguma casca de vida, gosto de imaginar a razão que a faz sorrir enquanto dorme. E não me venham com essa história de espasmos quando posso imaginar poesias.

Quais os sonhos de Maria Flor, eu me pergunto – normalmente babando a duas ou três dúzias de centímetros dela. Divirto-me imaginando que ela sonha com uma teta enorme, cheinha do melhor leite. Ou então algum recuerdo nostálgico de como era sua vida até alguns meses atrás, quando ela era umbilicalmente ligada ao ser que lhe apresentou o que é o amor (…nesses tempos de cólera – não resisti).

Memórias pregressas de vidas passadas, quem sabe. Ou então flashes de resquícios das palhaçadinhas que pais, avós, tias e dindos lhe fazem – porque em pouco tempo todos já adoram o seu sorriso iluminado em meio ao duro cotidiano.

Seja o que for, minha filha, se depender de mim, motivos para sorrir não lhe faltarão. A dureza do mundo que se acostume.

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Uma carta ao Twitter

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Hey, passarinho, vem cá.

Oi, Twitter. Faz tempo que queria ter esse diálogo – ok monólogo, já que quando se trata de denúncias tu não costuma prestar muita atenção. E queria porque gosto de ti. Como tu tem muitos dos meus dados, sabe que nossa relação começou no quase pré-histórico ano  de 2009. Mudamos bastante, creio que sempre procurando evoluir. Fiquei feliz em te ver crescer, ganhar relevância e fazer frente àquela outra rede social. Muito já recorri a ti para buscar atualidades de última hora e as encontrei. Passarinho querido, és parte da minha rotina há anos. (como bem sabem os teus dados)

Mas precisamos conversar. E não se ofenda com a pergunta, querido Twitter. Mas o que houve contigo? Que ares andaste frequentando para tornar o teu – e nosso – ambiente tão tóxico? Aquele suspiro nerd e inovador lá do início há muito apagou-se e, por aqui, vejo ódio, ofensas e preconceito desenfreados por ti. Isso é por audiência? Até sei que combates um que outro perfil de vez em quando. Da mesma forma, é uma situação complicada. A liberdade de expressão e a censura são separadas por uma linha tênue.

Ainda assim: és conivente demais, caro passarinho. E como quem gosta de ti, lhe digo: jamais entraria em teus domínios pela primeira vez hoje se chegasse e visse o cenário que está aí posto. Sempre te defendi, sempre quis o teu bem e, por isso, ainda que sinceramente desesperançoso, torço por melhoras.

Voa, passarinho. Existe horizonte. Dá para ir mais alto que essa montanha de lixo!

Diários paternos: o primeiro segundo domingo de agosto

Flor no café

Ainda há gentileza no mundo, descobrimos pouco a pouco. Mas não graças ao meu semblante sério e típico dos dias de semana, e sim pelo fruto que carrego. Esteja ela entrouxada numa mantinha rosa ou (onde já se viu?) com uma calça jeans e um casaco estilo canguru. Maria Flor chama a atenção alheia só que, repentinamente, joga os holofotes para mim.

Aconteceu duas vezes essa semana, para se ter uma ideia. A primeira foi no corredor do café em pó de um supermercado. Passávamos quando uma velhinha mal nos viu e já cutucou a colega idosa. Nenê passando, sorrisos, “ah, que amor”, essas coisas. E lá estava eu como responsável por ser o relações públicas de nossa dupla, agradecendo e sorrindo. “Que Deus a abençoe”, disse sincera e gratuitamente a velhinha, no que retribuí: “Amém”.

Há anos compro café e jamais havia trocado bênçãos no corredor de um supermercado.

No dia seguinte, Maria Flor dormia a sesta sagrada no meu colo alheia a ofertas, cores e promoções mil de um shopping. Mesmo embaladinha em meio à praça da alimentação, capturou outra atenção e, quando reparei, lá vinha um cara, sorrindo – pra mim. “Ih, mais um que já esqueci de onde conheci”, pensei, preparando a feição do disfarce.

Não foi o caso. Para alívio da minha memória, ele não mencionou qualquer encontro prévio e veio perguntar se a menina era minha filha. “Que bonitinha”, respondeu. Mal soube a idade e já me deu parabéns. Recomendou – assim como tantos outros, aliás – aproveitar essa fase: “Passa voando. Olha os meus nenês como estão hoje”, completou, enquanto apontava para duas pré-adolescentes pigmentando-se de vergonha com a espontaneidade do pai na cena.

Cena essa que não costumava acontecer. Mas o que está havendo, afinal? E aí amanhece o segundo domingo de agosto. É… desde maio nada mais é como foi antes. Ainda que não use gravata, ainda que não tenha o tom solene caracterizado, neste domingo as pessoas lembram – e apontam, e sorriem… – que eu sou pai. O pai da Maria Flor.

Nunca foi tão bom bancar o RP e ter que retribuir gentilezas alheias e aleatórias por aí.

Uma vez, longe de casa

cib

Talvez realmente faça apenas dez anos que eu tenha sentido de fato um pouco do quanto o mundo pode ser injusto. E, para isso, precisei viajar a um lugar desconhecido onde temi esgotar minhas forças e percebi que, de fato, nada é tão ruim que não possa piorar – e que até então eu não passava de um boyzinho.

Butiá, alguma noite fria de fim de outono de 2004.

Capuft! Acabara de deixar meu corpo cair sobre uma mochila de quase 20 quilos na mata. A ordem para se camuflar na beira da estrada partira de um homem nem cinco anos mais velho que eu segundos antes. Nem lembro quem era, tampouco sua história, respondia apenas “sim, senhor”. Como já tinha caminhado alguns quilômetros até então, atirar-me ao chão – por mais desconfortável que fosse – soou até como um descanso depois de um dia cansativo.

E eis que eu estava sob o céu estrelado de um Campo de Instrução Militar do Exército Brasileiro – um lugar que nunca quis estar, ainda mais fardado e armado.

Ainda era só o início. Em meio àquelas horas de esgotamento físico, houve bastante reflexão. Quando o sol nasceu, muitos exercícios depois daquela marcha, a única opção era levantar e seguir. E “sim, senhor” a qualquer ordem. Até então, para mim, uma situação ainda nova de subserviência quase que total, mas que, para milhões brasileiros, é uma rotina diária, ou mesmo uma herança de geração para geração.

Onde estava meu Deus naquele momento de provação? Sem saber qual seria a próxima ordem a cumprir lembro que volta e meia perguntava por Ele. Era recorrente imaginar meus amigos, outrora presentes, sempre se divertindo, felizes aproveitando a juventude e uma liberdade pós-escola de início de vida adulta, enquanto eu – justo eu! – tinha que estar lá. Ó mundo, ó céus.

Fazia muito frio. E só passando por isso fui redefinir meu conceito de desigualdade.

Absorto naquele momento, o jeito era cumprir “missões” e aprender lições. Seja como fosse. Em determinados exercícios, os movimentos eram em dupla – definida não por afinidade e sim por ordem alfabética. Meu companheiro não chegava a ser mais que um conhecido. No entanto, naquelas horas, eu dependia dele – e vice-versa.

Em uma determinada situação, houve uma marcha em dupla. Seria um momento de “emboscada” e exigia silêncio absoluto. Uma hora, olhei para o lado e ele armou um espirro que parecia incontrolável. Sem nem pensar coloquei minha mão à boca dele, abafando o que seria um som altíssimo em meio ao silêncio da mata. Ele sorriu, amarelo e agradecido. Com a mão babada, nesta hora percebi a definição de companheirismo.

No dia seguinte teve outros movimentos, levando fuzil e mochila morro acima e morro abaixo. Correndo e sob gritos. Apenas lembro do esgotamento físico ao chegar ao fim. Exausto, só tinha certeza de que aquilo continuaria logo depois. Apesar de tudo, recordo da comida. Arroz e feijão, simples e honesto, que somados a qualquer tipo de carne se tornou um banquete. Um tipo de marmita delícia, e isso que comíamos correndo.

A última manhã do campo começou com tudo branco da geada. As duas ou três horas dormidas ao relento a 2°C negativos haviam sido excelentes devido ao esgotamento acumulado até ali. De novo, fazia muito frio. Muito, a ponto do mingau servido logo cedo parecer ser o melhor dos desjejuns possíveis.

Foi uma breve trégua, porém. O medo voltou a ser companhia em seguida. Ainda cedo da manhã, teríamos que passar por uma pequena ponte – na verdade um tronco quase podre – por sobre um córrego de aspecto congelante e invernal.

Não me dei conta na hora, mas talvez fosse uma metáfora da vida. Com toda a dificuldade, o estresse e, por que não o medo, a única opção que tínhamos era seguir adiante. Ainda titubeei no primeiro passo, mas atravessei enfim. A madeira não quebrou na minha vez, nem na dos meus colegas. E seguimos.

O boyzinho de outrora é que desapareceu em algum daqueles momentos. Do campo voltou um homem que, em suas reflexões futuras, soube que injustiça é algo bem pior que mero esgotamento físico.

Originalmente escrito em 2014

Diários paternos: do futuro

arvore seca

Certamente uma das principais características que se adquire ao tornar-se pai (e mãe) é perspectiva sobre futuro. Sem querer ser generalista, mas imagino que isso ocorra com a maioria: cria-se uma preocupação de se estar presente, ou pelo menos à disposição. Em suma: ter a responsabilidade de não morrer, nem sumir e tentar proporcionar o melhor ambiente possível.

O tamanho desta perspectiva é enorme. Vai desde o cuidado com a temperatura da casa, do passar bem a pomada para se evitar assaduras a preocupações macro, como sobre como estará o mundo daqui a alguns anos. Porque, além de garantir a sobrevivência da minha filha hoje, eu sinceramente gostaria que tenha um mundo habitável e se possível melhor que o meu para viver.

A atenção com o meio ambiente entra aí. As coisas já não parecem nada bem, então desde que a Maria Flor estava protegida no útero, algo já venho fazendo. Ou tentando. Posso garantir, hoje, que emiti bem menos carbono nos últimos meses, cuidei um pouco mais da minha saúde, mas, é claro, isso é muito pouco e incipiente.

Minhas preocupações ambientais cresceram ainda mais neste mês depois de finalizada a leitura da revista piauí de junho (paternidade gera delay nas leituras). Um verdadeiro alarme foi soado após dois textos sequenciais da publicação: no primeiro, a inanição forçada causada pelo ministro do Meio Ambiente na pasta. No segundo, um trecho do livro recém lançado, “A Terra Inabitável – Uma história do futuro”, de David Wallace-Wells, do qual eu gostaria de destacar o seguinte parágrafo:

Não sou ambientalista, tampouco me vejo como alguém particularmente ligado à natureza. Morei a vida toda na cidade, desfrutando dos aparelhos construídos por redes de abastecimento industriais a respeito dos quais pouco penso, se é que penso. Nunca acampei, pelo menos não sem ser obrigado, e embora sempre tenha achado que é basicamente uma boa ideia manter os rios limpos e o ar puro, também sempre admiti ser verdade que há um jogo de perde e ganha entre crescimento econômico e custo para a natureza – e, bem, penso que, na maioria dos casos, eu provavelmente ficaria com o crescimento. Não chegaria ao ponto de matar pessoalmente uma vaca para comer um hambúrguer, mas também não tenho planos de virar vegano. Eu tendo a pensar que, se você está no topo da cadeia alimentar não tem problema bancar o maioral, porque não acho tão complicado traçar uma delimitação moral entre nós e os outros animais, e na verdade considero ofensivo para as mulheres e pessoas de cor que de uma hora para outra ouçamos falar de estender a proteção legal dos direitos humanos para chimpanzés, macacos e polvos, apenas uma geração ou duas após finalmente termos quebrado o monopólio do macho branco sobre o status legal da pessoa humana. Nesses aspectos – em muitos deles, pelo menos –, sou como qualquer outro americano que passou a vida fatalmente complacente e obstinadamente iludido a respeito da mudança climática, que é não apenas a maior ameaça que a vida humana no planeta já enfrentou, como também uma ameaça de categoria e escala totalmente diferentes. Isto é, a escala da própria vida humana.

Bem, as notícias não são boas neste presente, nem parecem que vão melhorar no futuro. O que não deve servir de desculpa para cruzarmos os braços e não fazermos nada. Se não por nós, pelo futuro daqueles que a gente ama e chegaram há pouco por aqui.

Diários paternos: o bico

bico

Foi uma sensação esquisita, como se eu estivesse oferecendo algum tipo de droga ilícita e entorpecente à minha filha quando, pela primeira vez, fui colocar um bico em sua boca. Receoso, olhando para o lado para ver se algum fiscal de paternidade aparecia do nada, em meu quarto já meio escuro naquela noite.

Ao fim, dei o bico – ou, se preferirem, chupeta. Segurei até me certificar que ele já ficava sozinho lá, indo e vindo naquela boquinha, como se fosse um gracioso e cheio seio lactante. E em poucos minutos, o bebê se acalmou para enfim adormecer.

É preciso ter convicção para encarar a criação de um filho. É necessário escolher alguém para confiar cegamente e trilhar aquele caminho, ainda que existam vários outros – e alguns desses prometendo verdadeiros milagres no que tange a criação.

Digo isso porque não mais que 100 horas antes daquela cena no quarto, um médico pediatra, à saída do Hospital onde a Maria Flor nasceu, recomendou-nos peremptoriamente: “Jamais usem bico”. Listou que só fazia mal etc etc. Seria, praticamente, um pecado de nossa parte.

Dias antes da Flor nascer, porém, outra pediatra conversou conosco e desmistificou o assunto: “Pode dar, claro. Ajuda a acalmar”. A única recomendação foi não deixá-lo em um pano pendurado, de forma que o bebê venha a acreditar que aquilo faz parte de seu corpo. “No mais, não faz mal coisa nenhuma.”

E esse é só um dos tantos assuntos nos quais surgem de médicos especialistas a conselheiros familiares para dar uma receita completamente antagônica. Vai ter um momento em que será necessário escolher alguém para se acreditar, porque às vezes não há uma verdade absoluta sobre uma determinada situação. E novas situações não faltam com um bebê em casa.

É preciso ter convicção parar encarar a criação de um filho!

(ao fim e ao cabo, apesar de certa insistência, minha filha não ficou muito fã ou usuária assídua do bico. O que fiz então? Respeitei sua decisão)

Um recorte para se guardar

argentina x catar

Foto: Eduardo Beleske/PMPA

Porto Alegre, pouco depois da 18h de 23 de junho de 2019. Na saída de jogo da Arena do Grêmio, aglomeram-se no mesmo T2 e muitas vezes lado a lado: gremistas e colorados; brasileiros e argentinos; homens e mulheres; brancos e negros; gente que descerá perto do Bela Vista e gente que descerá perto da Conceição.

No ônibus, o clima é um misto de predominante satisfação com a vitória e classificação da Argentina de Lionel Messi sobre o Catar na Copa América com o breu do início de noite de domingo que se anuncia da janela.

Mas ainda há espaço para mais futebol. E, pouco a pouco, conforme a conexão vai permitindo, descobre-se que tem Brasil em campo. Em Copa do Mundo, por sinal. A prorrogação atesta que, no mínimo, a seleção feminina venderá caro a derrota para a favorita França.

Atualizam-se aplicativos em busca de informações, alguém ouvindo rádio chega a dizer que foi gol do Brasil, causando burburinho no fundo do coletivo. Não se confirma. Outro mais sortudo tem ali algum alternativa que lhe permite assistir à partida em meio ao ônibus lotado. E, ao contrário de outros horários e momentos na mesma cidade, indiferente aos índices de violência.

O ônibus vai andando, as pessoas vão descendo e voltando às suas vidas. Talvez com a certeza que tive quando cheguei à minha parada: o futebol é muito mais legal quando todo mundo está junto, independente de cores e credos.