Buenos Aires

Buenos Aires

Se formos parar para reparar, esquecemos a maioria absoluta dos momentos da nossa vida. A gente não guarda a informação sobre com qual mão nos servimos o café de manhã, assim como trivialidades como onde encontramos todas as pessoas pelas quais cruzamos ao longo do dia. Essas entre tantas outras situações.

Logo, tudo o que temos na memória são um punhado de flashbacks e lembranças que por alguma razão são úteis ou especiais. Uma dessas me veio à mente por esses dias. Remeteu a dezembro de 2008, quando um então jovem jornalista descia a pé a rua Humberto Primo, em San Telmo, Buenos Aires. Foi quando ocorreu um pensamento espontâneo que o surpreendeu: “Eu moraria nesta cidade”.

O motivo da surpresa foi porque eu havia conhecido a capital argentina havia apenas poucas horas. E desde já tão cedo me senti em casa. Por certo esse pensamento teria sido logo taxado de entusiasmo juvenil e esquecido se ele não tivesse tomado o rumo inverno e se solidificado nos dias seguintes e nas outras três vezes em que cá estive.

Há e sempre houve uma relação especial com Buenos Aires. É uma cidade que manteve seu encanto por mais que seja impossível esconder totalmente seus problemas – sociais e econômicos. Alguns desses tão comuns ou até mais graves do que os da realidade que estou acostumado a acompanhar.

Refletia sobre essa relação, introvertido, caminhando a passado lento em uma fria noite de agosto. Vagava imerso em mim em meio àquele brilho exagerado dos painéis da 9 de Julio, reparando o clima antique da arquitetura de muitos daqueles prédios. Ali estava distante com meus pensamentos, recorriendo la ciudad.

— Com licença, señor. Eu me chamo Fábio, soy brasileño y estoy há uns meses em Buenos Aires. Poderia me ajudar com algumas monedas? – interrompe-me um desconhecido na calçada, em um legítimo portuñol.

Ao voltar bruscamente à realidade, franzo a testa e logo a resposta saiu automaticamente no idioma local: “No tengo nada. Lo siento”. E então cada um segue seu caminho.

¡En facto, es muy natural yo estar en Buenos Aires!

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Vira-casaca

E lá veio o cruzamento. Uma bola alta. Alto, aliás, era algo que ele nunca havia sido. Mas isso, àquela hora, tornara-se irrelevante. Tinha, sim, é que saber o que fazer. Quando fazer.

Naqueles microssegundos ainda seria possível alguma tomada de decisão. E numa fração de instante conseguiu corrigir a rota, logo após terminar alguma equação entre força e direção. Futebol, veja só, também leva muito da matemática consigo.

Um passo amansado para reduzir a velocidade e tudo para cima. Ao alto!

Chegara, reconheceu depois, de forma um tanto surpreendente lá em cima. Deixou para baixo cervejas e os quilos a mais, além da preguiça procrastinadora dos exercícios físicos.

A bola tocou a testa e foi-se. Direto no contrapé daquele seu ex-irmão de posição. Ainda no ar deu tempo de vê-lo esticar-se, de voar a vã esperança em direção ao ângulo direito. Não é todo mundo que manda uma bola lá, afinal. Gol!

Retornou ao solo e deu-se conta então que havia trocado de lado. Virou as costas à camisa 1 e correu. Se antes ia a campo para estragar a festa alheia, viveu por míseros segundos uma comemoração de Maracanã lotado, ainda que estivesse apenas em uma quadra qualquer disputando uma pelada de domingo.

Sobre os autógrafos verdadeiramente especiais

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Meu primeiro contato com o jornalismo da PUC aconteceu quando eu tinha 17 anos. Era então mais um rapaz prestes a terminar o terceiro ano do ensino médio e às vésperas do seu primeiro vestibular. Um pessoal da universidade foi na escola onde estudava apresentar um pouco de cada curso.

Naquele fim de ano do já longínquo 2003, já havia me decidido pelo jornalismo, opção então diversas vezes confirmada em testes vocacionais – de que até hoje não me arrependo, apesar dos pesares. A apresentação que assisti só reforçou a ideia do que gostaria de me tornar.

Recordo que nessa ocasião leram uma crônica – que até não tinha muito a ver com o jornalismo em si – de alunos da Famecos em que o fio condutor da história imaginava uma utópica sociedade onde as pessoas para quem pediríamos autógrafos fossem professores e não jogadores de futebol.

Pois bem. Aquilo ficou na minha cabeça, porque tinha achado bem inusitado. Naquele momento tinha alguns professores por quem nutria admiração, mas jamais havia passado na minha cabeça pedir autógrafo a eles, ainda que dominassem como ninguém mistérios químicos e físicos, algo que realmente me faz tirar o chapéu até hoje.

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Dos recados nas correções: sempre um aprendizado

Cinco primaveras depois daquele dia eu estava prestes a terminar outro ciclo. Já estávamos nós, colegas de Famecos, nos olhando com um princípio de saudosismo diante do fim da faculdade. Neste último ano, sem muita pretensão, organizamos um evento junto aos professores. Era o “Mestre Cuca”, que nada mais consistia em convidarmos alguns dos nossos mestres a preparar uma janta regada a boa conversa e álcool.

A ideia pegou e teve até professor oferecendo casa e data para cozinhar para nós que, modéstia à parte, formávamos uma turma muito legal, além de competente – ao menos na arte de beber socialmente. A cada período de tempo, em meio a um capuccino ou outro da Famecos, decidíamos quem seria o nosso professor. Consciente ou inconscientemente, deixamos o mais especial por último, Marques Leonam.

Quem teve aula com ele, certamente nutre uma admiração difícil de traduzir em palavras. Leonam tem um jeito peculiar de ser cativante, tanto em grupo quanto individualmente. Antes de ser um jornalista, é um repórter – e há uma diferença nisso. Lamento não encontrar mais gente parecida com ele no meio em que convivo.

Na noite dele, Leonam foi para um jantar como se fosse para uma aula, trazendo consigo sua já surradinha pasta cheia de papéis com o que ele transformava em pílulas do saber. Preciso confessar que Leonam foi o único que não cozinhou para a nossa turma. E ninguém se importou. O professor não pilotou o fogão para não ser atrapalhado entre uma história e causo ou outro.

E como praxe em todas as suas aulas, deixou conosco um desses papéis com uma mensagem. Foi quando, e aí não lembro quem começou, que reparei que ele estava assinando um a um deles, com uma dedicatória. “O autógrafo de um professor”, sorri, lembrando, então no fim do meu curso, daquele contato inicial com o jornalismo da PUC.

O encantador de pessoas

Atenção de uma plateia encantada

Nesse 6 de junho, mais uma vez, recordei daquela crônica. Troquei de horário no trabalho, encarei uma fila de mais de duas horas apenas para encontrá-lo e receber mais um autógrafo seu, agora no livro que conta sua história, com um justíssimo nome de “O Encantador de Pessoas”, escrito pelas jornalistas e ex-alunas Ana Paula Acauan e Magda Achutti.

O lançamento transformou-se numa noite de boas recordações e reencontro. Mas também uma noite em que me provou que bom é o mundo em que a gente prefere pegar autógrafo de um professor ao invés de qualquer jogador de futebol. E olha que essa certeza me vem às vésperas de uma Copa do Mundo.

***

A Famecos cobriu o evento e disponibilizou fotos neste link. Interessados em comprar o livro podem entrar em contato pelo e-mail mestremarquesleonam@gmail.com.

Aquel Enero

Mais no Instagram @wildakiba

Arte por Leo Medina

No conocía aquellos mares. Y tampoco aquellos vientos. Una brisa suave, pero también asustadora. Un encanto totalmiente desconocido. Un tipo ya experiente, el marino tuvo ganas de irse. Rumbar adelante.

Pero habia algo extraño. Un sentimiento raro le surgió: el miedo, que se iba tomandolo todo. Sin embargo, partió. Estaba ilusionado de una ilusión que le pareció linda. La más linda que ya tuvo.

¡Navegó! Pero las olas empezaram a crecer. Su ilusión, aunque más cerca, se quedó más lejos. El miedo, entonces, volvió fuerte. Tomó el barco. El camino se perdió e no hubo otro destino sino el naufrágio. El más grande naufrágio de aquel marino.

El mar, sin embargo, es viejo y también sabio. No quería la vida del marino. Quería darle una misteriosa lección. Algo que el marino tal vez solo vá a compreender un dia, más tarde. Muy más tarde que aquella mañana seguiente, cuando despertó después del naufragio.

Tras caerse, no se le recordaba como habia llegado hacia la playa. Estaba agotado, así mismo, él se levantó. A pesar del dolor, sabía que el mar habia le dado otra oportunidad de despertarse. Intentará recompensarlo, porque, al fin de todo, la ilusión se mantiene.

*Mais de quem fez o desenho, no Instagram

Muros

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Já faz algum tempo que publiquei no Correio do Povo uma matéria sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Muito mais tempo faz que o próprio deixou de ser uma barreira física, sedimentada na dor, entre duas ideologias de mundo.

Mas só agora, mais de 28 anos depois, que a idade contemporânea superou o tempo em que aquele concreto esteve erguido por 155 quilômetros de vias e mentes berlinenses. Neste início de 2018 dá uma nova lição: da quantidade absurda de tempo em que ficou erguido.

Num mundo em que ainda há muros separando gentes e classes (e por que não ideologias?), o de Berlim ainda existe, como já mostrado aqui anos atrás. Às vezes como souvenir movimentando a economia, erguido e transformado em galeria de arte ou como cicatriz no chão. Também há pontos onde ficaram apenas vigas, dando a ideia de como seria complicado estar junto.

O Muro de Berlim hoje virou a casaca. Se antes era para separar e fustigar, atualmente é um exercício de reflexão a todo mundo que o vê, o estuda e o sente na capital alemã. Ficou presente, apesar de quase todo destruído, para ser lembrado e não repetido. Ainda que exista bastante gente pensando ao contrário.

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Acima, a estátua em frente à Kapelle der Versöhnung, na icônica Bernauer Strasse. A capela foi construída a partir dos escombros da igreja destruída pela intolerância do muro. Versöhnung, em alemão, quer dizer reconciliação.

Cruel economia

Porquinho

É quase um mantra, algo que repetem como se fosse necessário crer: “A economia está melhorando, a economia está reagindo”. Deveríamos acreditar piamente que o pior já passou, que o Brasil vive novos tempos e que a pujança estará ao nosso alcance logo mais – especialmente se tais reformas forem aprovadas.

Mas há alguma coisa que parece errada. “A Selic nunca esteve tão baixa”, eles dizem. Fato, verdade! “A inflação está baixando”, concordo. Porém, o bolso segue meio vazio, e algumas sinapses cerebrais são feitas. Com certa dificuldade, ok, porque economia é algo assustadoramente complicado de se entender. Só que quando trocam-se números frios por dinheiro, a conta faz um pouco mais de sentido.

E o que não faz sentido são todos esses números, em tese, positivos. Eu tenho moto, por exemplo. Já faz 12 anos. Desde então, nunca tinha conseguido colocar R$ 40 para completar o tanque. Atualmente, “com a nova política de preços da Petrobras”, esse valor passa dos R$ 50. Já não lembro a última vez que disse “completa” num posto.

Gás de cozinha, eletricidade, plano de saúde… o reajuste mais leve apenas nesses três boletos que vencem todo mês foi de 27%. Muito maior que o índice usado para aumentar meu salário proletário, que por mais que mal sobre no fim do mês, ainda me coloca entre os 20% mais ricos da população. Aliás, receber mais que 80% da população brasileira e escrever um texto reclamando de economia é algo que me deixa chocado.

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Não bastasse esta crise (ou a saída dela) afetar o meu bolso, passou a mudar drasticamente o meu passado. E confesso ser essa uma das motivações para começar escrever isso tudo. Ao passar na frente de dois dos restaurantes do querido bairro Menino Deus, onde a vó morou por toda a minha infância – e até já depois dela.

Um deles, talvez o que mais fomos tanto em saudosos almoços festivos de família quanto em qualquer terça-feira sem comida em casa, está vazio e já bem empoeirado por dentro, sem móveis outrora tão utilizados. Uma história oca. O outro, esse mais de ocasiões especiais, ostenta em plena avenida as cores desbotadas de outros anos e uma grande placa “Aluga-se” na frente.

Um hiato de vida, do outro lado do mundo

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Das ruelas que passamos pela vida

Eram quase 22h. Eu estava, ao lado de mais umas seis ou sete pessoas, parado em um cruzamento qualquer da área central na cidade de Hamamatsu, a uns 16 mil quilômetros do canto de mundo que chamo de meu. Chove fraco, estaria meio escuro se não fosse a intensidade dos painéis publicitários de led nas lojas ao redor. Passam pouquíssimos carros na rua. Mas ainda assim todos esperam a sua vez de atravessar, pois o sinal está verde para os veículos.

Quando o sinal me libera, torno a caminhar a esmo por ruas e ruelas, cheia de lojinhas, bares e restaurantes. Nas fachadas, um idioma completamente estranho. É, sem dúvida, um brevíssimo hiato de vida. E, como Cortázar caminhando por Paris, perdi-me na certeza que iria me encontrar.

Apesar da hora já avançada, medo de assaltos ou qualquer coisa do tipo simplesmente não há nesta realidade, algo bem diferente daqui, infelizmente. Mas diferente também de países da Europa, por exemplo, onde se tem uma sensação de segurança praticamente a todo momento: no Japão não é uma sensação, e sim uma certeza.

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Noite em Hamamatsu

Ao longo da rota improvisada numa cidade nova para mim, cruzo com diversas pessoas, como jovens estudantes, caminhando distraidamente com seus celulares pelas ruas. Inclusive meninas de saias curtas, ao tradicional estilo mangá – elas com a total liberdade de andarem distraídas, bem como escreveu a Taiga em seu blog, TokyoRio.

Todos ali certamente mais preocupados com eventual e repentino terremoto do que com qualquer violência, porque ela praticamente inexiste. Até o retorno ao hotel, ainda tenho algumas surpresas e uma certeza, que o Japão, em muitas momentos, mais parece outro planeta do que apenas mais um país diferente do meu.