Força oculta

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A rua estava completamente trancada. Era horário de pico de uma quarta-feira, com a maioria das pessoas indo de casa. Não havia escapatória no trânsito. O jeito era esperar as mais de 10 mil pessoas e seus cartazes passarem pela avenida central ali adiante.

O inerte destino se aplicava até para as motos. Resignado, reparei no banco na calçada e atraquei, aproveitando para tirar o capacete, refrescar o rosto e, dali, esperar. Ideia que, em minutos, foi copiada por outros três motociclistas.

Coincidentemente, era uma parada de ônibus. E lá havia uma senhora, que contou estar há mais de uma hora esperando o ônibus distante cerca de 150 metros dali, completamente parado e atrasado em meio aos muitos carros ao redor.

O cenário beirava o distópico a quem trabalhou o dia inteiro e só ansiava por chegar logo em casa. Mas, incrivelmente, não havia irritação entre desaventurados que ali trocaram alguns comentários e, totalmente estranhos, provavelmente nunca mais se falarão na vida.

“Eu achava que as coisas iam melhorar quando ela saísse. Mas não, esse aí é muito pior. São tudo sujo. Tem mais é que cair mesmo”, comentou a senhora. “Eu já sou aposentada, mas o que eles querem fazer com a previdência é um absurdo”, disse.

A mulher que tinha descido da moto depois de trabalhar o dia inteiro concordou, ainda que estivesse ali forçadamente devido ao trânsito. Ninguém se atreveu a chamar os manifestantes de “vagabundos” por estarem protestando contra a reforma da previdência. Ninguém criticou, apesar do pesar que era estar ali.

Houve uma cumplicidade involuntária entre anônimos no meio de uma massa. Claro que era um grupo pequeno. Mas talvez não sejam tão poucos, esses grupos. Talvez esteja havendo um novo despertar das ruas.

O que poderá estar para acontecer adiante?

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Do preconceito que se sofre

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Duas rodas?!?!

Não foi fácil, mas por longos 14 anos da minha vida infanto-juvenil estudei sempre em colégio particular. Ora com desconto por ser filho de professora, ora atrasando umas mensalidades e garantindo a matrícula seguinte aos 45 do segundo tempo. Mas foi.

No mais, como já é sabido pelo nome deste blog, sou homem. Hétero. Quem não me conhece pessoalmente ou não encontrou alguma rara foto minha aqui, saiba que sou caucasiano. Além disso, sou formado em jornalismo e tenho até uma pós-graduação. E falo sem gaguejar, mesmo em público.

Não tenho, ou ao menos ainda não descobri, doença contagiosa alguma, tampouco deficiência maior que algum grau de astigmatismo e hipermetropia. Ademais, para bom ou para ruim, não sou oriundo de alguma cultura estrangeira demasiadamente presente no meu dia a dia da cidade onde nasci e moro até hoje.

Ou seja, aos 31 anos, sem usar drogas, tatuagens ou piercings, escapei de praticamente de todas as formas mais graves de preconceito que um ser humano nas minhas condições pode vir a sofrer – e muitos sofrem. A bem da verdade, nem o sinto  no meu cotidiano, o que, particularmente, faz eu me considerar inapto para debater com conhecimento de causa temas como racismo ou feminismo, por exemplo.

Para não dizer que me sinto completamente imune a comentários e/ou práticas preconceituosas, preciso-lhe citar, caro(a) leitor, que sou motociclista. Há anos, já. Estou atualmente na minha terceira motocicleta e jamais pude dizer que algum carro era “meu” nesta vida. Pode parecer pouco – e é, diante de questões bem mais graves –, mas já é de um desconforto considerável.

O motociclista basicamente é visto por dois estereótipos: o aventureiro/viajante e o motoboy/suicida. Ambos, no imaginário geral, flertam com rock’n’roll e drogas. O primeiro tipo, por óbvio, acaba por ser socialmente mais aceito. Ainda que haja uma certa decepção ao constatar que a moto, no meu caso, nunca foi nem perto de uma Harley Davidson poderosa. Quanto ao segundo, sobram críticas e faltam defesas numa primeira observação. Do veículo e da pessoa, que normalmente só é bem-vinda quando se está faminto.

Mas o preconceito vai mais fundo quando se está de moto. É presente em face às dificuldades criadas a quem chega a algum lugar sobre duas rodas, por exemplo. Não raro tenho que deixar a moto isolada em algum canto afastado de portas ou entradas principais, às vezes em condições “aventureiras”, para não dizer precárias.

Certa feita, já deixei de entrar num bar por não me deixarem estacionar a moto num estacionamento “restrito a carros”. Nunca mais pus pés ou rodas lá e falo mal sempre quando tenho oportunidade (evitem o Complex).

Ainda no campo pessoal, lembro que os primeiros encontros com aquela que veio a virar minha esposa tiveram caras meio fechadas da família dela. E uma vez nos deixaram na chuva por não reconhecerem “aqueles motoqueiros” do lado de fora do portão.

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Bikes de um lado, motos de outro

Na esfera da sociedade, o motociclista também fica à margem. As ruas da cidade são pensadas para carros e também é debatido a segurança do pedestre. Corretíssimo. Mais recentemente há o “confronto” e debate com os ciclistas, que querem mais espaço, vias próprias e segurança. Válido. Só que nunca ouvi algum questionamento: “E as motos?”

Ainda antes de publicar este texto apareceu projeto criando um “direito” às motos. Como em grande parte das postagens desses tempos na internet, os comentários são aquele poço de falta de educação que não gostaríamos de ver na boca dos nossos filhos.

Dentro da “área azul” em Porto Alegre, motos não são permitidas. E, ainda que não paguem estacionamento rotativo (ou por causa disso) o motociclista tem que catar o espaço específico, sempre reduzido na proporção em relação aos carros.

O mais recente golpe, que entendi como preconceito, foi do clube que frequento, cujo estacionamento para motos sempre havia sido gratuito. Há cerca de dois meses, fizeram alterações no espaço, o que custou umas quatro das já apertadas vagas. Agora, passaram a cobrar – o mesmo valor dos carros.

Pode ser que tenha sido uma necessidade, uma equiparação com os carros, não sei. Mas quando não há diálogo, apenas imposição, pode-se tirar quaisquer conclusões: inclusive preconceito, porque o motociclista não é, de cara, um “cidadão de bem” via de regra. É aventureiro ou motoboy. E preconceito nunca é legal, principalmente em assuntos mais graves, como cor da pele ou lugar onde se nasce, mas também nos mais banais, como a escolha do próprio veículo.

Diário de um trânsito louco

O trânsito de Porto Alegre não faz sentido. Já fiz diversas teses e desisti de publicar todas, por simples e pura desilusão. Como toda cidade de médio e grande porte, tem seus pontos mais complicados e seus estresses diários, nos quais todos estamos expostos, sejamos pedestres ou motoristas. São situações corriqueiras, que, bem ou mal, testam nosso humor e principalmente a paciência.

Chegando ao jornal mais cedo, acelerei a moto para aproveitar o sinal verde para mim. E ainda que estivesse verde para mim, um pedestre resolveu atravessar, ignorando o fato de que eles estaria autorizado a cruzar a rua e eu obrigado a parar em cinco segundos.

Buzinei. Mais até para chamar a atenção e alertar do risco do que para reclamar, juro. Mas cada um entende como quer e assim que passei ouvi algum xingamento indecifrável àquela velocidade. Num ato instintivo e até incomum pra mim, levantei o dedo do meio sem nem olhar para trás.

Não gosto de carregar mágoas no trânsito. Até xingo muito, mas normalmente o outro motorista não ouve, porque não dou volume à reclamação. No fundo, sou um resmungão. Um rabugento que não gosta de peleias pela rua.

Ter insultado o cara me incomodou um pouco, mais por mim do que por ele. Ocorreu, no entanto, que minutos depois pude me redimir. Aproveitando espaços por entre os carros, consegui chegar ao jornal, mas, na última faixa de segurança, andei quando um carro havia parado. Só deu tempo de acenar ao casal que começava a atravessar, como se me desculpasse.

Logo em seguida parei para esperar a abertura da garagem do jornal e vinha passando o casal que estava na faixa. De cima da moto, juntei a palma das duas mãos e baixei a cabeça. Recebi uma piscadela de “tudo bem” em retorno. Tudo bem, sem rancor algum.

Melhor assim. Entre xingamentos e discussões de trânsito, é bem melhor ter a humildade de pedir desculpa por eventuais erros e, quando se tem sorte, até ser desculpado do que chegar em casa contando que xingou três gerações de alguém que estava no carro ao lado.

Que Copa, senhores

“QUE festa, senhores.” Usei a frase anterior como legenda de um dos posts que fiz para o blog CP na Copa, um dos trabalhos que realizo na cobertura do Mundial para o Correio do Povo. E, de verdade, que grande festa que é uma Copa do Mundo. Bem mais que um dia eu teria imaginado, em especial um ano depois dos protestos de junho de 2013. Foi o que já deu para perceber em apenas uma semana de muito trabalho.

Dentre as muitas histórias a serem divididas, peço que reparem em duas primeiro: a do jovem Jhonatas Sanchez que, apaixonado por futebol, saiu da distante Machala, a 500 quilômetros de Quito, foi até o Uruguai e chegou a Viamão para enfim acompanhar de perto os treinos da seleção do Equador. Só aqui no RS, com 8 mil quilômetros de viagem e depois de várias tentativas, conseguiu um ingresso para assistir a seleção de seu país, em Curitiba. Valera a pena o esforço de um trajeto de dois meses – sempre contando com apoio de amigos e desconhecidos que lhe ofereceram abrigo ao longo do caminho.

Mas tão importante quanto a entrada para assistir o jogo foi o autógrafo recebido por Valencia, meio-campo do Manchester United e destaque da seleção. “Creio que cumpri com algo que sempre quis, que era conhecê-lo, conhecer a equipe”, disse-me Jhonatas, antes de suspirar visivelmente emocionado com o autógrafo no peito. “É uma alegria que não dá para mensurar. Dirigi por tantos quilômetros e chegar aqui e finalmente ver para mim é uma grande alegria.”

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Jhonatas raramente vê o time do coração no estádio, mas atravessou o continente pela seleção | Foto: Mauro Schaefer

Dias depois encontrei uma dupla de franceses que veio de carro desde Lille, no Norte da França, até Porto Alegre. Para realizar a viagem, Eric Carpanties e Pierre Pitoiset fizeram o velho e customizado Citröen atravessar o Atlântico de navio e desembarcar no Canadá. De lá até o Sul do Brasil foram 15 países de viagens e histórias ao longo de quatro meses.

A Copa, porém, foi só uma desculpa para a viagem. Eles sequer foram assistir o jogo entre França e Honduras, que seria realizado horas depois de estarem posando com o carro para fotos em frente ao Mercado Público de Porto Alegre. “Hoje o futebol está com muito marketing, patrocínio, essas coisas. Mas queremos mostrar este lado social, esta integração toda”, contou-me o Eric, em espanhol. Sabido das coisas, ele garantiu com propriedade: “A festa é mais importante”.

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Para que ver jogo no estádio se é fora dele que se passam as melhores histórias?

E é. Que baita Copa! Que festa, senhores.

Por um segundo

Rua Duque de Caxias, Centro de Porto Alegre. O relógio quase marca de 23h30 de uma quinta-feira que teve cara de feriado em razão das paralisações do Dia Nacional de Lutas.

Saí do jornal pouco antes e seguia no caminho de sempre, sobre a minha moto. No cruzamento com a rua João Manoel, um carro preto dá pisca para a direita, o que, pra mim, significa a oportunidade da ultrapassagem. Acelero.

Eis, porém, que o motorista do automóvel deu-se conta de seu engano de rota e, ao mesmo mesmo tempo em que troca a direção do pisca, vira a direção à esquerda, em movimento. Eu já tinha acelerado poucos metros atrás.

Aproximando-me e sem mais tempo para frear, não consigo conter um pequeno “ahh” crescente. Não fecho os olhos e mal sei o que deveria fazer, mas faço: curvo um pouco para a esquerda e volto, entre o carro e a calçada, continuando a Duque de Caxias, sem buzinar e nem conseguir soltar um palavrão.

Não bati, não cai e segui. Mas, ao mesmo tempo: bati, cai e fiquei estatelado no asfalto, urrando de dor.

Em mais alguns dias completo oito anos com habilitação para motos e este foi meu maior quase acidente. Desde o já distante 10 de agosto de 2005, a única vez que tombei no chão foi quando insisti no que sabia ser erro. E, por sorte, nada de grave aconteceu.

Depois de milhares de quilômetros rodados, me considero um motociclista experiente. Como tal, talvez pudesse xingar o motorista do carro preto ou fazer uma mea-culpa pela aproximação naquele ponto. Mas não. Verdade absoluta é que: merdas acontecem. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Ainda mais no trânsito.

No meu roteiro, segui andando de moto, mas ao mesmo tempo recebendo os primeiros socorros ainda no chão da Duque, lamentando o incidente, a proximidade das férias, as corridas, o futebol de sábado e conhecendo a dor que minha irmã sentiu quatro anos atrás, quando um outro motorista não percebeu a placa de Pare justo quando ela passava.

Mais tarde, já deitado na cama, me viro e a minha mulher acompanha o movimento. Como sempre, ela, me beija mesmo dormindo. Eu estava lá, descansando e mexendo e sentindo levemente a perna e o pé no lençol. Mas ao mesmo tempo em uma mesa cirúrgica, ou esperando atendimento em maca de hospital.

Ao fim dormi repetindo a imagem daquele capô preto crescendo, do carro virando a direção. E me conscientizando que a diferença entre o tempo paralelo que vivi e a realidade foi de, no máximo, um único segundo.

Viagem no jornal

Carros, Motos & Viagem

Carros, Motos & Viagem

Paramos nossa programação normal para um momento assessoria de imprensa (própria): Depois de ganhar alguns vários posts por aqui, a viagem de março foi parar no jornal. E com direito a uma página inteira.

Uma crônica/resumo daqueles 2,5 mil quilôemtros ao longo de sete dias entre Brasil, Argentina e Uruguai foi publicada no caderno Carros & Motos do Correio do Povo desta quinta-feira, 20 de junho.

Como dá para perceber, a página é essa anexada aqui ao lado, que, se clicada, aumenta de tamanho. Mas com um cadastro gratuito, pode-se ler tudo no site mesmo. Por R$ 1,50 você lê a matéria e ainda ganha um jornal de brinde :P.

Uptade: o PDF da página

Diários de Motocicleta: os 700 quilômetros de Punta del Este a Porto Alegre

Partida em frente a La Mano, em Punta

Partida em frente a La Mano, em Punta

Partindo para as duas últimas etapas da viagem, deixamos Punta del Este por volta das 10h. Antes de pegarmos a estada voltamos a Punta Ballena para explorar com mais calma a vista dali e conhecer o atelier de Vilaró.

Além das fotos, claro que deu vontade de levar algum presente para casa. Opções, como telas, livros etc, não faltam, mas quando um chaveiro começa custando 20 dólares as coisas complicam. Os suvenires ficaram na lembrança mesmo.

Para deixar o balneário utilizamos uma rota secundária, a 12, que passa ao lado da Laguna Del Sauce. A quem está de passeio e sem problema algum com (falta de) gasolina, o caminho de 14 quilômetros é bacana. Há, por ali, algumas fazendas e hotéis bucólicos.

Os sóis que Vilaró faz

Os sóis que Vilaró faz

O caminho quase rural leva até a Ruta 9, rodovia que entre Chuí e Montevidéu. Lá, pegamos o rumo norte, ao Brasil. Pelo caminho, ficaram as convidativas entradas para Rocha/La Paloma, Castillo/Cabo Polonio, Punta del Diablo e o Forte de Santa Tereza – os dois últimos destinos mais frequentados pelos gaúchos.

Duas horas e pico depois da largada chegamos ao Chuí. Apesar das centenas de quilômetros de Rivera, por onde passamos na ida, o cenário é idêntico: forasteiros numa terra meio que sem lei à procura de ofertas em free shops, enquanto locais, em sua maioria com cara de mal encarados/picaretas cruzam o caminho.

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Parada em Punta Ballena para ver a paisagem

Após um almoço que foi um verdadeiro assalto – R$ 86 dois pratos com arroz, bife (que mentiram que era filé) e batata frita – partimos, mas não sem antes encher o tanque para não dar zebra ao longo dos despovoados quilômetros da BR 471 até Rio Grande.

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As capivaras do Taim

Pela rodovia, se passa pela Reserva Ecológica do Taim, onde o limite de velocidade é 60 km/h – ainda que uns apressadinhos ignorem isso. Por lá, e até sem muita sorte, sempre se vê umas capivaras. Para as crianças é legal.

O dia de viagem terminou num fim de tarde em Pelotas, cerca de 250 quilômetros dali e após outras duas horas e pouco de estrada. Em meio a uma cidade congestionada, consultamos três hotéis na região central. O mais barato tinha a diária de R$ 150. Complica para quem pensa em passar só 12 horas. Dormimos em um hotel na estrada mesmo.

Fim de linha em Porto Alegre

Fim de linha em Porto Alegre

Dali, saímos bem cedo para rodar os meus últimos 280 quilômetros – o pai ainda seguiu mais 450 até Floripa. Em obras, a BR 116 parece que vai ficar bonita quando a duplicação terminar – por ora ainda exige um pouco de atenção. Já a chegada a Porto Alegre é em via duplicada, e assim vai norte afora.

Rápidas:
Ao longo da Ruta 9, paramos duas ou três vezes. E nos postos Ancap – a maior rede de lá – havia internet wifi. Algo um tanto impensável em muitos estabelecimentos do outro lado da fronteira.
Saímos do Uruguai em 11 de março. Coincidência ou não foi o último dia de validade do meu passaporte. Achei uma bonita homenagem a esse companheiro que já foi a cinco países comigo.
Ao todo foram sete noites, três países, inúmeras cidades em dezenas de paradas, cerca de 2,4 mil quilômetros rodados, centenas de fotos – muitas delas no Instagram meu e do pai – e boas