À Laura

lauraFelicidade.
Palavra com quase mais sílabas
do que dentes que tinhas na boca até bem pouco.

Até bem pouco, aliás, eras só expectativa
a imaginação de como seria
o cabelo, os olhinhos, o sorriso.

Sorriso fácil, sorriso lindo.
Laura linda, tão cheia de futuro
mas já com um quê nostálgico.

De saudade do dia em que chegaste
do que sorriste, do que andaste.
Da saudade das tuas pequenas descobertas.

Algumas das quais eu já estava lá
a torcer, a te cuidar. Como hoje.
E como por todo o resto da minha vida.

Ventana

livro nerudaQuis o destino que a efêmera vida de uma pequena borboleta terminasse justo no chão da minha cozinha, numa dessas manhãs de outono.

À tarde, quando a notei, ainda tentou um ou outro voo, provavelmente mirando a janela ali ao lado. Mas horas depois jazia no chão.

Recolhi, então, o desenhado corpo e em sua homenagem decidi por imortalizá-lo em meio às páginas contendo poesia.

Abri a esmo um livro de Pablo Neruda e repousei a borboleta entre duas odes. Ela escorregou pouquinho para baixo até se encaixar junto a uma palavra específica do texto em espanhol. Ventana.

Por puro acaso – ou não – ela repousa agora junto à Ode a una Estrella.

 

Poemete de um inverno a 30°C em Porto Alegre

primaveraOs tempos estão meio confusos em Porto Alegre.

É agosto e faz calor, em contraste ao inverno marcante de sempre

No meio do inverno, a primavera floresce nos ipês da cidade.

É agosto e o frio parece que já se foi pra outros pagos

O casaco e a manta de lã estão novamente guardados,

Mergulham novamente ao fundo do armário.

E em meio ao inverno, há primavera.

(tenho medo do que nos reserva o próximo verão)

(des)Arquitetura da rua

Tristes casas de rua.
Abandonadas, prestes a se despedir,
para darem lugar. Para cair.

As casas saem de cena junto com seu antiquário.
Cenários de histórias, inúmeras crianças. Da infância.
Post mortem, erguidas ficam apenas em parca lembrança.

Por ironia da vida, tijolo a tijolo, uma nova construção desconstrói.

Não há cachorros, varandas, nem mais jardins.
O sol na calçada de outrora agora para na alta torre empreendida.
Escurecida, a rua fica mais só. Longe da sacada, se desabita.

No pátio, namoro de portão inexiste.
Subir na árvore, jogar bola na rua tampouco. Coisa do passado.
Insossos, nós.

Hoje acordo e penso: como será meu vizinho?