Desapegos

jornais - bancaPara que serve um jornal e para que serve o jornalismo?

O que parece um questionamento cuja resposta tenderia a ser instintiva e fácil torna-se uma pergunta complicada em redações por aí – em níveis regional, nacional e internacional. Talvez por que o nome da profissão derive de seu meio mais consagrado. É uma hipótese. Mas também é uma forma de apego.

Já são mais de 20 anos de internet comercial e pelo menos 17 de hard news na web. E ainda assim boa parte do jornalismo se vê apegado a um pedaço de papel que já está sendo vendido como substituto de tapete higiênico para cachorros na principal avenida da maior cidade do país.

Nesta mesma avenida, as bancas de revistas cada vez mais tornam-se apenas bancas. Em meio a crise de editoras outrora poderosas, o meio, igualmente impresso, perde destaque em vitrinas que já foram inteiramente suas para souvenirs e toda sorte de quinquilharias que possam render um dinheiro mais imediato ao dono do estabelecimento – alguns que já aceitam até Vale Refeição para vender Mickey de pelúcia:

banca jornais

São exemplos visíveis: o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor, além de retomar a credibilidade perdida em algum momento, quando, por alguma razão, afastou-se ou foi afastado do público ao qual costumava informar.

Vivemos o ínterim dos turnos de uma eleição que ficará marcada pela ampla propagação de notícias falsas e também por ser pleito em que as pessoas se informaram mais olhando a tela de um aplicativo de troca de mensagem no seu celular do que em um site de jornal. É o caminho para um Estado de desinformação e isso não é bom.

O público precisa voltar a confiar massivamente no jornalismo. Mas o jornalismo precisa dar essa garantia de que é confiável.

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Crônica de uma madrugada em aeroporto

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A380: uma gigante distração

O funcionário do aeroporto de Guarulhos desceu 36 degraus desde a plataforma até a pista. No topo, o ponto mais alto da escada ambulante mal chegava à altura do segundo andar de um A380, o maior avião comercial em atividade do mundo. Era início de madrugada e o gigante ali era a única atração off-line do momento para aqueles que tinham horas pela frente no saguão do embarque.

O A380 não completou um trimestre de atividade no Brasil. Sua imponente presença ainda chama a atenção. Pudera, não é qualquer máquina que faz caminhões parecerem carrinhos de fricção ao seu lado. Outros aviões também se apequenam quando lado a lado.

Mas seu embarque não é fácil. Antes de voar por cerca de 15 horas de São Paulo até Abu Dhabi (ou seria Dubai?) ele leva umas duas horas desde o primeiro vip até o último passageiro atrasado entrar na aeronave. Mesmo a observação do gigante, feita de um banco improvisado no café, torna-se algo bem cansativo – e desconfortável – com o passar do tempo, que insiste em se arrastar.

Ainda assim, reparar em toda a logística de um A380 pode ser mais interessante que checar, rechecar as redes sociais sonâmbulas no início de madrugada. Não à toa que o avião segue atraindo curiosos junto às janelas para a pista. Muitos, como eu, tirando fotos para logo em seguida se decepcionar com a qualidade da imagem, prejudicada pelos reflexos do saguão diante da escuridão em frente.

Aeroportos costumam ser lugares bacanas para observações. Cada passageiro e tripulante leva consigo uma história. Uma origem e um destino, que não necessariamente são na cidade presente. Idiomas, tradições e manias se cruzando aleatoriamente nestas esquinas da vida. Uns apressados, outros em marcha lenta de férias. Provavelmente para nunca mais se aproximarem outra vez.

Quase 2h. Finalmente inicia o taxiamento do A380. Em pouco mais de três minutos, ele sai da nossa frente e vai para a pista, de onde ganhará os ares noturnos em seguida. Tudo viraria um marasmo total ali no café. Mas ao menos o acaso decidiu dar um prêmio pela atenção dispensada. Tão logo o gigante partiu, vagaram preciosas poltronas com um conforto ok. Como nem tudo é perfeito, o som das obras da madrugada afastam qualquer possibilidade de paz sonora.

Um pequeno grupo de pessoas dorme à minha volta, na posição que lhe é possível no espaço da poltrona. E haja criatividade, além de coluna, para conseguir descansar, por melhor que seja na comparação com o banquinho da hora anterior. Invejo-os. Simultaneamente ao tempo que para eles passa mais rápido, vou sendo levemente torturado pelo sono, que tira a disposição e a concentração para a leitura do livro de bordo.

Sobra só a observação e a escrita, companheiras fiéis de um jornalista insone. E ainda me faltam três horas para o meu voo…

Um post aéreo

Em dez dias, foram seis aviões e três destinos, além de escalas em São Paulo e Guarulhos. Da janela, um pouco aqui embaixo e um tanto lá em cima. Brincando com os aplicativos Vine e Hyperlapse deu para ajudar a passar um pouco do tempo entre uma cidade e outra.

O resultado, publicado ao longo desses dias de férias em Vine, Twitter e YouTube está aí, compilado neste post feito nas alturas:

Decolagem de São Paulo (CGN-SSA):

Salvador-Maceió (SSA-MCZ):

Decolagem Maceió (MCZ-SSA):

Um brinde: divisa entre Alagoas e Sergipe, onde fica a foz do Rio São Francisco:

foz sao chico

Do lado esquerdo da foto, Alagoas; do lado direito, Sergipe

Aterrissagem Salvador (MCZ-SSA):

Aterrissagem Porto Alegre (GRU-POA):
https://vine.co/v/iPdl1LVq9lh/embed/simple

Um pôr do sol em São Paulo

por do sol spA bem da verdade, posso dizer que só conheci São Paulo mesmo no ano passado. Até então, foram só rápidas passagens pela capital paulista, entre conexões e horas de espera, na maior cidade do meu país.

Em rápidas passagens não se consegue fazer uma impressão nossa, mais pessoal do que aquilo que nos é mostrado: caos, engarrafamento, multidão. Não que São Paulo não tenha isso, mas é preciso ver com os próprios olhos. É preciso conhecer o que nos falam.

Então, vi que São Paulo é bem mais que isso. São Paulo tem muito verde, também, ainda que seja uma selva de pedras e concretos. E, do alto, São Paulo tem até um belo pôr do sol, que pude registrar e salvar, ao som de “Sampa” – e fazer uma espécie de continuação do post anterior:

Existe amor em SP (ou ao menos humildade)

“O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.” Esta frase escrita pelo argentino Ernesto Sabato há 15 anos me fez encomendar um livro, chamado “A Resistência”, o qual nunca ouvira falar até então. Marcou. Achei ela forte, simbólica até. Meses depois, em pleno Mercadão de São Paulo testemunhei algo semelhante. Não a cena literal, como até já havia presenciado sem atenção antes, mas algo bem próximo.

mercadao
Foi protagonizada por uma negra já de idade – ainda que não idosa – que estava recolhendo restos dos tradicionais e exagerados sanduíches de mortadela de lá. No “lanche” da hora em que eu estava perto, ela ainda ganharia uns goles de uma Coca-Cola recém abandonada.

Mas havia também uma catadora de latas procurando nos mesmos corredores uma forma digna de sobrevivência. Num breve momento, uma mesma lata foi objetivo das duas, cujas mãos alcançaram a Coca praticamente no mesmo instante. Mas em momento algum houve disputa, tampouco cara feia. Houve sim solidariedade.

A negra, mesmo na miséria, em momento algum tentou ficar com a lata, que ampliaria seu escasso almoço de quarta-feira. Pelo contrário: ofereceu e insistiu à trabalhadora, que só aceitou após uma certa insistência – e para pôr fim ao pequeno constrangimento ali criado.

A negra, com as boas vibrações que só negros vividos conseguem passar, ainda ofereceu um pedaço de seu parco lanche e despediu-se da mulher chamando-a de “querida” no melhor sentido de querer bem.

mortadela
Após a cena, a negra não ganhou nada material por isso, mas espalhou uma lição de humildade entre as poucas testemunhas da sua solidariedade. Sabato, que viveu quase até os cem anos, sabia: o mundo nada pode contra os sorrisos dos humildes.