Hay de tener fe

igreja

Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Florianópolis

“No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, provoca o famoso ditado em espanhol. Pero no solo brujas, sino también santas y dioses. Hay mucho más cosas entre el cielo y la tierra, podemos complementar, ainda no seu idioma original, assim como concluir que na hora do aperto não existe ateu.

Pois bem.

Anos atrás apresentei aqui a Nossa Senhora de Cidade Baixa, que na verdade era Nossa Senhora da Conceição disfarçada. Uma santa que me acompanhou no peito por alguns anos e hoje está guardada como uma querida relíquia em algum lugar da minha casa, ao lado do Santo Antônio que a substituiu no posto de pingente.

A verdade é que nutro grande respeito por ela, mas que a vida me afastou do catolicismo, aproximando-me do espiritismo. Tenho, contudo, muito carinho, em especial aos santos supracitados. Se existem e fazem milagres? No lo sé, pero que los hay, los hay.

E foi nessas obras do acaso que, após um congestionamento enorme na Lagoa da Conceição e a sequência de três motoristas mal-educados que não permitiram que eu trocasse de faixa, que mudei meu rumo, no meu último dia com 30 anos de idade. Conhecer o Projeto Tamar ficou para outra hora, que fôssemos a qualquer lugar longe daquele trânsito antônimo ao clima de verão.

Segui a esmo, então, a um dos poucos lugares não visitados em Florianópolis: o santuário da Imaculada Conceição, morro acima, na Costa da Lagoa. Igrejinha bonita, estilo barroca (?) e semelhante às mineiras que vi em Ouro Preto.

Após apreciada, chegara a hora de partir. Só que partir dali o carro não quis. Tentei uma, duas, 15 vezes e o veículo nem ligou. O cenário dramático contava com calor intenso, pouca água e sinal fraco de celular. Eis o que o homem de 30 anos age como filho mais uma vez e liga pelo socorro do pai.

Chega o velho: tenta-se uma ou duas soluções e não tem jeito. O negócio seria tentar pegar no tranco mesmo. Empurra-se o carro lomba acima e, antes da decida, de fora do carro reparo no outro lado da praça defronte à igreja e lá estava ela: Nossa Senhora da Conceição, abrigada por uma pequena gruta e cercada de velas devotas. Desci até mais perto para ver a imagem, sorri um sorriso imerecido de quem pede o tecnicamente impossível. E de lá escuto um motor: o carro pegou!

Depois ainda lembrei que não voltei a virar o rosto para agradecer, tamanha a surpresa com a inesperada partida do veículo. Ainda que ele tenha apagado em seguida, voltou a pegar no tranco e, sãos e salvos, todos chegamos onde tínhamos que chegar, quilômetros dali – para de lá trocar a bateria, claro.

À noite, rezei e agradeci à velha protetora da família, que já foi tanto à Cidade Baixa de Porto Alegre quanto ao alto de um morro com seu nome em Florianópolis apenas para dizer: pode contar comigo.

O lixo na urna

O que se ganha com o lixo ao invés da urna?

O que se ganha com o lixo ao invés da urna?

Caminhava rumo a um digno cachorro-quente podrão em Florianópolis quando me deparei com esta pichação. Era ainda em janeiro deste ano. Nem eu, nem os comunistas, os reaças e muito menos os políticos imaginavam o que iria acontecer dali a alguns meses.

Creio, porém, que acaba por simbolizar muito o atual momento dos protestos Brasil afora. Para mim, ela pareceu dúbia: Quem joga lixo na urna? ou Seria a urna um lixo?

Além disso, reflitamos: quem é o culpado por isso?

As respostas talvez expliquem muito da revolta dos brasileiros. Acho que não é coincidência o fato de um dia depois da “tomada do congresso” deputados preocupados com a nação prosseguirem os trâmites de um projeto tão importante para a nação como a “cura gay”.

O povo a rua, ao menos, invalidou o último verso desta estrofe de “Eu Protesto”, escrita anos atrás:

Foi você quem colocou eles lá
mas eles não estão fazendo nada por vocês
Enquanto o povo vai vivendo de migalhas
Eles inventam outro imposto pra vocês
Aquela creche que deixaram de ajudar está por um fio
E a ganância está matando a geração 2000
E a sua tolerância está maior do que nunca agora

Não é tão difícil assim

Muçulmanas com seus corpos devidamente escondidos cruzam com morenas atléticas suadas e seminuas; Negros correm ao lado de brancos em meio a conversas sobre como foi a virada de ano no calenário gregoriano; Héteros e homossexuais chamam a atenção da mesma criança que anda com sua bicicleta, acompanhada pelos pais.

Vips, pseudovips e o cordão dos puxa-sacos olham a paisagem de dentro de carros importados e menos abastados contam as moedas para o ônibus atrasado no congestionamento de verão – isso enquanto hippies, a pé, passam ao lado. Ciclistas mais apressados forçam a pedalada em busca da saúde ou da não-poluição.

Argentinos vindos de Buenos Aires “sacam” fotos da paisagem, enquanto uruguaios de Montevidéu se esforçam para entender o português acelerado falado na Ilha de Santa Catarina. Europeus sisudos descobrem que o Brasil vai um pouco além do Nordeste e do Rio de Janeiro.

Carros com placas estrangeiras lotam Ao mesmo tempo, o pescador vai ao mar querendo em voltar com algumas dezenas de peixes. Como faz diariamente. Há anos.

Todos mais ou menos no mesmo lugar. Isso tudo sem discriminação, tudo isso sem preconceito. A vida bem que poderia se resumir a um passeio na orla de Florianópolis às vezes.

Tédio. Ou “Só o Gonzo salva”

     Chove em Florianópolis. E com ela – literalmente – meus planos para a tarde foram por água abaixo. Todos ficam ocupados, menos eu. E se não há sol (ou pelo menos um tempo nublado), não há trilhas, praias, bundas ou afins. O tédio, então, impera. 
     Nesse momento comprovo, mais uma vez, a teoria de que o mais importante é a companhia e não o lugar. Afinal, não tenho ninguém para jogar um carteado. Aliás, sequer possuo um baralho. Menos mal que posso escrever para um blog…
     O que fazer é a grande questão. Até sentar na frente do computador para escrever este entediante texto, pensei em várias coisas. Entre elas, cinema ou corrida. Porém, nenhum deles se mostrou atrativo, por falta de qualidade ou por falta de vontade. 
     Dormir? Não!!! Já fiquei sobre a cama por tempo mais que suficiente pela manhã. A dupla Orkut & MSN também cansa. Estou de férias, é verão, portanto, computador na tarde não (desculpe a rima inglória, caro(a) leitor, foi sem querer). 
     Analisadas todas possibilidades, só algo poderia me salvar – e divertir – por algumas horas. A companhia escolhida foi o gonzo-jornalista Hunter S. Thompson. Justo na minha formatura, ganhei “RUM: diário de um jornalista bêbado”. Até não queria ler tão rápido de tão bom que é o livro, mas a chuva me obrigou a mudar de idéia. 
     Moral da história: há males (ou chuvas) que vêm pra bem.

Hoje aqui, amanhã não se sabe

     Fui no aeroporto na tarde dessa terça, 1º de julho, pra fazer minha carteira internacional de vacinação –  necessária para entrar em alguns países. Confesso que não estava nervoso, mas uma visão me paralisou.
     Eis que o avião da Gol acelerou na pista e começou a subir. ‘Puta-que-pariu… semana que vem sou eu lá dentro’, pensei. Sim, só falta uma semana. Terça, às 19h25min estarei em uma aeronave da mesma Gol indo para Florianópolis.
     Daquela ilha maravilhosa, saio 10 horas após meu desembarque. O destino: La Habana. Passando antes, em conexões, no Rio de Janeiro e na Cidade do Panamá.
     Devido ao fim do semestre – o penúltimo da faculdade -, estava sem tempo pra pensar na minha viagem. Só arquivando coisas no del.icio.us. Mas agora o semestre tá no fim. E os trabalhos também e minha cabeça cada vez mais parece estar indo para Cuba antes de mim.
     Enfim (suspiro), falta pouco… Ah, de repente, aconteça algum evento social de ‘até logo’. Em tempos de muitas blitze de tolerância zero, vamos arranjar motivo para sermos presos em algum boteco. Quem quiser ir, que entre em contato.

A festa

     Bah, nem contei pra ti, caro(a) leitor. Dia desses, fui numa festa simplesmente SEN-SA-CI-O-NAL!!! Era na casa de uma moça linda, linda, linda. (e com um decotão…), filha de um deputado federal, cujo nome não revelarei. Só o vi uma vez e sequer conversamos.
     Assim ó, a casa era numa ilha na bela Santa Catarina e, imaginem, na beira da praia. A vista de lá é linda no fim da tarde. O lugar fica bem em frente à Ilha do Arvoredo. Eu sempre quis conhecê-la. Não fui até lá, mas pelo menos comprovei que é de encantar. Isso sem falar nos coqueiros e na decoração do lugar.
     Tinha bastante gente bonita e tudo era muito bom, certamente a melhor festa que já fui. Para tu teres uma idéia, num determinado momento, mergulhei na piscina e logo que saí, foi-me servida um suculento e generoso pedaço de picanha. Nem cheguei a prová-la, porém tenho certeza que estava maravilhosa.
     Só que aí, aconteceu um probleminha, caro(a) leitor. Não com a festa, nem com as pessoas e sim comigo. No meio do bem bom, o meu despertador inventou de tocar e aí fui obrigado a sair daquele paraíso e me arrumar para ir trabalhar…
     Com um gosto de ‘quero mais’, levantei um tanto contrariado. Não queria mesmo que aquela experiência acabasse. Um dia eu ainda quero ser rico!

Razão ou coração?

     Era uma disputa de pênaltis entre os sexos de uma das turmas da 8ª série do Colégio Barddal, em Florianópolis. Como chovia naquele dia, meninos e meninas tiveram que dividir o mesmo espaço. No gol, um colega novo despontava como bom candidato a vaga no time. Em poucas aulas de educação física, havia se destacado e, em tempo recorde, chegou a ‘seleção da turma’. Naquela chuvosa manhã, defendia todas sem dó nem piedade.
     Até que a Thainá ajeitou a bola na marca penal. Encararam-se – como faziam em todas as aulas –, afinal de contas, gostavam-se. A turma toda já sabia disso, embora nenhum dos dois admitisse e refutasse, bem como fazem adolescentes de 13, 14 anos. Logo começaram os risos maliciosos e as piadinhas por parte dos colegas. Dúvida no ar. Será que ele deixaria entrar? Será que ele deveria deixar? Ela não era qualquer uma. Ela era ‘ela’.
     Thainá partiu, desferiu o chute. Fraco, mas em direção ao gol, como quase todas as outras gurias. Ele, que torcia para a bola ir para fora, viu-se em uma sinuca de bico: ou deixava a bola entrar e continuaria a ouvir piadinhas, além de ter sua invencibilidade quebrada quase no final do período, ou defendia, agindo exemplarmente, como fizera em todas oportunidades anteriores.
     Enquanto a bola vinha, pensava. Estendeu a mão para defendê-la, mas logo em seguida recolheu um pouco o braço, de uma maneira que permitiria o gol, depois esticou… e assim sucessivamente até o instante final. O instante em que a bola parou em suas mãos. Olharam-se de novo. Ele um riu, tímido pelo ato – em tese correto – e ela, mesmo sem aparentar tristeza, baixou a cabeça.
     Lembrei-me dessa história dia desses, quando conversava assuntos desse nível com uma colega minha. Dissertávamos sobre destinos e escolhas num canto de bar. Nessa situação, a dúvida é sempre a mesma. “É que Deus fez a cabeça, em cima do coração, para que o sentimento não ultrapasse a razão” – me responde um samba. Pode ser, mas estaria sempre certo isso?
     O goleiro pegou todos os outros pênaltis, terminando invicto naquela aula. No entanto, não saiu satisfeito. Sem dúvida, agira de maneira exemplar, da maneira esperada – principalmente de um goleiro. Todavia, fico eu na dúvida, se cometesse uma transgressãozinha só, talvez não o condenassem, talvez sequer ficasse com peso na consciência. Mas, é aí é que está o litígio: ‘Talvez’! Nunca se sabe o que pode acontecer quando não se pensa bem nos atos.
     Não que eu pretenda responder essa questão irrespondível, só quis compartilhar contigo, caro (a) leitor, esse debate que tive. Acho que ninguém tem uma resposta convincente para isso, porque ‘Depende’ não vale! Até a própria música que citei agora há pouco se confunde no refrão: “Saudade, saudade, hoje eu posso dizer o que é dor de verdade.”
     Apesar de meu signo – dizem – ser do elemento terra e com isso – dizem – tenho tendência de usar a razão, vez que outra, acho que um ato pela emoção cai bem. A razão é fundamental – ó o capricorniano se manifestando –, mas o coração pode proporcionar momentos inesquecíveis.
     Isso se percebe com o passar do tempo. Eu aprendi depois de ter pegado aquele pênalti e, logo depois, sair do Barddal e nunca mais ter visto a Thainá.