Diários Mexicanos: De otro tiempo

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Valladolid é uma microcidade da região central da península de Yucatán, a cerca de duas horas da badalada Cancún e tem um tempo diferente. Tal qual um sem-número de cidadecitas do interior hispânico. Seja do México, do Uruguai, da Argentina ou mesmo da Espanha. Enfim, aqui o tempo é outro.

Estamos em pleno século XXI, mas isto poderia não passar de especulação ao se observar atentamente os locais. Los mexicanos de Valladolid dão buenos días, buenas tardes y buenas noches a quaisquer desconhecidos que os encararem pouco mais de um segundo. E isso sem maior desconfiança – ao menos aparente.

Eles vendem jornais impressos – três (!) em uma microcidade – nas esquinas com calçadas apertadas para o pueblo passar no seu dia a dia. Aqui um breve parêntese: a aposta no noticiário policial e na chica desnuda parece sempre serem uma constante, onde quer que seja.

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A convicção de que estamos mesmo no século XXI pode diminuir um pouco mais se passarmos a reparar também na arquitetura desta pequena cidade, na qual a construção mais alta é uma igreja erguida em 1706. De resto, casinhas com dois, três pisos no máximo e quase todas coloridas. Um cenário muito mais para Zorro do que para Homem de Ferro.

O tempo retrocede ainda mais se se viajar cerca de 50 quilômetros para ir a Chinchén Itzá e deparar-se com a antiga cidade Maia, construída bem antes de qualquer espanhol pisar no solo hoje mexicano.

Mas talvez toda a culpa seja do Cenote Zací, um lugar incrível ali do ladinho do Centro. Diante de tanta beleza e com uma água sempre convidativa, o tempo quiçá se atrase querendo mais um mergulho neste local criado lentamente pela natureza milhares de anos atrás.

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Valladolid tem outro tempo. E nele ninguém se importa, afinal, se estamos mesmo no século XXI.

Jornalismo e a crise

Ontem foi dia do jornalista e talvez pela data esteja meio sentimental, especialmente nestes momentos turbulentos seja nas redações ou em salas de governo. Mas, com certo otimismo, ver este cartaz postado pelo Daniel Scola, da Rádio Gaúcha, me fez refletir superficialmente um pouco sobre a relação jornalismo x crise:

Chamou minha atenção a expressão “jornalismo eletrônico”. E isso falado lá por meados da década de 70, quando a televisão, dizia-se, estava em vias de acabar com o rádio, meio então mais consagrado por informar a população.

Não acabou, como todos sabemos. O rádio, desde essa época, adaptou-se. E segue uma nova era agora, com muitas emissoras AM levando seu conteúdo para a FM, onde a música já não é necessariamente o principal conteúdo oferecido. Com a profusão da internet, que não matou a TV, vivemos uma época que temos muitos acordes ao nosso alcance, afinal.

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A redação | Foto: Alina Souza/Correio do Povo

Pra quem não conhece, o Atualidade é um programa onde jornalistas de diferentes veículos e meios da RBS participam. Não deixa de ser uma atração de mídia convergente, tema da minha monografia de graduação em jornalismo em 2008. Tratei o assunto como uma grande novidade, pegando o caso de uma cobertura multimídia na web.

Porém, como bem se vê, já existia o “jornalismo eletrônico” havia décadas. Em quatro anos de faculdade ainda vi outras tantas expressões: “fotojornalismo”, “jornalismo cidadão”, “telejornalismo”, “jornalismo gonzo”, “jornalismo digital”, “jornalismo literário”, “jornalismo de dados” etc.

Há uma constante, nota-se. E mesmo com redações mais esvaziadas e a digitalização de processos, o jornalismo continuou – e continua. Menos gente pode significar mais trabalho, mas também mais responsabilidade àqueles dispostos a fazer um bom jornalismo (algo que nem todos os profissionais estão dispostos e, sim, dá trabalho!). Esses, tenho certeza, seguirão existindo independente da tecnologia que vier.

Muitos jornalistas têm medo que uma tecnologia arrasadora faça voar forte o passaralho. Mas o jornalismo vive nesta crise. Há décadas ele segue aí. E seguirá.

Crônica dos 30

Já faz um certo tempo, admito. Não sei se foi bem neste dia, mas a data em questão é 2 de maio de 1991. Aniversário de 30 anos do meu pai. Mesmo com então cinco anos e quatro meses completados havia pouco, eu ainda aguardo vaga lembrança daquele evento, que é o mais antigo aniversário do pai que eu lembre.

Na verdade, o que me vem à mente se resume apenas a uma única cena: os amigos do pai na sala do apartamento em que morávamos, um bolo que, por ser escuro, deveria ser de chocolate e, o mais marcante: sem vela alguma nele. O que me fez refletir: será que as festas de aniversários de adultos, ao contrário das nossas, seriam tão chatas ao ponto do aniversariante sequer ter o direito de assoprar velas? Nem um parabéns a você? Estaria eu fadado a este destino dali a uns anos?

Eis que dias antes e começar a escrever este texto eu completei 30 anos. Se não tive um filho de cinco anos para me abraçar no dia recebi os cumprimentos de um sobrinho de dez (!) anos – que, se não me falha a memória, me deu parabéns pela primeira vez num aniversário  pessoalmente. Ao menos a primeira vez desde que ele tornou-se um guri, deixando a primeira infância para trás. Acredito que ele irá lembrar da data daqui a uns anos.

Particularmente gosto de fazer aniversário. Até por ser em uma data inóspita, na dita inútil semana entre Natal e Ano Novo. Acaba sendo a chance de rever grandes amigos, enquanto se bebe e se fala bobagem sem culpas ou pudores, tal como a vida poderia ser.

O problema, claro, é que completar aniversário implica em ficar menos jovem – ou mais velho, caso ache melhor, caro(a) leitor. Eu mesmo que não me importo tanto com esta questão da idade acabei parando para refletir um pouco sobre meu novo número e década: os trinta. Já posso ser considerado velho para algumas coisas, mas sou jovem demais para outras. Isso ao mesmo tempo em que também não sou (acho) considerado “homem de meia-idade” e apesar de “a vida começar aos 40”. Cara, que confusão.

O que talvez seja um fator positivo, visto alguns casos de amigos, é que completei 30 anos sem crises. Ainda que nestes dez dias já tenha arrancado um fio branco de barba – em nova batalha que venço numa guerra que hei de perder – está, sim, tudo bem com a nova idade. Aliás, às vezes até esqueço que estou numa nova década. E quando torno a lembrar a idade certa, não há dramas.

Talvez seja uma maneira mais amena de se levar a vida e se encarar novas situações, não sei. Mas sempre é melhor brindar a experiência nova do que lamentar a idade que ficou para trás, e que não voltará mais, queira ou não.

Por via das dúvidas, também é bom nunca deixar de festejar. Mesmo que o bolo dos 30 anos mais se pareça com um de três.

Trinta

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O último pênalti

Foto: Palmeiras

Foto: Palmeiras

Início de século. E o título estava ali, a apenas uma cobrança de pênalti naquela decisão de torneio colegial. Três dos cinco jogadores do meu time já haviam cobrado. Restava eu e outro colega, apenas. E já tinha percebido: era só colocar a bola em qualquer canto que o gol seria quase certo.

Mas tremi. Titubeei e disse para o outro colega cobrar. Talvez como castigo, de nada adiantou eu soprar para ele chutar em um dos lados da goleira. O chute forte, mas no centro da meta, parou nas mãos do goleiro. O outro time, em seguida, virou a disputa. Foram campeões. E nós, vice.

São para os fortes, as últimas cobranças. Não tive coragem de cobrar meu amigo depois daquele erro, porque eu fiz pior: não tive coragem de assumir a responsabilidade e bater o pênalti. Deixei o preconceito do “goleiro cobra mal” falar mais forte. Resignei-me a ser mero torcedor em campo.

Lembrei desta cena ontem ao ver o goleiro Fernando Prass na decisão da Copa do Brasil. Ele, encarregado de cobrar o último pênalti. E isso num clássico, numa final. Ele sendo goleiro e que tinha defendido cobrança antes.

Neste momento vilania e heroísmo – essa dualidade íntima de quem vive sob o travessão – nunca estiveram tão próximos do arqueiro palmeirense. Havia de se ter coragem. E não faltou: com um verdadeiro tiro de meta, quase rasgou a rede adversária e correu para o abraço. Campeão e ainda mais herói.

Como num resumo da vida, o futebol nos dá a oportunidade de sermos fortes. E, se falhamos, mais cedo ou mais tarde chega a chance de se redimir. A minha veio quase dez anos depois daquele vice no colégio:

O ano, então, era 2009. E o título estava ali, a apenas uma cobrança de pênalti naquela decisão de torneio interno da empresa, no caso o Jornal do Comércio. Quatro dos cinco jogadores do meu time já haviam cobrado. Restava eu – e apenas eu.

O goleiro rival era alto, quase do tamanho da goleira e não tinha deixado transparecer macete algum para a cobrança, mantendo-se imprevisível a cada novo chute. Ajeitei a bola e, confesso, a perna tremeu. Mas desta vez o Luiz estava no meu time. E antes de partir para a cobrança ele ressaltou a glória etílica que nos esperava logo ali, depois daquele chute.

Foi a cobrança mais convicta que fiz na minha vida. No canto direito, onde a bola deveria ter entrado anos antes. Gol, que num mesmo momento me livrou de um peso e nos garantiu a taça. E provou que o futebol, esta cachaça, é uma metáfora perfeita para a vida.

Fernandão, a estátua que eu conheci

Fernandão em seu ápice | Foto: Inter

Nunca uma ligação inesperada em meio à madrugada traz bons presságios. Às vezes eles não se confirmam, mas às vezes sim. Foi assim em 7 de junho, quando – ainda embriagado após uma boa noite com os amigos – me ligaram sendo sucintos: “O Fernadão morreu”.

Ser jornalista e trabalhar com hard news tem disso, saber de grandes notícias, como tragédias – por meio de outros jornalistas – um pouco antes de todo mundo. Afinal alguém tem que escrever aquilo que as pessoas lerão. Dói, mas normalmente a gente sabe como lidar.

Após aquele susto inicial liguei para o plantonista do jornal para já adiantar a pauta do dia. Também falei com os bombeiros de Araruãna, uma cidade que jamais ouvi falar. Torci que estivessem errados, mas eles estavam certos: Fernandão estava morto.

Foram linhas complicadas de escrever, mas logo mais estavam devidamente no ar. Logo foram repercutidas e lamentadas em redes sociais. Tudo o que eu teria de ressaca transformou-se em consternação naquela manhã.

Profissionalmente convivi com Fernandão por alguns meses em 2012, quando ele foi diretor e técnico do Inter e eu, setorista do clube. Era um cara diferenciado, sem dúvida. Um alto nível no meio do futebol – o que é, diga-se, raro. Ele queria fazer diferente por meio do estudo. Sucumbiu a um momento horrível do clube. Ter levantado a taça do Mundial não o livrou de algumas vaias. Mas nunca perdeu o caráter. Deixou de ser técnico, mas jamais de ser ídolo colorado.

Pouco mais de um ano e meio, Fernandão voltou ao Beira-Rio para a festa de reinauguração do estádio. Eu o vi pela TV e toda e qualquer mágoa por um período conturbado já havia sido superada. Naquela festa ele era um dos reis sendo admirado por dezenas de milhares de súditos. Aquela transformou-se no capítulo final de uma história iniciada dez anos atrás, quando aquele cabeludo desembarcou em Porto Alegre para vestir vermelho pela primeira vez.

Na noite seguinte à sua morte vi uma das manifestações espontâneas mais marcantes da minha vida, quando milhares foram ao Beira-Rio homenageá-lo. Fernandão merecia, ele era diferente. Tão distinto dos outros que neste 17 de dezembro – o primeiro aniversário do Mundial sem ele – o ex-camisa 9 vai virar estátua, uma honraria cada vez mais rara em um mundo apressado como o de hoje.

Foto: Samuel Maciel / Correio do Povo

Se não pôde ficar para vivenciar de perto a história do clube que o amou, Fernandão passará a ser eterno onde muitos foram felizes por sua causa.

(des)Arquitetura da rua

Tristes casas de rua.
Abandonadas, prestes a se despedir,
para darem lugar. Para cair.

As casas saem de cena junto com seu antiquário.
Cenários de histórias, inúmeras crianças. Da infância.
Post mortem, erguidas ficam apenas em parca lembrança.

Por ironia da vida, tijolo a tijolo, uma nova construção desconstrói.

Não há cachorros, varandas, nem mais jardins.
O sol na calçada de outrora agora para na alta torre empreendida.
Escurecida, a rua fica mais só. Longe da sacada, se desabita.

No pátio, namoro de portão inexiste.
Subir na árvore, jogar bola na rua tampouco. Coisa do passado.
Insossos, nós.

Hoje acordo e penso: como será meu vizinho?

Crônica de quem ficou pelo caminho

Antes procurado, hoje esquecido quase somente à própria sorte. Remanescente de outra era vivendo em plena segunda década do século XXI. Ainda de pé, mas cada vez mais curvado, ocioso, por vezes danificado. Para muitos, já abandonado.

Por ele passaram histórias, amores, brigas e fofocas. Em priscas eras motivou até mesmo discussões em filas por seu esperado contato. Numa época de comunicação tão remota, trazia para perto inúmeros queridos que estavam distantes. Antes de internet, wireless e toda essa inundação de nomes em inglês superava fronteiras em questão de segundos.

Hoje padece em via pública. Atrapalha a transeunte apressada que fala ao celular e o adolescente de dedos rápidos enviadores de mensagens instantâneas. Desvia do rumo. Ficou no caminho.

Entristece-te, orelhão. Já não fazes mais parte deste tempo. Há tempos.