BikePoa ou Yellow?

bike poa yellow

Porto Alegre tem mais uma opção de aluguel de bicicletas. Além do já famoso BikePoa, da Loop, desde esta semana há a Yellow circulando por Porto Alegre. “Por Porto Alegre” ainda é forçar um pouco. O serviço, num primeiro momento, opera apenas nos bairros entre a Cidade Baixa e o Moinhos de Vento. Mas há planos de expansão.

Aviso: a pauta das bicicletas tem sido meio recorrente por aqui. E provavelmente seguirá.

Usuário frequente do BikePoa há anos – e mais recentemente desde a greve dos caminhoneiros – testei a Yellow em seu segundo dia em Porto Alegre. Essas linhas aqui tentam diferenciar um pouco cada uma. Que lhe seja útil, caro(a) leitor.

yellow mapaBueno, entende-se na primeira pedalada porque a Yellow atua em uma área mais restrita – começaram rodando em apenas 12 km² da Capital. As amarelinhas não têm marchas, porém elas compensam no peso. São sensivelmente mais leves que as laranjinhas, o que potencialmente reduz o uso de força em subidas.

Logo, a Yellow funciona bem ao que se propõe: a “micromobilidade”. Ela até pode, mas o objetivo dela não é levar o usuário de um canto a outro da cidade. E sim atuar na “última milha”, ou seja, de casa ou trabalho até o modal mais próximo. Isso a um preço relativamente barato: R$ 2 para cada 20 minutos de uso. É possível carregar via cartão de crédito ou comprar passes em estabelecimentos parceiros.

Usei a proposta da Yellow na minha primeira pedalada. Peguei uma bike a duas quadras da minha casa e fui com ela até o modal seguinte, que, casualmente, era outra bicicleta, mas do BikePoa, cuja área iria vai até o meu local de trabalho. Em 17m46s, andei 3,1 quilômetros. Gasto total da viagem: R$ 2, menos da metade do custo da tarifa de ônibus. A empresa propõe uso por tempo ilimitado das bikes, ao contrário das concorrentes. E autoriza o usuário a retirar a bici a qualquer hora do dia e não tem estações.

bike poa mapaJá o BikePoa conta com 41 estações para retirada e entrega de bicicletas. Elas são mais robustas na comparação tanto com a Yellow quanto com a Loop. E o mesmo modelo – feito para ser de aluguel – é utilizado em diversas outras cidades, como Nova York, Londres e Buenos Aires. Mais resistente – e com três marchas – garantem maior conforto a trajetos mais longos.

A área de atuação do BikePoa é maior também, ainda que muito concentrada nos bairros da região central, não atendendo assim parcela considerável da população. Para pegar as bikes, o usuário precisa ter um plano (diário, mensal ou anual), que na sua versão mais barata pode sair por cerca de R$ 13 por mês, caso opte-se pelo plano anual parcelado em 12 vezes. Logo, fica menos de 50 centavos por dia.

Quem pega a bike, precisa devolvê-la em até uma hora, de maneira prorrogável pelo aplicativo. Mesmo que não tão comum, há a chance do inconveniente de não encontrar vaga em estação para devolver. O perrengue, neste caso, só é maior para quem precisa devolver nos extremos do mapa, no Parcão ou no Iberê Camargo. Nesses casos, além da pedalada, o usuário ganhará pelo menos quase um quilômetro de caminhada.

Enfim, fevereiro de 2019 e Porto Alegre conta com três serviços de aluguel de bicicletas, algo que cresceu bastante de dois anos para cá. (Há também a Loop, a qual nunca andei até aqui.) Existe ainda uma grande área para esses serviços se expandirem para que possam dizer que atuam de forma a atender a maioria da população. Quatro bairros com mais de 40 mil habitantes passam longe do bikesharing, por exemplo.

Concentrando-se demasiado numa região e sem planejamento, correm o risco de tornarem-se concorrentes a ponto de prejudicarem a cidade – que ocorre quando há um crescimento desenfreado da oferta sem demanda.

No entanto, os três serviços abrem a possibilidade de se interligarem como modais, além de ajudar a economia, através dos entregadores “bikeboys” de serviços como Uber Eats. É um impacto que tende a ser positivo para a cidade, mas mobilidade sempre exige planejamento.

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A cidade, a bike e a noite

ciclovia

São 22h15 de uma terça-feira verão de Porto Alegre. Uma noite qualquer dentre tantas outras no Centro Histórico da capital gaúcha. Um local, assim como muitos centros urbanos, que viu as sombras tornarem-se hostis aos seus conterrâneos. Estou sobre a minha primeira bicicleta própria em anos e, pedalando, tomo o rumo de casa.

Do jornal até a saída do Centro são menos de dois quilômetros, com os últimos 500 metros de uma subida consideravelmente íngreme. A Rua dos Andradas, a essa hora, nem de longe lembra o movimento que costuma ter ao longo do dia, quando há sol e luz. Seus personagens, entre garis, obreiros e transeuntes, não raro inspiram desconfiança a quem passa, em pedal ou passo – apressado.

Acontece que décadas atrás houve algum momento de inflexão em Porto Alegre. Algum retrocesso com o que, dentre outras coisas, perdemos a liberdade à noite. O que poderia ser um turno extremamente agradável para caminhadas ou passeios é, hoje, motivo de preocupação. Talvez não só por fatos e sim principalmente por medo. A via é das dúvidas. O temor da violência venceu e esvaziou ruas não só centrais.

Pedalo. Chegar à Avenida Independência sem percalços é um pequeno motivo de alívio. Nada me aconteceu. (mas me aconteceria?). Sigo a reta, mais subida. Há um cachorro-quente tradicional lotado ao lado de uma praça adotada como lar por diversos mendigos. Adiante, o Bambus, tradicional bar alternativo da Capital, sempre com gente disposta a beber sem se importar com as condições e a lembrar o quanto a boemia é importante a uma cidade. Porto Alegre anda precisando de mais Bambus.

O fim da subida é um teste para o fôlego e os músculos das pernas – que trabalham pressionados por um medo implícito de parar em algum lugar da inóspita noite porto-alegrense. Quando o plano retorna, boa notícia: já é bairro chique. Fachadas mais arrumadinhas e prédios residenciais, ainda que gradeados, devolvem uma certa tranquilidade.

Vem a descida mais inclinada e, com o embalo, outra dúvida: se entra ou não em um parque público nesta hora da noite? Sim, se entra. Apesar de muito bem iluminado em noite agradável, ele está quase completamente vazio. Salvo uma gente, digamos, peculiar e mais alguns atletas perdidos ou atrasados. Por que não ocupamos esta área até tarde da noite ou por toda a madrugada mesmo?

Passa o parque e vem o bairro. Entre mais subidas e raras descidas, vizinhos em sua maioria recolhidos. Um que outro passeando com seus cachorros, aproveitando o que era sim uma boa noite para se caminhar. A bicicleta, porém, segue passando por gente de passo apertado e olhar desconfiado àquela hora.

Ao chegar em casa, o corpo escancara o sinal da pressa em forma de uma violenta cãibra. Coube à panturrilha sentir o peso de pedalar tarde da noite, de não poder viver tranquilamente não importa a hora que seja nas ruas. A dor eu sei que passa. Fica é a torcida que passe também essa apreensão em se viver a noite da cidade em que eu moro.

Atropelamento de ciclistas na Capital percorre o mundo

O texto era pra ser só uma retranca do texto sobre o protesto desta segunda-feira. Mas o assunto rendia. Analisando um pouco mais a fundo, virou (mais uma) matéria sobre a força da internet e de redes sociais em grandes protestos. O link da matéria – que é quase um artigo -, publicada no CP, é esse http://bit.ly/hzJ15D

Se tempos atrás grandes acontecimentos eram discutidos em bancos de praças públicas, atualmente – e não é de hoje – alguns assuntos ganham uma repercussão muito maior graças à internet. E a discussão, que antes poderia demorar para ultrapassar o perímetro da localidade, agora se multiplica de forma veloz para o mundo inteiro.
Foi o que ocorreu com o atropelamento de um grupo de ciclistas do grupo Massa Crítica no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, na última sexta-feira. A internet agiu como um multiplicador do conteúdo desenvolvido a partir do incidente. A colisão – e as cenas – foram tema de debates por internautas de diferentes países. Nesta terça-feira, o caso terá um novo capítulo: protesto do movimento, marcado para o final da tarde, na Capital.

Chegar ao outro lado do mundo é questão de tempo

Pouco mais de 72 horas depois do atropelamento, a notícia já havia se espalhado por diversos cantos do mundo. Sites de países como Argentina, Peru, Estados Unidos, Grécia, Holanda, Espanha, Itália, Inglaterra e Austrália haviam informado sobre o incidente, conforme levantamento do portal R7. Parte desses sites utilizou o vídeo – ou reproduções de imagens – postado no YouTube pelo Massa Crítica. O vídeo já havia sido visto mais de meio milhão de vezes até pouco depois das 22h30min desta segunda.
O site do movimento Massa Crítica também teve sua audiência exponenciada desde o incidente. Na página, são postadas notícias sobre o desenrolar do caso, serviços jurídicos para as vítimas do atropelamento, além de comentários sobre a cobertura da imprensa.

#naofoiacidente mantém assunto em discussão por todo o dia

No Twitter, a hashtag #naofoiacidente se manteve nos Trending Topics do Brasil – a lista de assuntos mais comentados no site no País – por praticamente todo o dia. O nome do motorista do Golf, o bancário Ricardo Neis, também figurou na lista. Alguns usuários, inclusive, divulgaram alguns de seus dados pessoais, como endereço, telefone e até mesmo CPF.
Durante a tarde, ele se apresentou à Polícia. Neis acusou os ciclistas de terem batido em seu carro antes do atropelamento. Ele afirmou que procurou uma brecha e acelerou para sair do local e, após, fugiu, pois “se ficasse ali, seria linchado”. No início da noite, o Ministério Público e a Polícia Civil pediram sua prisão preventiva.

Massa Crítica de Porto Alegre organiza protesto em horário de pico

 

O grupo Massa Crítica anuncia manifestação para esta terça-feira. A concentração será as 18h30min no Largo Zumbi dos Palmares e o grupo se deslocará até a prefeitura. Nesse horário, o trânsito na região central de Porto Alegre costuma ser bastante complicado. Perto da meia-noite desta terça, mais de 1,2 mil usuários do Facebook haviam confirmado presença no evento, através da rede social.
Nesta segunda-feira, ciclistas de São Paulo organizaram um ato em solidariedade aos gaúchos. Eles andaram de bicicleta e deitaram no asfalto da avenida Paulista. Um dos participantes levava uma placa com a frase que já está virando lema: “Não foi acidente”.
Através de blogs, ativistas de outras três capitais do Brasil – Curitiba, Brasília e Aracaju – e até da capital argentina, Buenos Aires, também combinam manifestações até sexta-feira.