Desde o âmago

this is america

Teve uma vez que insisti muito para uma colega que quase nunca saía à noite nos acompanhar em qualquer uma das nossas incursões noturnas em Porto Alegre, na época de faculdade. Certa feita consegui. Logo que a gente se encontrou, perto do bar que iríamos, um cara desceu da moto numa cena que não esqueço. Não deu outra, fomos assaltados.

Coincidência infeliz, é claro. Ela praticamente nunca saía e perdeu a bolsa assim que o rapaz mostrou a arma. Do grupo que estávamos, mais alguns perderam celulares e carteiras na ocasião em que a nossa noite havia terminado antes mesmo de começar.

Fiquei muito mal, obviamente. Ainda que fosse tão vítima da situação, sentia-me de alguma maneira culpado, pois havia passado os dias anteriores gastando argumentos para levar minha amiga ao tal bar – que por sinal fica em bairro nobre da capital gaúcha, o que nos daria a sensação de maior segurança.

Nos dias seguintes, uma mescla de culpa e medo com raiva e ódio – que eu não estava acostumado e mesmo hoje não costumo nutrir – cresceu dentro de mim. Aquela lamentável cena voltava à memória em pequenos intervalos. Até o ápice acontecer num sonho, poucos dias depois. Nele, o ladrão estava vencido e ajoelhado. Eu, justiceiro, tinha uma arma na minha mão e disparava em sua cabeça, como se aquilo fosse o meu papel, o que deveria ser feito. Eu, um assassino.

Acordei assustado. Felizmente meu eu consciente sabe que aquilo não era a solução e só de pensar em ter protagonizado tal situação, apesar de só em sonho, já me fazia mal. Com ajuda do espiritismo, foi uma concentração e tanto nos dias seguintes para reverter aquela vibração e tocar a vida em frente. Vão os anéis, ficam os dedos, afinal.

Superado o episódio, de lá pra cá, raríssimas vezes lembrei disso. Até esta semana, quando tentaram matar Jair Bolsonaro. E um atentado contra uma figura como este deputado nos coloca em xeque. Pelo pronome, nota-se que me junto aos 44% do eleitorado que o rejeitam, em oposição a muitas de suas ideias, especialmente a “solução” de combater violência com ainda mais violência.

A facada em Bolsonaro, em quase ato contínuo à cena em que ele defende “metralhar petralhas”, faz um “bem feito!”, um “merecido!” subir à garganta de muitos que estão na sua oposição. Em diversos casos, essas exclamações não foram contidas, chegando a virar decibéis ou pixels em postagens redes sociais afora.

É a senha para se juntar àqueles contra quem estamos contra. A vitória da intolerância e do ódio sobre o diálogo em período eleitoral. Quase um retorno aos tempos do Código de Hamurabi.

Acreditar em encenação, num primeiro momento, ou simplesmente desejar que alguém que tenha ideias diferentes ou mesmo que tenha feito o mal morra desta forma bruta, é uma derrota, antes de tudo, interna. Dá triunfo a nossa pior face.

Nesses tempos complicados e cheios de ruído é preciso concentrar-se e manter coerência do que se fala e se defende com o que pensamos. E isso começa em nosso âmago. Não é fácil, mas esta luta precisa ser pacífica ou nosso radicalismo só nos jogará ladeira abaixo.

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Quer pagar quanto?

tuite

Dias atrás lancei uma pergunta despretensiosa no Twitter a fim de descobrir quanto que meus seguidores estavam dispostos a pagar pela assinatura digital de um veículo jornalístico. Esclareci que não se tratava de uma pesquisa científica ou coisa assim, até porque faltam aí diversas variáveis. O mote da questão remetia ao velho bordão das Casas Bahia: “Quer pagar quanto?”

Houve três faixas de preço: até R$ 9,90, até R$ 19,90 e até R$ 29,90. Em três dias 27 votaram, garantindo uma vitória acachapante da primeira e mais barata opção (78%). Outros 19% admitiriam desembolsar até R$ 19,90 para se informar. O restante, 3%, deu uma de mão aberta no levantamento e se dispôs a bancar R$ 29,90 – praticamente R$ 1 por dia – por um jornal online.

Apesar da vitória, ficou um palpite sensível: a opção de pagar até R$ 9,90 só saiu vencedora porque a pesquisa não ofereceu a alternativa: “Nada”.

A falta de disposição em não pagar pelo conteúdo jornalístico decorre de uma clara sensação de que as notícias – matéria-prima do jornalismo – hoje estão facilmente ao nosso alcance. E são, via de regra, gratuitas, através das redes sociais, por exemplo, onde manchetes dos links postados, seja por veículos ou por pessoas, já de certa maneira informam.

Conste-se também a imensa gama de canais por onde se informar – fenômeno esse projetado já no início do século, ou seja nos anos iniciais da internet comercial, quando dos primeiros passos da chamada web 2.0, que quebraria o modelo até então consolidado da comunicação emissor-mensagem-receptor.

E o modelo quebrou, de fato. Receptores tornaram-se emissores e multiplicadores de conteúdos. Em questão de pouco tempo, diversos canais alternativos e informativos surgiram na concorrência a veículos de comunicação já consolidados, alguns havia décadas. Nem todos necessariamente jornalísticos, mas sim uma espécie de simulacro, o qual já satisfaz a boa parte do público leigo e/ou ansioso por apenas uma determinada informação.

Importante frisar que paralelo a esta quebra, consolidaram-se nas redes sociais a distribuição de conteúdo. E de forma linear foram colocados um clique gratuito e um clique pago, por meio de paywall, ao mesmo tempo em que mudavam drasticamente o mercado publicitário, tomando para si uma verba que sustentava redações.

Ano após ano, portanto, o leitor (ou antigo receptor) desacostumou-se a ir atrás da notícia, pois neste vaivém ela de alguma forma acabava aparecendo. E até não muito tempo atrás, sempre de graça. Então, por que pagar? E, se pagar, quanto?

Determinar quanto custa o trabalho jornalístico é algo subjetivo, porque mudam, de texto para texto, a quantidade de tempo empregado, gastos com transporte, telefone, internet, entre outras variáveis, como um bom servidor, necessários para a produção e propagação do conteúdo. Lado a lado poderão estar publicações prontas em minutos e reportagens feitas ao longo de semanas. Contudo faz-se necessário, e já com urgência, entender a mudança de cenário, agora, com internet – e o mobile – à frente do tradicional impresso.

A mesma aposta para um produto nem sempre agradável

Pesa ao jornalismo, principalmente ao diário de hard news, ainda ter que “vender” notícias nem sempre agradáveis ao leitor, ao invés de fatos ou conveniências que lhe proporcionem algum tipo prazer, semelhante à sensação quando se compra algo que gosta ou se procura. Em outras palavras, vender jornalismo pode significar ter que buscar receitas com um produto que nem todo mundo gostaria de comprar.

um break bem-vindo porque o texto é grande e foi impossível não lembrar deste filme:

ok, retomando

Em uma linha geral, a rentabilização na internet passa por conhecer os dados do consumidor e saber como tomar pouco de dinheiro de cada um. Receita que, apesar de trabalhosa, se parece mais segura que o contrário, receber muito de poucos – base da publicidade que passou décadas aportando o jornalismo.

Os veículos mais antigos necessitam reconhecer que, apesar de tanto tempo de história, há todo um trabalho que precisa ser reiniciado quase que do zero, situação que coloca novos portais ao lado de nomes consagrados. Disputam o clique de um mesmo leitor. E ele, se estiver disposto, irá querer pagar pouco e ter retorno.

Pouco, neste caso, pode ser sinônimo de estabilidade. E isso é o contrário do que os jornais tradicionais brasileiros parecem apostar. Pouco não significa promoção. A pergunta que motivou o tuíte citado foi originada a partir da busca por assinaturas em jornais consagrados no Brasil.

Três dos maiores e mais acessados veículos jornalísticos do país usam de promoções na esperança de atrair assinantes. Em São Paulo, Folha e Estadão cobram apenas R$ 1,90 no primeiro mês para depois multiplicar o valor: a Folha para R$ 29,90 e o Estadão, R$ 21,90. O Globo, do Rio, busca uma medida mais equilibrada e paulatina: R$ 9,90 nos seis primeiros meses e dobra para R$ 19,90 a partir do sétimo.

No Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente. GaúchaZH tem a mais arrojada promoção, cobrando R$ 4,90 no primeiro ano de assinatura, só que, a partir de então, o preço quase quadruplica e salta para R$ 18,90. Principal concorrente em Porto Alegre, o Correio do Povo oferece a assinatura por R$ 14,90 nos primeiros seis meses, com o preço praticamente dobrando, indo para R$ 29,90, do sétimo mês em diante.

Também da Capital, o Jornal do Comércio tem um modelo de negócio semelhante à assinatura do impresso, com planos mensal, trimestral, semestral e anual, com desconto progressivo. Enquanto assinar por um mês custa R$ 24,90, o preço do anual torna o gasto por mês a R$ 20,80 – mediante o pagamento único de R$ 249,60. Para efeitos de comparação no âmbito regional, o Diário Popular, de Pelotas – uma das maiores cidades do interior gaúcho – tem praticamente todo o seu conteúdo restrito apenas para os assinantes. A assinatura, sem promoções, custa R$ 9,90 por mês.

Veículos nascidos na internet já adotam uma política de preço levemente mais baixa, ainda que sua cobertura seja em nível nacional. O Jota, especializado em conteúdo jurídico, cobra R$ 19,90 por mês dos assinantes, oferecendo aí outros tipos de seções, como newsletters especializadas. O Nexo pede R$ 12. Ambos dão dois meses de graça na compra do plano anual.

Se não uma luz, um exemplo

Uma breve olhada para o cenário internacional deve esmiuçar o trabalho desenvolvido pelo The New York Times, que desde o ano passado já superou o número de 2,6 milhões de assinantes exclusivamente digitais. Em 2018, o NYT alcançou a casa do bilhão de dólares de receita com assinantes – contando aqui também os assinantes do impresso, ainda responsáveis por boa parte do bolo, frise-se.

O esforço recente resultou numa virada sadia, ocorrida nesta década: hoje o The New York Times fatura mais com assinaturas do que com publicidade. O preço de uma assinatura digital básica não tem promoção, mas tampouco varia: US$ 6. Na conversão de julho de 2018, é mais barato que quatro dos sete jornais brasileiros supracitados.

Compreender o fenômeno do New York Times e considerar suas variáveis com o mercado brasileiro – que são muitas – talvez seja entender o norte para o caminho da rentabilidade dos veículos jornalísticos online. A partir daí direcionar os esforços tanto na produção do conteúdo a ser oferecido quanto onde e como buscar potenciais novos leitores dispostos a pagar para se informar.

Não existe fórmula mágica, existe sim um mercado novo a ser pensado pelos publishers. E como toda novidade é necessário conquistar o novo leitor, tanto com preço, como com conteúdo. Não adianta comparar assinaturas de jornais a modelos de streaming como Netflix e Spotify ignorando os tópicos preço e qualidade do produto entregue. Só a partir daí acontece a fidelização e, consequentemente, a rentabilização.

Promoções, claro, são parte importante de estratégias de marketing e seu poder não deve ser desprezado. No entanto, diante de fatores como principalmente a instabilidade econômica atual e o alto índice de desemprego nacional, oferecer um preço fixo mensal pode ser mais atrativo do que fazer o valor ao qual o leitor se acostuma a pagar dobrar em questão de tempo.

Numa situação em que a consagrada teoria de McLuhan virou algo do passado, o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor.

 

*Artigo também publicado no Observatório da Imprensa

Jornalismo, Folha e Facebook

Folha

Foi ainda na surdina dos primeiros sons da cuíca deste carnaval que a Folha deu um grito que fez barulho no meio jornalístico brasileiro: não iria mais publicar no Facebook e azar! Embasou seus argumentos em uma matéria que certamente foi uma das mais lidas daquele 7 de fevereiro. E boa parte dos leitores, aposto, foram jornalistas tentando entender: como é possível hoje em dia um jornal sem uma página de Facebook?

Abriu-se um debate e tanto. Um bom assunto para conversas tanto em redações quanto em mesas de bar. Loucura ou não, a já empoeirada página da Folha – com seus quase 6 milhões de fãs – “terminou” com a matéria anunciando a saída.

É bem cedo para se avaliar, claro. Porém desde então já se podia imaginar o cenário. A Folha disse que saiu por, entre outros fatores, não concordar com as novas mudanças do algoritmo do Facebook e por notar que, além disso, sua audiência via essa rede social havia caído bastante.

A importância dos dados

Logo, aí já se percebe uma característica importantíssima para quem quer se manter no meio online: conhecimento de dados. Diz o jornal que os acessos a seu site provenientes do Facebook tiveram uma queda brusca no período de um ano: “A participação da rede social nos acessos externos caiu de 39% em janeiro do ano passado para 24% em dezembro”.

Ainda sobre a audiência do Facebook, outra crítica – não da Folha e sim do jornalista Pedro Burgos – tem relevância. Aponta que é cada vez mais passa a se custar dinheiro para atrair o leitor de FB; convertê-lo em assinante é raro; esse leitor fica menos tempo na página; e estratégia para “bombar” nas timelines não necessariamente passa por produzir um bom conteúdo jornalístico. Bons argumentos, com certeza.

O professor Sérgio Lüdtke vai mais ou menos na mesma linha. Para ele, a Folha dá um sinal claro que agora quer “apertar mais o paywall”. Receber para mostrar o conteúdo. “Mostra que muda a sua lógica e abre mão ou minimiza a importância estratégica de gerar grande volume de audiência para, provavelmente, se fixar num leitor mais fiel.”

Saber onde e como trabalhar a audiência é um dos caminhos de sucesso para os publishers do meio digital. Há, porém, uma provocação relevante não tão levantada no dia, mas bem escrita pelo editor do Jornal do Comércio, Paulo Antunes, questionando o trabalho do jornal na rede social. “A impressão que fica é que a Folha, apesar de apontar que houve queda no engajamento dos seus seguidores no Facebook, não está muito preocupada com engajamento. Está preocupada com tráfego (em dezembro, sua audiência em page views caiu expressivos 17,86%, segundo dados do IVC)”, escreve ele, citando que, em seu último dia no Facebook, a Folha postou nada menos que 76 vezes – sendo 74 links e duas fotos. Em janeiro, a equipe do jornal publicou apenas dez vídeos, que são conhecidos por ser um grande potencializador de audiência nas páginas.

Redes sociais e distribuição

redes folha

Voltando ao anúncio da Folha, outro trecho chamou a minha atenção – e provavelmente despertou a inveja alheia em muitos editores de jornais Brasil afora. Além dos 5,95 milhões de fãs no Facebook – e outros 2,2 milhões nas páginas das editorias –, a Folha “também tem perfis atualizados diariamente no Twitter (6,2 milhões de seguidores), Instagram (727 mil) e LinkdIn (726 mil)”. Todos seguem atualizados.

Com exceção do Instagram, que mais faz um posicionamento de marca, os outros dois, que somados totalizam praticamente 7 milhões de seguidores, distribuem links com acesso direto ao site.

Ou seja, ao decidir deixar de atualizar no Facebook, a Folha aposentou apenas um de seus canhões. Os outros seguem na ativa. E com números poderosos. Ainda tem o Google, que, conforme o jornal, fez seus acessos aumentarem no mesmo período de declínio da rede de Mark Zuckerberg.

O conteúdo da Folha circula bastante por canais internos – aplicativo, pushes e newsletters – e externos, como outras newsletter, o Canal Meio por exemplo. Isso sem contar com o próprio amigo internauta que, por sua conta, vai lá no site do jornal e joga nas suas redes. Estamos falando de um dos maiores jornais de um país com mais de 200 milhões de habitantes, afinal.

Somando os fatores, então, entende-se que a saída da Folha foi algo pensado e desenhado há tempos e a recente mudança do algoritmo acaba por ter sido somente a gota d’água.

Vamos comprar essa briga?

28182626595090A Folha, em sua carta, quis incentivar uma cisão com o Facebook – coisa que boa parte dos editores gostaria, mas que provavelmente não têm estofo, porque o tombo seria bem maior. O jornal incentiva seus pares a um movimento semelhante: “Quanto mais redações tomarem uma decisão parecida, melhor para o jornalismo profissional”, afirmou o editor executivo da Folha, Sergio Dávila, ao Knight Center.

Passada uma semana, sigo achando um movimento ousado da Folha. Não sei se se inicia aqui uma pequena revolução entre mídias e a maior rede social do mundo. E é bom frisar pequena, porque a Folha, apesar de seus números expressivos perante à imprensa brasileira, não deixa de ser apenas mais uma página grande dentre milhares para o Facebook.

A saída da Folha, em se mantendo definitiva, tornaria-se talvez relevante de fato se fosse acompanhada, mais cedo ou mais tarde, por outros grandes jornais. No entanto, corre grande risco de ser uma mudança vazia, se os usuários da rede social não sentirem sua falta e os outros players seguirem no ritmo atual.

Lüdtke lembra que já se compraram brigas com o Facebook anos atrás, nem sempre com o resultado esperado – o Estadão por um tempo postou só fotos e não links e depois voltou discretamente ao modus operandi de sempre. Ele cita a Globo, mas ressalta que a sua estratégia é diferente da Folha, pelo fato da emissora carioca ter um site sem paywall – algo que já não acontece com todos os seus vídeos.

Mas mais como um movimento – seja em nome do bom jornalismo, como prega a Folha – já é um mérito. Uma tentativa de deixar de ser refém do Facebook. Uma guinada com um quê de impensável até bem pouco tempo atrás. Os resultados merecem observação de perto.

Guerra de gritos e versões

greve jose cruz

Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

greve-geral

Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

A ausência do Prêmio Esso como reflexão

Sabemos, é a crise. Essa danada que faz fechar empresas mundo afora, além de fazer milhares de trabalhadores. Testemunha-se, como nunca antes, no meio da comunicação. Aquele dito de “não está fácil pra ninguém” poucas vezes foi realmente tão verdadeiro. Inclusive aos que não são atingidos pelo voo do passaralho, com o acúmulo de funções.

E a crise, em especial a do Petróleo, fez a ExxonMobil cancelar a edição 2016 do tradicional(íssimo) Prêmio Essom ainda em 2016. Pela primeira vez depois de mais 60 anos consecutivos. Até não chega a surpreender. Afinal só em 2015 a empresa gastou R$ 123.200,00 em prêmios para competentes jornalistas. Em épocas de Lava Jato, para que repetir a dose com… jornalistas? Esses mesmos, que produzem esse jornalismo.

Não houve em 2016, numa decisão divulgada em maio. Passados quase nove meses, não se sabe se haverá em 2017. Se a “pausa para reformulação” primeiramente anunciada foi um hiato ou um fim. Coincidência de 2016, além da suspensão do Prêmio Esso, foi a escolha da “pós-verdade” como palavra do ano. Algo que ganha força a partir do declínio do bom jornalismo ou com, no mínimo, o fato de o leitor não saber onde está o bom jornalismo, que significa, em outras palavras, que o público, em algum espaço de tempo passou a questionar a grande mídia.

Ao bom jornalista, fica o convite à reflexão do que se pode fazer para melhorar o próprio trabalho, como numa tarefa de formiga, que, pouco a pouco, faz o bolo crescer. A névoa da pós-verdade é um incentivo à boa apuração, à clareza dos fatos, para não deixar arestas ou questionamentos de quem ganha com ela. No fundo, um desafio. É tempo de reforçar a credibilidade da imprensa. E só com bom jornalismo se faz isso.

Bom para o trabalho, também, de analisar as coberturas, especialmente àqueles que estão na academia. A turbulência política e a mudança drástica dos atores e partidos que hoje estão no poder e a forma como são tratados, especialmente pelo mainstream da mídia, é quase um tema pronto de monografias, dissertações e teses para estudantes que não permitem-se afastar muito das redações – que, costumeiramente, podem ser bem diferentes de como são pintadas em salas de aula.

 

O mundo é sempre maior que a nossa opinião

mundo

O mundo é bem maior do que qualquer reprodução

Uma pequena continuação do post passado, talvez com ideias mais claras. A questão dita ali não é censurar a opinião, mas não deixar-se enganar pelo espectro da própria convicção. É necessário buscar a maior clareza possível, sempre, principalmente quando se fala a pequenas multidões, como são (ou eram) os leitores de jornais.

Por exemplo: dias atrás um colunista daqui de Porto Alegre escreveu que sua meta de vida é trabalhar até os 100 anos, que seu pai ou avô também labutaram terceira idade a dentro. Alcançá-los será motivo de orgulho ao jornalista com fama de intelectual na praça e espaço garantido a propagar suas opiniões desde uma redação ou estúdio com ar condicionado, sem falar no salário pago em dia e dos mimos do cordel dos puxa-sacos.

Neste assunto, mais recentemente, a revista Exame tentou emplacar uma comparação com Mick Jagger (!!) exemplificando como pode ser “ótimo” desde que haja preparação para isso. Uma matéria que deve ter lá seu mínimo embasamento, mas que soa muito mais como publicidade do governo da hora do preocupação com o bem-estar geral. Ainda mais se considerar a mudança editorial em cinco anos:

Não há nada de errado trabalhar até quando for possível, ignorar a aposentadoria. Porém acatar esse pensamento como majoritário acaba por demonstrar uma ignorância imensa da cidade, Estado e país em que se vive, onde trabalho, talvez na maioria dos casos, não seja sinônimo de prazer e sim de obrigação.

O Brasil – que já foi muito mais desigual, é verdade – é um país cuja média salarial não chegava a R$ 2,5 mil em 2016, com possível tendência de queda devido à recessão. Nas duas maiores capitais do Nordeste, essa média não chegava a R$ 1,7 mil. E só aqui estamos falando de 4 milhões de pessoas.

Tais números apenas para a questão ficar na esfera econômica. Há uma série de outros fatores, como esforço (e lesão) físico e exposição a riscos, que facilmente podem ser ignorados se o dito articulista – trabalhe ele em jornal ou não – mantiver-se concentrado apenas no computador à sua frente enquanto pensa qual ideia tornará pública a seguir.

Fará bem a eles (e seus leitores) perceber o quão grande é o mundo e suas diversas realidades. Muito maior que quantidade de likes, RTs e compartilhamentos que qualquer post. E bem maior que qualquer opinião de gente que não lembra a última vez que andou de transporte público na própria cidade no horário de pico.

ps: talvez seja bom para o contexto lembrar que vivemos num mundo onde oito pessoas têm a mesma riqueza que outros 3.600.000.000 seres humanos.

Das opiniões de cada um

olho-magico

Realidade é algo muito maior que um olho mágico

São momentos de turbidez, sem dúvida. Há os que achem que pouco muda, há os que temem o início de uma era perigosa neste 2017, após um 2016 de resultados democráticos, mas que não necessariamente representam a voz da maioria mundo afora. Ou, pior, representam uma voz de poucos que falam muito. Extremistas.

Extremos, o mundo sabe, não resultam em lembranças salutares.

O extremo tem seu lado cativante, é importante perceber. Expressar-se sem pudores ou vírgulas. EM CAIXA ALTA para dar mais ênfase. Colocar para fora, enfim, o que se sente, o que se pensa no íntimo. Danem-se os freios da boa conduta social ou da chamada netiqueta (justo nesses tempos, alguém se lembra deste termo?).

Mas se por um lado o extremismo oferece essa sensação de liberdade aos comentários e teses – seja no exagerado te amo quanto na virulenta crítica – ao mesmo tempo isso diminuí consideravelmente a visão de mundo. A imposição da opinião é oposta ao contexto, hoje tão necessário em épocas de bolhas.

Se há alguma coisa que se aprende ao se conhecer novas pessoas, lugares ou culturas é de que pontos de vista são infinitos. Se são melhores ou piores, cabe à própria consciência julgar – ou preferir nem fazê-lo. Porém, saber dialogar com opiniões divergentes é, no mínimo, um convite à inteligência. Ao menos mal não faz.

É uma questão de comunicação, sim, o debate e o esclarecimento do extremismo. Debate, aliás, algo suprimido com a massificação das redes sociais, onde muitos acreditam naquilo que lhe convêm.

Foi algo evolutivo: há 13 anos o Orkut conectava ex-colegas de colégio ou ex-vizinhos. Hoje, o Facebook liga ao crush desconhecido que fizeram check-in em determinado lugar. Antes, mal havia espaço para discussão em redes sociais, hoje se posta qualquer conteúdo e existe a possibilidade de pagar para que ele alcance ainda mais gente.

Cabe à própria pessoa, claro, decidir o que fazer com relação às próprias opiniões e querer entender ou não que vive numa bolha, seja na sua rede social virtual ou na real. Mas o comunicador, principalmente o jornalista, não tem direito a renunciar à diversidade de opiniões. Especialmente se trabalha num grande veículo de… comunicação.

A credibilidade ou, como gostam alguns, o seu prestígio, depende disso. Com o tempo se percebe.