Brasil, América Latina?

latino americano

Não é novidade, mas não deixa de sempre (me) surpreender. Como o Brasil é isolado da identidade latino-americana de seus vizinhos de continente. A América, luta a luta, libertou-se do domínio espanhol, enquanto o gigante ali ao lado permanecia adormecido sob a tutela portuguesa.

Festejando o bicentenário de sua independência, o Chile tem nesses tempos de 2018 uma exposição na sua biblioteca nacional – cuja fundação é anterior ao famoso grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga –, na qual narra o processo de libertação e frisa que, após ela, o argentino San Martín seguiu ao Peru, para ajudar na independência daquele país.

Uma espécie de altruísmo? Talvez, mas está mais para uma missão que todos sabiam: enquanto houvesse um país colonizado por espanhóis na região, nenhuma independência estaria plenamente segura. Não à toa, houve diversas batalhas a Oeste do Brasil nas décadas iniciais do século XIX.

Isso tudo enquanto o rei Dom João VI recém apaixonava-se pelo Rio de Janeiro. Isso tudo aqui ao lado do Brasil. E, eu, jornalista caucasiano que recebeu boa educação no Brasil do século XX e XXI quando era estudante, nem lembro de ter visto em livros quando estava no colégio. Talvez por estar aprendendo mais sobre vassalos, suseranos e Napoleão do que os libertadores dos meus vizinhos.

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La inflación en tiempos de crisis

argentina

Arriba, a pesar de todo

“Estou me sentindo nos anos 90”, disse para ele, citando, além da mediocridade dos últimos resultados do Inter, a inflação com a qual me deparei na Argentina, após três anos e meio da minha última passagem pela terra-berço de Maradona.

Àquela época, inclusive escrevi aqui, já havia uma grande preocupação com a alta inflação. Uma matéria do jornal Clarin citava produtos e serviços que estavam passando da “barreira psicológica” dos 100 pesos: um pote de sorvete e dois ingressos para o cinema. A estratégia de 2013 era o congelamento dos preços. Não deu certo. Hoje, 100 pesos virou de vez uma notinha – e não adianta nem argumentar que a cédula vem estampada com o rosto de Evita Perón.

Virou notinha e exemplifico: a entrada no Parque Nacional Iguazú custou 250 pesos, mas o golpe inflacionário se sente mesmo na hora do café – ainda que este café seja o famoso Havanna, que tem lá no parque. Um simples expreso e um delicoso frappe saíram por 120 pesos. Cento e vinte pesos que me fizeram lembrar que oito anos atrás, quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, a passagem de metrô custava menos de um peso.

peso-evita

100 pesitos

Gente tirando proveito (dos dois lados)

Mas a variação cambial tem lá suas vantagens para quem pode cobrar. O ingresso no Parque Iguazú tem o preço cobrado exclusivamente em pesos, mas a taxa de conservação (?) paga após a saída pode ser em real. E aí 20 pesos transformam-se em R$ 5.

Sublinhe-se que de acordo com o câmbio daquele dia o certo seria R$ 4,25.

Se o brasileiro sai perdendo na Argentina, a recíproca é a mesma ali do lado, em Foz do Iguaçu, onde a tarifa de ônibus custa R$ 3,20. Mas o cobrador aceita peso argentino. Quanto ele cobra? 20 pesos.

Quando é preciso conhecer

Tem horas que as palavras faltam. Tem momentos que servem apenas para o exercício da admiração. Transmitir isso via qualquer rede social é impossível, mas segue uma tentativa:

É ímpar ver de perto um cenário tão conhecido por fotos e cartões postais e mesmo assim lançar um olhar juvenil. São poucos os locais que têm esta capacidade no mundo. Não à toa alguns desses foram eleitos maravilhas.

Chegar às cataratas tem muito disso. Mas lá, tanto no Brasil quanto na Argentina, não apenas se vê, se sente muito. É muito mais que água, que respingos que encharcam em poucos minutos. Há toda uma força envolvida, impossível de ser traduzida com meros três vídeos.

É preciso conhecer. É preciso viajar e conhecer novos horizontes, até os que parecem tão familiares.

Aquilo que une Jose Mujica e Jorge Bergoglio

O século XX foi um marco na história da humanidade. Começamos andando a cavalo, quando muito, e terminamos com dois carros na garagem. Iniciamos com o telefone em priscas eras e, em 2000, já conseguíamos nos comunicar com gente do outro lado do mundo de forma instantânea. Entre tantos outros fatos, é claro.

Todas essas evoluções passaram por uma série de etapas, dentre as quais a pior face humana, a da guerra. E da guerra, sangrenta ou fria, saiu o modelo econômico mais consagrado entre nós, homo sapiens, o capitalismo.

Paralelo à discussão se é justo ou injusto e somado à exposição das redes sociais, invento já do século XXI e pelo qual todos somos obrigados a sermos felizes, em algum momento dos últimos anos aprendemos a apreciar o caro, a ostentação. Subjetivamente aceitamos que para se alcançar sucesso e felicidade é necessário o acúmulo de bens.

Mas duas personalidades latino-americanas nascidas logo nesta época destacaram-se em nível mundial recentemente, praticando justo o contrário. E o fato de terem nascido às margens do Rio da Prata que José Mujica e Jorge Bergoglio não passa de mera coincidência.

Em um mundo tão enfeitado a ouro, eles cultuam a simplicidade. Característica tão comum ainda hoje – ainda que invisível aos olhos de endinheirados – e presente na história humana, que vem bem de antes do século XX.

Taxado como presidente “mais pobre” do mundo quando esteve à frente do Uruguai, Mujica refutou o rótulo. Não se trata do culto à pobreza, mas sim da contestação ao poder do dinheiro, em que ele fala tão bem, acaba por roubar a liberdade. É uma mensagem simples, mas que tornou-se complicada de entender.

Figura pouco mais recente no cenário mundial, Bergoglio optou pelo pelo exemplo. Desafeiçoou seu alto cargo do ouro, dispensou privilégios. De privilegiado, tornou-se um comum. Aproximou uma instituição em crise das pessoas, graças a sinceridade de seu exemplo.

Exemplo este que vem desde o início. Ainda em 2013 espantaram-se pela escolha do nome Francisco, homenagem ao santo que abriu mão da riqueza, optando pela simplicidade. Houve pelo menos 265 papas antes que puderam ter escolhido este nome – 85 desde a canonização de São Francisco. Nenhum o fez, em dois milênios da igreja que começou com um menino que nasceu no presépio.

Em um mundo movido pela força de interesses econômicos, é bom ver líderes pararem para ouvi-los. E aplaudirem por eles falarem nada mais que o óbvio. Um discurso extremamente simples, mas que, ao longo da vida, acaba sendo esquecido pela pressa de trabalhar, de conquistar algo para chamar de seu.

Nessas duas figuras latino-americanas não é a pobreza – ainda que se insista em olhá-los assim – que chama a atenção, é sim a simplicidade. Por terem acesso ao luxo, dispensarem e serem felizes desta forma.

Mostram que ser simples é um dom que desaprendemos ao longo da vida. Mas que é genuinamente humano, e que dinheiro algum pode comprar.

A grande final

Copacabana, Buenos Aires

Copacabana, Buenos Aires

Vivem uma espécie de insanidade, os argentinos. Eles, apaixonados por futebol, voltam à uma decisão de Copa do Mundo após longos 24 anos. Justo para uma revanche contra a mesma Alemanha que os derrotaram há quase um quarto de século. A bola rola às 16h no Maracanã para um jogo que atrairá a atenção de milhões de 219 países do mundo.

Palco da final, o Rio de Janeiro já foi tomado dos brasileiros, ainda mais com os dois últimos constrangedores jogos da Seleção. A poucas horas da final não existem garotas de Ipanema e sim las chicas de la Recoleta ou de Palermo. E ainda assim elas são ofuscadas pelos saltadores e animados torcedores argentinos, que vieram aos montes e transformaram Copacabana em um bairro de Buenos Aires com sotaque chiado.

A estimativa oficial é de que 100 mil argentinos estejam perambulando nas ruas e areias cariocas – local eleito por muitos deles para passarem a noite, dormindo ou acordado em um estado febril que o futebol é capaz de causar. A maior parte sequer tem ingresso e não entrará no estádio. Pouco importa. Quem ficar por Copacabana poderá assistir a partida em dois telões instalados na praia. Qualquer outro boteco também transmitirá o jogo. A cidade exala à final..

Também protagonistas do mais esperado jogo do ano, os alemães estão tímidos, até porque não tem como concorrer com os enlouquecidos sul-americanos. Mas prometem, ao menos tentar, ser ouvidos. No Maracanã, se farão presentes pelo menos 4,4 mil germânicos ansiando por gritar tricampeão usando todas as consoantes a que eles tenham direito.

Organizada pelo consulado alemão, um dos grupos de torcedores da Alemanha (“Tor”, gol em alemão) se concentrará até perto dos argentinos, no Leme, a continuação de Copacabana. A concentração deles inicia às 10h e a partir do meio-dia eles seguirão ao Maracanã de metrô. Isso em meio a mexicanos, americanos, holandeses e até brasileiros que estarão presentes na final e que dão um sotaque novo ao Rio de Janeiro.

A rivalidade entre Argentina e Alemanha, que decidirão uma Copa pela terceira vez, ficou dentro de campo. Em meio à euforia das torcidas, a convivência entre os rivais é amistosa – ao menos por ora. Há até mesmo desejos de boa sorte. O que não deixa de ser justo para uma senhora Copa do Mundo que chega ao seu capítulo derradeiro neste domingo. Que vença o melhor. Seja ele Messi ou Müller.

Que vença o melhor

Que vença o melhor

Viagem no jornal

Carros, Motos & Viagem

Carros, Motos & Viagem

Paramos nossa programação normal para um momento assessoria de imprensa (própria): Depois de ganhar alguns vários posts por aqui, a viagem de março foi parar no jornal. E com direito a uma página inteira.

Uma crônica/resumo daqueles 2,5 mil quilôemtros ao longo de sete dias entre Brasil, Argentina e Uruguai foi publicada no caderno Carros & Motos do Correio do Povo desta quinta-feira, 20 de junho.

Como dá para perceber, a página é essa anexada aqui ao lado, que, se clicada, aumenta de tamanho. Mas com um cadastro gratuito, pode-se ler tudo no site mesmo. Por R$ 1,50 você lê a matéria e ainda ganha um jornal de brinde :P.

Uptade: o PDF da página

Diários de Motocicleta: os 340 quilômetros de Colonia a Punta

A fila para o Buquebus

A fila para o Buquebus

Voltemos, enfim, à estrada. Para sair de Buenos Aires em direção a Porto Alegre tomamos um atalho, via Rio da Prata: o Buquebus, que em uma hora nos transportou da capital argentina até Colonia de Sacramento, a sudoeste do Uruguai, al otro lado del río.

Se na ida fomos pelo continente, a volta foi pela costa uruguaia. De barco, desembolsamos uns 400 pesos para levar as motos e uma hora até Colonia – há ainda uma opção mais barata, mas a viagem leva três horas. Existem também opções mais caras, vips e ultravips com a mesma duração. Outra rota liga diretamente Buenos Aires a Montevidéu, em três horas.

A quem não conhece, Colonia é uma cidadezinha turística ótima para casais. Mas é pequena e um dia já é mais que bom para conhecê-la. Como já estivemos por lá, apenas almoçamos e seguimos viagem, partindo por volta das 14h.

As entranhas do Buquebus

As entranhas do Buquebus

A primeira meta era chegar a Montevidéu, a cerca de 170 quilômetros dali, via Ruta 1, uma estrada que começa cercada de palmeiras, numa vista bem bonita. Mesmo em faixa-dupla em quase toda sua extensão, é uma boa estrada, sem lá muitos atrativos – um deles poderia ser a fábrica da Lifan (!).

Na chegada à capital se passa muito próximo a entrada do Cerro, bairro modesto/histórico/periférico de Montevidéu, que ganhou fama mais recentemente por ser a moradia do pop ex-guerrilheiro tucomano José Mujica, el presidente más pobre del mundo. Já estivemos por lá em 2010 para conhecer o clube local e fizemos matérias pro CP.

A convidativa Ruta 1

A convidativa Ruta 1

Infelizmente, a estadia em Montevidéu desta vez foi curta e não deu para sentar nas encostas das praias para matear no tradicional programa de domingo local, o que me faz concordar quando dizem que as semelhanças entre uruguaios e gaúchos é, de fato, enorme. Qual gaúcho que não gosta de lagartear num frio domingo ensolarado, afinal?

Na mesma tarde, ainda rodamos os quase 20 quilômetros da orla de Montevidéu e pegamos a Ruta Interbalnearia, rumo a Punta del Este, a uns 140 quilômetros dali. A estrada é boa e, em considerável parte, duplicada. Só exige a atenção o inusitado fato de ter sinaleiras, nas cercanias de Montevidéu.

Pouquinho antes do destino do dia chegamos a Punta Ballena, um pequeno balneário rica$$o e interessante. É lá que fica a Casapueblo, o hotel/atelier/museu de Carlos Paez Vilaró, que é um show de arquitetura. Lá, também, que tem o pôr do sol mais bonito da banda oriental, com o mar compondo a paisagem. Só a diária por lá, nos seus US$ 174, que quebra um pouco o encanto.

Casapueblo

Casapueblo

Logo em seguida, chegando já à noitinha em Punta del Este, ainda encontramos aberto um posto turístico muito bem estruturado. Ali, eles dispõem de mapas da cidade e nos indicaram hostels. Ficamos no The Trip, a cerca de um quilômetro do cassino Conrad e com uma diária camarada de US$ 15.

Rápidas
Se um dia você estiver caminhando na 18 de Julio em Montevidéu, passe no La Pasiva e peça uma torta de alfajor. Vale (muito) a pena.
A rota interbalneária do Uruguai é muito bem estruturada, com diversas placas indicando praias e cidades. É um belo passeio rodar por ali, especialmente no fim da tarde.