Por acaso, Tokyo Ska Paradise Orchestra

Tokyo Ska

Lembro que uma vez eu quis baixar uma música, então considerada rara. Após muito procurar, achei-a e apertei download. Já era tarde de domingo e fui dormir. Ali no meio da madrugada acordei e conferi o resultado: feliz, a canção enfim estava no computador após algumas horas – necessárias para baixar 3, 4 MB na internet daquela época.

Eram tempos completamente diferentes desses de hoje, em que tudo parece estar acessível, a pouco esforço, perto das nossas mãos – e ouvidos, no caso. Apesar de corriqueiro, reconheço, fico abismado com o que se tornou a internet atual quando lembro da cena daquela madrugada. Isso por ter vivido a época da conexão discada – e a aventura que era tentar baixar uma mera música.

Lembrei disso esses tempos ao me flagrar tornando-me fã de uma banda japonesa. Se por muitos anos, para eu conhecer qualquer grupo do outro lado do mundo precisaria desbravar – e muito – tantos lugares on e offline, desta vez foi bem diferente. Soube da existência deles vendo os stories de alguém que sequer conheço pessoalmente. Meia dúzia de cliques e alguns minutos depois, já havia percebido que gosto de Tokyo Ska Paradise Orchestra.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o grupo está em atividade desde o ano que eu nasci? Provavelmente eu seguiria mais 32 anos sem saber da existência deles se não fossem essas conexões rápidas, que fazem músicas e conteúdos ignorarem quaisquer fronteiras entre países e continentes.

Bueno. Por uma dessas coincidências aleatórias da vida, descobri que eles fariam um show em Buenos Aires logo no único sábado em que estaria na capital argentina. Tal fato me fez reviver uma situação que considerava havia muito encerrada: aguardar uma fila grande, a menos de 10°C, tarde da noite, para ir a uma casa noturna.

Foi cansativo para alguém casado, desacostumado a festas e shows e, talvez principalmente, com mais de 30 anos, mas valeu. Um show eletrizante do início ao fim, tal como esperava – e como poucos que vi. Fica o convite para conhecerem também. Basta meia dúzia de cliques e se quiserem começar aqui abaixo, fiquem à vontade:

ps: o show foi bem tarde. Começou às 3h e seguiu por mais de hora e meia. Como alguém que mora em Porto Alegre, tinha algum receio de sair tarde da madrugada em uma metrópole. Mas sair à noite em Buenos Aires significa ver pessoas e transporte público na rua, além de diversos lugares abertos 24 horas por dia, não importa a hora. Ruas ocupadas e bares cheios num sábado. Isso faz uma diferença enorme no cotidiano. Não seria bom pensar como importar isso à nossa boemia?

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Buenos Aires

Buenos Aires

Se formos parar para reparar, esquecemos a maioria absoluta dos momentos da nossa vida. A gente não guarda a informação sobre com qual mão nos servimos o café de manhã, assim como trivialidades como onde encontramos todas as pessoas pelas quais cruzamos ao longo do dia. Essas entre tantas outras situações.

Logo, tudo o que temos na memória são um punhado de flashbacks e lembranças que por alguma razão são úteis ou especiais. Uma dessas me veio à mente por esses dias. Remeteu a dezembro de 2008, quando um então jovem jornalista descia a pé a rua Humberto Primo, em San Telmo, Buenos Aires. Foi quando ocorreu um pensamento espontâneo que o surpreendeu: “Eu moraria nesta cidade”.

O motivo da surpresa foi porque eu havia conhecido a capital argentina havia apenas poucas horas. E desde já tão cedo me senti em casa. Por certo esse pensamento teria sido logo taxado de entusiasmo juvenil e esquecido se ele não tivesse tomado o rumo inverno e se solidificado nos dias seguintes e nas outras três vezes em que cá estive.

Há e sempre houve uma relação especial com Buenos Aires. É uma cidade que manteve seu encanto por mais que seja impossível esconder totalmente seus problemas – sociais e econômicos. Alguns desses tão comuns ou até mais graves do que os da realidade que estou acostumado a acompanhar.

Refletia sobre essa relação, introvertido, caminhando a passado lento em uma fria noite de agosto. Vagava imerso em mim em meio àquele brilho exagerado dos painéis da 9 de Julio, reparando o clima antique da arquitetura de muitos daqueles prédios. Ali estava distante com meus pensamentos, recorriendo la ciudad.

— Com licença, señor. Eu me chamo Fábio, soy brasileño y estoy há uns meses em Buenos Aires. Poderia me ajudar com algumas monedas? – interrompe-me um desconhecido na calçada, em um legítimo portuñol.

Ao voltar bruscamente à realidade, franzo a testa e logo a resposta saiu automaticamente no idioma local: “No tengo nada. Lo siento”. E então cada um segue seu caminho.

¡En facto, es muy natural yo estar en Buenos Aires!

Rápidas argentinas, parte 10: Peso leve, levíssimo

buenos aires

A relação entre economia argentina e crise tem ares duradouros. Mais de uma vez, já falamos disso aqui certa feita, num momento em que – cinco anos atrás – o Clarín fez uma matéria listando produtos em vias de romper o que chamaram de barreira psicológica dos 100 pesos.

Pois bem. Se já não está em tempo, em breve haverá uma nova reportagem sobre a quebra da barreira dos mil pesos. Isso em cinco anos, tamanho o galope da inflação porteña. A propósito, há uma vítima fatal nesta história já: a nota de 2 pesos (que era a menor da família) já não é mais aceita. Este valor foi substituído por moedas – seria esse um destino para o real?

Nas ruas, algo incomum a primeira vez que cá estive é corriqueira: lojas, restaurantes e todo mundo aceitando até o real no pagamento. E, repare só, em diversas situações é mais vantajoso fazer pagamentos com a divisa fabricada ao Norte do Rio da Prata do que a comum em Buenos Aires.

Isso sem falar nos já tradicionais cambistas de ruas, como o da Florida. Oferecem-se aos montes para trocar seu dinheiro, seja real ou dólar, por pesos. E anunciam fazer um preço melhor do que as casas oficiais.

Rápidas

Noto que a estrutura deste texto coincidentemente ficou muito parecida com o que publiquei em 2013. Então vamos recordar a escalada do preço do metrô, que ao menos indica que a inflação ali não seguiu no mesmo embalo. O passe único de 2011 era 90 centavos; em 2013 estava 2,50; agora, em 2018, 12,50 pesos.

Naquele texto também citei uma matéria da piauí sobre denúncias ao clã Kirchner. Este assunto continua. Por estes dias, a Polícia deu uma varredura em residências da ex-presidente e hoje senadora. Inclusive em uma casa em Calafate, cenário das denúncias da matéria original. Em um dos textos, o jornal cita que brasileiros se aproximaram das ações policiais e, ao tomar conhecimento do que se tratavam, asseguraram aos periodistas argentinos que era a versão da Lava Jato.

Pitacos da Copa – Argentina

Messi

Foi nas ruas de San Telmo, em Buenos Aires, que pela primeira vez tive uma forte sensação de pensar: “Eu moraria aqui”, estando bem longe de casa. A verdade é que a Argentina me ganhou em questão de poucas horas antes do primeiro entardecer, naquele dezembro de 2008.

Quase dez anos depois, me peguei explicando para uma baiana porque o gaúcho acabava por ter mais afinidades com argentinos e uruguaios do que com brasileiros. Ela estranhou, mas acho que no fim entendeu. Ainda que concordássemos que muitas vezes o gaúcho brasileiro confunde seu patriotismo regional com um quê xenófobo, especialmente com o Nordeste. Isso, porém, é papo para outro post.

Em dez anos voltei à Argentina outras três vezes e, confesso, já estou com uma saudade grande de respirar o ar porteño. E sigo com a mesma impressão de que viveria feliz em algum canto de Buenos Aires.

Essa afinidade natural me faz sempre estranhar a campanha brasileira contra a Argentina no futebol. “Somos rivais”, defendem eles (os brasileiros), que, por meio da mídia jornalística e publicitária, não se furtam da piadinha, da secação gratuita, fomentando essa rivalidade, que sequer é recíproca.

Contudo, de tão repetida, a rixa acaba pegando. Ao percorrer a cidade durante a goleada da Croácia sobre a Argentina nesta Copa do Mundo, vi uns quantos – os quais não duvido que adorem criticar a CBF e o futebol brasileiro – vibrando com os gols europeus. Felizes ao ver o vizinho se aproximar do fiasco da eliminação precoce.

Só pude lamentar. Duplamente. Já ganhei duas Copas do Mundo como torcedor e sei como é bom ver aquela taça sendo erguida pelos meus. E poucos países encarnam tão bem o espírito do futebol como la hinchada argentina.

Que vivam dias melhores – e gloriosos – em breve.

Brasil, América Latina?

latino americano

Não é novidade, mas não deixa de sempre (me) surpreender. Como o Brasil é isolado da identidade latino-americana de seus vizinhos de continente. A América, luta a luta, libertou-se do domínio espanhol, enquanto o gigante ali ao lado permanecia adormecido sob a tutela portuguesa.

Festejando o bicentenário de sua independência, o Chile tem nesses tempos de 2018 uma exposição na sua biblioteca nacional – cuja fundação é anterior ao famoso grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga –, na qual narra o processo de libertação e frisa que, após ela, o argentino San Martín seguiu ao Peru, para ajudar na independência daquele país.

Uma espécie de altruísmo? Talvez, mas está mais para uma missão que todos sabiam: enquanto houvesse um país colonizado por espanhóis na região, nenhuma independência estaria plenamente segura. Não à toa, houve diversas batalhas a Oeste do Brasil nas décadas iniciais do século XIX.

Isso tudo enquanto o rei Dom João VI recém apaixonava-se pelo Rio de Janeiro. Isso tudo aqui ao lado do Brasil. E, eu, jornalista caucasiano que recebeu boa educação no Brasil do século XX e XXI quando era estudante, nem lembro de ter visto em livros quando estava no colégio. Talvez por estar aprendendo mais sobre vassalos, suseranos e Napoleão do que os libertadores dos meus vizinhos.

La inflación en tiempos de crisis

argentina

Arriba, a pesar de todo

“Estou me sentindo nos anos 90”, disse para ele, citando, além da mediocridade dos últimos resultados do Inter, a inflação com a qual me deparei na Argentina, após três anos e meio da minha última passagem pela terra-berço de Maradona.

Àquela época, inclusive escrevi aqui, já havia uma grande preocupação com a alta inflação. Uma matéria do jornal Clarin citava produtos e serviços que estavam passando da “barreira psicológica” dos 100 pesos: um pote de sorvete e dois ingressos para o cinema. A estratégia de 2013 era o congelamento dos preços. Não deu certo. Hoje, 100 pesos virou de vez uma notinha – e não adianta nem argumentar que a cédula vem estampada com o rosto de Evita Perón.

Virou notinha e exemplifico: a entrada no Parque Nacional Iguazú custou 250 pesos, mas o golpe inflacionário se sente mesmo na hora do café – ainda que este café seja o famoso Havanna, que tem lá no parque. Um simples expreso e um delicoso frappe saíram por 120 pesos. Cento e vinte pesos que me fizeram lembrar que oito anos atrás, quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, a passagem de metrô custava menos de um peso.

peso-evita

100 pesitos

Gente tirando proveito (dos dois lados)

Mas a variação cambial tem lá suas vantagens para quem pode cobrar. O ingresso no Parque Iguazú tem o preço cobrado exclusivamente em pesos, mas a taxa de conservação (?) paga após a saída pode ser em real. E aí 20 pesos transformam-se em R$ 5.

Sublinhe-se que de acordo com o câmbio daquele dia o certo seria R$ 4,25.

Se o brasileiro sai perdendo na Argentina, a recíproca é a mesma ali do lado, em Foz do Iguaçu, onde a tarifa de ônibus custa R$ 3,20. Mas o cobrador aceita peso argentino. Quanto ele cobra? 20 pesos.

Quando é preciso conhecer

Tem horas que as palavras faltam. Tem momentos que servem apenas para o exercício da admiração. Transmitir isso via qualquer rede social é impossível, mas segue uma tentativa:

É ímpar ver de perto um cenário tão conhecido por fotos e cartões postais e mesmo assim lançar um olhar juvenil. São poucos os locais que têm esta capacidade no mundo. Não à toa alguns desses foram eleitos maravilhas.

Chegar às cataratas tem muito disso. Mas lá, tanto no Brasil quanto na Argentina, não apenas se vê, se sente muito. É muito mais que água, que respingos que encharcam em poucos minutos. Há toda uma força envolvida, impossível de ser traduzida com meros três vídeos.

É preciso conhecer. É preciso viajar e conhecer novos horizontes, até os que parecem tão familiares.