La inflación en tiempos de crisis

argentina

Arriba, a pesar de todo

“Estou me sentindo nos anos 90”, disse para ele, citando, além da mediocridade dos últimos resultados do Inter, a inflação com a qual me deparei na Argentina, após três anos e meio da minha última passagem pela terra-berço de Maradona.

Àquela época, inclusive escrevi aqui, já havia uma grande preocupação com a alta inflação. Uma matéria do jornal Clarin citava produtos e serviços que estavam passando da “barreira psicológica” dos 100 pesos: um pote de sorvete e dois ingressos para o cinema. A estratégia de 2013 era o congelamento dos preços. Não deu certo. Hoje, 100 pesos virou de vez uma notinha – e não adianta nem argumentar que a cédula vem estampada com o rosto de Evita Perón.

Virou notinha e exemplifico: a entrada no Parque Nacional Iguazú custou 250 pesos, mas o golpe inflacionário se sente mesmo na hora do café – ainda que este café seja o famoso Havanna, que tem lá no parque. Um simples expreso e um delicoso frappe saíram por 120 pesos. Cento e vinte pesos que me fizeram lembrar que oito anos atrás, quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, a passagem de metrô custava menos de um peso.

peso-evita

100 pesitos

Gente tirando proveito (dos dois lados)

Mas a variação cambial tem lá suas vantagens para quem pode cobrar. O ingresso no Parque Iguazú tem o preço cobrado exclusivamente em pesos, mas a taxa de conservação (?) paga após a saída pode ser em real. E aí 20 pesos transformam-se em R$ 5.

Sublinhe-se que de acordo com o câmbio daquele dia o certo seria R$ 4,25.

Se o brasileiro sai perdendo na Argentina, a recíproca é a mesma ali do lado, em Foz do Iguaçu, onde a tarifa de ônibus custa R$ 3,20. Mas o cobrador aceita peso argentino. Quanto ele cobra? 20 pesos.

Quando é preciso conhecer

Tem horas que as palavras faltam. Tem momentos que servem apenas para o exercício da admiração. Transmitir isso via qualquer rede social é impossível, mas segue uma tentativa:

É ímpar ver de perto um cenário tão conhecido por fotos e cartões postais e mesmo assim lançar um olhar juvenil. São poucos os locais que têm esta capacidade no mundo. Não à toa alguns desses foram eleitos maravilhas.

Chegar às cataratas tem muito disso. Mas lá, tanto no Brasil quanto na Argentina, não apenas se vê, se sente muito. É muito mais que água, que respingos que encharcam em poucos minutos. Há toda uma força envolvida, impossível de ser traduzida com meros três vídeos.

É preciso conhecer. É preciso viajar e conhecer novos horizontes, até os que parecem tão familiares.

Aquilo que une Jose Mujica e Jorge Bergoglio

O século XX foi um marco na história da humanidade. Começamos andando a cavalo, quando muito, e terminamos com dois carros na garagem. Iniciamos com o telefone em priscas eras e, em 2000, já conseguíamos nos comunicar com gente do outro lado do mundo de forma instantânea. Entre tantos outros fatos, é claro.

Todas essas evoluções passaram por uma série de etapas, dentre as quais a pior face humana, a da guerra. E da guerra, sangrenta ou fria, saiu o modelo econômico mais consagrado entre nós, homo sapiens, o capitalismo.

Paralelo à discussão se é justo ou injusto e somado à exposição das redes sociais, invento já do século XXI e pelo qual todos somos obrigados a sermos felizes, em algum momento dos últimos anos aprendemos a apreciar o caro, a ostentação. Subjetivamente aceitamos que para se alcançar sucesso e felicidade é necessário o acúmulo de bens.

Mas duas personalidades latino-americanas nascidas logo nesta época destacaram-se em nível mundial recentemente, praticando justo o contrário. E o fato de terem nascido às margens do Rio da Prata que José Mujica e Jorge Bergoglio não passa de mera coincidência.

Em um mundo tão enfeitado a ouro, eles cultuam a simplicidade. Característica tão comum ainda hoje – ainda que invisível aos olhos de endinheirados – e presente na história humana, que vem bem de antes do século XX.

Taxado como presidente “mais pobre” do mundo quando esteve à frente do Uruguai, Mujica refutou o rótulo. Não se trata do culto à pobreza, mas sim da contestação ao poder do dinheiro, em que ele fala tão bem, acaba por roubar a liberdade. É uma mensagem simples, mas que tornou-se complicada de entender.

Figura pouco mais recente no cenário mundial, Bergoglio optou pelo pelo exemplo. Desafeiçoou seu alto cargo do ouro, dispensou privilégios. De privilegiado, tornou-se um comum. Aproximou uma instituição em crise das pessoas, graças a sinceridade de seu exemplo.

Exemplo este que vem desde o início. Ainda em 2013 espantaram-se pela escolha do nome Francisco, homenagem ao santo que abriu mão da riqueza, optando pela simplicidade. Houve pelo menos 265 papas antes que puderam ter escolhido este nome – 85 desde a canonização de São Francisco. Nenhum o fez, em dois milênios da igreja que começou com um menino que nasceu no presépio.

Em um mundo movido pela força de interesses econômicos, é bom ver líderes pararem para ouvi-los. E aplaudirem por eles falarem nada mais que o óbvio. Um discurso extremamente simples, mas que, ao longo da vida, acaba sendo esquecido pela pressa de trabalhar, de conquistar algo para chamar de seu.

Nessas duas figuras latino-americanas não é a pobreza – ainda que se insista em olhá-los assim – que chama a atenção, é sim a simplicidade. Por terem acesso ao luxo, dispensarem e serem felizes desta forma.

Mostram que ser simples é um dom que desaprendemos ao longo da vida. Mas que é genuinamente humano, e que dinheiro algum pode comprar.

A grande final

Copacabana, Buenos Aires

Copacabana, Buenos Aires

Vivem uma espécie de insanidade, os argentinos. Eles, apaixonados por futebol, voltam à uma decisão de Copa do Mundo após longos 24 anos. Justo para uma revanche contra a mesma Alemanha que os derrotaram há quase um quarto de século. A bola rola às 16h no Maracanã para um jogo que atrairá a atenção de milhões de 219 países do mundo.

Palco da final, o Rio de Janeiro já foi tomado dos brasileiros, ainda mais com os dois últimos constrangedores jogos da Seleção. A poucas horas da final não existem garotas de Ipanema e sim las chicas de la Recoleta ou de Palermo. E ainda assim elas são ofuscadas pelos saltadores e animados torcedores argentinos, que vieram aos montes e transformaram Copacabana em um bairro de Buenos Aires com sotaque chiado.

A estimativa oficial é de que 100 mil argentinos estejam perambulando nas ruas e areias cariocas – local eleito por muitos deles para passarem a noite, dormindo ou acordado em um estado febril que o futebol é capaz de causar. A maior parte sequer tem ingresso e não entrará no estádio. Pouco importa. Quem ficar por Copacabana poderá assistir a partida em dois telões instalados na praia. Qualquer outro boteco também transmitirá o jogo. A cidade exala à final..

Também protagonistas do mais esperado jogo do ano, os alemães estão tímidos, até porque não tem como concorrer com os enlouquecidos sul-americanos. Mas prometem, ao menos tentar, ser ouvidos. No Maracanã, se farão presentes pelo menos 4,4 mil germânicos ansiando por gritar tricampeão usando todas as consoantes a que eles tenham direito.

Organizada pelo consulado alemão, um dos grupos de torcedores da Alemanha (“Tor”, gol em alemão) se concentrará até perto dos argentinos, no Leme, a continuação de Copacabana. A concentração deles inicia às 10h e a partir do meio-dia eles seguirão ao Maracanã de metrô. Isso em meio a mexicanos, americanos, holandeses e até brasileiros que estarão presentes na final e que dão um sotaque novo ao Rio de Janeiro.

A rivalidade entre Argentina e Alemanha, que decidirão uma Copa pela terceira vez, ficou dentro de campo. Em meio à euforia das torcidas, a convivência entre os rivais é amistosa – ao menos por ora. Há até mesmo desejos de boa sorte. O que não deixa de ser justo para uma senhora Copa do Mundo que chega ao seu capítulo derradeiro neste domingo. Que vença o melhor. Seja ele Messi ou Müller.

Que vença o melhor

Que vença o melhor

Viagem no jornal

Carros, Motos & Viagem

Carros, Motos & Viagem

Paramos nossa programação normal para um momento assessoria de imprensa (própria): Depois de ganhar alguns vários posts por aqui, a viagem de março foi parar no jornal. E com direito a uma página inteira.

Uma crônica/resumo daqueles 2,5 mil quilôemtros ao longo de sete dias entre Brasil, Argentina e Uruguai foi publicada no caderno Carros & Motos do Correio do Povo desta quinta-feira, 20 de junho.

Como dá para perceber, a página é essa anexada aqui ao lado, que, se clicada, aumenta de tamanho. Mas com um cadastro gratuito, pode-se ler tudo no site mesmo. Por R$ 1,50 você lê a matéria e ainda ganha um jornal de brinde :P.

Uptade: o PDF da página

Diários de Motocicleta: os 340 quilômetros de Colonia a Punta

A fila para o Buquebus

A fila para o Buquebus

Voltemos, enfim, à estrada. Para sair de Buenos Aires em direção a Porto Alegre tomamos um atalho, via Rio da Prata: o Buquebus, que em uma hora nos transportou da capital argentina até Colonia de Sacramento, a sudoeste do Uruguai, al otro lado del río.

Se na ida fomos pelo continente, a volta foi pela costa uruguaia. De barco, desembolsamos uns 400 pesos para levar as motos e uma hora até Colonia – há ainda uma opção mais barata, mas a viagem leva três horas. Existem também opções mais caras, vips e ultravips com a mesma duração. Outra rota liga diretamente Buenos Aires a Montevidéu, em três horas.

A quem não conhece, Colonia é uma cidadezinha turística ótima para casais. Mas é pequena e um dia já é mais que bom para conhecê-la. Como já estivemos por lá, apenas almoçamos e seguimos viagem, partindo por volta das 14h.

As entranhas do Buquebus

As entranhas do Buquebus

A primeira meta era chegar a Montevidéu, a cerca de 170 quilômetros dali, via Ruta 1, uma estrada que começa cercada de palmeiras, numa vista bem bonita. Mesmo em faixa-dupla em quase toda sua extensão, é uma boa estrada, sem lá muitos atrativos – um deles poderia ser a fábrica da Lifan (!).

Na chegada à capital se passa muito próximo a entrada do Cerro, bairro modesto/histórico/periférico de Montevidéu, que ganhou fama mais recentemente por ser a moradia do pop ex-guerrilheiro tucomano José Mujica, el presidente más pobre del mundo. Já estivemos por lá em 2010 para conhecer o clube local e fizemos matérias pro CP.

A convidativa Ruta 1

A convidativa Ruta 1

Infelizmente, a estadia em Montevidéu desta vez foi curta e não deu para sentar nas encostas das praias para matear no tradicional programa de domingo local, o que me faz concordar quando dizem que as semelhanças entre uruguaios e gaúchos é, de fato, enorme. Qual gaúcho que não gosta de lagartear num frio domingo ensolarado, afinal?

Na mesma tarde, ainda rodamos os quase 20 quilômetros da orla de Montevidéu e pegamos a Ruta Interbalnearia, rumo a Punta del Este, a uns 140 quilômetros dali. A estrada é boa e, em considerável parte, duplicada. Só exige a atenção o inusitado fato de ter sinaleiras, nas cercanias de Montevidéu.

Pouquinho antes do destino do dia chegamos a Punta Ballena, um pequeno balneário rica$$o e interessante. É lá que fica a Casapueblo, o hotel/atelier/museu de Carlos Paez Vilaró, que é um show de arquitetura. Lá, também, que tem o pôr do sol mais bonito da banda oriental, com o mar compondo a paisagem. Só a diária por lá, nos seus US$ 174, que quebra um pouco o encanto.

Casapueblo

Casapueblo

Logo em seguida, chegando já à noitinha em Punta del Este, ainda encontramos aberto um posto turístico muito bem estruturado. Ali, eles dispõem de mapas da cidade e nos indicaram hostels. Ficamos no The Trip, a cerca de um quilômetro do cassino Conrad e com uma diária camarada de US$ 15.

Rápidas
Se um dia você estiver caminhando na 18 de Julio em Montevidéu, passe no La Pasiva e peça uma torta de alfajor. Vale (muito) a pena.
A rota interbalneária do Uruguai é muito bem estruturada, com diversas placas indicando praias e cidades. É um belo passeio rodar por ali, especialmente no fim da tarde.

Um lado obscuro de Buenos Aires

61 anos após sua morte, Evita segue sendo vista em Buenos Aires

61 anos após sua morte, Evita segue sendo vista em Buenos Aires

Vive-se um daqueles momentos políticos que será muito estudado futuramente na Argentina, o Kirchnerismo. Iniciado pelo já falecido Néstor e continuado por sua esposa Cristina. Este período termina, se não houver mortes, golpes de estado e coisas do gênero, no mínimo em 2015, e por certo não passará desapercebido. Deixará tanto saudosistas quanto críticos ferozes, tal qual ao Peronismo.

Estando por lá, observa-se cartazes e pichações pró e contra a Cris, que para alguns é uma sucessora de Evita Perón. No meio disto, puxo um papo aqui, outro ali e tiro lá minhas opiniões. Das vezes que já estive fora do Brasil, aprendi que taxistas podem ser boas fontes. Ao menos um deles me deu uma boa aula de Argentina, escancarando a divisão política nas ruas portenhas.

La villa

Kirchners

Kirchners

Num fim de tarde, ele começou a disparar seus mísseis contra a atual moradora da Casa Rosada no momento em que passávamos ao lado de uma imensa vila, localizada ao fim da avenida 9 de Julio, próxima também à Estação de Retiro. É algo realmente grande, com malocas à beira da estrada e “puxaditos” de até três, quatro andares.

No ponto onde está, a favela inclusive interrompeu a construção de um viaduto, do qual restou o esqueleto em concreto e vigas, indicando onde teria ficado a pista se fosse concluída. Pelo Google Maps dá para se ter uma ideia, ainda que a foto não seja nova.

Conforme o motorista, a população que mora na tal vila é formada basicamente de imigrantes bolivianos e paraguaios, que chegaram a Buenos Aires em busca de uma vida melhor e hoje vivem à margem da cidade. Casualmente, segundo o motorista, receberam de Cristina a cidadania argentina às vésperas da eleição de 2011. Com a cidadania, o direito de votar (nela).

Curioso, não? Pois, disse ele, outras práticas aconteceram por lá, que me remeteram a um passado não tão distante (ou a locais um tanto remotos, sem muita fiscalização). Algo do tipo dar um pé de sapato antes da eleição e, se for o caso, o segundo – se a chapa obter vitória, é claro.

La pintura

Ao longo de uma lenta e trancada 9 de Julio, onde o trânsito estava caótico devido a construção de um corredor de ônibus, uma quantidade de mendigos se aglomerava entre as vias. Em um tom crítico-melancólico, o taxista lamentou que eles não têm a devida assistência.

Enquanto isso, no trânsito, outros tantos motoqueiros cruzavam por nós, levando o capacete no braço e deixando cabelos ao vento. Fiscalização, conta o taxista, só existe no fim do mês: “É quando eles estão precisando arrecadar dinheiro”, explicou. No restante dos dias, em plena capital federal, não é raro ver as pessoas circulando de moto como bem entendem – inclusive nas ciclovias que estão sendo instaladas pelas ruas.

“Mas e aquele policial ali, não faz nada?”, perguntamos. “Que policial? Aquilo é uma pintura na parede”, ironizou.

Tomem-na

Tomem-na

Rápidas
Sei explicar tanto de economia quanto um jogador de futebol trata de teoria da relatividade. Porém imagino que congelamento de preços não é sinal de uma economia salutar. Imagino que seja para barrar a inflação. Mas acho que não tem adiantado muito. Em 2011, andei de metrô em Buenos por 0,90 pesos. Em 2013, a mesma passagem saiu por 2,50.
Mesmo com o congelamento de preços, o Clarin fez uma matéria sobre o assunto no mês passado, apontando alguns produtos que estão ultrapassando a “barreira psicológica” dos 100 pesos. Um quilo de sorvete e duas entradas para o cinema 3D já são citados.
A piauí deste mês corrobora com o taxista, oferecendo uma matéria, assinada por uma periodista argentina, que trata do enriquecimento Kirchreniano. Vale ler, como toda a revista. Já o Ariel Palácios é um baita correspondente na Argentina. Além de escrever para o Estadão e comentar na Globo News, ele tem Twitter