Hora do Conto – dos relatos perfeitos

cronica gaboHá uma vantagem de ser um leitor tardio de Gabriel García Márquez: sua obra é muito vasta. Se não for feito um intensivo e sim degustado pouco a pouco, é possível ler seus livros e textos de tempos em tempos, por um longo período. É o meu caso, um leitor de Gabo há apenas dez anos.

Um breve parêntese: primeiro livro que li dele foi logo “Cem Anos de Solidão”. Certa feita, em um horário de almoço no meu estágio, ganhei uns minutos a mais, porque meu então chefe viu o livro que estava lendo. “Pode continuar aí que eu seguro as coisas um pouco.”

Pero bueno. Meu García Márquez deste início de 2018 foi “Crônica de uma morte anunciada”, publicado originalmente em 1981. Bom contextualizar que o autor era, como vocês devem saber, jornalista. E, usando a mescla da linguagem jornalística com o enredo de romance, criou aqui um de seus melhores relatos. É um livro, mas poderia ser lido em um jornal.

A história conta sobre a morte de Santiago Nasar – “condenado” pelo crime de ter, supostamente, desvirginado uma noiva em alguma pequena cidade caribenha. Revisitada anos depois do assassinato, a história relatada inicia horas antes da morte até a hora do crime, com citações de dias seguintes.

É uma climatização capaz de jogar o leitor no ambiente daquela “terça-feira que começava sombria”, antes da chegada do navio que trazia o bispo – evento para o qual todos do lugar haviam se mobilizado.

“Questões de honra são lugares sagrados aos quais só os donos do drama têm acesso. ‘A honra é o amor’”

O texto, que de quebra oferecer volta e meia aquelas frases definitivas para serem relidas a qualquer momento, não deixa de ser um dos ápices não só do autor, mas do jornalista Gabriel García Márquez. Se toda reportagem fosse contada como o relato do narrador do livro, o jornalismo seria bem mais completo – e certamente mais consumido. Além de ter uma qualidade muito superior.

doodle gabo

Texto publicado no dia em que Gabo completaria 91 anos, lembrado por este doodle acima

 

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Olhos de ressaca

capitu

Nunca tinha sido muito próximo aos livros. Não percebera, então, que aquele era bem mais que um simples olhar. Bem mais.

Dentre tantos relacionamentos líquidos, deixara de notar justo a sua Capitu. Não viu seus olhos, lembrou-se apenas na ressaca.

Agora fica no aguardo. Quem sabe de um próximo romance. Talvez algo do realismo, pois de poesia (e subjetividade) passou longe.

Hora do conto – Um jornalista pelo mundo

hora do conto sem pautaDias atrás zapeando pelo site da Saraiva deparei-me com este livro, que achei que poderia ser bem interessante “Sem pauta – Reportagens, histórias e fotos de um jornalista pelo mudo”. Cara, foi o que eu sempre quis fazer. Comprei, ou melhor, tentei. Deu ruim, mas não desisti, larguei de mão a Saraiva e acabei comprando de um sebo via Estante Virtual.

Mal chegou em casa na semana seguinte e já foi direto para o bidê ao lado da cama, onde, em questão de poucos dias, já estava lido de cabo a rabo. E motivou-me a resgatar a tag “Hora do Conto”, há horas esquecida nos arquivos deste blog.

É uma leitura leve e fácil, ainda que os temas às vezes não sejam os mais bonitinhos e/ou turísticos, já que, basicamente, este livro trata de viagens. Luiz César Pimentel fez o roteiro que originou os textos entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000. Ou seja, não trata de assuntos novos, mas os temas abordados são permanentes.

“Sem Pauta” é um livro escrito por um jornalista que faz questão de olhar os diferentes lados de um fato – e um local. Por exemplo, não trata das belezas paradisíacas do Vietnã sem falar dos campos minados de lá – e da história de alguém que plantava as bombas naquela área. Qualquer viajante mais atento sempre nota que todo lugar tem algo que os locais não gostariam de ser vistos por turistas. Pois.

Genocídios, o cultural no Tibet ou o sangrento massacre populacional o Camboja, são tratados no livro. O que é bom, pois tragédias são fatos que não devemos esquecer em nome do contexto, algo tão em falta em muitas discussões hoje em dia. Tudo isso descrito num texto leve e fácil de ler.

Mas nem tudo são dramas, claro. O livro de Pimentel acaba por sendo um guia de curiosidades locais. Ainda que no título tenha a expressão “pelo mundo” nem todos os continentes são abrangidos. Os países abordados nele são principalmente na Ásia, com rápidas escalas na Europa e no Equador.

“E por que a Ásia?” é a dúvida que logo nos vem. O próprio autor responde no livro: “A verdade é que eu precisava ir para a Ásia. E mais: passar uma temporada lá – já que o continente não é nenhuma estância litorânea a qual se conhece ao cabo de um fim de semana”, explica.

Detalhe, que principalmente os mais preguiçosos da leitura vão gostar: “Sem Pauta” tem uma grande quantidade fotos, que ajudam a ilustrar bem os textos. Infelizmente são em preto e branco, mas mesmo assim colaboram bastante à compreensão dos temas abordados. Mais a mais, o Google está aí para ajudar, qualquer coisa.

Sem Pauta. Reportagens, histórias e fotos e um jornalista pelo mundo
Autor: PIMENTEL, LUIZ CÉSAR
Editora: SEOMAN
Assunto: REPORTAGEM, VIAGEM

Ventana

livro nerudaQuis o destino que a efêmera vida de uma pequena borboleta terminasse justo no chão da minha cozinha, numa dessas manhãs de outono.

À tarde, quando a notei, ainda tentou um ou outro voo, provavelmente mirando a janela ali ao lado. Mas horas depois jazia no chão.

Recolhi, então, o desenhado corpo e em sua homenagem decidi por imortalizá-lo em meio às páginas contendo poesia.

Abri a esmo um livro de Pablo Neruda e repousei a borboleta entre duas odes. Ela escorregou pouquinho para baixo até se encaixar junto a uma palavra específica do texto em espanhol. Ventana.

Por puro acaso – ou não – ela repousa agora junto à Ode a una Estrella.

 

O lado oculto do fio da meada

blocoA grande ideia surge, mas logo agora? “Isso é brilhante”, penso, numa recente empolgação. Mas a caneta some, o computador nem ligado esteve. O escasso tempo passa.

Não fica nem um rabisco que contaria aquela história. Ou talvez uma palavra, no máximo uma bifurcação obscura que leva a um pântano de palavras desconexas.

E então encontra-se a dúvida: para onde vai a inspiração para os textos que a gente esquece?

Camisa 1

Por Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues: “Só o arqueiro tem que ser infalível”

Não entramos em campo para ajudar a fazer a fama de qualquer atacante de penteado esquisito e brinco na orelha. Viemos para estragar a festa. Somos a antítese do futebol, somos goleiros.

Se o jogo é coletivo, a nossa disputa mesmo é individual. Temos que acertar quando todo mundo já ficou para trás. Assim como a camisa 1, carregamos a última esperança, o último suspiro.

Nossa festa é individual. E ela não combina com bola na rede. Está na surpresa geral, no espantado “uh” da torcida, na decepção do rival. Vivemos e zelamos pelo zero no placar.

Mas nem sempre é possível. E quando a bola passa dói, porque todo goleiro sempre acredita que é possível defendê-la. Às vezes falta um salto, um passo, um centímetro. Às vezes falta.

Ainda assim, no que depender de nós, operamos o impossível, desafiando a física, o tempo, o espaço e, principalmente, os adversários. Somos bruxos – a grama não nasce sob nossos pés por acaso – e realizamos milagres em frente a multidões de desconhecidos. Alguns até nos chamam de santos. Outros, não.

Seguramos o grito de gol de quem quer que seja em garganta alheia que não vista as nossas cores. É aí o nosso ápice, a nossa comemoração. Uma alegria estranha e solitária. Tanto quanto nós, os goleiros.

Palavras para guardar ou passar

Livros“Um abraço ao meu grande e fiel amigo” e eu parei de ler por aí. Por óbvio, era uma dedicatória, que estava no livro “102 que contam”, organizado por Charles Kiefer. Não haveria o menor problema se a obra não estivesse a venda, por R$ 10, em um sebo no Centro de Porto Alegre.

Eu estava ali por acaso, matando tempo quando encontrei o livro. Li a dedicatória e em seguida tuitei: “Constrangimento: abrir um livro usado em um sebo e dar de cara com um dedicatória que começa com “ao meu grande e fiel amigo…””.

Num sucesso incomum, tão logo recorri à rede social, as repercussões começaram. Uma colega pouco caso fez, outro questionou o “constrangimento”, uma terceira concordou comigo e, depois, mais um entrou no que virou um debate, sugerindo que o “grande e fiel amigo” pode ter morrido e, por isso, o livro estava naquela estante. Em meio à isso, um sebo passou a me seguir no Twitter.

Achei engraçado o assunto quase banal gerar a discussão. No fundo, mexe um pouco no âmago de qualquer um familiarizado com a literatura. Qual a utilidade de um livro usado, afinal? Deixá-lo na estante, parado, quase como um enfeite intelecutal na casa. Ou passá-lo adiante, a fim de difundir a cultura amigos afora.

Livros, talvez, podem ser comparados com amigos. Parafraseando o Vinicius de Moraes: nem todos estão próximos ao mesmo tempo. Às vezes tu sabes que determinada pessoa está fazendo um bem enorme a grupos distintos, mesmo longe de ti. E às vezes se fica bem faceiro só em saber que ele está ali, ao seu alcance, para reler um parágrafo, um verso marcante.

Fico dividido. Em meio àqueles sonhos empoeirados, acho que anseio por ter um cômodo da minha grande casa destinado a ser um biblioteca particular, onde um Gabriel García Marquez comprado em Bogotá (que ainda nem li) divide espaço com um livreto com discursos de Fidel Castro, vindo de Cuba. Onde Millôr Fernandes e Luis Fernando Verissimo teceriam eternamente textos geniais. Enfim.

Mas, ao mesmo tempo, tem tanta gente que – mais do que poder – deveria lê-los, que fico em dúvida. Volta e meia empresto (troco) livros com alguns amigos. Admito, porém, que esse meu círculo é bem restrito.

Fato é que, por mais que a frase “no fim, a vida inteira se torna um ato de desapego”, vista em um bom filme em cartaz por aí, tenha me feito refletir, algumas coisas talvez sejam imutáveis para mim, como livros com dedicatórias pessoais. Esses são para se levar pra sempre.