Quando a imprensa declara um lado

Toda eleição norte-americana é uma boa oportunidade de ver como funciona quando a mídia, literalmente, toma partido. Ainda que, neste ano, as opiniões da imprensa em geral não sejam divergentes entre si. Sua maioria é, não necessariamente a favor de Hillary, mas determinada contra Donald Trump.

Tais posicionamentos ficaram claros ao longo de toda a campanha. Acentuavam-se a cada novo preconceito emitido por Trump. Fez-se uma campanha, não caluniosa, mas em prol da verdade. Às vezes, em uma apuração em real-time, para ficar no idioma ianque:

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Situação como a mostrada acima aconteceu mais de uma vez, diante de outros fatos, na mesma emissora, que, lembre-se, é uma das principais de lá:

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A busca pela verdade, principalmente a que mostra a real face de Trump – mesmo que ele não pareça fazer questão de escondê-la – rendeu alguns páginas até marcantes e quiçá inéditas durante uma campanha eleitoral – aqui carece de pesquisa para se comprovar. Como o que o The New York Times fez. Separou duas páginas de seu prestigioso papel para citar pessoas, lugares e coisas insultadas por Trump desde que ele demonstrou interesse em suceder Barack Obama:

14650467_10150940807964999_7709710216787734816_nVerdade é que a campanha eleitoral americana chega ao fim marcada por ser a mais baixa da história. Os Estados Unidos sairão divididos, tal como o Peru de 2016, o Brasil de 2014 e a Venezuela de 2013. Três pleitos no mesmo continente onde houve uma divisão quase metade a metade da população entre os dois candidatos.

Não que isso seja novidade para os Estados Unidos, onde normalmente os candidatos democrata e republicano polarizam a eleição. O próprio Obama teve dificuldades em se reeleger quatro anos atrás. A diferença agora é o radicalismo do discurso. Trump incentivou xenofobia, o medo. O empresário testa os limites da própria democracia americana, como ressalta esta ótima matéria publicada na piauí meses atrás.

Ante este radicalismo, a mídia tomou partido. Foi, em sua maioria, contra Trump. Como já havia sido contra e/ou a favor de candidatos republicanos e democratas em anos anteriores. Sem esconder seu posicionamento e seguindo com o noticiário normal. E assim até o dia das eleições:

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Editorial do Miami Herald | via Mídia Mundo

O Brasil ainda atravessa um momento turbulento tanto na política quanto na cobertura. Buscando a prometida “isenção” diversos veículos deslizaram ao longo da cobertura do impeachment e suas consequências. Para algumas denúncias houve o “padrão Snapchat“, mas para outras, capas de revista.

Gente formadora de opinião cravou que a ex-presidente seria presa. Nada, até agora. Mas todos “imparciais”. Ainda que seja um site de opinião, tal página se propõe a informar. Também deveria se lembrar do tamanho da responsabilidade que se deve ter ao publicar uma nota com um título desses.

Em meio a esse cenário, não seria o momento de repensar o posicionamento da imprensa no Brasil? Desde a faculdade, quando o estudante de jornalismo ouve milhares e milhares de vezes que o jornalista deve ser imparcial e blablablá.

Informar o que se pensa ao público não deixa de ser um ato de honestidade do veículo. Da mesma forma que não deve ser um convite a ser “chapa branca” com o “escolhido”. Jornalismo exige responsabilidade. Jornalismo não se faz com mentiras – ao contrário. Mas jornalismo também serve para embasar a opinião. Por que, então, o veículo não pode ser claro com seu consumidor?

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Jornalismo e a crise

Ontem foi dia do jornalista e talvez pela data esteja meio sentimental, especialmente nestes momentos turbulentos seja nas redações ou em salas de governo. Mas, com certo otimismo, ver este cartaz postado pelo Daniel Scola, da Rádio Gaúcha, me fez refletir superficialmente um pouco sobre a relação jornalismo x crise:

Chamou minha atenção a expressão “jornalismo eletrônico”. E isso falado lá por meados da década de 70, quando a televisão, dizia-se, estava em vias de acabar com o rádio, meio então mais consagrado por informar a população.

Não acabou, como todos sabemos. O rádio, desde essa época, adaptou-se. E segue uma nova era agora, com muitas emissoras AM levando seu conteúdo para a FM, onde a música já não é necessariamente o principal conteúdo oferecido. Com a profusão da internet, que não matou a TV, vivemos uma época que temos muitos acordes ao nosso alcance, afinal.

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A redação | Foto: Alina Souza/Correio do Povo

Pra quem não conhece, o Atualidade é um programa onde jornalistas de diferentes veículos e meios da RBS participam. Não deixa de ser uma atração de mídia convergente, tema da minha monografia de graduação em jornalismo em 2008. Tratei o assunto como uma grande novidade, pegando o caso de uma cobertura multimídia na web.

Porém, como bem se vê, já existia o “jornalismo eletrônico” havia décadas. Em quatro anos de faculdade ainda vi outras tantas expressões: “fotojornalismo”, “jornalismo cidadão”, “telejornalismo”, “jornalismo gonzo”, “jornalismo digital”, “jornalismo literário”, “jornalismo de dados” etc.

Há uma constante, nota-se. E mesmo com redações mais esvaziadas e a digitalização de processos, o jornalismo continuou – e continua. Menos gente pode significar mais trabalho, mas também mais responsabilidade àqueles dispostos a fazer um bom jornalismo (algo que nem todos os profissionais estão dispostos e, sim, dá trabalho!). Esses, tenho certeza, seguirão existindo independente da tecnologia que vier.

Muitos jornalistas têm medo que uma tecnologia arrasadora faça voar forte o passaralho. Mas o jornalismo vive nesta crise. Há décadas ele segue aí. E seguirá.

Sobre holofotes e jornalismo

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Atenções voltadas ao estúdio

A presença do deputado federal Jair Bolsonaro em Porto Alegre centralizou as atenções da imprensa local. Em 48 horas a capital gaúcha, Bolsonaro concedeu entrevistas a quatro das principais rádios jornalísticas de Porto Alegre, além de participar de evento na Assembleia Legislativa.

No estúdio Cristal da Rádio Guaíba, ele concedeu entrevista quase que cara a cara com a população, em pleno centro de Porto Alegre. Por óbvio, suas opiniões, para dizer o mínimo, polêmicas, causaram reações tanto pró quanto contrárias.

Dali o clima foi esquentando até chegar à Assembleia Legislativa, onde o deputado foi vítima de um “purpurinaço” e viu o quebra-pau acontecer a poucos metros de si, entre manifestantes cujos ânimos estavam se acirrando desde a véspera, quando o deputado chegou a Porto Alegre e recebido por uma pequena multidão.

Particularmente, discordo frontalmente de Bolsonaro em quase todas as suas opiniões em praticamente 100% dos temas abordados. Isso, no entanto, não me faz achar que a presença dele deveria ser ignorada, como defenderam uns quantos por aí. Concordo: não supervalorizada. Mas não foi o caso – seria se ele fosse a mais veículos de mesmos grupos de comunicação.

O argumento de quem acredita que o deputado recebeu muita mídia em Porto Alegre é de que ele é preconceituoso para baixo e que, por isso, não deveria receber atenção e tampouco cobertura jornalística. Deveria, simplesmente, ser ignorado devido a seus posicionamentos.

Só que jornalismo nunca foi entrevistar/dar mídia apenas a quem “é do bem”. Ainda que imparcialidade plena seja um mito de faculdade não significa que os profissionais não tenham que buscá-la. Entrevistar e, principalmente, tentar explicar o fenômeno Bolsonaro, um cara que almeja ser presidente da República, faz parte do jogo, mesmo que a missão seja lá indigesta.

Cabe ao jornalista tentar esclarecer fatos e pessoas. Especialmente atores do poder público, como é o caso de Jair Bolsonaro, um representante do povo brasileiro na Câmara dos Deputados.

ps: no dia seguinte à entrevista do Bolsonaro, a deputada Maria do Rosário foi ao mesmo programa da Rádio Guaíba;

ps2: Entrevistador de Bolsonaro, Juremir Machado publicou um texto após a entrevista. De certo não é com esta mídia que ele conta.

Um repórter do século passado

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Imagem: contentrev.com/

Certa feita tive uma pauta policial na minha frente. Um assalto mal sucedido em um prédio comercial localizado em uma parte relativamente antiga do Centro de Porto Alegre, na avenida Mauá, via que separa (e afasta com seu muro) a cidade de seu rio (lago ou estuário) Guaíba.

O que se passava, no caso, era que dois homens assaltaram uma joalheria no quarto andar. Pegaram os valores e iniciaram o empreendimento da fuga no elevador. Aí que deu-se o infortúnio. Do térreo, o esperto porteiro percebeu a movimentação suspeita e desligou a eletricidade do elevador, trancando a dupla e mais uma terceira pessoa, que não se sabia se era refém ou cúmplice entre os pisos do prédio.

Pois bem, o caso, obviamente, atraiu as atenções jornalísticas naquele fim de tarde de dezembro. Saí em disparada da redação do centenário Correio do Povo, ali perto. Lá, vi-me cercado de diversos colegas de muitos veículos de comunicação.

Já imaginava o desfecho do caso, que ainda bem não se transformou em tragédia. Mas não sabia que tinha, entre nós, jornalistas, um experimento de viagem no tempo. Aconteceu que a maioria dos repórteres lá presentes tinha seus 20 e poucos anos e seus comportamentos e vestimentas condizentes à idade. Uns de All Star, quase todos de camiseta simples, smartphone na mão, Twitter, Facebook. Relatando informações via internet, algo comum hoje.

Entre nós, porém, havia um senhor, de terno, gravata e – juro – cartola. Segurava um equipamento antiquado para entrar no ar em alguma rádio com uma linguagem, para dizer o mínimo, antiga. Chamou minha atenção, também, porque não fazia ideia de onde aquele senhor trabalhava. Portava um crachá que para mim era ilegível, com exceção da palavra “IMPRENSA”. Seu microfone não tinha canopla, tampouco seu equipamento possuía alguma identificação melhor da empresa para qual reportava.

Falava estranho, com um ritmo dos radialistas de décadas passadas narrando grandes acontecimentos, enquanto os outros contavam mais uma história policial porto-alegrense. Não cheguei a vê-lo conversando com os colegas – prática normal nessas engates que o jornalismo fornece aos repórteres. Sempre sozinho, num canto, falando sobre sua pauta em um microfone antigo.

No fim da noite o caso teve desfecho, sem mortos ou feridos. Na correria do fim de pauta, enquanto finalizava o meu trabalho o vi caminhando em direção ao Centro, apenas, ainda carregando o peso de sua tecnologia um tanto quanto primitiva. Não cubro pautas policiais cotidianamente e nunca mais o vi, nem em sites para jornalistas. Lembrei dele há pouco tempo apenas, lendo um livro que relata como era a minha profissão na primeira metade do século XX.

O que aprendi nas ruas

fotoCentenas de jovens nas ruas reclamando de algo é uma situação. Centenas de jovens voltando às ruas por dias e dias seguidos é outra. E aqueles que mantêm uma rotina dessas não podem simplesmente ser taxados de “vagabundos”, “baderneiros” ou “vândalos”. Há muito mais complexidade nesta massa do que apenas transtornos no trânsito ou mera “baderna”.

Talvez eliminar este pré-conceito tenha sido o maior ensinamento que tive como jornalista nos primeiros meses de 2013. A força dos gritos das ruas – uma grata surpresa, diga-se de passagem –, a tensão do ambiente e uma outra gama de fatos que presenciei e cobri entre março e abril deste ano e que vejo agora se repetir em outras cidades me fizeram refletir sob muitos aspectos, como cidadão e profissional de comunicação.

Das poucas conclusões que é possível chegar é que, por mais esforço que haja, nunca haverá a cobertura perfeita, pois diante de uma sociedade extremamente dividida, as verdades são muitas e cada um escolhe a que lhe convir. Existe depredação à toa, existe abuso policial, existem provocações (de ambas as partes). Há, no meu ponto de vista, uma obrigação ao repórter: de se manter (ou pelo menos tentar) o equilíbrio.

Repórter x tempo

2013-04-04 18.39.41Todo grande protesto envolve uma complexidade enorme de lados. O repórter, que vive contra o tempo e não vê diariamente uma coisa dessas na sua cidade, tem diante de si a revolta da população contra um aumento abusivo, os danos ao patrimônio público, o caos no trânsito da região e um deadline ou uma entrada ao vivo. Tudo isso é notícia e só puxar por um viés é errado, afinal.

O manifestante tem imbuído em si a coragem das grandes massas e a indignação transbordando. Isso não lhe dá o direito de sair quebrando o que tiver na frente, porém. Ainda mais se o objeto que receber sua raiva for público. No front também há os policiais e guardas municipais. Que, em sua maioria, recebem um salário ridículo e tem no estresse uma companhia permanente. Muitos deles, imagino, não recebem o treinamento adequado para a situação. Muitos deles, imagino, nem sabiam que a população se revoltava assim. E aposto que a mobilização tem surpreendido os próprios manifestantes pela força.

Ou seja, o pavio ali no front sempre é curtíssimo.

Em Porto Alegre, a vitória das ruas não chegou a demorar a acontecer e foi legítima, reconhecida na justiça. Na minha opinião, todos os atores passaram por mudanças no decorrer dos atos. Se boa parte dos jornalistas narrou a manifestação mais pelo caos no trânsito, os editoriais foram trocados em seguida por questionamentos cabíveis.

Uma grande vitória. Até junho

2013-04-04 19.04.15Os manifestantes oscilaram, mas no geral tinham diminuído o prejuízo alheio – até explodirem novamente numa nova revolta, agora em junho, quando o quebra-quebra foi grande e houve a promessa de reviver uma nova Turquia. A censura aos vândalos dentro do movimento aumentou no grupo, ao menos. Ainda assim, não chegou a conter os atos.

Policiais, depois de uma briga feia no primeiro protesto, apenas trataram – ao menos na maioria das vezes – de manter a ordem nos encontros seguintes. Até este último, agora em junho, quando mais prisões aconteceram e balas de borracha cruzaram a noite porto-alegrense.

Este último protesto em Porto Alegre, diga-se, aconteceu horas depois de o Tribunal de Contas do Estado confirmar a vitória nas ruas, mantendo as passagens em R$ 2,85, valor que pode baixar ainda mais com um novo cálculo. Até a noite de 13 de junho, uma certa calma pairava na capital gaúcha, que serviu de exemplo a muitos.

Despreparo político e policial  

Assistindo de longe as manifestações em outras cidades, especialmente em São Paulo e no Rio, torço que esta “evolução” aconteça em breve, mesmo que os sinais não apontem isso. Ao menos nas primeiras matérias se vê mais isso: vandalismo exagerado, excesso de violência da parte dos policiais, além de uma falta de contexto maior nas reportagens. E aquilo que se vê no Twitter é ainda mais assustador. Isso é uma derrota para todos.

O maior revés à população, contudo, acho que é a incômoda ausência dos governantes no calor da hora. Em todas as ocasiões os vi realmente distantes do povo, não importa orientação política, não importa legenda. Quando falam, tempos depois do confronto, tentam culpar alguém e algumas frases chegam a constranger.

Em meio ao movimento, eu, que não sou sociólogo nem tenho bola de cristal, estou acreditando que isto é só o estopim. Que começou por R$ ,020 do transporte público, só que vai se espandir a outras áreas sociais. Mas isto talvez seja uma verdade apenas minha e que certamente não convém a todos.

*Escrevi este texto antes do protesto do dia 13. Horas depois, claro, precisei adaptá-lo.
**As fotos são minhas, dos protestos em março e abril. Foram tiradas com meu celular, na correria de enviar algo para a redação.