Das surpresas em noites insossas

RS japao

Prefeitura de Shiga, do outro lado do mundo, estampa sua irmandade com o RS

Na verdade soube desta viagem em meio a uma noite meio entediante na redação. Assim que soube, me candidatei a ir. A bem da verdade, praticamente sem esperança. Mas deu certo. Alguns dias depois atravessei o mundo para ir a um lugar que sempre quis conhecer. Não a turismo ou viajando com tempo e por prazer, contudo em meio à correria, deu para ter uma pequena noção do que é o Japão.

Algumas linhas e impressões já foram publicadas nos posts mais recentes. Outras, por sua vez, acabaram na edição do domingo, 25 de junho, do Correio do Povo. Acabou que, despretensiosamente, eu, um jornalista da área online desde o início de carreira, pela primeira vez publiquei uma matéria assinada em página central de jornal impresso. Quase oito anos depois de entrar numa redação como profissional pela primeira vez.

Se 40 dias antes desta página ser diagramada me dissessem que isso aconteceria, eu não acreditaria. E pensei nisso no momento em que desembarquei no aeroporto de Narita, 35 horas depois de decolar do Salgado Filho, em Porto Alegre. Bom ver que o jornalismo, mesmo nesses tempos modernos, não perde a capacidade de nos surpreender de vez em quando, tanto com pautas quanto com oportunidades. Mesmo nas noites insossas.

Encerrando, então, este período nipônico no blog, deixo o link do pdf das páginas. Espero que gostem.

 

 

Guerra de gritos e versões

greve jose cruz

Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

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Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

A ausência do Prêmio Esso como reflexão

Sabemos, é a crise. Essa danada que faz fechar empresas mundo afora, além de fazer milhares de trabalhadores. Testemunha-se, como nunca antes, no meio da comunicação. Aquele dito de “não está fácil pra ninguém” poucas vezes foi realmente tão verdadeiro. Inclusive aos que não são atingidos pelo voo do passaralho, com o acúmulo de funções.

E a crise, em especial a do Petróleo, fez a ExxonMobil cancelar a edição 2016 do tradicional(íssimo) Prêmio Essom ainda em 2016. Pela primeira vez depois de mais 60 anos consecutivos. Até não chega a surpreender. Afinal só em 2015 a empresa gastou R$ 123.200,00 em prêmios para competentes jornalistas. Em épocas de Lava Jato, para que repetir a dose com… jornalistas? Esses mesmos, que produzem esse jornalismo.

Não houve em 2016, numa decisão divulgada em maio. Passados quase nove meses, não se sabe se haverá em 2017. Se a “pausa para reformulação” primeiramente anunciada foi um hiato ou um fim. Coincidência de 2016, além da suspensão do Prêmio Esso, foi a escolha da “pós-verdade” como palavra do ano. Algo que ganha força a partir do declínio do bom jornalismo ou com, no mínimo, o fato de o leitor não saber onde está o bom jornalismo, que significa, em outras palavras, que o público, em algum espaço de tempo passou a questionar a grande mídia.

Ao bom jornalista, fica o convite à reflexão do que se pode fazer para melhorar o próprio trabalho, como numa tarefa de formiga, que, pouco a pouco, faz o bolo crescer. A névoa da pós-verdade é um incentivo à boa apuração, à clareza dos fatos, para não deixar arestas ou questionamentos de quem ganha com ela. No fundo, um desafio. É tempo de reforçar a credibilidade da imprensa. E só com bom jornalismo se faz isso.

Bom para o trabalho, também, de analisar as coberturas, especialmente àqueles que estão na academia. A turbulência política e a mudança drástica dos atores e partidos que hoje estão no poder e a forma como são tratados, especialmente pelo mainstream da mídia, é quase um tema pronto de monografias, dissertações e teses para estudantes que não permitem-se afastar muito das redações – que, costumeiramente, podem ser bem diferentes de como são pintadas em salas de aula.

 

O mundo é sempre maior que a nossa opinião

mundo

O mundo é bem maior do que qualquer reprodução

Uma pequena continuação do post passado, talvez com ideias mais claras. A questão dita ali não é censurar a opinião, mas não deixar-se enganar pelo espectro da própria convicção. É necessário buscar a maior clareza possível, sempre, principalmente quando se fala a pequenas multidões, como são (ou eram) os leitores de jornais.

Por exemplo: dias atrás um colunista daqui de Porto Alegre escreveu que sua meta de vida é trabalhar até os 100 anos, que seu pai ou avô também labutaram terceira idade a dentro. Alcançá-los será motivo de orgulho ao jornalista com fama de intelectual na praça e espaço garantido a propagar suas opiniões desde uma redação ou estúdio com ar condicionado, sem falar no salário pago em dia e dos mimos do cordel dos puxa-sacos.

Neste assunto, mais recentemente, a revista Exame tentou emplacar uma comparação com Mick Jagger (!!) exemplificando como pode ser “ótimo” desde que haja preparação para isso. Uma matéria que deve ter lá seu mínimo embasamento, mas que soa muito mais como publicidade do governo da hora do preocupação com o bem-estar geral. Ainda mais se considerar a mudança editorial em cinco anos:

Não há nada de errado trabalhar até quando for possível, ignorar a aposentadoria. Porém acatar esse pensamento como majoritário acaba por demonstrar uma ignorância imensa da cidade, Estado e país em que se vive, onde trabalho, talvez na maioria dos casos, não seja sinônimo de prazer e sim de obrigação.

O Brasil – que já foi muito mais desigual, é verdade – é um país cuja média salarial não chegava a R$ 2,5 mil em 2016, com possível tendência de queda devido à recessão. Nas duas maiores capitais do Nordeste, essa média não chegava a R$ 1,7 mil. E só aqui estamos falando de 4 milhões de pessoas.

Tais números apenas para a questão ficar na esfera econômica. Há uma série de outros fatores, como esforço (e lesão) físico e exposição a riscos, que facilmente podem ser ignorados se o dito articulista – trabalhe ele em jornal ou não – mantiver-se concentrado apenas no computador à sua frente enquanto pensa qual ideia tornará pública a seguir.

Fará bem a eles (e seus leitores) perceber o quão grande é o mundo e suas diversas realidades. Muito maior que quantidade de likes, RTs e compartilhamentos que qualquer post. E bem maior que qualquer opinião de gente que não lembra a última vez que andou de transporte público na própria cidade no horário de pico.

ps: talvez seja bom para o contexto lembrar que vivemos num mundo onde oito pessoas têm a mesma riqueza que outros 3.600.000.000 seres humanos.

Das opiniões de cada um

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Realidade é algo muito maior que um olho mágico

São momentos de turbidez, sem dúvida. Há os que achem que pouco muda, há os que temem o início de uma era perigosa neste 2017, após um 2016 de resultados democráticos, mas que não necessariamente representam a voz da maioria mundo afora. Ou, pior, representam uma voz de poucos que falam muito. Extremistas.

Extremos, o mundo sabe, não resultam em lembranças salutares.

O extremo tem seu lado cativante, é importante perceber. Expressar-se sem pudores ou vírgulas. EM CAIXA ALTA para dar mais ênfase. Colocar para fora, enfim, o que se sente, o que se pensa no íntimo. Danem-se os freios da boa conduta social ou da chamada netiqueta (justo nesses tempos, alguém se lembra deste termo?).

Mas se por um lado o extremismo oferece essa sensação de liberdade aos comentários e teses – seja no exagerado te amo quanto na virulenta crítica – ao mesmo tempo isso diminuí consideravelmente a visão de mundo. A imposição da opinião é oposta ao contexto, hoje tão necessário em épocas de bolhas.

Se há alguma coisa que se aprende ao se conhecer novas pessoas, lugares ou culturas é de que pontos de vista são infinitos. Se são melhores ou piores, cabe à própria consciência julgar – ou preferir nem fazê-lo. Porém, saber dialogar com opiniões divergentes é, no mínimo, um convite à inteligência. Ao menos mal não faz.

É uma questão de comunicação, sim, o debate e o esclarecimento do extremismo. Debate, aliás, algo suprimido com a massificação das redes sociais, onde muitos acreditam naquilo que lhe convêm.

Foi algo evolutivo: há 13 anos o Orkut conectava ex-colegas de colégio ou ex-vizinhos. Hoje, o Facebook liga ao crush desconhecido que fizeram check-in em determinado lugar. Antes, mal havia espaço para discussão em redes sociais, hoje se posta qualquer conteúdo e existe a possibilidade de pagar para que ele alcance ainda mais gente.

Cabe à própria pessoa, claro, decidir o que fazer com relação às próprias opiniões e querer entender ou não que vive numa bolha, seja na sua rede social virtual ou na real. Mas o comunicador, principalmente o jornalista, não tem direito a renunciar à diversidade de opiniões. Especialmente se trabalha num grande veículo de… comunicação.

A credibilidade ou, como gostam alguns, o seu prestígio, depende disso. Com o tempo se percebe.

More essential than ever

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The Times are changing

Dentre seus fatos marcantes, 2016 ficará marcado também por sua palavra eleita pelo Dicionário de Oxford: “post-truth“, a “pós-verdade”. Analisando bem, soa como um quê distópico, ainda mais com seus expoentes, como o presidente eleito norte-americano e, no caso do país que escolheram a palavra, o Brexit.

Faz tempo que teorizo em conversas na redação ou mesmo nas boas mesas de bar. Diante de tanta informação neste mundo em que todos são mídia, cabe ao (bom) jornalista propor-se o papel de curador da informação. Nesta época em que todo mundo tem condições técnicas de dar um furo, a credibilidade faz-se cada vez mais importante.

E aqui é bom pontuar: credibilidade não rima com chuvas de likes e shares nas redes sociais.

Se algo não mudou nesta acelerada época ultra e permanentemente conectada é a construção da credibilidade. Ela é lenta (e tem que continuar sendo), exige dedicação, apuração e trabalho. Existem muitas tentações para perdê-la. Volta e meia acontecem do meio para o fim do expediente, quando já está um pouco cansado: “Será? Mas tá todo mundo dando isso”.

Dentro deste contexto há ainda uma dificuldade e tanto que está consumindo jornalões e que custa a ser superada: a própria manutenção do webjornalismo. Em mais de 20 anos de internet comercial – sendo pelo menos 15 no hardnews – ainda não foi encontrado o modelo ideal para a sobrevivência dos bons sites. Não à toa, também, as redações vão se esvaziando num momento em que cada vez mais empresas contratam gente para produzir conteúdo.

Neste mundo conectado, o leitor não está acostumado a pagar e talvez haja um senso comum de que não é caro para se fazer um bom jornalismo. Errado. Por outro lado, os anunciantes conseguem direcionar suas peças publicitárias por um valor bem mais barato com Google e Facebook, por exemplo.

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O buraco é bem mais embaixo, mas a boa e velha assinatura, então, surge como um possível desafogo, ainda que não solução para hoje. É o que tenta o tradicional The New York Times com o anúncio aqui em cima – que tem uma chamada que, num primeiro olhar, parece até bobinha, mas quando refletimos em todo o contexto, vimos que é bem exata para estes tempos de pós-verdade.

O valor é barato e cheio das promoções. Certamente mais acessível do que se eu morasse em Manhattan e quisesse lê-lo em papel pela manhã. Mas, por outro lado, se o até o NYT “se vende” por um preço menor, ele – e todos os outros jornais – nunca estiveram tão próximos de um público muito maior que suas cidades. Só que não é apenas pelo caça-clique que se manterão em novos horizontes.

A eleição dos jornalistas-cidadãos

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Projeção da mídia x realidade

Ainda na faculdade eu ouvia um inocente e mobilizado “hoje todo mundo pode ser jornalista”. Era um novo tempo que chegava, em que o leitor estaria munido do poder publicar o que bem entender em seu blog gratuito. O começo da chamada Web 2.0. Era o tempo, repito, inocente da ideia do “jornalismo cidadão”.

Pouco depois disso, entre o fim da década passada e o início desta, massificaram-se as redes sociais em seu padrão mais perto do atual. Em seguida, já boa parte da população estava com seus próprios smartphones. Aí produção e disseminação de conteúdos estavam literalmente à palma da mão. Todos, de fato, poderiam se não ser jornalistas, a estarem aptos a dar o grande furo através de um flagrante ocasional. Blog gratuito? Já nem era mais necessário. Podia-se jogar a informação diretor na praça ou na banca de revistas.

Só que com todo mundo produzindo conteúdo o ruído ficou alto, ao mesmo tempo em que o nível de muitas discussões despencou enquanto grandes jornais viram a concorrência se multiplicar – seria o próprio leitor um media? Nesta ronha, sem perceber tanto, fomos separados em grupos por robôs, que atendem pelo nome de algoritmo. Neles amigos e correligionários encontraram-se. E muitos ainda estão certos que formam uma maioria, pois é só olhar: a maioria do Facebook está conosco!

Passa mais um tempo chegou a época da campanha eleitoral norte-americana de 2016. Aquela com dois candidatos que maioria não gosta. Aquela com nível baixíssimo e com a imprensa não poupando de críticas o republicano Donald Trump. Assim como a mídia, a aparente maioria Facebookiana e tuiteira também apoiava Hillary Clinton.

A democrata começou a noite decisiva com 85% de chances de ser eleita, conforme o The New York Times. As urnas foram sendo apuradas e o índice foi caindo. Trump, o temido odiado, passou à frente. Ganhou. Apesar da imprensa, apesar das redes sociais, apesar de ter dito em alto e bom som tudo o que disse.

A vitória de Trump, e principalmente a derrota de Hillary, foi como uma porrada da realidade, que grita: “Este algoritmo não passa de uma bolha! Não acredite somente nele”. A vida e a realidade são bem maiores do que as redes sociais. Não à toa que a candidata perdeu na maioria dos municípios americanos, esses pequenos. O conjunto de cidades caipiras do interior norte-americano venceu os centros metropolitanos.

A imprensa também recebeu um forte cruzado de direita. Apesar de se propor a fazer levantamentos dos preconceitos do republicano, de escancarar seus defeitos,não conseguiu eleger sua proposta. Em um resumo bem inocente e utópico, jornais trazem à tona notícias e fatos nos quais deveríamos acreditar.

O resultado eleitoral pode indicar que o modus operandi de boa parte da imprensa, especialmente na internet, esteja errado, como sugere um artigo escrito por Jeff Jarvis, intitulado com o sugestivo nome de Postmorten of Journalism. Friso o seguinte trecho, numa livre tradução:

Transformamos Donald Trump num caça-cliques mortal. O cerne do problema é que nós jornalistas insistimos em preservar nosso modelo de negócios de mídia de massa baseado em volume. Em manter o foco nos cliques e em chamar a atenção.
Os fatores somados indicam que o jornalismo saiu da eleição americana com um voto de desconfiança, que deve ser entendido como um questionamento a sua credibilidade. Justo nesta época, em que todos têm celulares e podem escolher onde se informar. Nesta época em que todos são jornalistas.