Por mais boas histórias

Não sou lá de fazer resoluções de ano-novo. Mas, para 2014, torço por mais boas histórias, como a da judoca Taciana Lima, que em 2013 deu uma reviravolta na sua vida esportiva e pessoal – e eu tive a oportunidade de reportar. Após conhecer o pai biológico quase aos 30 anos, foi acolhida e virou ídolo em um país tão carente de ícones: Guiné Bissau. O texto aí abaixo é antigo, foi escrito em abril e se não fossem os protestos de junho teria sido publicado em revista de circulação nacional. Ao menos saiu no jornal – cujo PDF está disponível aqui.

Tinha esquecido de publicar aqui, mas antes tarde do que mais tarde ainda. A Taciana que o diga.

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A virada de Taciana

Taciana Lima virou o jogo. Ou melhor, aplicou um ippon e tanto na realidade, aos 29 anos. Após o “pior momento da vida”, no qual ela foi impedida de lutar por 15 meses devido a uma suspeita de doping, a judoca da equipe gaúcha Oi/Sogipa naturalizou-se cidadã de Guiné Bissau, venceu o Campeonato Africano e de quebra voltou às primeiras posições do ranking olímpico, transformando o sonho de disputar o Mundial em realidade.

O mês era junho de 2011. Taciana brigava ponto a ponto com Sarah Menezes pelo posto de número 1 do Brasil na categoria ligeiro. No fim de maio conquistara a medalha de bronze na Copa do Mundo de São Paulo e lá se submeteu ao teste antidoping, cujo resultado apontou positivo para a substância Furosemida. Era o início do abismo. A contraprova só saiu mais de ano depois, quando os Jogos Olímpicos de Londres já tinham passado.

Enquanto Sarah conquistava a medalha de ouro e se consagrava como uma das principais atletas da modalidade no Brasil, Taciana procurou não baixar a cabeça: “Eu fiquei uma semana sem treinar. Depois não parei”, conta. “Fui atrás do jiu-jitsu e consegui melhorar uma deficiência que tinha e me prejudicava no judô. Não passou pela minha cabeça em nenhum momento parar. Até porque, na minha consciência, eu sei o que tinha acontecido. Eu queria só que se esclarecesse”.

Mas não foi fácil. “O pior momento não foi nem a situação, foi a espera de não saber nada. Nesses 15 meses chorei todos os dias”, recorda. “O único dia foi quando eu fui campeã mundial de jiu-jitsu. Eu estava numa euforia e não consegui lembrar da situação.”

Mal sabia ela, entretanto, que a sua virada de jogo havia começado muito antes. Justo após uma derrota para Sarah Menezes, na seletiva que formou a equipe brasileira para as Olimpíadas de Pequim. Nascida em Pernambuco e radicada em Porto Alegre desde criança, Taciana não conhecia o pai. E nem se interessava: “Meu padrasto me criou desde os três anos. Minha mãe sempre me falou que meu pai não era brasileiro, mas eu não sabia nem o nome. Nunca tinha nem procurado saber”.

A derrota naquela ocasião a fez rever a conceitos: “Eu perdi uma seletiva olímpica e não sei. Deu um estalo e veio meu pai na minha cabeça. Cheguei em casa e foi a primeira coisa perguntei para minha mãe. Ela disse que ele era um cara muito bom, veio estudar e depois foi embora e nunca mais teve contato”. Num mundo com internet, o Google – e a embaixada de Guiné no Brasil – deram uma força para o contato. “No dia seguinte ele me ligou.”

As conversas por telefone e via internet, contudo, só foram trocadas por um abraço de verdade no fim de 2012, quando a judoca conheceu a família africana no feriado de ano-novo, do outro lado do oceano. “Tenho três irmãos mais dois adotados lá e mais duas aqui”, diz, sem esconder o sorriso. “Da noite para o dia, o que eu tenho é irmão.”

A felicidade com a nova família consolidava a reta ascendente na vida e na carreira da atleta da Sogipa. Dois meses antes do encontro, Taciana foi autorizada a competir e já no primeiro torneio, no Grand Prix de Abu Dhabi, ainda lutando pelo Brasil, voltou ao pódio e conquistou a medalha de bronze.

A experiência nos primeiros dias de 2013 em Guiné Bissau a fizeram refletir e tomar uma decisão que poderia ter acontecido quatro anos antes: obter dupla cidadania. A burocracia foi vencida em março e, no mês seguinte, Taciana Lima, agora também Baldé, estreava defendendo a nova bandeira no Campeonato Africano. Lá, foram três lutas, vencidas com três ippons, que consolidaram a volta por cima: garantiram-na no Mundial-2013 de agosto e no Masters, torneio que reúne apenas os top-16 do mundo.

Multicampeã pelo Brasil, Taciana não se deu conta na hora do que fizera por Guiné Bissau ao subir no topo do pódio. “Já fui adicionada no Facebook mais de 1,5 mil pessoas e recebo muitas mensagens de pessoas dizendo: ‘Em toda minha vida você é a pessoa que mais me trouxe felicidade, mais orgulho de ser guineense’”, exemplifica. “No Brasil é normal o atleta subir no pódio, subir a bandeira. Para eles não. Mexeu com o país.”

Após a façanha, ela volta a lutar por Guiné nesta semana, no Masters, na Rússia. Em seguida, disputa torneios em Lisboa e Madri. A programação se estende até o Mundial, o primeiro na carreira, e no Rio, onde ela deve ser assistida ao vivo pelo pai: “O objetivo maior é o Mundial, é um sonho que sempre tive. As pessoas até falam, são muito pela Olimpíada. É óbvio que tenho os sonhos dos dois, vi o João (Derly) ganhar dois Mundiais”. O fato de ser no Rio de Janeiro também é comemorado: “É um custo a menos também. E lutar no aqui vai ser maravilhoso”.

Renascida para o judô, Taciana também se move por uma motivação especial, de desenvolver o judô em Guiné quando se aposentar. “Posso fazer mais. Passar para os outros o que aprendi todos estes anos”, garante. Mas o plano é para o futuro. Agora, depois de transformar todo o sofrimento e motivação, ela busca medalhas e suspira: “Eu brinco, mas é verdade, agora sim a minha história de vida está completa”.

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5 pensamentos sobre “Por mais boas histórias

  1. É isso aí,a nossa gramde vitoriosa, eu fiquei muito emocionada lendo sua história, vou sempre torcer pra sua vitória. Obrigada

  2. Orgulho é que temos e sentimos por tudo o q estas a fzr pra este povo q tanto mereci porque ao contrario da nossa história as vezes mal contadas temos aqui a outra face da Guiné obrigada campeã e boa sorte !

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