Olhos de ressaca

capitu

Nunca tinha sido muito próximo aos livros. Não percebera, então, que aquele era bem mais que um simples olhar. Bem mais.

Dentre tantos relacionamentos líquidos, deixara de notar justo a sua Capitu. Não viu seus olhos, lembrou-se apenas na ressaca.

Agora fica no aguardo. Quem sabe de um próximo romance. Talvez algo do realismo, pois de poesia (e subjetividade) passou longe.

Hora do conto – Um jornalista pelo mundo

hora do conto sem pautaDias atrás zapeando pelo site da Saraiva deparei-me com este livro, que achei que poderia ser bem interessante “Sem pauta – Reportagens, histórias e fotos de um jornalista pelo mudo”. Cara, foi o que eu sempre quis fazer. Comprei, ou melhor, tentei. Deu ruim, mas não desisti, larguei de mão a Saraiva e acabei comprando de um sebo via Estante Virtual.

Mal chegou em casa na semana seguinte e já foi direto para o bidê ao lado da cama, onde, em questão de poucos dias, já estava lido de cabo a rabo. E motivou-me a resgatar a tag “Hora do Conto”, há horas esquecida nos arquivos deste blog.

É uma leitura leve e fácil, ainda que os temas às vezes não sejam os mais bonitinhos e/ou turísticos, já que, basicamente, este livro trata de viagens. Luiz César Pimentel fez o roteiro que originou os textos entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000. Ou seja, não trata de assuntos novos, mas os temas abordados são permanentes.

“Sem Pauta” é um livro escrito por um jornalista que faz questão de olhar os diferentes lados de um fato – e um local. Por exemplo, não trata das belezas paradisíacas do Vietnã sem falar dos campos minados de lá – e da história de alguém que plantava as bombas naquela área. Qualquer viajante mais atento sempre nota que todo lugar tem algo que os locais não gostariam de ser vistos por turistas. Pois.

Genocídios, o cultural no Tibet ou o sangrento massacre populacional o Camboja, são tratados no livro. O que é bom, pois tragédias são fatos que não devemos esquecer em nome do contexto, algo tão em falta em muitas discussões hoje em dia. Tudo isso descrito num texto leve e fácil de ler.

Mas nem tudo são dramas, claro. O livro de Pimentel acaba por sendo um guia de curiosidades locais. Ainda que no título tenha a expressão “pelo mundo” nem todos os continentes são abrangidos. Os países abordados nele são principalmente na Ásia, com rápidas escalas na Europa e no Equador.

“E por que a Ásia?” é a dúvida que logo nos vem. O próprio autor responde no livro: “A verdade é que eu precisava ir para a Ásia. E mais: passar uma temporada lá – já que o continente não é nenhuma estância litorânea a qual se conhece ao cabo de um fim de semana”, explica.

Detalhe, que principalmente os mais preguiçosos da leitura vão gostar: “Sem Pauta” tem uma grande quantidade fotos, que ajudam a ilustrar bem os textos. Infelizmente são em preto e branco, mas mesmo assim colaboram bastante à compreensão dos temas abordados. Mais a mais, o Google está aí para ajudar, qualquer coisa.

Sem Pauta. Reportagens, histórias e fotos e um jornalista pelo mundo
Autor: PIMENTEL, LUIZ CÉSAR
Editora: SEOMAN
Assunto: REPORTAGEM, VIAGEM

Ventana

livro nerudaQuis o destino que a efêmera vida de uma pequena borboleta terminasse justo no chão da minha cozinha, numa dessas manhãs de outono.

À tarde, quando a notei, ainda tentou um ou outro voo, provavelmente mirando a janela ali ao lado. Mas horas depois jazia no chão.

Recolhi, então, o desenhado corpo e em sua homenagem decidi por imortalizá-lo em meio às páginas contendo poesia.

Abri a esmo um livro de Pablo Neruda e repousei a borboleta entre duas odes. Ela escorregou pouquinho para baixo até se encaixar junto a uma palavra específica do texto em espanhol. Ventana.

Por puro acaso – ou não – ela repousa agora junto à Ode a una Estrella.

 

Palavras para guardar ou passar

Livros“Um abraço ao meu grande e fiel amigo” e eu parei de ler por aí. Por óbvio, era uma dedicatória, que estava no livro “102 que contam”, organizado por Charles Kiefer. Não haveria o menor problema se a obra não estivesse a venda, por R$ 10, em um sebo no Centro de Porto Alegre.

Eu estava ali por acaso, matando tempo quando encontrei o livro. Li a dedicatória e em seguida tuitei: “Constrangimento: abrir um livro usado em um sebo e dar de cara com um dedicatória que começa com “ao meu grande e fiel amigo…””.

Num sucesso incomum, tão logo recorri à rede social, as repercussões começaram. Uma colega pouco caso fez, outro questionou o “constrangimento”, uma terceira concordou comigo e, depois, mais um entrou no que virou um debate, sugerindo que o “grande e fiel amigo” pode ter morrido e, por isso, o livro estava naquela estante. Em meio à isso, um sebo passou a me seguir no Twitter.

Achei engraçado o assunto quase banal gerar a discussão. No fundo, mexe um pouco no âmago de qualquer um familiarizado com a literatura. Qual a utilidade de um livro usado, afinal? Deixá-lo na estante, parado, quase como um enfeite intelecutal na casa. Ou passá-lo adiante, a fim de difundir a cultura amigos afora.

Livros, talvez, podem ser comparados com amigos. Parafraseando o Vinicius de Moraes: nem todos estão próximos ao mesmo tempo. Às vezes tu sabes que determinada pessoa está fazendo um bem enorme a grupos distintos, mesmo longe de ti. E às vezes se fica bem faceiro só em saber que ele está ali, ao seu alcance, para reler um parágrafo, um verso marcante.

Fico dividido. Em meio àqueles sonhos empoeirados, acho que anseio por ter um cômodo da minha grande casa destinado a ser um biblioteca particular, onde um Gabriel García Marquez comprado em Bogotá (que ainda nem li) divide espaço com um livreto com discursos de Fidel Castro, vindo de Cuba. Onde Millôr Fernandes e Luis Fernando Verissimo teceriam eternamente textos geniais. Enfim.

Mas, ao mesmo tempo, tem tanta gente que – mais do que poder – deveria lê-los, que fico em dúvida. Volta e meia empresto (troco) livros com alguns amigos. Admito, porém, que esse meu círculo é bem restrito.

Fato é que, por mais que a frase “no fim, a vida inteira se torna um ato de desapego”, vista em um bom filme em cartaz por aí, tenha me feito refletir, algumas coisas talvez sejam imutáveis para mim, como livros com dedicatórias pessoais. Esses são para se levar pra sempre.

El Dorado de Latinoamerica

O nome do aeroporto internacional de Bogotá ser “El Dorado” já indica que por essas bandas devem haver muitos metais preciosos. E há, ou pelo menos havia.

Um dos pontos obrigatórios de quem passa por Bogotá é o Museo del Oro, cuja entrada custa 3 mil pesos. Ao longo dos quatro andares da exposição permanente foi inevitável recordar do livro que me acompanhou na viagem: “As veias abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano. Em suma, a primeira parte da obra pode ser assim: “Tua riqueza será o motivo da tua pobreza”, referindo-se à exploração dessas terras séculos atrás. O texto narra os períodos de exploração pelo qual passaram os países latinos na época da colonização. Um longo trecho se dedica ao ouro e a prata, que um dia foram bem abundantes aqui.

Pois no museu há tantas e variadas peças douradas que me fez refletir sobre como nós, latinos, nos conhecemos pouco. Em meu tempo escolar, por exemplo vi muito sobre a Idade Média na Europa e pouco ou quase nada da minha região antes do desembarque de Cristóvão Colombo. Acho que ilustra como a história foi narrada pelos conquistadores — os mesmos que dizimaram boa parte dos nativos.


Nessa mesma manhã rodei pelo centro de Bogotá e acabei por entrar no museu de Santa Clara. Lá funcionou um convento séculos atrás. Apesar de bem menor que o museu do ouro, a quantidade proporcional de ouro impressiona bastante. Dias depois, circulando por Casco Antiguo, já no Panamá, dei de cara com o suntuoso altar de ouro da Iglesia de San José, uma igreja que, vista de fora, não se esperaria muitos requintes.

Se tanta riqueza havia, por que há tanta desigualdade no nosso continente? Poderíamos começar a entender se nos estudássemos melhor.

Hora do Conto 4 – Enriquecendo a cultura à base de voz e violão

   Foi nas minhas férias, em janeiro, que prometi a mim mesmo dar um gás e, se possível, terminar de ler o livro. Mas foi só no fim das águas de março (trocadilho inevitável, desculpe) que, com entusiasmo determinante, finalmente virei a última das 425 páginas de “Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova”.
   Ok. Talvez lendo apenas o parágrafo acima, a tua vontade, caro(a) leitor de conseguir esse livro talvez seja um pouco menor que nenhuma. Porém, insista. Vamos à segunda parte:
   Muito dessa demora, contudo, foi por relaxamento meu, que acabei dando prioridades a outras coisas ao invés de mergulhar na(s) história(s) narrada(s) por Ruy Castro ao longo daquelas páginas invencíveis. Perdi, eu, que acabei não guardando todas na memória como deveria.
   “Chega de Saudade” é sublime, embora cansativo em certas partes. Tem uma das aberturas mais geniais que já li – a qual comparo a “Rum, Diário de um jornalista bêbado”, de Hunter Thompson, a melhor, na minha opinião. E, com tanto gênio envolvido na parada, o livro de Ruy Castro dificilmente sairia ruim. Muito bem escrito, então, faz valer o esforço por cada página.
   A obra serve quase como um manual da música brasileira da metade do século passado. Bastidores interessantíssimos como a (verdadeira) apresentação de Vinicius a Tom, shows históricos em meras bodegas – e faculdades de Arquitetura – ou o ambiente dos bares mil onde a turma se encontrava chegam a ser visuais em diversos momentos – e, obviamente, musical o tempo inteiro.
   Acompanhando João Gilberto, o Joãozinho, desde a Juazeiro da década de 1940, o leitor possivelmente achará o criador da batida revolucionária da Bossa Nova um grandioso mala sem alça. No entanto, sua produção musical justifica toda e qualquer chatice. Pois João Gilberto tem o dom da hipnose, provado de Chega de Saudade a “João, voz e violão”, seu último trabalho.
   Ressalte-se, também, que Ruy Castro evita visões apaixonadas demais sobre o gênero, ou sobre alguns de seus artistas. Isso o faz abrir o leque de músicos integrantes da Bossa Nova e de outros ritmos nela ligados. Quem ganha com isso é o leitor, que termina o livro culturalmente muito mais enriquecido do que quando começou.
   Outro lado positivo é que “Chega de Saudade” foi publicado originalmente em 1990 e reeditado algumas vezes depois. Além disso, a festa de Bossa Nova 50 anos terminou em 2008, o que fez com que obras sobre o evento tenham baixado de preço. Uns R$ 30,00 já resolve, no máximo. E, lembrando, há sempre a opção do sebo. Vá lá e aproveite!

Chega De Saudade. A história e as histórias da Bossa Nova
Autor: CASTRO, RUY
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: ARTES – MÚSICA

Fonte: Livraria Cultura

ps: tenha papel e caneta por perto na hora de lê-lo, caro(a) leitor. Tu vais precisar na hora de lembrar a quantidade de música que irás querer ouvir depois. Vale a dica!
ps 2: Se quiseres, relembra o post de 2009, sobre a biografia de Tom Jobim.

Hora do Conto 3 – Comédia com assinatura

   “Altamente devorável. Recomendável para quaisquer dias, inclusive aqueles de chuva e/ou tediosos. Entretanto, cuidado para não terminar o livro logo na primeira leitura. Apesar de parecer bom no momento, estraga um prazer do dia seguinte.”

   O parágrafo acima fui eu que escrevi e publiquei somente aqui, mas ele poderia estar perfeitamente na orelha de “Comédias Brasileiras de Verão”, do Luis Fernando Verissimo, da série Ver!ssimo da editoria Objetiva.
   Ao longo das 51 crônicas do livro, Verissimo parece estar sentado ao nosso lado, contando suas histórias – praticamente todas bem boladas e com o senso de humor característico do velhinho careca e tímido. Os textos foram divididos em cinco categorias: Eles e elas, Obsessões, Separações, A vida em bando e Álbum de família.
   A assinatura do autor já aparece logo no primeiro conto, quando narra a história de um casal que acorda nu na cama, em 1º de janeiro. O detalhe é que eles não se conhecem, nem se recordam como chegaram lá, além de não terem noção de onde estão.
   Em outra, conta o desfecho do hipotético desejo realizado: o de ser esquecido em uma ilha deserta com Luana Piovani. Para um homem normal, o desfecho é, no mínimo, surpreendente.
   Quanto ao título da obra, não poderia ser mais adequado. “Comédias…” é o típico livro para se ler jogado em uma cadeiras sentindo a brisa vinda de uma mar como o de Capão da Canoa… Salva de qualquer dia de mau humor.

Comédias Brasileiras De Verão
Autor: VERISSIMO, LUIS FERNANDO
Editora: OBJETIVA
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA – CONTOS E CRÔNICAS

fonte: Livraria Cultura