A manobra do El País

El Pais

El País, um jornal digital | Foto: Bernardo Péres / El País

“Quando cheguei ao El País, disseram-me que era um jornal impresso que tinha um site. Minha missão era, pouco a pouco, transformá-lo num site que também tinha um jornal impresso.” Essa, em essência, foi a frase dita jornalista espanhol Gumersindo Lafuente, então diretor do El País, em uma palestra que ele ministrou em Porto Alegre uns dois ou três anos atrás.

Tal ideia me marcou. Em meio a uma classe apegada com seu passado de tinta e papel, aquela foi uma ideia que soava completamente revolucionária. E, acima de tudo, correta visando o futuro – isso em um presente que ainda não havia sido dominado pelos smartphones.

Pois bem, o futuro chegou. Em carta à redação do El País, o diretor-chefe da equipe, Antonio Caño, anunciou o passo seguinte à ideia apresentada a Lafuente anos atrás: o El País não terá mais papel e será “essencialmente digital”. Em outras palavras, vai virar um somente site, com o papel tendo seus dias contados.

É um passo ousado, a medida que o modelo econômico qeu sustenta o jornalismo digital ainda não está consolidado – talvez nem perto disso. Mas eles sabem disso: “Decidimos não apenas não ter medo da mudança, mas antecipar-nos na medida do possível para estar na vanguarda dessa mudança”, diz o comunicado.

A carta não informa datas, cortes e/ou redirecionamentos da equipe. Apenas libera uma pista: “Será uma redação sem escritórios, aberta à colaboração e à troca de ideias, na qual as equipes se misturarão para construir novas histórias. A partir de agora, no coração da planta principal será instalado um moderno espaço aberto dedicado à criação e à coordenação de informações e sua distribuição nos diferentes canais. O centro dessa redação contará com uma moderna ponte de comando, na qual haverá perfis jornalísticos, de desenvolvimento tecnológico, de edição gráfica e de vídeo, de design, de produção, de medição de audiência, de redes sociais, de SEO [otimização de sites] e de controle de qualidade. A partir dali serão criadas novas narrativas e novas formas de comunicação que continuarão a manter este jornal na vanguarda do jornalismo global”.

Esta redação sem escritórios faz sentido. O jornal espanhol se proporá a ser “cada vez mais americano”, conforme seu diretor. “Pois é na América onde o nosso crescimento é maior e nossa expansão mais promissora.” Madri e Barcelona, então, ficaram pequenas diante do alcance das redes sociais, ainda mais com o jornaleiro e a banca do século XXI.

Em um mundo repleto de incertezas e com uma crise que às vezes parece não ter fim, o El País adianta-se ao futuro, numa manobra arriscada. Porém, acima de tudo, corajosa e respaldada pela qualidade de seu material. Como leitor e como jornalista, fico na torcida.

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