Das surpresas em noites insossas

RS japao

Prefeitura de Shiga, do outro lado do mundo, estampa sua irmandade com o RS

Na verdade soube desta viagem em meio a uma noite meio entediante na redação. Assim que soube, me candidatei a ir. A bem da verdade, praticamente sem esperança. Mas deu certo. Alguns dias depois atravessei o mundo para ir a um lugar que sempre quis conhecer. Não a turismo ou viajando com tempo e por prazer, contudo em meio à correria, deu para ter uma pequena noção do que é o Japão.

Algumas linhas e impressões já foram publicadas nos posts mais recentes. Outras, por sua vez, acabaram na edição do domingo, 25 de junho, do Correio do Povo. Acabou que, despretensiosamente, eu, um jornalista da área online desde o início de carreira, pela primeira vez publiquei uma matéria assinada em página central de jornal impresso. Quase oito anos depois de entrar numa redação como profissional pela primeira vez.

Se 40 dias antes desta página ser diagramada me dissessem que isso aconteceria, eu não acreditaria. E pensei nisso no momento em que desembarquei no aeroporto de Narita, 35 horas depois de decolar do Salgado Filho, em Porto Alegre. Bom ver que o jornalismo, mesmo nesses tempos modernos, não perde a capacidade de nos surpreender de vez em quando, tanto com pautas quanto com oportunidades. Mesmo nas noites insossas.

Encerrando, então, este período nipônico no blog, deixo o link do pdf das páginas. Espero que gostem.

 

 

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A peculiar troca de cartões japonesa

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Dentre os antagonismos entre brasileiros e japoneses um dos que mais chama a atenção é o momento de “troca de cartões”. Praticamente uma cerimônia, com direito a hora marcada na rígida e pontual agenda nipônica de compromissos para um evento – que é seguida à risca. “A entrada para uma boa impressão aqui é dar o devido valor para a troca de cartões” ressalta Etsuo Ishikawa, consultor do banco Iwata Shinkin.

Se no Brasil o contato entre desconhecidos potenciais parceiros é feito nos coffee break ou networking, lá a troca de cartões é um momento solene. “A troca de cartão de visita é fundamental, porque no Japão a primeira coisa que você faz ao se apresentar é entregar o seu cartão. E esta troca não pode ser algo sem muita formalidade, porque no cartão tem lá sua qualificação, de onde você é, seu telefone. Toda a informação de quem ele vai passar a interagir”, conta.

E há regras de boa conduta, obviamente. O cartão deve ser entregue (e recebido) com ambas as mãos de forma com a qual quem ganha a apresentação possa lê-la na hora. Não raro ambas as pessoas estão curvadas, como sinal de respeito. “O japonês não pega simplesmente o cartão e o guarda. Ele verifica, faz uma checagem, tenta gravar o nome da pessoa e vê logo o cargo da pessoa”, ensina Etsuo.

Jamais o cartão é guardado imediatamente. Claro que se isso acontecer com estrangeiros se releva, mas entre japoneses seria considerado até uma ofensa.

Um ritual testado por este que vos escreve: “Hmm… Tiago Medina… editor web… óóó”, disse-me num esforçado português o senhor Hirohisa Takayanagi, que preside o Conselho Administrativo do banco Iwata Shinkin. Pulemos aqui o esforçado japonês deste jornalista proferido segundos depois.

Recebido, o cartão vira uma espécie de souvenir da pessoa. “Eles valorizam tanto, que é muito comum guardarem cartões de pessoas importantes e isso servir como um tema para uma conversa, um bate-papo: ‘Olha com quem eu estive aqui’”, observa Etsuo. “Eles têm esse hábito. Você ter o cartão de uma pessoa é extremamente importante.”

O senhor Takayanagi que o diga.

*Texto originalmente publicado no Correio do Povo

Desculpe não falar francês, Zaz

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Zaz: uma cantora irriquieta

É, de fato, uma pena não ser fluente em francês. Uma pena, pois impede ao espectador compreender tudo o que se passa no universo musical da cantora Zaz, que se apresentou em Porto Alegre na noite desta terça-feira, diante de um Auditório Araújo Vianna lotado.

Falante – apesar da barreira linguística entre ela e a maioria dos fãs à frente –, bem-humorada e simpática, ela abriu a turnê brasileira no Rio Grande do Sul em um show que durou cerca de 1h40min.

Por aqui, a francesinha espoleta ainda passará por Rio, São Paulo e Brasília, antes de rumar para o Hemisfério Norte para daqui a um mês e pouco estar cantando a um público nativo de idiomas mais complicados, no Japão.

Em sua segunda apresentação na Capital, Zaz não poupou energia. Acompanhada de seis grandes músicos, ela desfilou sucessos próprios e regravações. E tudo num ritmo frenético, com direito a muitos pulos, caretas e dancinhas improvisadas, além de gritos num português torto: “Maix fórrtê!”.

“Je veux”, “Les Passants” e “Paris sera toujours Paris” foram apenas três das muitas canções que ecoaram nas bandas da Redenção ao longo da noite. Entre tantas outras cujas o jornalista, preso à ignorância linguística, não saberia escrever da forma correta. Apenas cantarolar e bater palmas.

Se é difícil para a maioria do público de Porto Alegre compreender a língua materna de Zaz, para a francesa, arriscar-se no português também não é nada fácil. Mas ela encarou o desafio. Antes, porém, viajou pelo espanhol, cantando o clássico “Dos Gardenias”, dos cubanos do Buena Vista Social Club. Em seguida, aí sim, entregou-se ao idioma dos fãs do momento ao cantar “Samba em Prelúdio”, de Vinicius de Moraes.

Definitivamente, mais uma francesa ganhando o mundo com sua voz. Tal como Edit Piaf? O tempo responderá. Mas se depender do talento e da alegria de estar em um palco, sim.

A apresentação, que contou com um cenário em constante transformação devido aos efeitos das projeções de iluminação, contou com a participação de duas cantoras daqui, entre elas Valeria Houston Barcellos, em duetos que afloraram emoção – sensação que a boa música gera.

*Texto ampliado da matéria publicada no CP após o show

Por que tanto ódio?

congresso

Um muro separa a esplanada dos ministérios, em frente ao Congresso Nacional do Brasil | Foto: José Cruz/ABr

Pouco a pouco, conversar com quem tem pensamento antagônico foi ficando mais difícil. Bastava algum indicativo de opinião e já vinha um carimbo “Coxinha” ou “Petralha”. Mais recentemente ainda houve a nova definição, “Isentão”, que acho que são esses chatos que não deixam seus argumentos serem totalmente guiados por A ou por B e que citam erros e acertos em ambos os lados.

Só que essa áurea foi tomando conta. Do grupo do WhatsApp, da discussão em família, entre amigos. Redes sociais, em muitos casos, viraram bolhas de opiniões únicas, sem o contraditório apresentado. Opinião divergente, em certos casos, virou fala do inimigo, merecedora da destruição. Noutros casos a violência saiu da verbalização e tornou-se física. Só porque o outro pensa diferente – ou sequer isso, por não vestir vermelho ou verde e amarelo.

É, enfim, um momento delicado, um momento grave. A partir daí tentamos tentamos, na redação do Correio do Povo, analisar o porquê deste ódio. O fato de estarmos brigando com familiares, amigos e mesmo desconhecidos por conta de política significa que estamos, sim, mais politizados? Esses engravatados que ocupam as tribunas do parlamento, de fato, nos representam?

O resultado desses questionamentos se transformaram numa matéria que editei, depois de ser escrita pelos repórteres Bernardo Bercht e Lou Cardoso. Recomendo a leitura e compartilho o link aqui e aqui.

Viagem no jornal

Carros, Motos & Viagem

Carros, Motos & Viagem

Paramos nossa programação normal para um momento assessoria de imprensa (própria): Depois de ganhar alguns vários posts por aqui, a viagem de março foi parar no jornal. E com direito a uma página inteira.

Uma crônica/resumo daqueles 2,5 mil quilôemtros ao longo de sete dias entre Brasil, Argentina e Uruguai foi publicada no caderno Carros & Motos do Correio do Povo desta quinta-feira, 20 de junho.

Como dá para perceber, a página é essa anexada aqui ao lado, que, se clicada, aumenta de tamanho. Mas com um cadastro gratuito, pode-se ler tudo no site mesmo. Por R$ 1,50 você lê a matéria e ainda ganha um jornal de brinde :P.

Uptade: o PDF da página

Tristeza e derrota uruguaia em Porto Alegre

 Já tinha feito a cobertura no ano passado, lembrando aqui, Libertadores tem que ter emoção. Como não havia nenhum representante gaúcho (pelo menos originalmnete gaúcho) na final da Libertadores, a torcida migrou para os vizinhos uruguaios. Dessa vez, a vitória não veio, mas a cobertura direto de uma concentração de torcedores carboneros, feita para o CP, tá aí embaixo:

   Nem Grêmio, nem Inter, pois já estavam fora da disputa – e muito menos Santos. Em peso, a torcida gaúcha esteve a favor do Peñarol na noite desta quarta-feira, durante a final da Copa Libertadores. Porém, a mobilização não foi suficiente, e o time uruguaio terminou com o vice da América após levar 2 a 1 no estádio Pacaembu, em São Paulo, o que fez a noite de animados fãs carboneros terminar desanimada.
   Em um dos restaurantes especializados na culinária do país vizinho em Porto Alegre, o El Viejos Panchos, dezenas de torcedores – de variadas idades – compareceram para gritar pelo Peñarol, entre um pedido de Parrillada e outro. Junto a eles, camisetas e mantas nas cores da equipe, preto e amarelo. Com os cânticos, alguns palavrões e a animação dos mais exaltados, o estabelecimento se transformou em um setor do estádio Centenário, de Montevidéu, ao longo dos 90 minutos da partida.
   A cada bola que era tirada de Neymar ou Ganso, a vibração era como a de um gol. E nos chutes e nos cruzamentos do Peñarol, o grito de “Uh” ecoava pelo salão. No intervalo, quando estava 0 a 0, o clima era de otimismo na tentativa de derrotar o Santos. No entanto, já no primeiro minuto o time da casa abriu o placar e, mais tarde, marcou o segundo, desanimando os presentes. O gol carbonero, no fim da partida, deu esperança que não vingou, mas rendeu aplausos no fim do jogo.

Tristeza uruguaia

   Entretanto, o “renascimento” do Peñarol no cenário sul-americano não foi o bastante para o segurança Juan Sosa. “Ninguém quer perder na final”, lamenta ele, que é uruguaio e mora em Porto Alegre desde 1987. “Mas é uma sequência. Começou com a Copa do Mundo do ano passado, agora foi o Peñarol e daqui a pouco tem a Copa América”, teorizou. “Se tudo der certo voltaremos a ser campeões dentro do Brasil”, projetou.
   O mesmo ânimo, contudo, não se repetiu em seu amigo Daniel. Com algumas lágrimas nos olhos, repetiu que não queria perder e quando iria falar para a reportagem, gaguejou e levou a mão ao rosto, afagado por Juan. “Ele foi no jogo do Peñarol aqui no Beira-Rio e lá no Centenário”, explicou o amigo, que lembrou-se de agradecer à torcida gaúcha: “Todo mundo esteve com o Peñarol, valorizando o nosso sangue charrua”

O exemplo de Yves

     Poucas cerimônias de promoção de faixas de judô foram tão emocionantes quanto a de 11 de dezembro de 2007, na Sogipa. Não pelo fato de que, sobre o tatame, estivesse o único brasileiro bicampeão mundial do esporte, muito menos pela presença de diferentes gerações, de veteranos a novatos, no dojô, e sim pelo grande astro da noite. Derly? Tiago? Mayra? Não, ele se chama Yves Dupont. O primeiro gaúcho portador de Síndrome de Down a alcançar a graduação máxima no judô: a faixa preta. 
     O caminho foi longo para Yves. Mais do que os 11 anos no tatame. Até o momento em que o bicampeão João Derly se agachasse em sua frente para amarrar a nova graduação na cintura foram muitos golpes. O primeiro deles, no preconceito. O atleta passou um ano apenas assistindo os treinos no dojô. Não queria lutar por se considerar “diferente” dos outros. Foi quando o professor Daniel Pires o convidou a tornar-se judoca e convenceu-o que não existe nenhuma pessoa igual a outra. Portanto, todos são diferentes. 
     Daí para frente aconteceram os aprendizados. Ele foi absorvendo toda a filosofia criada por Jigoro Kano no século XIX no Japão, e passou a aplicar kokas, yukos, waza-aris e ippons nos adversários. Sejam eles “normais” ou não. Sejam eles judocas ou a sociedade preconceituosa. A recompensa veio aos poucos. Medalhas, títulos e, o mais importante de tudo: respeito. Mesmo assim, foi difícil. Mas todo suor derramado, todos os momentos difíceis haveriam de ter sua recompensa. 
     Ela veio em 11 de dezembro de 2007, na cerimônia de promoção de faixas, uma das mais emocionante em 40 anos do judô sogipano. Redes de TV e repórteres de jornais vieram ao dojô do clube. Não para ver João Derly, Tiago Camilo ou Mayra Aguiar. Foram para ver Yves se tornar o primeiro gaúcho e segundo brasileiro a receber a faixa preta. “Temos aqui um verdadeiro campeão da vida”, disse Kiko, coordenador técnico do judô, enquanto lágrimas furtivas surgiam em boa parte das centenas de olhos que acompanhavam o evento.
     Palmas, muitas palmas, espocaram assim que Derly acabou de atar a faixa preta na cintura de Yves. Os dois se abraçaram, cumprimentaram-se e enxugaram o choro para posar para as fotos. Dois campeões juntos. Um servindo de exemplo para o outro. João, pelos títulos; Yves, pela superação. Ambos pelo exemplo.
     Aqui, a reportagem que passou em rede nacional…

Obs: pra quem não sabe, trabalho na Assessoria de Imprensa da Sogipa, um clube aqui de Porto Alegre, onde treinam os campeões mundiais de judô João Derly e Tiago Camilo. Ontem, O Yves, esse menino, de 18 anos, chegou a faixa preta. Podia ser só mais uma promoção de faixa, mas chamou a atenção toda a superação que esse guri teve. De riso fácil, pareceu ser querido por todos. Acompanhei toda cerimônia. Foi bastante emocionante. Muitas pessoas, incluindo gente que nem conhecia toda história, choraram de tão bonito que foi. Eu mesmo, tive que me conter pra manter meu orgulho masculino. Por incrível pareça, não que eu seja lá muito experiente, me emocionei trabalhando, pela primeira vez. Tanto que nem precisava fazer matéria sobre o assunto, mas merecia, né?! Ah, além de ser o primeiro gaúcho e segundo brasileiro, Yves é o faixa preta portador de síndrome de Down mais novo do mundo. E parabéns ao Jefferson Jraige, primeiro professor dele, e ao Moacir Mendes, atual sansei.