Por um segundo

Rua Duque de Caxias, Centro de Porto Alegre. O relógio quase marca de 23h30 de uma quinta-feira que teve cara de feriado em razão das paralisações do Dia Nacional de Lutas.

Saí do jornal pouco antes e seguia no caminho de sempre, sobre a minha moto. No cruzamento com a rua João Manoel, um carro preto dá pisca para a direita, o que, pra mim, significa a oportunidade da ultrapassagem. Acelero.

Eis, porém, que o motorista do automóvel deu-se conta de seu engano de rota e, ao mesmo mesmo tempo em que troca a direção do pisca, vira a direção à esquerda, em movimento. Eu já tinha acelerado poucos metros atrás.

Aproximando-me e sem mais tempo para frear, não consigo conter um pequeno “ahh” crescente. Não fecho os olhos e mal sei o que deveria fazer, mas faço: curvo um pouco para a esquerda e volto, entre o carro e a calçada, continuando a Duque de Caxias, sem buzinar e nem conseguir soltar um palavrão.

Não bati, não cai e segui. Mas, ao mesmo tempo: bati, cai e fiquei estatelado no asfalto, urrando de dor.

Em mais alguns dias completo oito anos com habilitação para motos e este foi meu maior quase acidente. Desde o já distante 10 de agosto de 2005, a única vez que tombei no chão foi quando insisti no que sabia ser erro. E, por sorte, nada de grave aconteceu.

Depois de milhares de quilômetros rodados, me considero um motociclista experiente. Como tal, talvez pudesse xingar o motorista do carro preto ou fazer uma mea-culpa pela aproximação naquele ponto. Mas não. Verdade absoluta é que: merdas acontecem. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Ainda mais no trânsito.

No meu roteiro, segui andando de moto, mas ao mesmo tempo recebendo os primeiros socorros ainda no chão da Duque, lamentando o incidente, a proximidade das férias, as corridas, o futebol de sábado e conhecendo a dor que minha irmã sentiu quatro anos atrás, quando um outro motorista não percebeu a placa de Pare justo quando ela passava.

Mais tarde, já deitado na cama, me viro e a minha mulher acompanha o movimento. Como sempre, ela, me beija mesmo dormindo. Eu estava lá, descansando e mexendo e sentindo levemente a perna e o pé no lençol. Mas ao mesmo tempo em uma mesa cirúrgica, ou esperando atendimento em maca de hospital.

Ao fim dormi repetindo a imagem daquele capô preto crescendo, do carro virando a direção. E me conscientizando que a diferença entre o tempo paralelo que vivi e a realidade foi de, no máximo, um único segundo.

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Um pensamento sobre “Por um segundo

  1. Física quântica da direção isso aí! Numa outra realidade tu deve estar guiando na MotoGP contra o Valentino Rossi!!!

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