Do preconceito que se sofre

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Duas rodas?!?!

Não foi fácil, mas por longos 14 anos da minha vida infanto-juvenil estudei sempre em colégio particular. Ora com desconto por ser filho de professora, ora atrasando umas mensalidades e garantindo a matrícula seguinte aos 45 do segundo tempo. Mas foi.

No mais, como já é sabido pelo nome deste blog, sou homem. Hétero. Quem não me conhece pessoalmente ou não encontrou alguma rara foto minha aqui, saiba que sou caucasiano. Além disso, sou formado em jornalismo e tenho até uma pós-graduação. E falo sem gaguejar, mesmo em público.

Não tenho, ou ao menos ainda não descobri, doença contagiosa alguma, tampouco deficiência maior que algum grau de astigmatismo e hipermetropia. Ademais, para bom ou para ruim, não sou oriundo de alguma cultura estrangeira demasiadamente presente no meu dia a dia da cidade onde nasci e moro até hoje.

Ou seja, aos 31 anos, sem usar drogas, tatuagens ou piercings, escapei de praticamente de todas as formas mais graves de preconceito que um ser humano nas minhas condições pode vir a sofrer – e muitos sofrem. A bem da verdade, nem o sinto  no meu cotidiano, o que, particularmente, faz eu me considerar inapto para debater com conhecimento de causa temas como racismo ou feminismo, por exemplo.

Para não dizer que me sinto completamente imune a comentários e/ou práticas preconceituosas, preciso-lhe citar, caro(a) leitor, que sou motociclista. Há anos, já. Estou atualmente na minha terceira motocicleta e jamais pude dizer que algum carro era “meu” nesta vida. Pode parecer pouco – e é, diante de questões bem mais graves –, mas já é de um desconforto considerável.

O motociclista basicamente é visto por dois estereótipos: o aventureiro/viajante e o motoboy/suicida. Ambos, no imaginário geral, flertam com rock’n’roll e drogas. O primeiro tipo, por óbvio, acaba por ser socialmente mais aceito. Ainda que haja uma certa decepção ao constatar que a moto, no meu caso, nunca foi nem perto de uma Harley Davidson poderosa. Quanto ao segundo, sobram críticas e faltam defesas numa primeira observação. Do veículo e da pessoa, que normalmente só é bem-vinda quando se está faminto.

Mas o preconceito vai mais fundo quando se está de moto. É presente em face às dificuldades criadas a quem chega a algum lugar sobre duas rodas, por exemplo. Não raro tenho que deixar a moto isolada em algum canto afastado de portas ou entradas principais, às vezes em condições “aventureiras”, para não dizer precárias.

Certa feita, já deixei de entrar num bar por não me deixarem estacionar a moto num estacionamento “restrito a carros”. Nunca mais pus pés ou rodas lá e falo mal sempre quando tenho oportunidade (evitem o Complex).

Ainda no campo pessoal, lembro que os primeiros encontros com aquela que veio a virar minha esposa tiveram caras meio fechadas da família dela. E uma vez nos deixaram na chuva por não reconhecerem “aqueles motoqueiros” do lado de fora do portão.

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Bikes de um lado, motos de outro

Na esfera da sociedade, o motociclista também fica à margem. As ruas da cidade são pensadas para carros e também é debatido a segurança do pedestre. Corretíssimo. Mais recentemente há o “confronto” e debate com os ciclistas, que querem mais espaço, vias próprias e segurança. Válido. Só que nunca ouvi algum questionamento: “E as motos?”

Ainda antes de publicar este texto apareceu projeto criando um “direito” às motos. Como em grande parte das postagens desses tempos na internet, os comentários são aquele poço de falta de educação que não gostaríamos de ver na boca dos nossos filhos.

Dentro da “área azul” em Porto Alegre, motos não são permitidas. E, ainda que não paguem estacionamento rotativo (ou por causa disso) o motociclista tem que catar o espaço específico, sempre reduzido na proporção em relação aos carros.

O mais recente golpe, que entendi como preconceito, foi do clube que frequento, cujo estacionamento para motos sempre havia sido gratuito. Há cerca de dois meses, fizeram alterações no espaço, o que custou umas quatro das já apertadas vagas. Agora, passaram a cobrar – o mesmo valor dos carros.

Pode ser que tenha sido uma necessidade, uma equiparação com os carros, não sei. Mas quando não há diálogo, apenas imposição, pode-se tirar quaisquer conclusões: inclusive preconceito, porque o motociclista não é, de cara, um “cidadão de bem” via de regra. É aventureiro ou motoboy. E preconceito nunca é legal, principalmente em assuntos mais graves, como cor da pele ou lugar onde se nasce, mas também nos mais banais, como a escolha do próprio veículo.

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