A crônica daqueles que não deram certo

21/11/2009 por Tiago Medina

   Pra que voltar, infeliz? Já não basta todo o atraso – e o estrago – que causaste a mim na estação passada? Agora vens, outra vez simpática, conferir se ainda não lhe esqueci? Só podes estar brincando.
   E pra que surgir tão linda assim? Vieste com cabelo renovado, com o papo em dia e o sorriso ainda mais branco apenas para provar que pode ser mais que a atual. Jogas baixo, minha cara.
   Mas, sinto muito, não vai dar certo. De novo. Tanto eu sei que vais fugir novamente já no próximo minuto, como tu percebes que vou te abandonar mais uma vez logo que notar a indiferença no ar.
   No fim de tudo, amor, não passamos de reféns de nós mesmos. Da nossa indecisão, do nosso medo. E só assim – afastados – é que estaremos de verdade juntos. Um morando no pensamento do outro.

Rápidas cariocas

17/11/2009 por Tiago Medina

Perigo
   Que o Rio de Janeiro não é a cidade mais segura do mundo eu sabia, mas não conhecia a fama dos motoristas de ônibus da capital. Às vezes mais parecem que estão fazendo um racha entre si – isso no meio dos carros e dos transeuntes. Não deixa de ser uma emoção (forte, aliás) fazer um passeio pela cidade usando o transporte coletivo.

Tão lindo, tão sujo…
   Ok, ok, impressão completamente pontual – pode até não ser assim todos os dias, mas não devia ser nunca. Era domingo, tinha sol e calor. A praia estava pra lá de cheia, mas, ainda assim, custa deixar o lixo no seu lugar? Ou, pelo menos, não jogá-lo no mar. No posto 9 de Ipanema, havia várias sacolas boiando pelo mar, contrastando com o verde da água.

O reino pela bola
   Quer fazer um carioca feliz? Dê-lhe uma bola! Sim, a mesma que se compra pro afilhado em natais e aniversários. Ele vai adorar. Levará à praia e começará ou a jogar fute-vôlei ou a fazer embaixadinhas com mais dois ou três amigos na beira do mar. O simples objetivo é não deixá-la cair no chão. E, acredite, ele irá fazer piruetas à la Matrix para conseguir isso.

Rio Scenarium
   Depois do último sábado, cheguei à seguinte conclusão: “É uma grande pena o Rio Scenarium ser tão longe da minha casa”. Valeu cada centavo do ingresso de R$ 30,00 e cada minuto que fiquei na fila – na qual havia umas 50 pessoas na minha frente. Sensacional é um adjetivo incapaz de descrever o lugar. Imagine só, caro(a) leitor: boa música, decoração fantástica, espaços variados, petiscos bons e cerveja gelada. Isso ao lado da Lapa, no centro antigo. Precisa mais?

Cerveja x Chope
   A impressão não foi só minha e fato é que a cerveja no Rio é muito mais aguada na comparação com a vendida no Sul. Tal característica, no meu paladar, faz a bebida perder um pouco. Em compensação, os vários lugares onde me serviram chope, ele sempre veio bem gelado. E, em alguns – como no Veloso -, em copo de isopor, isolante térmico. Empresário porto-alegrense do ramo: não perca tempo e copie a ideia!

Quando as máquintas têm que parar

12/11/2009 por Tiago Medina

   “Caralho!!! São Paulo está TODA sem luz. Derruba a capa agora e vê o que aconteceu, por que tá assim? O Rio também tá?! Puta que pariu, arranja foto de uma vez! O ministro vai falar na TV daqui a cinco minutos, atenção. Itaipu tá funcionando? E furnas? Olha ali, tem um cara de uma tal de ONS falando – que porra é essa??? Presta atenção, presta atenção. E começa a escrever de uma vez que já é quase 11 da noite!
   Parem as máquinas!!!”

   E mais ou menos nesse clima que foi meu final de expediente de terça-feira, 10 de novembro, o dia do apagão no Brasil. Pra quem não sabe, “Parem as máquinas”, é um famoso jargão jornalístico. Uma cena na qual todos, ou quase todos, os jornalistas gostariam de presenciar.
   Explico para o leitor leigo. Imagine mais ou menos assim: jornal já rodando, imprimindo milhares de exemplares por segundo, mas daí chega uma notícia bombástica de última hora. O editor/repórter desce até a impressão e grita o tal famoso jargão. Para tudo em nome da notícia. Em nome da informação.
   É claro! Isso não acontece todo dia – nem todo mês e às vezes nem todo ano. Quase nunca. Fez parte de uma era romântica da profissão, lá por meados do século passado. Quando as notícias eram redigidas no cleck-cleck da máquina de escrever e internet como é hoje não tinha nem nas naves intergalácticas dos seriados americanos da época.
   O episódio do blecaute foi o primeiro grande evento desses na minha ainda curta carreira. Quando a notícia que a luz se apagou nas dusa maiores cidades do Brasil chegou à redação do Correio do Povo, onde trabalho, o jornal impresso do dia seguinte já estava pronto e, provavelmente, alguns já sendo impressos.
   Na minha área, a internet, era apenas mais uma noite tranquila. Era! A velocidade do meio transformou a calmaria em furacão em questão de minutos. Com a sombra da concorrência, cada instante tornou-se importante. Até nós – e boa parte dos colegas – entender o que houve, já havia se passado quase uma hora.
   Nesse tempo, muitas matérias foram publicadas e ligações, feitas. Atingiu o Rio Grande do Sul? Aonde? E o aeroporto, teve voo atrasado? Foram cinco, sete, nove ou dez estados atingidos, afinal? Mesmo com o intensificar da cobertura, surgiam – e até agora ainda surgem – mais perguntas do que respostas.
   Os conhecimentos de quatro anos em que estudei para ter o meu diploma (que hoje dizem que não vale nada) foram basicamente todos resumidos em poucas horas. Não fosse por eles certamente o trabalho ficaria comprometido. Ainda que tenha sido uma verdadeira aula de jornalismo, requereu bastante embasamento.
   No fim das contas, acho que conseguimos fazer uma boa cobertura – que se estendeu por mais horas após o fim do expediente daquela noite. Fiquem à vontade pra conferir, clicando aqui.

Contando os dias. Ou momento confessional nº 6

09/11/2009 por Tiago Medina

   Ei, daqui a uma semana – mais precisamente no fim desta – estarei conhecendo o Rio de Janeiro. Será uma passagem breve, brevíssima, até, que não chegará a 72 horas. Por isso, caro(a) leitor, peço que me sugiras alguns lugares obrigatórios para se conhecer. Até agora, a programação de sábado consta “apenas” mergulho em Ipanema, beber em algum bar de lá – numa singela e sincera homenagem a Vinicius & Tom.
   À noite, dica é o Rio Scenarium. O domingo, por enquanto, ainda está vago. Se não houver sol, 40°C, essas coisas, obrigar-me-ei a ir ao Maracanã fazer aquilo que faço durante todas as semanas: ver futebol. Ou seja, mesmo sendo o maior do mundo, está em segundo plano.
   Ainda há muitas horas vagas e ainda mais lugares a se conhecer, por isso, como disse, aceito sugestões tuas caro(a) leitor especialmente carioca e/ou frequentador da cidade maravilhosa.

Aguardo!

No tom exato

26/10/2009 por Tiago Medina

   Estava levemente apontado para cima, o indicador da mão direita, enquanto a esquerda, semi-fechada, marcava o tempo com constantes estalar de dedos. Um suave sorriso exibia os alvos dentes e a satisfação de estar ali, naquele exato momento.
   À medida que balançava o corpo, os olhos iam se fechando, devagar, lenta e ritmicamente. O movimento a afastava da rotina, de tudo e de todos. Aquela específica música dava-lhe prazer e era isso que importava.
   Todos os problemas e afazeres cotidianos haviam sido barrados daquela casa noturna. E a única coisa que a interessava era a sua música, que a deixava hipnoticamente feliz. Ao menos ali e naquele exato momento.

Sobre a dúvida

22/10/2009 por Tiago Medina

   Tinha uma dúvida. Analisando bem cada cena, se deu conta que poderia estar confundindo todos os olhares involuntários com outra coisa. E aqueles sorrisos? Era só porque ela era uma guria bacana mesmo? Será? Diante das repetidas situações, até poderia estar começando algo entre os dois. Ou simplesmente não. Havia uma interrogação na sua cabeça.
   Era novo na aula. Para completar sua timidez, ainda entrou na turma cerca de dez dias depois do início do semestre. Cidade nova, faculdade também, amizades, idem. Tanta novidade realmente o deixava confuso.
   Ela foi uma das primeiras a conversar com ele. Em seguida, até acabou um tanto ofuscada pelo turbilhão de novas coisas e pessoas. Mas não esquecida. Longe disso.
   A moça não era o que se podia considerar de sexy simbol. Bonitinha, com suas qualidades reconhecidas, porém sem unanimidade entre a parte masculina. Encantava mais até pela simpatia, brilho nos olhos e, claro, as covinhas nas bochechas. Confundia-o mais por isso.
   Certa feita, então, cruzaram-se no corredor. Mesmo cansado, quis ser legal e reclamou – inocentemente – que ainda não ganhara o seu beijo naquele dia. Ousada, ela sorriu e espiou os lados. Chegou perto, mais perto, e deu-lhe um selinho. Apenas um. Virou as costas e seguiu seu caminho, balançando o rabo de cavalo.
   Não teve como não admitir. Apesar de toda a sua experiência – ou “currículo”, como gostava de falar – fora pego de surpresa. Quase de maneira infantil. E, quando desceu das nuvens, aquilo que era dúvida virou uma certeza. Poderia não ser absolutamente nada entre os dois. Mas era.

Telha do Tiago, 2 anos…

15/10/2009 por Tiago Medina

bolo_aniversario2… de wordpress!

   Neste 15 de outubro (dia do professor, aliás, parabéns, mãe!), o blog completa dois anos aqui no wordpress – se contar o endereço anterior, já são mais de três anos nessa brincadeira de escrever na internet. Confesso que, quando comecei, não estipulei prazo de validade ou algo assim. E nem tenho, escrevo porque gosto. Mas, hoje, olhando pra trás, tenho uma certeza do porquê de continuar, por tua causa, caro(a) leitor. Meus sinceros agradecimentos por cada visita que me fazes.

=)

Se

14/10/2009 por Tiago Medina

   Não sei dizer se excesso de confiança ou falta de coragem mesmo. O fato é que o imaginado certa vez continuou sendo apenas imaginação e agora ela terá de se calar pra sempre, ou aguardar a morte separá-lo da outra. Todo o acontecido daquela noite não será nada mais além de lembranças. Dela e dele.
   Promessas e planos mirabolantes de fuga podem até serem mais sinceros quando elaborados de madrugada – ainda mais, como no caso dos dois, se contarem com o auxílio de uma garrafa inteira de tequila mexicana. Porém, perdem completamente o valor se não forem retomados depois do sol nascer. Se alguém não agir.
   O tempo, mesmo que não se queira, passa. E ele deixa, inclusive, noites e tragos a dois inesquecíveis para trás.

Experimente!

09/10/2009 por Tiago Medina

   Eu me apaixono de três a cinco vezes ao dia, todos os dias. E recomendo. Experimente, caro(a) leitor. Tu verás como é bom viver eternos instantes de uma paixão platônica com aquela pessoa que cruzou contigo em meio à correria de um centro no final da tarde. Ou então com aquele ser de olhos lindos que, como tu, aguardava atendimento na fila do banco.
   É bom, rejuvenesce. Não querendo ser clichê, mas – garanto – faz bem à alma e ao coração. Vá lá, experimente!
   Amar sem querer, assim à primeira vista, prova que estamos vivos. E mesmo essas paixonites diárias dão-nos satisfação. Ainda que se encerrem no momento em que a pessoa dobra a esquina, ficaremos deslumbrados e, por que não, agradecidos. Desses amores diários, guardamos apenas boas recordações, e os melhores segundos do dia. Nada de mágoas ou tristezas.
   Bem pelo contrário são os amores que se arrastam por meses e anos a fio. Caso não resolvidos, viram efeitos colaterais, doem. Transformam-se em ressaca do domingo ensolarado – resquício daquilo que, num dia anterior, foi bom. Fardos do coração, não agregam muito mais que sofrimento, além de alimentar uma incômoda e insistente esperança de que na semana seguinte será diferente.
   Ok, claro, basta o outro par concordar que tudo pode melhorar. E – agora sim –, com o perdão do clichê: sem dúvida que a vida se tornará maravilhosa.
   Cá entre nós, caro(a) leitor, desejo-lhe um amor eterno, desses aí, pra sempre, que te faça ter vontade de sair assobiando pelas ruas. Quero que faças sexo selvagem e depois receba rosas vermelhas.
   Mas, antes disso, reforço o pedido lá de cima: apaixone-se mais vezes ao dia. Aproveite a palhinha que o amor pode lhe oferecer e não tenha pudor se for com a vizinha, a cobradora, a atendente, a diagramadora ou a que pegou ônibus junto contigo hoje. Experimente!

Hora do conto 2 – Canalha!

05/10/2009 por Tiago Medina

canalha!   Ok, ok, tu, caro(a) leitor, não precisa nem passar os olhos no texto abaixo para se convencer de que deve ler “Canalha!”, do Fabrício Carpinejar. Acredito que já tenhas ouvido falar um pouco desse cara e, além disso, o livro acabou de ganhar o prêmio jabuti. Mas vamos lá, caso ainda estejas em dúvida, espero convencê-lo.
   O mês era julho e eu estava a fim de comprar um livro. Mas qual? Tragos a mais em uma noite numa famosa casa noturna porto-alegrense e um sonoro “canalha” seguido de beijo fizeram-me decidir. Coincidentemente, ainda comprei-o no dia do orgasmo. Sim, a história começou bem.
   Talvez como tu, já tinha ouvido falar bastante em Carpinejar, porém ainda não tinha lido nada dele. Na época, sequer havia conhecido seu blog e nem imaginava que poderia segui-lo no Twitter. Ele é um autor moderno. Multimídia, sem a menor dúvida.
   Estava curioso. “Será que esse cara é realmente bom?”, questionava-me. Pois mal abri o livro – antes mesmo das crônicas – e tive a resposta: sim, ele é ótimo. Ao invés de prefácio, “Canalha!” tem dois diálogos que preparam o leitor para o que vem a seguir. O primeiro – e melhor, na minha opinião – é assim:

“– Desejo passar o resto da minha vida com você.
– Não, uma vida com você nunca será resto.”

   Pronto! Já nessa primeira página, o autor já arranca um sorriso e prova que, além de ser ótimo cronista e poeta, é também grande frasista (confere no Twitter). Mas não só frases soltas, frases encaixadas dentro dos textos – o que é raro. “Canalha!”, com isso, credencia-se para ser passatempo de uma tarde só, de tão delicioso e rápido que é.
   Entretanto, no decorrer das páginas, Fabrício Carpinejar mostra-se menos canalha do que como a mídia normalmente o apresenta. Quem aguarda um José Mayer faminto encontra um Richard Gere com rosa na mão. No fundo, ele é romântico – ou um canalha arrependido, como numa das (melhores) crônicas.
   Ao longo dos 127 textos, encontramo-nos em várias situações. Não raro levamos a mão à testa imaginando que aquela nossa história escondida num passado poderia ser diferente se o livro fosse publicado antes. Ou que agimos de outra maneira e foi melhor. Ou bem pior. E, assim, a obra interage.
   “Canalha!” explora o íntimo, conta a conversa a qual tivemos apenas com nosso melhor amigo. Para escrever, Carpinejar transformou-nos em cases. Descobriu nossos segredos e os publicou em livro vencedor de prêmio nacional. Tudo isso com várias sacadas geniais. Não se trata de auto-ajuda, mas tem a solução para muitos dos problemas que enfrentamos a dois.

Canalha!
Autor: CARPINEJAR, FABRICIO
Editora: BERTRAND BRASIL
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA – CONTOS E CRÔNICAS

fonte: Livraria Cultura