Estava levemente apontado para cima, o indicador da mão direita, enquanto a esquerda, semi-fechada, marcava o tempo com constantes estalar de dedos. Um suave sorriso exibia os alvos dentes e a satisfação de estar ali, naquele exato momento.
À medida que balançava o corpo, os olhos iam se fechando, devagar, lenta e ritmicamente. O movimento a afastava da rotina, de tudo e de todos. Aquela específica música dava-lhe prazer e era isso que importava.
Todos os problemas e afazeres cotidianos haviam sido barrados daquela casa noturna. E a única coisa que a interessava era a sua música, que a deixava hipnoticamente feliz. Ao menos ali e naquele exato momento.
Sobre a dúvida
22/10/2009 por Tiago Medina Tinha uma dúvida. Analisando bem cada cena, se deu conta que poderia estar confundindo todos os olhares involuntários com outra coisa. E aqueles sorrisos? Era só porque ela era uma guria bacana mesmo? Será? Diante das repetidas situações, até poderia estar começando algo entre os dois. Ou simplesmente não. Havia uma interrogação na sua cabeça.
Era novo na aula. Para completar sua timidez, ainda entrou na turma cerca de dez dias depois do início do semestre. Cidade nova, faculdade também, amizades, idem. Tanta novidade realmente o deixava confuso.
Ela foi uma das primeiras a conversar com ele. Em seguida, até acabou um tanto ofuscada pelo turbilhão de novas coisas e pessoas. Mas não esquecida. Longe disso.
A moça não era o que se podia considerar de sexy simbol. Bonitinha, com suas qualidades reconhecidas, porém sem unanimidade entre a parte masculina. Encantava mais até pela simpatia, brilho nos olhos e, claro, as covinhas nas bochechas. Confundia-o mais por isso.
Certa feita, então, cruzaram-se no corredor. Mesmo cansado, quis ser legal e reclamou – inocentemente – que ainda não ganhara o seu beijo naquele dia. Ousada, ela sorriu e espiou os lados. Chegou perto, mais perto, e deu-lhe um selinho. Apenas um. Virou as costas e seguiu seu caminho, balançando o rabo de cavalo.
Não teve como não admitir. Apesar de toda a sua experiência – ou “currículo”, como gostava de falar – fora pego de surpresa. Quase de maneira infantil. E, quando desceu das nuvens, aquilo que era dúvida virou uma certeza. Poderia não ser absolutamente nada entre os dois. Mas era.
Telha do Tiago, 2 anos…
15/10/2009 por Tiago Medina
… de wordpress!
Neste 15 de outubro (dia do professor, aliás, parabéns, mãe!), o blog completa dois anos aqui no wordpress – se contar o endereço anterior, já são mais de três anos nessa brincadeira de escrever na internet. Confesso que, quando comecei, não estipulei prazo de validade ou algo assim. E nem tenho, escrevo porque gosto. Mas, hoje, olhando pra trás, tenho uma certeza do porquê de continuar, por tua causa, caro(a) leitor. Meus sinceros agradecimentos por cada visita que me fazes.
=)
Hora do conto 2 – Canalha!
05/10/2009 por Tiago Medina
Ok, ok, tu, caro(a) leitor, não precisa nem passar os olhos no texto abaixo para se convencer de que deve ler “Canalha!”, do Fabrício Carpinejar. Acredito que já tenhas ouvido falar um pouco desse cara e, além disso, o livro acabou de ganhar o prêmio jabuti. Mas vamos lá, caso ainda estejas em dúvida, espero convencê-lo.
O mês era julho e eu estava a fim de comprar um livro. Mas qual? Tragos a mais em uma noite numa famosa casa noturna porto-alegrense e um sonoro “canalha” seguido de beijo fizeram-me decidir. Coincidentemente, ainda comprei-o no dia do orgasmo. Sim, a história começou bem.
Talvez como tu, já tinha ouvido falar bastante em Carpinejar, porém ainda não tinha lido nada dele. Na época, sequer havia conhecido seu blog e nem imaginava que poderia segui-lo no Twitter. Ele é um autor moderno. Multimídia, sem a menor dúvida.
Estava curioso. “Será que esse cara é realmente bom?”, questionava-me. Pois mal abri o livro – antes mesmo das crônicas – e tive a resposta: sim, ele é ótimo. Ao invés de prefácio, “Canalha!” tem dois diálogos que preparam o leitor para o que vem a seguir. O primeiro – e melhor, na minha opinião – é assim:
“– Desejo passar o resto da minha vida com você.
– Não, uma vida com você nunca será resto.”
Pronto! Já nessa primeira página, o autor já arranca um sorriso e prova que, além de ser ótimo cronista e poeta, é também grande frasista (confere no Twitter). Mas não só frases soltas, frases encaixadas dentro dos textos – o que é raro. “Canalha!”, com isso, credencia-se para ser passatempo de uma tarde só, de tão delicioso e rápido que é.
Entretanto, no decorrer das páginas, Fabrício Carpinejar mostra-se menos canalha do que como a mídia normalmente o apresenta. Quem aguarda um José Mayer faminto encontra um Richard Gere com rosa na mão. No fundo, ele é romântico – ou um canalha arrependido, como numa das (melhores) crônicas.
Ao longo dos 127 textos, encontramo-nos em várias situações. Não raro levamos a mão à testa imaginando que aquela nossa história escondida num passado poderia ser diferente se o livro fosse publicado antes. Ou que agimos de outra maneira e foi melhor. Ou bem pior. E, assim, a obra interage.
“Canalha!” explora o íntimo, conta a conversa a qual tivemos apenas com nosso melhor amigo. Para escrever, Carpinejar transformou-nos em cases. Descobriu nossos segredos e os publicou em livro vencedor de prêmio nacional. Tudo isso com várias sacadas geniais. Não se trata de auto-ajuda, mas tem a solução para muitos dos problemas que enfrentamos a dois.
Canalha!
Autor: CARPINEJAR, FABRICIO
Editora: BERTRAND BRASIL
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA – CONTOS E CRÔNICAS
fonte: Livraria Cultura
Nova empreitada
02/10/2009 por Tiago Medina
Entrou no ar, pouco depois das 19h dessa quinta-feira, 1º de outubro, o novo portal de notícias do jornal Correio do Povo. Pra quem ainda não sabia, estou trabalhando lá e a página, na minha opinião, ficou bem bacana. Confiram em www.correiodopovo.com.br.
Logo para a estreia, fiz uma entrevista bem interessante com o Duda Kroeff, presidente do Grêmio, que tu, caro(a) leitor, pode acessar clicando aqui.
Críticas, sugestões e até mesmo elogios aceito por aqui ou por e-mail.
Das boas lembranças
30/09/2009 por Tiago Medina E foi de repente. Há pouco, esperando o sono chegar, quando comecei a ver fotos que há tempos não via, ouvir músicas que desde muito não escutava. Sorrateiramente, então, ela chegou. Quieta, de mansinho. Pegou-me desprevenido, a saudade. Saudade boa.
Saudade de não sei bem o quê. Saudade simples, de tudo. Nostalgia. Dessas que vêm em forma de retrospectiva. Desde lembranças da época de gurizinho, de quando não tinha a palavra ‘problema’ em meu vocabulário até agora, madrugada fria em frente ao computador.
Começou com a visão da minha sala de aula rodeada de prateleiras com brinquedos, quando o jardim era da infância. Até a minha primeira namorada reapareceu. Francine – apesar de sequer tê-la beijado, lembro do dia em que começamos relacionamento sério. Acho que nossas idades, somadas, não somavam uma dúzia.
Claro, mais tarde vieram muitas outras paixões inesquecíveis. Futebol, sorvete, a vizinha do andar de cima, ouro branco, praia, verão – e como era bom quando as férias duravam três longos meses. Tantas e muitas até uma em especial se sobressair para mudar a vida do adolescente de 17 anos: jornalismo.
Embora nunca tenha tido a pretensão de apresentar o Jornal Nacional, eu sempre achei que ver o próprio nome ali, acima de um texto impresso em um papel que um monte de gente vai ler, devia ser bem legal. E de fato é – seja a assinatura com tinta ou com pixels!
Flertei com a profissão desde os 14 e, com 18, fiz o primeiro vestibular. Por sorte, rodei – ainda bem, pois o destino reservou uma das turmas mais inesquecíveis da Famecos (isso na opinião do corpo docente). Aos amigos que não fiz na UFRGS e na UFSC, meu sinto muito.
O fato é que foram quatro deliciosos anos até a melhor lembrança boa que tenho: o 9 de janeiro de 2009. Nessa data recebi, orgulhoso, o meu diploma – aliás, quantas saudades do tempo em que ele valia alguma coisa para a sociedade.
Recém formado, distribuí currículos redações afora. Brasil afora. E nessas voltas da vida, fui chamado logo em um dos lugares onde menos acreditei. O qual na verdade nunca imaginei que trabalharia: Jornal do Comércio. Proposta de site novo e tal. Bem a área pra fazer os olhos do foca de então brilharem. E realmente eles brilharam.
Entretanto, em mais uma dessas voltas da vida, meu endereço comercial mudou no apagar das luzes de setembro. Da avenida João Pessoa para a esquina da Caldas Júnior com Andradas. Dejà vu: proposta de site novo e tal – dessas, capazes de fazer os olhos do jornalista aqui brilharem.
E foi então que vi como ser profissional é chato às vezes. Ter de correr atrás dos próprios sonhos abdicando de amizades cotidianas estabelecidas e de um ambiente de trabalho ótimo. Começar tudo de novo. Quem mandou acreditar que a vida é movida a desafios?
Ao menos, tive uma certeza: daqui a pouco tempo – certamente menos do que os sete meses em que estive ali – quando ouvir uma música antiga ou vir fotos que há muito não via, terei uma nova saudade. Uma gostosa nostalgia dos colegas do meu primeiro emprego.
Quando se erra
24/09/2009 por Tiago Medina Traiu – e agora já é tarde. Deixou-se levar por nesgas de prazer – pedaços de tentação em forma de um corpo moreno com pouco mais que metro e 60. Enganou-se. Terá agora, constrangedoramente, de mentir àquela que se ama de verdade e que o acompanha nas horas boas e ruins. Verá chifres sobre os cabelos dela.
Como um adolescente, permitiu-se goles a mais, de forma a ser seduzido por alguém que não passa de uma qualquer. Aventureira de vida vã, em meio a casa dos 20, sem nada a perder. Vazia. Arriscou seu único porto seguro por pouco. Para logo depois arrepender-se. Para querer ir embora sem nem mesmo fumar um cigarro.
Traiu – e agora será refém. Seu e da outra. Depois da última noite, viverá nas sombras da mentira. Com o medo de que a verdadeira o abandone ao descobrir onde realmente esteve depois do jogo. Temerá ser chutado por ela, enquanto a sua consciência, cada vez mais pesada, nunca o fará.
Mas o pior de tudo é que a outra estará na porta ao lado. E lhe dará o bom dia mais cínico do mundo todas as manhãs que encontrá-lo.




