Meus cinco anos como jornalista. Ou momento confessional nº 12

Porque nem sempre é fácil conseguir (ouvir) uma boa entrevista

Porque nem sempre é fácil conseguir (ouvir) uma boa entrevista

Cinco anos atrás eu estava embriagado. Foi um fim de semana inteiro assim, por diversos pontos de Porto Alegre e até em cidade próxima. O motivo, a meu ver, era nobríssimo: tinha, enfim, virado um recém-formado jornalista. Achava que estava pronto para encarar os desafios que havia estudado nos quatro anos anos anteriores.

Meses depois, já no meu segundo emprego como repórter, no Correio do Povo, meu primeiro editor, Fernando Antunes, falou algo como: “Só deixamos de ser ‘foca’ com cinco anos de profissão”. Relativo ao mesmo período, o Duda Rangel colocou em algum de seus posts sacanas que em cinco anos os jornalistas costumam entrar em algum tipo de surto psicótico com a profissão.

Pois bem, isso meio que me marcou.

Neste período, já pude participar de muitas coberturas marcantes, ainda que a maioria de dentro da redação. Tive oportunidades de, por exemplo, ver de perto tanto a presidente da República quanto alguns ídolos do futebol algumas vezes, de acompanhar ao vivo o Mercado Público arder em chamas e de quase chorar escrevendo matérias sobre o incêndio da boate Kiss. Sem falar em outras tantas e tantas coberturas que, periodicamente, até se repetem.

De cobertura em cobertura, de análises em análises da mídia, o brilho do jornalismo ficou um tanto quanto opaco para mim. Talvez ele não fosse bem como eu imaginava há meia década. Para melhor e para pior, ressalta-se.

Verdade é que comprei uma ilusão nos corredores da faculdade que frequentei – e que depois voltei para uma pós-graduação. Julgava-me pronto, como disse, mas não passava de um fedelho. Talvez me sobrasse técnica, e também ingenuidade. Erro esse que não sei se foi corrigido na academia e que, com o passar do tempo, enfraquece o jornalismo, em especial numa era como a nossa, com tantos canais de comunicação – e opinião.

Refletindo um pouco, percebo agora que o dia a dia em uma redação me fez endurecer, a base de algumas felicidades e muitas frustrações. Tornei-me um cara mais crítico a tudo com o passar dos dias, do verbo utilizado em alguns títulos à reivindicação salarial da categoria.

Hoje olho para cinco anos atrás e concluo que, na verdade, estava despreparado para muito do que viria depois – assim como muitos colegas, que hoje desertaram de antigos sonhos. Eu estava embriagado.

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3 pensamentos sobre “Meus cinco anos como jornalista. Ou momento confessional nº 12

  1. Pingback: “Um dia eu trabalhei numa redação” | Telha do Tiago

  2. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura”.

    Não é assim?

    A ilusão vendida nos corredores da acadêmia acaba, mas é engraçado como a realidade parece uísque: amarga, seca, às vezes ardente. E continuamos embriagados.

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