Do que se come pelo mundo

bentoo (1)Se há algo que nos marca em cada viagem, isso provavelmente está na mesa. Enquanto em abril tive que encarar de frente a temperada e apimentada comida mexicana – e aprender que feijão mexido e frio com nacho é sim algo bem bom de se comer – em junho o desafio foi comer a comida japonesa original.

E por original consideremos, naturalmente, a feita por e principalmente para japoneses… no Japão. Brinco que por esses lados do Atlântico, o brasileiro e sua criatividade ainda inventarão o sushi de frango grelhado com requeijão ou o nipo-brasileiro: o sushi de arroz e feijão. Em Tóquio, dos sushis que pude provar, em nenhum vi cream cheese, por exemplo.

No Japão, tudo o que era de comer pareceu mais in natura, com muita salada. E quase sempre com arroz, que diferente do soltinho brasileiro, é bem empapado – até para facilitar para comer com o hashi. Quem quer escapar pode apelar para as massas, facilmente encontradas no estilo japonês, que, digamos, não lembra muito aquela feita com a receita italiana. Algumas por um preço bem camarada.

Importante salientar: não tenha certeza que a refeição típica é aquecida. Nem sempre ela é, sendo muitas vezes fresca, na temperatura ambiente. Uma sopinha volta e meia acompanha, conforme as fotos.

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Outra característica bem distinta à brasileira é a separação quase metódica dos tipos de comida, como na foto aqui de cima – que é de um bentoo, o equivalente à marmita verde e amarela. “Japonês come tudo assim, cada coisa de uma vez”, me explicaram por lá. Hábito é hábito, afinal.

Imaginei como seria estarrecida a cara de um oriental ao me ver em casa comendo arroz, feijão e guisado tudojuntoemisturado. O mundo é bem grande, meu amigo.

ps1: o idioma japonês é um obstáculo imenso para a grande maioria dos ocidentais. Para facilitar na hora de pedir a comida, muitos restaurantes dispõem de fotos dos pratos. A partir daí, a mímica impera.

ps2: Todo mundo tem direito de escolher o que quiser comer quando se está viajando. Em Tóquio, opções – orientais e ocidentais – não faltam! A capital do Japão é a cidade com o maior número de restaurantes no mundo.

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Diários Mexicanos: Dos Detalhes

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Para fechar o mês e a pauta mexicana, uma pequena sobra de conteúdo, que sequer havia sido escrita antes e chega aqui com palavras de improviso. Detalhes, que muitas vezes passam desapercebidos em caminhadas por ruas novas, mas que sempre procuro reparar.

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Desenhos e textos, coloridos ou não, com ou sem escritos, ainda que sempre com mensagens. Algumas oficiais, outros não. Tudo detalhezinho que dão um acabamento final às cidades. A arte tem essa finalidade, não?

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Valladolid, por exemplo, além de se orgulha de ser uma cidade histórica, considera-se também heroica. Enquanto isso, a região central de Mérida conta com pelo menos um grafiteiro criativo que, pelo jeito, gosta de pássaros. Para sua sorte, vive num lugar que prefere cores nos muros do que o sisudo cinza.

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Mas a arte também pode estar num pequeno azulejo de uma esquina ensolarada. Um característica que lembra outros tantos azulejos encontrados pela Península Ibérica, uma região cuja distância geográfica é longa, mas a cultura aproxima.

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E tem mais fotos, claro. Não só de arte, mas de outras visões desta quase uma semana no México. Pouco tempo, mas de boas recordações. As imagens estão disponíveis neste link.

Diários Mexicanos: Turismo para o bem e para o mal

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Quantos mexicanos há numa praia mexicana?

Cancún é um polo turístico como outros tantos neste planeta. Tal como um, vive numa dualidade incrível, entre o povo que vem de fora e o povo que vive lá. Mesmo escancarada, a realidade nem sempre é percebida por quem vai lá com foco em tomar a direção do aeroporto (ou da marina) dali a alguns dias.

O próprio aeroporto já é um indicativo. Se lá de cima vê-se um monte de ruas sem asfalto, na pista há um número considerável de aviões de pequeno porte, esses que carregam gente que paga bem mais para não precisar sentar ao lado de desconhecidos em voos comerciais.

A Zona Hotelera de Cancún em nada lembra a horizontalidade de áreas que ficam a não muitos quilômetros dali. O mesmo dinheiro que ergue prédios e resorts enormes à beira da praia, às vezes afasta quem é, originalmente, dali. De tantos prédios quase à beira-mar, entradas públicas à praia transformam-se em ruas quase estreitas entre espigões enormes.

E no mesmo asfalto em que passam carros seis dígitos de dólar, passam ônibus lotados de mexicanos – e alguns turistas mais humildes, ressalte-se. Ainda assim, há diversão entre os locais, que, ao menos num primeiro momento, não escancaram alguma “turismofobia” como em outros cantos do mundo. Talvez, isso de relevar (até certo ponto) a desigualdade, seja uma característica latino-americana.

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A praia e seus espigões

No fim, não é para se reclamar de tudo mesmo. A grana que vem de longe faz a roda girar. E o povo se vira e se esforça para ficar com verdinhas alheias. O vendedor de souvenir fala qualquer coisa para gerar um mínimo de intimidade e atrair aquele que vem de longe, o marinheiro trata bem para expor ao fim da viagem um pequeno cofre em forma sugestiva de porquinho e dizer que vivem da “propina” oferecida. O mexicano se veste de Máscara em frente ao Coco Bongo para surfar a mesma onda e levar uns dólares a mais daquela carteira internacional.

O turista, de fato, recebe grande atenção por onde passa em Cancún. Mas talvez tudo não passe de encenação. Tudo seja uma simpatia paga. Sorrisos para se conseguir dinheiro e evitar dores lá na frente.

E a vida segue.

Diários Mexicanos: de fila em fila se vai ao longe

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Um viva! Não à organização, mas à sobrevivência em meio a todo e qualquer pequeno caos que nos rodeia no cotidiano das nossas vidas. Às bagunças diárias que, sabemos: não são corretas, mas ainda assim não nos abalam. Um viva à América Latina!

Estamos no México, onde pousamos em Cancún, um polo turístico mundial, mas que em poucas horas deu umas amostras do que é o continente americano logo ao Sul da terra dos yankis. Uma genuína América.

Só num primeiro contato, foram pouco mais de 60 minutos para encontrar algumas latinidades as quais não via há algum tempo, quando em viagem. A primeira, logo de cara, foi a burocracia: “Autoridades locais” só autorizaram o desembarque de um avião cheio de gringos – alguns deles numa verdadeira maratona – depois que todos tivessem preenchido o formulário de entrada no país. Documento este entregue apenas quando todos já estavam de pé na aeronave, naquela corrida maluca em direção à saída logo após o pouso.

O México, por sinal, é o único país que conheci até agora que exige dois formulários para entrada – um individual e outro “por família”.

Da fila do avião à fila de imigração. Um saguão cheio de policiais nem tão bem encarados e turistas atrapalhados. Não bastasse as duas filas, mais outras duas de brinde: para recuperar a mala e, em seguida, na alfândega. Do pouso à saída do aeroporto – que em termos de estrutura ficou devendo – foi mais de uma hora.

Mal colocamos o pé para fora e aquela multidão querendo se dar bem apareceu. Oferecendo táxi, “táxi seguro”, passeios, câmbio etc. Claro, uns legalizados e outros quantos “informais” no bolo de gente que espera os turistas.

Passada mais esta barreira, subimos no ônibus da ADO rumo ao terminal deles. Por ser brasileiro, temi pela minha bagagem despachada de qualquer jeito e sem qualquer identificação no porta-mala do coletivo. Felizmente todas estavam sãs e salvas após a viagem de quase meia-hora.

Às vezes os brasileiros, por estarem acostumados às notícias tupiniquins, estranham quando estão no exterior. Acostumados ao perigo, nossa guarda é sempre alta, enquanto o mundo pode e costuma ser mais leve.

Em tese, o segundo ônibus – rumo a Valladolid – teria seu embarque anunciado pelo sistema de som do terminal da ADO, com uma fila se formando e, em seguida, ordenadamente, as pessoas ingressarem na área de embarque próximo ao horário pré-determinado de saída. Em tese.

Na prática, foi um emaranhado de gente com calor querendo entrar de uma vez no ônibus que só partiu 25 minutos depois do programado e cujo embarque foi anunciado na base do grito pelo gordinho responsável pelo controle do acesso.

A situação descrita acima poderia ser até um barril de pólvora para povos mais brigões. Ou extremamente estressante e incomum a organizados germânicos e orientais, por exemplo. Mas isto é parte da América Latina. As pessoas levam na boa, com fé e até um sorriso no rosto.

Crônica de uma madrugada em aeroporto

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A380: uma gigante distração

O funcionário do aeroporto de Guarulhos desceu 36 degraus desde a plataforma até a pista. No topo, o ponto mais alto da escada ambulante mal chegava à altura do segundo andar de um A380, o maior avião comercial em atividade do mundo. Era início de madrugada e o gigante ali era a única atração off-line do momento para aqueles que tinham horas pela frente no saguão do embarque.

O A380 não completou um trimestre de atividade no Brasil. Sua imponente presença ainda chama a atenção. Pudera, não é qualquer máquina que faz caminhões parecerem carrinhos de fricção ao seu lado. Outros aviões também se apequenam quando lado a lado.

Mas seu embarque não é fácil. Antes de voar por cerca de 15 horas de São Paulo até Abu Dhabi (ou seria Dubai?) ele leva umas duas horas desde o primeiro vip até o último passageiro atrasado entrar na aeronave. Mesmo a observação do gigante, feita de um banco improvisado no café, torna-se algo bem cansativo – e desconfortável – com o passar do tempo, que insiste em se arrastar.

Ainda assim, reparar em toda a logística de um A380 pode ser mais interessante que checar, rechecar as redes sociais sonâmbulas no início de madrugada. Não à toa que o avião segue atraindo curiosos junto às janelas para a pista. Muitos, como eu, tirando fotos para logo em seguida se decepcionar com a qualidade da imagem, prejudicada pelos reflexos do saguão diante da escuridão em frente.

Aeroportos costumam ser lugares bacanas para observações. Cada passageiro e tripulante leva consigo uma história. Uma origem e um destino, que não necessariamente são na cidade presente. Idiomas, tradições e manias se cruzando aleatoriamente nestas esquinas da vida. Uns apressados, outros em marcha lenta de férias. Provavelmente para nunca mais se aproximarem outra vez.

Quase 2h. Finalmente inicia o taxiamento do A380. Em pouco mais de três minutos, ele sai da nossa frente e vai para a pista, de onde ganhará os ares noturnos em seguida. Tudo viraria um marasmo total ali no café. Mas ao menos o acaso decidiu dar um prêmio pela atenção dispensada. Tão logo o gigante partiu, vagaram preciosas poltronas com um conforto ok. Como nem tudo é perfeito, o som das obras da madrugada afastam qualquer possibilidade de paz sonora.

Um pequeno grupo de pessoas dorme à minha volta, na posição que lhe é possível no espaço da poltrona. E haja criatividade, além de coluna, para conseguir descansar, por melhor que seja na comparação com o banquinho da hora anterior. Invejo-os. Simultaneamente ao tempo que para eles passa mais rápido, vou sendo levemente torturado pelo sono, que tira a disposição e a concentração para a leitura do livro de bordo.

Sobra só a observação e a escrita, companheiras fiéis de um jornalista insone. E ainda me faltam três horas para o meu voo…

Rápidas uruguaias, parte 8 – una noche

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Una noche tranquila

Já passava das 21h em um fim de inverno quando engatei a marcha ré. Manobrei e desci do carro segundos depois. Acompanhado por duas mulheres, naturalmente olhei ao redor com certo receio e urgência, costumeiros de quem vive os atuais tempos em Porto Alegre.

E foi só aí que reparei. Havia não mais que vida nas imediações de onde estava, alguma avenida nem tão larga de Punta del Este. Quem estava nas ruas àquela hora eram pessoas dispostas para ou passear ou vender, conforme seus respectivos papéis naquele contexto de cidade turística.

Confesso que os primeiros passos foram receosos e que teimosamente olhei para o lado, desconfiei de certos tipos, mas pouco a pouco ganhamos confiança. Pouco a pouco fomos caminhando como dantes, tanto no Uruguai, quanto no Brasil e em outros lugares. Uma pequena lembrança de uma noturna liberdade de outrora.

No vento frio de Punta reencontrei o ar da segurança de se caminhar à noite de forma tranquila, algo que tanto já fiz por aí e que tanto gosto. Mas algo que minha cidade e seus boletins de ocorrência cada vez me desencorajam mais, numa dura derrota que vem de anos e que pouco ou nada fizemos contra, enquanto sociedade.

Viajar nunca deixa de ser um eterno (re)descobrir-se. E às vezes encontramos certos “eus” que nunca gostaríamos de ter esquecido.

Respingos do Iguaçu, parte 1

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A única foto num ônibus, onde chinesas e russos conversavam a caminho das cataratas

Foz do Iguaçu é uma cidade fácil de se encontrar. Ainda que, no mapa as distâncias pareciam um pouco menores do que encontrei quando perambulei por lá. E por isso sequer cogitei outro tipo de transporte após desembarcar no aeroporto: táxi.

Rapaz, o rumo até o centro me fez perceber que ser taxista em Foz do Iguaçu deve garantir uma boa renda. Em bandeira 2 por conta do horário, a corrida de uns 15 quilômetros saiu por R$ 60. Só não é o táxi mais caro que já peguei na vida, porque uma vez tive que ir ao aeroporto de Salvador neste tipo de transporte.

A preocupação inicial, contudo, arrefeceu nos dias seguintes, após um breve estudo no transporte público de Foz. Felizmente, tive sorte de me hospedar no Hostel Che Lagarto, a menos de duas quadras do Terminal Urbano, onde param os ônibus da cidade. E como é boa uma cidade em que o transporte coletivo é simples de se entender.

Lá, pega-se ônibus para os principais pontos da cidade. E o melhor, com o básico que um transporte de qualidade deve ter: pontualidade – ao menos no horário de saída nas quatro vezes que conferi. De lá até a Usina de Itaipu, que é mais ou menos a mesma distância do aeroporto ao Centro, apenas um ônibus e lindos R$ 3,20 de tarifa.

Outro ponto positivo é a possibilidade de se trocar o ônibus caso se desça no terminal. Por exemplo, quando voltei de Itaipu, desci do terminal e ali mesmo já peguei o ônibus para as cataratas, sem a necessidade de pagar outra passagem. Foi quando suspirei aliviado ao dar-me conta de que os táxis não seriam um cotidiano por lá, o que fez minhas economias agradecerem.

Quando tive que ir para o aeroporto na volta, não tive dúvidas em ir de ônibus – o 120, o mesmo que vai às cataratas e ao Parque das Aves. A saber, não é o mais confortável do mundo, pois tem menos assentos, priorizando quem vai de pé e também não tem ar condicionado. Ou seja, quem não se importa em pagar (bem) mais caro para ir sentado no fresquinho, talvez não seja a melhor indicação.

Serviço básico:
Terminal – Aeroporto: linha 120. Cerca de 30 minutos de viagem (mais 10 até chegar às cataratas);
Terminal – Itaipu: linha 101. Cerca de 30 minutos, mas a volta é mais rápida.

A tabela com mapas de itinerários e todos os horários das linhas está disponível no site da prefeitura, neste link. De nada!