Das surpresas em noites insossas

RS japao

Prefeitura de Shiga, do outro lado do mundo, estampa sua irmandade com o RS

Na verdade soube desta viagem em meio a uma noite meio entediante na redação. Assim que soube, me candidatei a ir. A bem da verdade, praticamente sem esperança. Mas deu certo. Alguns dias depois atravessei o mundo para ir a um lugar que sempre quis conhecer. Não a turismo ou viajando com tempo e por prazer, contudo em meio à correria, deu para ter uma pequena noção do que é o Japão.

Algumas linhas e impressões já foram publicadas nos posts mais recentes. Outras, por sua vez, acabaram na edição do domingo, 25 de junho, do Correio do Povo. Acabou que, despretensiosamente, eu, um jornalista da área online desde o início de carreira, pela primeira vez publiquei uma matéria assinada em página central de jornal impresso. Quase oito anos depois de entrar numa redação como profissional pela primeira vez.

Se 40 dias antes desta página ser diagramada me dissessem que isso aconteceria, eu não acreditaria. E pensei nisso no momento em que desembarquei no aeroporto de Narita, 35 horas depois de decolar do Salgado Filho, em Porto Alegre. Bom ver que o jornalismo, mesmo nesses tempos modernos, não perde a capacidade de nos surpreender de vez em quando, tanto com pautas quanto com oportunidades. Mesmo nas noites insossas.

Encerrando, então, este período nipônico no blog, deixo o link do pdf das páginas. Espero que gostem.

 

 

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Uma vez em Shibuya

Shibuya TM (1)

Se houve uma lamentação da viagem ao Japão, além do escasso tempo por lá, foi ver Shibuya “vazia”. Ainda que haja certo desconforto em se atravessar a rua com um monte de gente ao lado (e à frente e atrás), não é todo dia em que se está na esquina conhecida como, de fato, a mais movimentada do mundo.

E não é exagerado dizer isso. Neste encontro de cinco ruas – como bem observa o colega Guilherme Kolling nesta matéria (confesso que nem tinha contado) – ao lado da estação de metrô em Shibuya chegam a passar milhares de pessoas por vez num intervalo de segundos.

Portanto, quando estive lá, o que mais queria era ver: gente. Não chegou a ser o caso, conforme minha guia. Naquela ocasião, uma segunda-feira à noite meio chuvosa, passavam, no máximo, apenas centenas por vez. Todos requerendo um pouco mais de atenção, pois além de desviar de pessoas era necessário ter atenção com os guarda-chuvas vindos de todas as direções.

Mas ainda assim deu para se ter uma ideia do espírito daquele lugar, ou do que é a Tóquio moderna. Especialmente à noite, que seria escura se não fossem aqueles modernos telões com publicidades que levam o transeunte a um cenário futurístico – uma faceta japonesa tão marcante quanto a do Japão “tradicional” de samurais.

Em meio ao povaréo que passa por Shibuya estão, claro, diversos turistas. Que lá estão porque disseram para eles que tem uma esquina cheia de gente, diz-que-diz que fez com que se enchesse mais – e por aí vai. Para eles, talvez atravessar a rua não chegue a ser o ponto alto, mas sim parar no meio do caminho e tirar fotos ou gravar vídeos. E o fazem, mesmo que atrapalhe o trânsito.

hachiko

Hachiko

Paralelamente à ânsia por likes e shares eventuais, ao lado da famosa esquina há a lembrança de uma relação profunda, a amizade. Um tributo à amizade, na verdade, simbolizado pela estátua de Hachiko, o cãozinho que ganhou até filme. Hachiko sempre ia à estação aguardar seu dono chegar no trem que para na estação de Shibuya. Um dia, porém, o dono não voltou, pois morreu em acidente. Mas Hachiko não perdeu a esperança de encontrar o velho amigo e voltou lá todos os dias até seu fim. Hoje é lembrado por uma estátua e por diversos cartazes em alusão à sua imagem pela estação.

Um hiato de vida, do outro lado do mundo

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Das ruelas que passamos pela vida

Eram quase 22h. Eu estava, ao lado de mais umas seis ou sete pessoas, parado em um cruzamento qualquer da área central na cidade de Hamamatsu, a uns 16 mil quilômetros do canto de mundo que chamo de meu. Chove fraco, estaria meio escuro se não fosse a intensidade dos painéis publicitários de led nas lojas ao redor. Passam pouquíssimos carros na rua. Mas ainda assim todos esperam a sua vez de atravessar, pois o sinal está verde para os veículos.

Quando o sinal me libera, torno a caminhar a esmo por ruas e ruelas, cheia de lojinhas, bares e restaurantes. Nas fachadas, um idioma completamente estranho. É, sem dúvida, um brevíssimo hiato de vida. E, como Cortázar caminhando por Paris, perdi-me na certeza que iria me encontrar.

Apesar da hora já avançada, medo de assaltos ou qualquer coisa do tipo simplesmente não há nesta realidade, algo bem diferente daqui, infelizmente. Mas diferente também de países da Europa, por exemplo, onde se tem uma sensação de segurança praticamente a todo momento: no Japão não é uma sensação, e sim uma certeza.

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Noite em Hamamatsu

Ao longo da rota improvisada numa cidade nova para mim, cruzo com diversas pessoas, como jovens estudantes, caminhando distraidamente com seus celulares pelas ruas. Inclusive meninas de saias curtas, ao tradicional estilo mangá – elas com a total liberdade de andarem distraídas, bem como escreveu a Taiga em seu blog, TokyoRio.

Todos ali certamente mais preocupados com eventual e repentino terremoto do que com qualquer violência, porque ela praticamente inexiste. Até o retorno ao hotel, ainda tenho algumas surpresas e uma certeza, que o Japão, em muitas momentos, mais parece outro planeta do que apenas mais um país diferente do meu.

Do que se come pelo mundo

bentoo (1)Se há algo que nos marca em cada viagem, isso provavelmente está na mesa. Enquanto em abril tive que encarar de frente a temperada e apimentada comida mexicana – e aprender que feijão mexido e frio com nacho é sim algo bem bom de se comer – em junho o desafio foi comer a comida japonesa original.

E por original consideremos, naturalmente, a feita por e principalmente para japoneses… no Japão. Brinco que por esses lados do Atlântico, o brasileiro e sua criatividade ainda inventarão o sushi de frango grelhado com requeijão ou o nipo-brasileiro: o sushi de arroz e feijão. Em Tóquio, dos sushis que pude provar, em nenhum vi cream cheese, por exemplo.

No Japão, tudo o que era de comer pareceu mais in natura, com muita salada. E quase sempre com arroz, que diferente do soltinho brasileiro, é bem empapado – até para facilitar para comer com o hashi. Quem quer escapar pode apelar para as massas, facilmente encontradas no estilo japonês, que, digamos, não lembra muito aquela feita com a receita italiana. Algumas por um preço bem camarada.

Importante salientar: não tenha certeza que a refeição típica é aquecida. Nem sempre ela é, sendo muitas vezes fresca, na temperatura ambiente. Uma sopinha volta e meia acompanha, conforme as fotos.

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Outra característica bem distinta à brasileira é a separação quase metódica dos tipos de comida, como na foto aqui de cima – que é de um bentoo, o equivalente à marmita verde e amarela. “Japonês come tudo assim, cada coisa de uma vez”, me explicaram por lá. Hábito é hábito, afinal.

Imaginei como seria estarrecida a cara de um oriental ao me ver em casa comendo arroz, feijão e guisado tudojuntoemisturado. O mundo é bem grande, meu amigo.

ps1: o idioma japonês é um obstáculo imenso para a grande maioria dos ocidentais. Para facilitar na hora de pedir a comida, muitos restaurantes dispõem de fotos dos pratos. A partir daí, a mímica impera.

ps2: Todo mundo tem direito de escolher o que quiser comer quando se está viajando. Em Tóquio, opções – orientais e ocidentais – não faltam! A capital do Japão é a cidade com o maior número de restaurantes no mundo.

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Diários Mexicanos: Dos Detalhes

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Para fechar o mês e a pauta mexicana, uma pequena sobra de conteúdo, que sequer havia sido escrita antes e chega aqui com palavras de improviso. Detalhes, que muitas vezes passam desapercebidos em caminhadas por ruas novas, mas que sempre procuro reparar.

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Desenhos e textos, coloridos ou não, com ou sem escritos, ainda que sempre com mensagens. Algumas oficiais, outros não. Tudo detalhezinho que dão um acabamento final às cidades. A arte tem essa finalidade, não?

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Valladolid, por exemplo, além de se orgulha de ser uma cidade histórica, considera-se também heroica. Enquanto isso, a região central de Mérida conta com pelo menos um grafiteiro criativo que, pelo jeito, gosta de pássaros. Para sua sorte, vive num lugar que prefere cores nos muros do que o sisudo cinza.

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Mas a arte também pode estar num pequeno azulejo de uma esquina ensolarada. Um característica que lembra outros tantos azulejos encontrados pela Península Ibérica, uma região cuja distância geográfica é longa, mas a cultura aproxima.

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E tem mais fotos, claro. Não só de arte, mas de outras visões desta quase uma semana no México. Pouco tempo, mas de boas recordações. As imagens estão disponíveis neste link.

Diários Mexicanos: Turismo para o bem e para o mal

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Quantos mexicanos há numa praia mexicana?

Cancún é um polo turístico como outros tantos neste planeta. Tal como um, vive numa dualidade incrível, entre o povo que vem de fora e o povo que vive lá. Mesmo escancarada, a realidade nem sempre é percebida por quem vai lá com foco em tomar a direção do aeroporto (ou da marina) dali a alguns dias.

O próprio aeroporto já é um indicativo. Se lá de cima vê-se um monte de ruas sem asfalto, na pista há um número considerável de aviões de pequeno porte, esses que carregam gente que paga bem mais para não precisar sentar ao lado de desconhecidos em voos comerciais.

A Zona Hotelera de Cancún em nada lembra a horizontalidade de áreas que ficam a não muitos quilômetros dali. O mesmo dinheiro que ergue prédios e resorts enormes à beira da praia, às vezes afasta quem é, originalmente, dali. De tantos prédios quase à beira-mar, entradas públicas à praia transformam-se em ruas quase estreitas entre espigões enormes.

E no mesmo asfalto em que passam carros seis dígitos de dólar, passam ônibus lotados de mexicanos – e alguns turistas mais humildes, ressalte-se. Ainda assim, há diversão entre os locais, que, ao menos num primeiro momento, não escancaram alguma “turismofobia” como em outros cantos do mundo. Talvez, isso de relevar (até certo ponto) a desigualdade, seja uma característica latino-americana.

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A praia e seus espigões

No fim, não é para se reclamar de tudo mesmo. A grana que vem de longe faz a roda girar. E o povo se vira e se esforça para ficar com verdinhas alheias. O vendedor de souvenir fala qualquer coisa para gerar um mínimo de intimidade e atrair aquele que vem de longe, o marinheiro trata bem para expor ao fim da viagem um pequeno cofre em forma sugestiva de porquinho e dizer que vivem da “propina” oferecida. O mexicano se veste de Máscara em frente ao Coco Bongo para surfar a mesma onda e levar uns dólares a mais daquela carteira internacional.

O turista, de fato, recebe grande atenção por onde passa em Cancún. Mas talvez tudo não passe de encenação. Tudo seja uma simpatia paga. Sorrisos para se conseguir dinheiro e evitar dores lá na frente.

E a vida segue.

Diários Mexicanos: de fila em fila se vai ao longe

mexico

Um viva! Não à organização, mas à sobrevivência em meio a todo e qualquer pequeno caos que nos rodeia no cotidiano das nossas vidas. Às bagunças diárias que, sabemos: não são corretas, mas ainda assim não nos abalam. Um viva à América Latina!

Estamos no México, onde pousamos em Cancún, um polo turístico mundial, mas que em poucas horas deu umas amostras do que é o continente americano logo ao Sul da terra dos yankis. Uma genuína América.

Só num primeiro contato, foram pouco mais de 60 minutos para encontrar algumas latinidades as quais não via há algum tempo, quando em viagem. A primeira, logo de cara, foi a burocracia: “Autoridades locais” só autorizaram o desembarque de um avião cheio de gringos – alguns deles numa verdadeira maratona – depois que todos tivessem preenchido o formulário de entrada no país. Documento este entregue apenas quando todos já estavam de pé na aeronave, naquela corrida maluca em direção à saída logo após o pouso.

O México, por sinal, é o único país que conheci até agora que exige dois formulários para entrada – um individual e outro “por família”.

Da fila do avião à fila de imigração. Um saguão cheio de policiais nem tão bem encarados e turistas atrapalhados. Não bastasse as duas filas, mais outras duas de brinde: para recuperar a mala e, em seguida, na alfândega. Do pouso à saída do aeroporto – que em termos de estrutura ficou devendo – foi mais de uma hora.

Mal colocamos o pé para fora e aquela multidão querendo se dar bem apareceu. Oferecendo táxi, “táxi seguro”, passeios, câmbio etc. Claro, uns legalizados e outros quantos “informais” no bolo de gente que espera os turistas.

Passada mais esta barreira, subimos no ônibus da ADO rumo ao terminal deles. Por ser brasileiro, temi pela minha bagagem despachada de qualquer jeito e sem qualquer identificação no porta-mala do coletivo. Felizmente todas estavam sãs e salvas após a viagem de quase meia-hora.

Às vezes os brasileiros, por estarem acostumados às notícias tupiniquins, estranham quando estão no exterior. Acostumados ao perigo, nossa guarda é sempre alta, enquanto o mundo pode e costuma ser mais leve.

Em tese, o segundo ônibus – rumo a Valladolid – teria seu embarque anunciado pelo sistema de som do terminal da ADO, com uma fila se formando e, em seguida, ordenadamente, as pessoas ingressarem na área de embarque próximo ao horário pré-determinado de saída. Em tese.

Na prática, foi um emaranhado de gente com calor querendo entrar de uma vez no ônibus que só partiu 25 minutos depois do programado e cujo embarque foi anunciado na base do grito pelo gordinho responsável pelo controle do acesso.

A situação descrita acima poderia ser até um barril de pólvora para povos mais brigões. Ou extremamente estressante e incomum a organizados germânicos e orientais, por exemplo. Mas isto é parte da América Latina. As pessoas levam na boa, com fé e até um sorriso no rosto.