Diários Mexicanos: O Mergulho no Cenote

cenote zaci

Passei uns bons anos da minha vida pensando que deveria ir a Paris. Nem que fosse para tirar umas fotos da Torre Eiffel, que, mesmo inferior a tantas outras que a gente vê por aí, poderia dizer: essas são minha. Isso equivaleria a algumas outras tantas situações, que podem ser chamadas de experiências.

Isso que me motiva a viajar, sempre tentando algum horizonte novo. Confesso que tenho um pequeno orgulho dessas experiências. Já rodei um pouco, talvez um pouco mais que a média dos que me cercam. Mas ainda assim é tão pouco diante do tamanho do mundo. Paradoxalmente, quanto mais se viaja, mais se percebe que há muito chão para se pisar.

Esses dois parágrafos não querem dar um tom de “seja-viajante-e-largue-tudo-e-vá-conhecer-o-mundo”. Não. Mas não deixam de ser um conselho para viver as situações pelas próprias experiências. Ter suas próprias lembranças e opiniões sobre onde se vai. E tal como certo dia em Paris, tive a mesma sensação ao mergulhar nas águas do Cenote Zací, um lugar incrível quase ao lado do centro de Valladolid.

De uma forma grossa e não-científica, cenote consiste em praticamente uma piscina de um azul incrivelmente sedutor em uma caverna semiaberta (as águas podem ficar totalmente expostas ao sol ou não, em outras formações geológicas). Até não parece, mas sua profundidade vai a dezenas de metros.

Foi só esse que conheci, dentre tantos que existem especialmente na península de Yucatán – e são muitos mesmo. Foi incrível, mesmo ele não sendo “um lugar turístico”, segundo uma guia turística de Cancún. Uma experiência tão ou mais legal que conhecer Paris ou outra grande metrópole deste planeta.

Diários Mexicanos: De otro tiempo

valladolid (1)

Valladolid é uma microcidade da região central da península de Yucatán, a cerca de duas horas da badalada Cancún e tem um tempo diferente. Tal qual um sem-número de cidadecitas do interior hispânico. Seja do México, do Uruguai, da Argentina ou mesmo da Espanha. Enfim, aqui o tempo é outro.

Estamos em pleno século XXI, mas isto poderia não passar de especulação ao se observar atentamente os locais. Los mexicanos de Valladolid dão buenos días, buenas tardes y buenas noches a quaisquer desconhecidos que os encararem pouco mais de um segundo. E isso sem maior desconfiança – ao menos aparente.

Eles vendem jornais impressos – três (!) em uma microcidade – nas esquinas com calçadas apertadas para o pueblo passar no seu dia a dia. Aqui um breve parêntese: a aposta no noticiário policial e na chica desnuda parece sempre serem uma constante, onde quer que seja.

valladolid

A convicção de que estamos mesmo no século XXI pode diminuir um pouco mais se passarmos a reparar também na arquitetura desta pequena cidade, na qual a construção mais alta é uma igreja erguida em 1706. De resto, casinhas com dois, três pisos no máximo e quase todas coloridas. Um cenário muito mais para Zorro do que para Homem de Ferro.

O tempo retrocede ainda mais se se viajar cerca de 50 quilômetros para ir a Chinchén Itzá e deparar-se com a antiga cidade Maia, construída bem antes de qualquer espanhol pisar no solo hoje mexicano.

Mas talvez toda a culpa seja do Cenote Zací, um lugar incrível ali do ladinho do Centro. Diante de tanta beleza e com uma água sempre convidativa, o tempo quiçá se atrase querendo mais um mergulho neste local criado lentamente pela natureza milhares de anos atrás.

valladolid (2)

Valladolid tem outro tempo. E nele ninguém se importa, afinal, se estamos mesmo no século XXI.

Diários Mexicanos: de fila em fila se vai ao longe

mexico

Um viva! Não à organização, mas à sobrevivência em meio a todo e qualquer pequeno caos que nos rodeia no cotidiano das nossas vidas. Às bagunças diárias que, sabemos: não são corretas, mas ainda assim não nos abalam. Um viva à América Latina!

Estamos no México, onde pousamos em Cancún, um polo turístico mundial, mas que em poucas horas deu umas amostras do que é o continente americano logo ao Sul da terra dos yankis. Uma genuína América.

Só num primeiro contato, foram pouco mais de 60 minutos para encontrar algumas latinidades as quais não via há algum tempo, quando em viagem. A primeira, logo de cara, foi a burocracia: “Autoridades locais” só autorizaram o desembarque de um avião cheio de gringos – alguns deles numa verdadeira maratona – depois que todos tivessem preenchido o formulário de entrada no país. Documento este entregue apenas quando todos já estavam de pé na aeronave, naquela corrida maluca em direção à saída logo após o pouso.

O México, por sinal, é o único país que conheci até agora que exige dois formulários para entrada – um individual e outro “por família”.

Da fila do avião à fila de imigração. Um saguão cheio de policiais nem tão bem encarados e turistas atrapalhados. Não bastasse as duas filas, mais outras duas de brinde: para recuperar a mala e, em seguida, na alfândega. Do pouso à saída do aeroporto – que em termos de estrutura ficou devendo – foi mais de uma hora.

Mal colocamos o pé para fora e aquela multidão querendo se dar bem apareceu. Oferecendo táxi, “táxi seguro”, passeios, câmbio etc. Claro, uns legalizados e outros quantos “informais” no bolo de gente que espera os turistas.

Passada mais esta barreira, subimos no ônibus da ADO rumo ao terminal deles. Por ser brasileiro, temi pela minha bagagem despachada de qualquer jeito e sem qualquer identificação no porta-mala do coletivo. Felizmente todas estavam sãs e salvas após a viagem de quase meia-hora.

Às vezes os brasileiros, por estarem acostumados às notícias tupiniquins, estranham quando estão no exterior. Acostumados ao perigo, nossa guarda é sempre alta, enquanto o mundo pode e costuma ser mais leve.

Em tese, o segundo ônibus – rumo a Valladolid – teria seu embarque anunciado pelo sistema de som do terminal da ADO, com uma fila se formando e, em seguida, ordenadamente, as pessoas ingressarem na área de embarque próximo ao horário pré-determinado de saída. Em tese.

Na prática, foi um emaranhado de gente com calor querendo entrar de uma vez no ônibus que só partiu 25 minutos depois do programado e cujo embarque foi anunciado na base do grito pelo gordinho responsável pelo controle do acesso.

A situação descrita acima poderia ser até um barril de pólvora para povos mais brigões. Ou extremamente estressante e incomum a organizados germânicos e orientais, por exemplo. Mas isto é parte da América Latina. As pessoas levam na boa, com fé e até um sorriso no rosto.

Guerra de gritos e versões

greve jose cruz

Foto: José Cruz / ABr

Pouco mais de um ano atrás usei a metáfora da banca e do menino jornaleiro para tentar explicar um pouco das diferenças entre trabalhar com Facebook e Twitter em uma redação de jornal. Para quem não leu, basicamente a comparação era esta: o Facebook é como uma banca, com um sem-fim de conteúdo oferecido, enquanto o Twitter é aquele jovem gritando a manchete com um “extra”.

Retorno e amplio a metáfora depois deste 28 de abril de 2017 turbulento tanto em ruas de diversas cidades de todos os estados brasileiros, quanto nos smartphones e computadores. Uma verdadeira guerra de versões. Ou se era “vagabundo” ou “trabalhador”, com pouco espaço para meio-termo. Praticamente nada de debate ou discussão que valesse a pena.

A banca do Facebook estava superlotada. “CarnaLula”, “Lula na cadeia” confrontavam quem alegava luta por direitos e firmava críticas às reformas trabalhista e previdenciária. O menino do Twitter ficou rouco de tanto gritar tanto mensagens como #GreveGeral quanto #AGreveFracassou. Motivado por uma esperança de feirante, de que, quem gritar mais alto, leva.

Se a internet democratizou a informação, também o fez com o ruído e a propaganda seja do que lá for, inclusive a mentira. Isso não é novidade. Mas, talvez, em casos como o de hoje, o que convém seja a reflexão, o momento de lembrarmos que temos dois ouvidos e apenas uma boca.

Há verdades em ambos espectros políticos, em diferentes versões. A gritaria e o esperneio das redes sociais certamente não é as tornam o melhor local para se refletir e formar uma opinião embasada – o que, na teoria, é o que se busca numa discussão.

A banca do Facebook e o jornaleiro do Twitter, provavelmente na maioria dos casos, foram tomados por gente mais interessada mais em denegrir quem se é contrário do que de fato debater quaisquer ideias. Um novo e triste round do confronto Petralhas x Coxinhas.

Nunca um bom jornalismo foi tão importante, porém quiçá nunca, em tempos recentes, tenha sido tão raro. É preciso olhar para mais lados antes de sair gritando suas verdades.

greve-geral

Convém não ignorar | Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo

ps: talvez motivado pelo discurso bélico das redes sociais, o governo inicialmente manifestou-se minimizando a greve geral. Lembrou a gestão anterior, que também desprezou os primeiros protestos contra. Da mesma forma que petistas acusavam as manifestações de 2015 de ser um movimento elitista, os atuais ocupantes da Esplanada dos Ministérios taxaram de fracasso os atos ocorridos em todo o Brasil nesta sexta. A cegueira custa caro.

 

Crônica de uma madrugada em aeroporto

image

A380: uma gigante distração

O funcionário do aeroporto de Guarulhos desceu 36 degraus desde a plataforma até a pista. No topo, o ponto mais alto da escada ambulante mal chegava à altura do segundo andar de um A380, o maior avião comercial em atividade do mundo. Era início de madrugada e o gigante ali era a única atração off-line do momento para aqueles que tinham horas pela frente no saguão do embarque.

O A380 não completou um trimestre de atividade no Brasil. Sua imponente presença ainda chama a atenção. Pudera, não é qualquer máquina que faz caminhões parecerem carrinhos de fricção ao seu lado. Outros aviões também se apequenam quando lado a lado.

Mas seu embarque não é fácil. Antes de voar por cerca de 15 horas de São Paulo até Abu Dhabi (ou seria Dubai?) ele leva umas duas horas desde o primeiro vip até o último passageiro atrasado entrar na aeronave. Mesmo a observação do gigante, feita de um banco improvisado no café, torna-se algo bem cansativo – e desconfortável – com o passar do tempo, que insiste em se arrastar.

Ainda assim, reparar em toda a logística de um A380 pode ser mais interessante que checar, rechecar as redes sociais sonâmbulas no início de madrugada. Não à toa que o avião segue atraindo curiosos junto às janelas para a pista. Muitos, como eu, tirando fotos para logo em seguida se decepcionar com a qualidade da imagem, prejudicada pelos reflexos do saguão diante da escuridão em frente.

Aeroportos costumam ser lugares bacanas para observações. Cada passageiro e tripulante leva consigo uma história. Uma origem e um destino, que não necessariamente são na cidade presente. Idiomas, tradições e manias se cruzando aleatoriamente nestas esquinas da vida. Uns apressados, outros em marcha lenta de férias. Provavelmente para nunca mais se aproximarem outra vez.

Quase 2h. Finalmente inicia o taxiamento do A380. Em pouco mais de três minutos, ele sai da nossa frente e vai para a pista, de onde ganhará os ares noturnos em seguida. Tudo viraria um marasmo total ali no café. Mas ao menos o acaso decidiu dar um prêmio pela atenção dispensada. Tão logo o gigante partiu, vagaram preciosas poltronas com um conforto ok. Como nem tudo é perfeito, o som das obras da madrugada afastam qualquer possibilidade de paz sonora.

Um pequeno grupo de pessoas dorme à minha volta, na posição que lhe é possível no espaço da poltrona. E haja criatividade, além de coluna, para conseguir descansar, por melhor que seja na comparação com o banquinho da hora anterior. Invejo-os. Simultaneamente ao tempo que para eles passa mais rápido, vou sendo levemente torturado pelo sono, que tira a disposição e a concentração para a leitura do livro de bordo.

Sobra só a observação e a escrita, companheiras fiéis de um jornalista insone. E ainda me faltam três horas para o meu voo…

Tenha cuidado, Rafael!

carta_liniers5O mundo não está nada fácil, Rafael! Tenha cuidado.

Te juro, queria te prometer mundos, fundos, fantasias e alegrias. Basicamente isso: um grito de gol, que vais descobrir que é uma dos momentos de mais efêmera alegria desta tua nova encarnação – especialmente pela Libertadores. Mas teremos uma caminhada um pouco árdua pela frente.

Tu chegas numa época quase sombria, ainda que tua avó me condene por falar isso. Diz ela que ando bem pessimista, ainda que, infelizmente, entendo-me mais como realista nestes dias. Trabalho com notícias e vejo que elas não estão nada boas. Então, furtivamente te peço: vai por mim.

Não leve a mal, não foi bem por nossa culpa, mas tu vens para uma realidade que enfrenta velhos problemas que talvez tenhamos pensado que já estavam resolvidos, além de novos desafios que sequer imaginamos. Tudo isso tu saberá identificar, fique tranquilo.

E é justamente por isso que tu vens, Rafa. Tu, já do alto dos teus quase 50 centímetros (quase meio metro, cara), representas uma baita de uma esperança para nós. Ela e tu só vão crescer, dia após dia. Porque se as coisas estão complicadas, sim, mas tu vais ter uma grande luz para encarar a vida.

Calma. Essa missão não é só tua. Tu vai ter vários amigos ao teu lado e aqui vou te citar só alguns: a Laurinha, a Sofia, o Vinícius, a Cecília, a Clarice e todos esses que estão chegando contigo. Claro, inclui o agora-irmão-mais-velho Luan neste barco. Além da Liz e da Raíssa. (Três irmãos por estes dias é um privilégio, hein)

carta_liniers2

Rafa, o mundo não é fácil e por isso tens que conhecê-lo para compreendê-lo melhor. Provavelmente não será possível ir a todos os países e cidades, mas, sempre que saíres de casa para ir aí na esquina buscar o pão para o café da tarde, não esquece da chave que abre todas as portas: teu sorriso. A partir dele, transparecerás toda a tua luz e bondade que vais receber desta turma em que estão tua mãe, teu pai, teus avós e teus tios, como este que te escreve agora. É bastante gente, em um monte de lugar, para tu teres a certeza de que nunca estarás sozinho.

Estuda, Rafa. Precisamos de conhecimento para perceber e entender o que é a verdade no que nos rodeia. Para não acreditar em qualquer coisa numa era com excesso de falas e pouco contexto. Mas não deixa de te divertir. Com o tempo perceberás que risadas gostosas são das lembranças mais marcantes que temos. E espero poder estar contigo em várias destas.

Com amor,
Tio Tiago

ps1: As tirinhas que ilustram este post são de um argentino chamado Ricardo Liniers. Espero que tu leias muito ele ao longo da tua vida. Esta faz parte de uma carta aberta que ele desenhou à sua afilhada e que me inspirou para escrever para ti. A íntegra dela está aqui nesta apresentação:

Este slideshow necessita de JavaScript.

ps2: Apenas para eu me lembrar, porque gostaria de nunca esquecer: terminei este texto depois das 23h de um domingo, 9 de abril. A tia Ana dorme serenamente do meu lado no sofá, teu avô Celso foi para a cama agora há pouco. Todos ansiosos pela tua chegada, prevista para daqui a cerca de nove horas. Durante o dia, traçamos até um mapa astral teu, como se fosse possível reunir todas as melhores qualidades para te oferecer.

Rafa, tenha certeza: ainda que o mundo não esteja nada fácil, amor não te faltará.

Olhos de ressaca

capitu

Nunca tinha sido muito próximo aos livros. Não percebera, então, que aquele era bem mais que um simples olhar. Bem mais.

Dentre tantos relacionamentos líquidos, deixara de notar justo a sua Capitu. Não viu seus olhos, lembrou-se apenas na ressaca.

Agora fica no aguardo. Quem sabe de um próximo romance. Talvez algo do realismo, pois de poesia (e subjetividade) passou longe.