Desculpe não falar francês, Zaz

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Zaz: uma cantora irriquieta

É, de fato, uma pena não ser fluente em francês. Uma pena, pois impede ao espectador compreender tudo o que se passa no universo musical da cantora Zaz, que se apresentou em Porto Alegre na noite desta terça-feira, diante de um Auditório Araújo Vianna lotado.

Falante – apesar da barreira linguística entre ela e a maioria dos fãs à frente –, bem-humorada e simpática, ela abriu a turnê brasileira no Rio Grande do Sul em um show que durou cerca de 1h40min.

Por aqui, a francesinha espoleta ainda passará por Rio, São Paulo e Brasília, antes de rumar para o Hemisfério Norte para daqui a um mês e pouco estar cantando a um público nativo de idiomas mais complicados, no Japão.

Em sua segunda apresentação na Capital, Zaz não poupou energia. Acompanhada de seis grandes músicos, ela desfilou sucessos próprios e regravações. E tudo num ritmo frenético, com direito a muitos pulos, caretas e dancinhas improvisadas, além de gritos num português torto: “Maix fórrtê!”.

“Je veux”, “Les Passants” e “Paris sera toujours Paris” foram apenas três das muitas canções que ecoaram nas bandas da Redenção ao longo da noite. Entre tantas outras cujas o jornalista, preso à ignorância linguística, não saberia escrever da forma correta. Apenas cantarolar e bater palmas.

Se é difícil para a maioria do público de Porto Alegre compreender a língua materna de Zaz, para a francesa, arriscar-se no português também não é nada fácil. Mas ela encarou o desafio. Antes, porém, viajou pelo espanhol, cantando o clássico “Dos Gardenias”, dos cubanos do Buena Vista Social Club. Em seguida, aí sim, entregou-se ao idioma dos fãs do momento ao cantar “Samba em Prelúdio”, de Vinicius de Moraes.

Definitivamente, mais uma francesa ganhando o mundo com sua voz. Tal como Edit Piaf? O tempo responderá. Mas se depender do talento e da alegria de estar em um palco, sim.

A apresentação, que contou com um cenário em constante transformação devido aos efeitos das projeções de iluminação, contou com a participação de duas cantoras daqui, entre elas Valeria Houston Barcellos, em duetos que afloraram emoção – sensação que a boa música gera.

*Texto ampliado da matéria publicada no CP após o show

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Que rio, Portela!

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Portela | Foto: Leo Cordeiro / FB Portela

Talvez este tenha sido o carnaval em que os blocos e a festa na rua tenha tido tanto ou mais cobertura do que as escolas de samba. Foi um ano da diversidade das festas ao invés da musa Globeleza nua e inatingível na tela da TV.

Foi, portanto, um carnaval diferente dos últimos. Do início ao seu fim – ou melhor, do início à quarta-feira de cinzas. Que de cinza nada teve. Foi azul e branca, finalmente. Emocionante, portelense.

Vitória da Portela era algo que ainda não tinha visto na minha vida – e olha que já até vi o Botafogo ser campeão brasileiro. Era algo que há 33 anos não acontecia, que estava engasgada por décimos que faltaram outra hora. Um hiato injusto com a história portelense e da sua gente.

Essa história é grande, enorme. Transcende o carnaval e qualquer disputa. Não à toa o título da Portela gerou aplausos nas quadras das escolas que também pleiteavam o primeiro lugar.

Em meio ao calor da vitória, fica o convite aos interessados em conhecer um pouco mais da Portela, no documentário abaixo, chamado de “O Mistério do Samba”. Trata-se de uma narrativa contada por dois ilustres seguidores da escola, Paulinho da Viola (Ah, Paulinho) e Marisa Monte.

Textos baianos: A música

BahiaUm mea-culpa sobre a Bahia, para fechar esta primeira série de textos baianos. Música. Confesso que cometi o que considero um pecado logo antes de desembarcar para os 11 dias que ficaria em Salvador e generalizei. Preparei-me psicologicamente para passar este tempo todo ouvindo axé e ritmos potenciais reboladores.

Ledo engano!

Por isso peço perdão pelo que pensei a Gilberto Gil, a Caetano Veloso, Dorival Caymmi e tantos outros. A Bahia é, sim, muito maior do que qualquer axé, qualquer rima fraca que por ventura já tenha feito sucesso nacional – algo que nunca representou necessarimente qualidade musical.

Se a memória não me falha, já nesta tarde de chuva em Porto Alegre, peguei quatro táxis em Salvador. E em todos a música da rádio estava ótima. Uma MPB com artistas que não conhecia, e que fico devendo nomes aqui. Extremamente agradável, juro. Talvez estivesse na Rádio Educadora, que tem o selo de garantia do Rodrigo Oliveira.

Na maioria dos trajetos, o táxi deixou-me no Rio Vermelho, um tradicional centro boêmio recentemente renovado por obras. Por lá, diversas opções. Desde o fatídico sertanejo aos tuti-tuti eletrônico.

Por lá, faço questão de recomendar, parei duas vezes no Centro Cultural Casa da Mãe. Numa quarta ouvi chorinho que me fez voltar alguns anos no tempo, para quando via o saudoso professor Darcy Alves tocar em Porto Alegre. Numa quarta, um jazz encantador. E tudo isso a poucas dezenas de metros da estátua de Jorge Amado e Zélia Gattai, do acarajé da Dinha. De baianices clássicas, enfim.

Jorge e Zelia

Jorge, Zélia, o pug e a boemia

Mas, claro, estar em Salvador e não ouvir nenhuma batucada significa não ir a Salvador. Esse ritmo tão baiano se encontra nas ruas do Pelourinho, na praia do Porto da Barra. Mais hora, menos hora o ritmado som vai encontrar teus ouvidos. Sorria, afinal, você estará na Bahia.

 

Il volo no ar

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Foto da @andressavg

Já fui a alguns shows para apreciar a música como um todo, letra e melodia. Mas também já estivem em apresentações principalmente para assistir algum músico, virtuose em determinado instrumento. Outros apenas, simplesmente, por ser fã. Só que, me dei conta esses dias, foram poucas as vezes em que havia ido ver, acima de tudo, alguém cantar.

E como cantam, esses meninos do Il Volo, uma grata surpresa que conheci e assisti ao vivo neste mês.

Um trio de jovens italianos, cujas idades somadas não ficam sequer perto de fechar um século, mas que trilha caminho dos famosos três tenores. Cantam com alegria: levam aos clássicos sua jovialidade e disposição. Levam ao público, clássicos bem mais velhos e consagrados que eles próprios.

Renovam a alegria da música. Vale a pena conferir e, claro, ouvir.

Paulinho, ah Paulinho…

Fazia um certo tempo que não escrevia nada de música por aqui. E a madrugada – hora em que escrevo essas palavras – é sempre um bom assunto. Ainda mais quando o protagonista é Paulinho da Viola, que se apresentou em Porto Alegre por esses dias. Após uma deliciosa hora e meia, rendeu um texto pro jornal, reproduzido abaixo:

São poucos os artistas que conseguem encher seus shows justo em noite de último capítulo de novela. Pois Paulo César Batista de Faria, o Paulinho da Viola, é capaz. E provou isso na noite desta sexta-feira, quando o Auditório Araújo Vianna praticamente lotou para vê-lo.

E o que era para ser uma apresentação transformou-se numa verdadeira aula de samba, simpatia e, claro, boa música. O veterano músico carioca desfilou alguns de seus principais sucessos da carreira – que já tem quase 40 anos.  “Onde a dor não tem razão”, “Coração Imprudente”, “Timoneiro” e “Argumento” foram alguns dos sucessos tocados por Paulinho, que, por vezes, entre uma música e outra, contava alguma história ou um bastidor relacionado à letra ou à melodia.

Se não bastasse, a noite também foi de homenagens a compositores e escolas de samba, inclusive a Mangueira, tradicional rival da Portela de Paulinho. A verde e rosa foi celebrada em “Sei Lá Mangueira”. Amigo do pai do sambista, Jacob do Bandolim teve em sua honra o choro instrumental “Inexplicável”, executado por dois músicos do sexteto que acompanhou o protagonista da noite em Porto Alegre.

“Nervos de Aço” vira ponto alto da noite

Filha de Paulinho, a cantora Beatriz Faria esteve no palco para interpretar “Só o tempo” num dos pontos altos da noite. Ao público porto-alegrense, Paulinho da Viola não deixou faltar “Nervos de Aço”, de Lupicínio Rodrigues, cantada quase à capela no Araújo Vianna, já no bis – pouco antes, “Coração Leviano” fez o público soltar a voz, assim como a última do show, a homenagem à Portela “Foi um rio que passou em minha vida”.

Após uma hora e meia, Paulinho da Viola deixou o palco sob efusivos aplausos e com boa parte do público na beirada do palco, dançando após deixar para trás as cadeiras numeradas e sequer lembrando que a noite era de último capítulo de novela, que será reprisado no sábado. Já Paulinho, esse sim não tem toda noite por aí.

Reencontro com um velho amigo. Ou momento confessional nº 11

Dias atrás vi algum blog que listava coisas legais para ensinar a seus filhos antes que você vire um adulto chato. Não tenho herdeiros, mas resolvi testar a proposta. Num impulso, credenciei-me para o show do Charlie Brown Jr, no bar Opinião, aqui em Porto Alegre.

Poucos dos meus poucos leitores sabem, mas um dia já fui adolescente, cabeludo e fã de Charlie Brown Jr. Daqueles que iam em shows no gargarejo, entravam em roda punk. E também iam – no mesmo Opinião – ver sua banda preferida.

E fui fã por bastante tempo. Fiel, que comprava cd (!) na primeira semana de lançamento, que catava cifra na internet para tocar no violão, na guitarra e no baixo.

Só que tudo isso terminou em 2005. Houve uma cisão até hoje não muito bem explicada. De cinco integrantes saíram quatro. E o Chorão, digo a banda, continuou. Não sei o porquê direito, mas aquilo me soou inaceitável. Uma traição, enfim.

Neste hiato, olhei para a minha ex-melhor banda do mundo com certa indiferença. Por cima, cantarolei  uma que outra música, apenas. Não toquei nenhuma outra.

A coisa, porém, começou a mudar de figura em 2011. O baixista Champignon e o guitarrista Marcão voltaram. A banda, ou 4/5 dela, estava de volta. Isso de certa forma fez acordar o adolescente roqueiro de outrora.

Desatento, reparei que o mesmo grupo tocaria no mesmo Opinião o qual fui sozinho 12 anos atrás. Por que não ir? Aí me vi novamente em um Opinião lotado, rodeado por adolescentes, jovens adultos tão iguais como uma década atrás. Uma banda também idêntica aquela. O diferente foi eu. Sem nem cogitar pular ou se esbofetear em rodas-punk. Resistente, de certa forma. Um idoso aos 26. Ex-roqueiro, de fato.

Por meia apresentação foi assim. Até que algumas músicas “das antigas” surgissem, para derrubar algum eventual preconceito. Para fazer voltar o adolescente, que se não foi para a frente do palco, cantou de longe, batendo o pé e fazendo das mãos uma guitarra ou uma bateria imaginária. Reencontrou um velho amigo, que depois de infortúnios parece ter recuperado a velha forma. E feito um ex-adolescente feliz. Ao menos enquanto não vira definitivamente um adulto chato.