Diários paternos: a grande viagem

Tiago Flor e pilates

Em verdade sempre houve um motivo especial que me fez gostar de viajar para onde quer que fosse: a sensação de viver um momento único, proporcionado pela aleatoriedade de estar em um determinado espaço de tempo em um específico lugar, com exatamente aquelas pessoas que por lá passam – ou não – naquele minuto exato. E essa sensação se torna mais forte quando isso acontece em lugares em que jamais estive e que provavelmente nunca mais voltarei.

É quando me sinto mais vivo, justo ao ser anônimo no mundo, mero espectador. Porque, se parar pra pensar, a gente esquece a maioria dos dias da nossa vida. Em especial quando entramos na rotina proletária de sempre aguardar o próximo quinto dia útil do mês seguinte – o que é uma necessidade obrigatória para a maioria da população, incluindo o meu caso.

Onde tu estavas em 23 de maio de 2017? Ou então em 14 de março de 1999? Eu não faço ideia, e tampouco isso é relevante. Aposto que tu, salvo sejas uma exceção, também não deves lembrar, caro(a) leitor. Porém eu recordo bem de, pelo menos, uma semana de julho de 2008, quando viajei a Havana ao experimentar pela primeira vez a sensação de estar longe de casa, em um lugar totalmente desconhecido. Ter a prova de que sou apenas um em bilhões e de que este planeta é enorme, ainda que às vezes não pareça.

Desde então, ano a ano, tenho para mim outras dessas semanas – que ora foram cinco dias, ora foram 15. Que me fizeram beber com estrangeiros desconhecidos mais de uma vez em hostels de seis países da América Latina e também me oportunizaram uma conversa interessantíssima com um baiano qualquer no Pelourinho, ver músicos excelentes nas ruas de Lisboa e Madri, além de observar aquelas duas jovens estudantes japonesas caminhando tarde da noite e tranquilamente numa rua qualquer de uma cidade chamada Hamamatsu, no Japão. Isso dentre tantos momentos.

Mas repare: não é sobre quantidade de cidades ou países conhecidos que estamos falando e sim sobre a forma como acumular lembranças e experiências ao longo da vida. Viajar, pra mim, tornou-se uma forma de aprendizado, de quebra de preconceitos, de criação de empatia e, acima de tudo – como disse –, de fazer com que eu me sinta vivo, que eu registre a minha própria vida ao longo dos anos. Seja reparando no silêncio do metrô de Tóquio, caminhando às margens do Tâmisa ou também pensando em tudo o que já vi que poderia ser aplicado ao trânsito da minha cidade – além do que Porto Alegre e o Brasil deveriam exportar para além-mar.

Bom, só que este é um texto sobre paternidade, tal como o título sugere. Precisava, contudo, desta longa introdução. Pra entender também que se pode acumular, e muito, tanto lembranças quanto experiências sem sair de casa. Em se ter uma nova vida para se cuidar. Se eu me lembro que em agosto de 2013 enfim cumpri o clichê necessário de se fotografar a Torre Eiffel, da mesma forma nunca esquecerei o início da manhã de 15 de maio. Quando, na minha cidade, eu estava onde devia estar, com pessoas que estavam ali naquele hospital por uma aleatória escala de plantão, e que presenciaram, junto comigo, com minha mulher e a dra. Lizi o choro inaugural da Maria Flor, minha filha.

Depois de todos aqueles quilômetros, e o desejo de percorrer tantos outros, o lugar mais especial do mundo naquele momento foi na minha terra. Desde então, metaforicamente, uma nova e grande viagem teve início. Pouco antes de eu sair de férias – e férias essas em que, após quase uma década, não vão ter passada alguma por estrada, rodoviária ou aeroporto qualquer. Um recesso no qual a maior parte do tempo ficarei em casa. Mas que, igualmente, vou guardando, aprendendo, saboreando e registrando cada momento que já percebi o quão especial é.

Porque não deixa de ser uma grande viagem, a paternidade. Por enquanto com um nenê que se encaixa quase que perfeitamente apenas sobre meu tórax, porém que daqui a pouco já vai pular para dar seus primeiros passos – deixando só o registro que guardo por esses dias.

Ela crescerá para ter suas experiências e lembranças. Aqui ou ali, com amigos de fé ou com pessoas que cruzarão especificamente por um momento na vida dela. O mundo é enorme, minha filha, aprendi isso. E ele vai estar ao teu alcance.

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Diários paternos: das armadilhas

mao florContei há dois meses da vez que conheci Jesus. O que não escrevi foi dos momentos subsequentes àquele encontro e, mais especificamente, à primeira esbarrada em burocracia gerada pela situação. A verdade é que transbordava em mim uma enorme indignação misturada com raiva. “Logo eu, que pago todos os meus impostos! Queria ver se fosse com um deputado! Ah, esses órgãos públicos só tiram dinheiro do trabalhador honesto… do cidadão de bem!”, bufava eu.

Havia caído numa armadilha. Por sorte, percebi isso rápido. Não sem antes de experimentar este amargo gosto da injustiça, o qual – creio eu – foi o tempero principal de milhões de votos que decidiram a eleição passada. Estava puto com o sistema! “Corruptos!”

E pensei isso mesmo eu estando errado. Ora, apesar de não querer sacanear ninguém, não estava fazendo nada de errado e justo na minha vez o jeitinho brasileiro não existiu. Enfim, algumas centenas de reais depois, a situação foi resolvida dentro dos trâmites reconhecidos pelas autoridades.

A questão aqui, porém, é a armadilha. Como jornalista, acabo me considerando alguém informado, com base em desconfianças e informações. Só que nem sempre o ofício de dentro de uma redação conta com o aspecto emocional, algo demasiadamente forte, em especial quando se sente na própria pele.

Lembrei disso dias atrás. Chuviscava e Maria Flor tinha seis dias de vida. Precisava levá-la para tomar a primeira vacina em posto de saúde. Era ou naquele momento, ou só na semana seguinte. Inesperadamente, do meu âmago surgiu um questionamento: “Mas será mesmo?” Uma breve sinapse cerebral perguntou se era realmente necessário eu “expor” minha a sabe-se lá o que que estava concentrado naquela seringa.

Outra armadilha, naturalmente. Essa, reconheço, foi bem mais tranquila de superar, ainda que ver a nenê chorando após uma picadinha no braço não seja das situações mais legais para um pai de primeira viagem.

No entanto, se para mim foi fácil, para muita gente não é. Nem duas semanas depois disso, leio que a maioria das vacinas obrigatórias está com a cobertura abaixo da meta. E isso provavelmente disseminado após uma onda de desinformação gerada internet afora. A já velha falta de contextualização e de fontes factíveis causando estragos pela sociedade.

É preciso estar atento e forte, como diria Caetano. Ao menos a minha certeza de que a Terra é esférica é inabalável. (Creio eu)

Eu e a Maria Flor

pezinhos

Não chorei quando a Maria Flor nasceu, ainda que estivesse bem emocionado logo após o término do parto. Por tudo o que falavam sobre o momento mais esperado dos últimos nove meses, isso me causou estranheza, admito. Naturalmente estava muito feliz, mas acho que estava, sim, mais aliviado por dar tudo certo. Grato a Deus, ao mundo espiritual e a todo corpo médico, fiquei extremamente feliz em especial pela Ana, porque era um sonho que ela tinha faz tempo: ser mãe! E naquele fim de madrugada, ela enfim o alcançava.

Àquele momento, carregava comigo uma peculiar observação, que ficou na minha cabeça depois da consulta na pediatra, antes do parto. “Mãe é mãe, o título é automático. Já o pai precisa conquistar esse posto. E isso acontece só lá pelos três meses, se o pai for bem presente”, disse a médica. Ou seja, a nenê nasce sabendo que tem mãe, só que ignora o fato que tem um pai. E ela tem um vínculo natural com a Ana bem mais forte que o meu, é indiscutível.

Antes de ela falar isso eu já conversava com a barriga. E eu nunca tinha me imaginado conversando com uma barriga até a minha esposa engravidar. Aí veio a Flor e foi natural a “necessidade” de estar por perto, para ajudar a ela poder comprovar e ter em seus primeiros pensamentos: “Ah, aquele cara que eu ouvia era tu”.

Quando então ela nasceu, não que houvesse qualquer desconfiança, mas, enfim, eu não era quem ela reconheceu automaticamente. E a recíproca não deixou de ser verdadeira. Eu tinha um nenê ali na frente, que saiu a barriga da minha mulher. Não deixa de ser uma parte minha. Mas eu precisaria conquistá-lo.

A gente, por conta da natureza, precisava ser “apresentado” ou simplesmente se “reconhecer”. E não foi bem isso que aconteceu nas primeiras horas. Até porque estávamos em um ambiente hospitalar, onde as pessoas vêm toda hora, pegam o bebê, furam-no, dão banho, fazem testes mil. Quem primeiro me chamou de pai foi alguma enfermeira. Tudo isso é necessário, obviamente, porém há uma quebra de intimidade muito grande ao longo do período do hospital.

Veio o dia de sair, então. E já depois da alta, quando estávamos só aguardando o auxílio para sair do quarto, foi que aconteceu o esperado clímax. A Ana deu uma rápida saída e fiquei, enfim, só eu com a Maria Flor no colo. Especialistas diriam que ela teve um espasmo ou qualquer coisa assim, pois recém-nascidos mal conseguem enxergar et cetera. Eu conto é que ela me deu um sorriso! O seu primeiro sorriso para mim.

Ali, com aquele sorriso de boas vindas, de reconhecimento, que a ficha caiu e, nossa!, ali eu entendi de fato que tinha me tornado… pai. Chorei e chorei bastante, enfim. Foram as lágrimas mais felizes em 33 anos, quatro meses e 19 dias de existência. Lágrimas felizes e sinceras, de quem enfim nascia como pai.

Zumbido

Sleep, by Jean Bernard Restout (1771)

Morfeu, por Jean Bernard Restout (1771)

Já é madrugada. Quase toda a cidade dorme – ou ao menos está recolhida. Eu ainda não. Mais uma vez, o dia demorou a terminar. E recém foram vencidas todas as tarefas proletárias. Tarde da noite, como de praxe, enfim busco me atirar aos braços de Morfeu.

Passados todos compromissos e mesmo risadas do dia, o corpo anseia por algumas horas de descanso. Em meio ao breu do quarto, cá estou. Querendo fechar os olhos.

Mas algo teima em permanecer. Ainda que esteja tudo quieto, não há silêncio. Entre o tique e o taque do relógio a pilha da sala, percebo então: um zumbido. Fraco, mas constante. Leve a ponto de ser perceptível e baixo o suficiente para não gerar uma preocupação imediata de busca ao médico.

E ele não vai embora. Aliás, há quanto tempo será que ele zune aqui no meu ouvido esquerdo? Dias, semanas ou meses? Logo, qual foi a última vez em que eu – morador de centro urbano – percebi a ausência total de sons e ruídos?

Com um esforço da memória, consigo recordar apenas duas dessas vezes para responder à pergunta que me fiz. E lembrei de duas noites justamente por ter notado: “Nossa, o silêncio”. Nessas duas noites não havia ventiladores, ar condicionados, tique-taques, latidos de cachorros ou carros passando pelas ruas. E a falta disso me chamou a atenção.

Só duas noites em anos em que lembro que o silêncio reinou absoluto à minha volta. Noites em que um zumbido ainda não existia para me levar a outro questionamento: vale a pena todo esse barulho?
ps: Morfeu, aliás, é o deus do sonho na mitologia grega

O coração da minha vó

Certa feita eu me exibia. E era congratulado pela minha ouvinte, uma das pessoas mais queridas que já conheci na vida: minha avó materna. Contava para a Vó Dorva qualquer coisa que tinha aprendido na aula e ela, entre “óóós” e interjeições de espanto mostrava-se uma atenta espectadora daquele menino pagando de inteligente. Era um neto falando bonito, afinal.

Devia ser alguma coisa que tinha aprendido na aula de ciências. Logo eu, e mesmo assim a vó não me contestava. Naturalmente já nem lembro o que contava para ela naquela ocasião. Até a parte da revelação mais forte, a de que todas as ações do nosso corpo são controladas pelo cérebro, esse órgão complexo e maravilhoso.

Aí a vó espantou-se de verdade e – isso eu lembro bem – pareceu de fato ter aprendido algo em meio àquele sermão. “Eu sempre achei que o que mandava no nosso corpo era o coração”, me respondeu ela. Eu tinha uns 11 anos, havia experimentado pouco ou nada das emoções da vida. E recordo de como achei de uma beleza tão simples aquela resposta.

E ainda acho. Minha vó viveu quase 70 dos seus 72 anos de vida acreditando que era o coração quem nos coordenava tudo, portanto. Talvez por isso que ela foi a viúva mais devotada que já conheci (e que hoje por certo é feliz ao lado do vô, seja onde for) ao mesmo tempo que amava o Sílvio Santos aos domingos na TV. Isso sem falar no amor em forma de Nescau quentinho e torrada para o neto que acordava depois de dormir na casa dela.

Um amor. Minha vó era um amor em pessoa. Eu sempre lembro daquela cena como seu exemplo maior de pureza ante a um mundo cada vez mais duro e objetivo. Porque é preciso se deixar levar pelo coração, em muitas vezes. É lá que moram as pessoas que amamos. De verdade. E azar do cérebro.

Questão de adaptação

smartphones

Eu era criança no condomínio Quebra Mar, em Tramandaí, e incomodava meu avô para comprar o jornal no mercadinho. Esse luxo não era diário, mas sim algo para três ou quatro dias por semana. Então, naquelas manhãs de verão, tínhamos ao alcance da nossa mão um compilado de notícias da véspera ali impressos. Além, claro, das concorridas palavras cruzadas.

Não havia internet, muito menos wi-fi e sequer telefonia na maioria dos apartamentos. Aliás, por se tratar de um condomínio enorme e num formato de quarteirão, o Quebra Mar tinha à disposição um telefone central. E aí podia-se ligar para lá que a administração do prédio anunciava num alto-falante para todos os condôminos ouvirem que havia uma ligação a ser atendida. Uma cena quase surreal, hoje extinta.

Se há mais coisa que mudou daquela época foi a forma de se consumir o jornalismo. E vejo não só por mim, mas por meu sobrinho, que hoje tem até um pouco mais de idade do que eu nessa época. Prestes a completar 14 anos, eu nunca vi ele folhear um jornal.

Pode ser que meu interesse pela imprensa seja maior que o dele, contudo tem uma diferença grande também: trata-se de um guri que antes de aprender a ler já sabia, em um computador, como entrar no Google, chegar ao YouTube e, dali, procurar um vídeo com o seu desenho favorito. Tudo através de ícones que, mais tarde, trocaram de tela e agora estão ao alcance de sua mão, no celular.

Essa adaptação a novos meios, porém, ainda é tabu, em pleno 2019. Isso às vezes segue duro justamente para jornais, que por décadas tiveram exatamente o mesmo modus operandi e se veem hoje entre a suposta segurança da base de assinantes somada à receita publicitária e a ainda instável disputa por crescimento e relevância no meio digital.

Fato é que a direção é uma só. E pra frente, rumo à adaptação. Nesta semana foi a vez do Clarín, de Buenos Aires, anunciar que irá procurar se tornar mais online. O que não significará abandonar de solavanco o papel impresso:

La mayoría de nuestros recursos periodísticos estará destinada a producir contenidos . Otro bloque se concentrará en la edición impresa, adaptando las notas publicadas en el digital y garantizando la máxima calidad. Cuanta más calidad tenga el diario papel, más fácil será la transformación digital. Tenemos que ofrecer un producto digital y un producto impreso del mismo valor.

Fica claro que haverá uma transição do que será prioritário agora. A web deixa de ser um espaço restrito a notas rápidas ou apenas breaking news. Mudança semelhante ao que houve no El País – e com sucesso – alguns anos atrás. O jornal espanhol, antes sediado apenas em Madrid, hoje autointitula-se “O jornal global”. Com razão.

Referência no jornalismo argentino, o Clarín indica que até pode vir seguir o mesmo caminho ao perceber que pode ter “mais leitores do que nunca” hoje em dia. A aldeia é global, já faz uns anos:

Hay un enorme sacudón en la industria de los medios que se renuevan para enfrentar la crisis de la plataforma tradicional del papel y adaptarse a la todavía incierta del digital. Tenemos más lectores que nunca y tenemos más desafíos que nunca: los hábitos de los lectores cambian más rápido que nuestras organizaciones y debemos cambiar si queremos mantener la relación con ellos. Necesitamos estructuras más flexibles y más eficientes con más talentos y capacidades del nuevo mundo.

Eis um dos focos da questão: a relação com o público. No entanto, que audiência é essa: a que está na rua ao lado ou além das fronteiras? Como fidelizá-la: com volume de notícias ou apenas com conteúdos especiais? Acesso gratuito para difusão em massa ou paywall como uma garantia econômica?

As dúvidas ainda são várias, mas é a partir de respostas para essas nada fáceis perguntas que se pode chegar à sustentabilidade no meio online. E buscar essa sustentabilidade é questão de sobrevivência para os jornais. Cada vez mais urgente, todavia, vale a ressalva, é primeiramente aos jornais de grandes centros urbanos, onde a internet é plenamente difundida e estável – situação que não ocorre em muitas localidades do interior.

Podem haver diferentes caminhos em relação a nicho, conteúdos e apostas, mas a direção é uma só. O guri que 20 anos atrás buscava jornal de Porto Alegre no mercadinho do condomínio de Tramandaí hoje assina o The New York Times sem nunca ter colocado os pés nos Estados Unidos.

Quando eu conheci Jesus

Ou uma pequena via crucis na burocracia do trânsito de Porto Alegre

placa

Conheci Jesus pouco antes das 11 horas da manhã de quarta-feira. Enquanto ele exibia uma certa serenidade, eu estava furioso e – confesso – não cri neste senhor naquele primeiro momento, ao passo que entendia-me vítima de uma severa injustiça. Foi quando Jesus me disse: “Pensa, filho. Isso pode ter te livrado de uma situação muito pior ou até salvado a tua vida”.

Não que tenha ficado mais calmo, mas guardei as palavras de Jesus, apesar de duvidar um pouco delas. Logo depois, virei de costas e segui meu caminho. A pé, no caso, pois a moto com que andava foi guinchada justamente por Jesus, que cumpria ordens de agentes da Empresa Pública de Transporte e Circulação e da Brigada Militar.

A fins de contexto, minha infração foi ter trafegado com a moto sem placa, que havia caído dias antes. Parado em uma blitz, pouco adiantou eu ter um boletim de ocorrência relatando a perda da placa, a guia do Detran para a confecção de uma nova placa – já paga –, além de todo e cada documento e cópia requerida para esta enorme burocracia exigida por tal situação “inóspita”, como reconheceu um agente. Porém, ainda que compadecido com meu caso, e como ele cumpre ordens, mandou guinchar. Azar, o meu.

E Jesus levou minha moto.

Iniciava-se ali uma pequena via-crucis – claro que bem mais suave que a original. Era necessário vencer a burocracia e tirar a moto do depósito o quanto antes, pois vivemos uma época aqui em que tempo é, literalmente, dinheiro – no caso, pouco mais de R$ 22 por dia, pela tabela do Detran. E num fim de mês.

Lembrei-me de Jesus na primeira ida ao depósito, na manhã seguinte à blitz. Quando chegava lá – e bota lá, numa periferia limítrofe de Porto Alegre – percebi que alguém não poderia escutar as mesmas palavras que eu ouvi. Havia um motociclista estirado no chão, ferido. Caído, era acudido por pessoas simples, aparentemente desconhecidas, que o protegiam de um sol de quase meio-dia. Teria sido um destino meu evitado?

Entre idas e vindas, reencontrei Jesus e até troquei outras palavras com ele. Simpático, Jesus faz parte do povo. Sabe que a missão dada é árdua e seu trabalho não é simpático, quiçá injusto em alguns casos, mas precisa fazê-lo, pois até para ele é necessário ganhar a vida. Voltou a lamentar minha situação e me desejou sorte.

A burocracia pela placa nova – além de vistoria e emplacamento – foi vencida dois dias e meio após a blitz. Só que a autorização para enfim retirá-la apenas veio na quarta-feira seguinte. Esta nem tão pequena diferença fez o valor devido ao depósito mais que duplicar.

Passado tudo isso, o drama ainda resolveu se esticar um pouco mais na hora do resgate. Onde estaria a chave da minha moto, entre as centenas que estavam lá naquele verdadeiro cemitério de veículos, algumas há anos? Apesar de tanta taxa, erraram o mais simples dos protocolos e atrasaram um pouco mais a ressurreição veicular.

Quando ela enfim aconteceu, a primeira pessoa que vi do lado de fora foi Jesus. Tomava um café proletário, aquele de logo depois do almoço enquanto o serviço não aperta. Passando de moto, cumprimentei-o e levantei o punho em sinal de vitória. Ele sorriu.