Meu fantasma

Tenho um fantasma que habita em mim. Um fantasma abstrato, contudo de uma presença impressionante. Um fantasma que certa feita foi feito de concreto e tijolos, mas que hoje já não existe mais, a não ser na memória de quem o conheceu. Uma recordação a cada dia que passa mais longínqua.

Esse fantasma tinha endereço. Morava no coração do bairro Menino Deus. Desde que foi ao chão, vaga por aí, entre antigas fotografias – desde as em preto e branco até as compostas por pixels – e lembranças alheias. Sobrevive, ainda que seu tempo seja contado, pois já existem gerações que não o conheceram pessoalmente.

Em breve chegará o dia em que aquele endereço na rua Dona Augusta tornar-se-á completamente desconhecido. Nunca hão de saber que lá o ambiente de um prédio mais novo qualquer era outro. Totalmente distinto. Tinha cheiro próprio, tinha vida, tinha alma. Foi um refúgio seguro ao longo de décadas, não só para mim. Tinha, acima de tudo, meus avós como seus habitantes.

Mas agora seu tempo é passado. Mesmo que insista em resistir no presente. Como um fantasma que surge em sonhos completamente aleatórios. Sai do vazio e transforma-se em cenário de um passado gostoso. Quase como uma máquina do tempo que nos saca da vida adulta diretamente à tenra infância.

É dúbio revê-lo. Bom e mau, porque às vezes veste a carapaça de um casarão mal assombrado. Como a faceta de um fantasma em meio à cidade grande. Cidade que o próprio cotidiano atual já não reconhece. O bairro de hoje cresceu em altura. Abdicou dos inúmeros gramados nos jardins em busca de vistas para o pôr do sol a uns poucos privilegiados.

Uma dentre tantas casas fantasmas, que viveriam a sombra de prédios se ainda fossem de concreto e tijolos. Cada qual com seus donos, todas fantasmas que deixaram a rua e agora residem em fotos. Que residem em memórias e residem em mim enquanto houver lembrança.

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De las muertes

caveira

Há uma expressão relacionada à morte que sempre me chamou a atenção: “O corpo do fulano”. Não sei exatamente onde e quando começou a se usar esta expressão para se utilizar com relação ao falecido. Mas, em toda uma construção de fatos, ela acaba por destoar da narrativa. Talvez como uma rota escapatória do destino muitas vezes temido e inexorável da nossa vida.

“Fulano de tal lutou durante anos contra aquela doença, mas não resistiu e morreu. O corpo de fulano será enterrado no cemitério da esquina…”

Repararam? Não é o fulano a ser enterrado e sim seu corpo. Passa, ao menos neste meu entendimento, a ideia de que o fulano em si é algo além de seu corpo, algo/alguém cujo destino não sabemos ao certo, ainda que imaginemos com base nas mais diferentes crenças.

Como espírita, fico com a impressão de que, quando se fala do fulano em si, estamos, ao fim e ao cabo, referindo-nos ao espírito do fulano em si. A alma, quiçá. O corpo não deixa de ser uma roupagem temporária para quando houver o literal desencarne – outra expressão a qual, analisada a etimologia, sugere a diferenciação entre o corpo e o “fulano”.

Uma exceção, talvez, ocorra na cremação, quando, apesar de lembrar que quem é cremado é o corpo e não o fulano, o popular acaba lembrando-se apenas do agente principal: “As cinzas do fulano foram jogadas no mar”. Nesse caso também não se deixa de passar uma impressão de que o novo morto estará presente em determinado lugar a partir de então. De alguma forma.

Essa tese toda escancara um pouco do temor com relação ao inevitável ponto final da vida. De forma que surja – como surgiram ao longo da história – crenças de que, na verdade, a vida não tem fim. Por mais biologicamente ilógico que isso pareça, não morremos. No máximo, dormimos um sono profundo à espera de um despertar – mas aí não para um café da manhã ou coisa assim, mas para um julgamento (!).

Há também a parte minoritária (ao menos aqui no Brasil): os que defendem que não só não morremos, como seguimos vivendo em outro estado, só que nem tão físico. Até reencarnamos, tempos depois. Sucessivamente. Tudo isso, repito, biologicamente impossível e ilógico.

Pero – e aqui uma das minhas frases favoritas não apenas no idioma espanhol – ¡no creo en las brujas, pero que las hay, las hay! E há tanta coisa biologicamente ilógica que não se explica…

Viva-1

É um misterioso tabu! E, a princípio, para sempre o será, como foi há centenas e milhares de anos. Isso porque na nossa cultura é difícil compreender e explicar a morte, justo algo tão certo. Por medo ou superstição ou qualquer outra desculpa, há muita gente que passa a vida inteira evitando qualquer assunto relacionado à ela. Quase como um silencioso temor coletivo.

Nisso, como torna-se bem-vindo um filme como “Viva: a vida é uma festa”, lançado no fim do ano passado. Com leveza e humor, navega por todo esse mundo da morte com uma naturalidade chocante e ainda apresentando a certamente milhões de pessoas um pouco de uma cultura meio fora do mainstream, como é a celebração – e mais, o significado – do “Día de Los Muertos” no México.

Uma cultura sem a depressão da perda, mas a celebração do que foi a vida. Que faz de algo tão comumente associado a coisas ruins, um artigo simpático: a caveirinha. E elas são bastante presentes pelo território mexicano. Tanto em seu pueblo como para os tourists que por lá aparecem em busca de sol e souvenir.

Com a tradicional assinatura da Pixar, esquecendo que há crianças na sala, “Viva” – que na maioria do mundo se chama “Coco” – oferece em animação aquilo que, no fundo, talvez todos queiramos: a continuidade da vida após a morte. Algo tão biologicamente impossível. Mas que todos, no fundo, desejamos.

Tenha cuidado, Rafael!

carta_liniers5O mundo não está nada fácil, Rafael! Tenha cuidado.

Te juro, queria te prometer mundos, fundos, fantasias e alegrias. Basicamente isso: um grito de gol, que vais descobrir que é uma dos momentos de mais efêmera alegria desta tua nova encarnação – especialmente pela Libertadores. Mas teremos uma caminhada um pouco árdua pela frente.

Tu chegas numa época quase sombria, ainda que tua avó me condene por falar isso. Diz ela que ando bem pessimista, ainda que, infelizmente, entendo-me mais como realista nestes dias. Trabalho com notícias e vejo que elas não estão nada boas. Então, furtivamente te peço: vai por mim.

Não leve a mal, não foi bem por nossa culpa, mas tu vens para uma realidade que enfrenta velhos problemas que talvez tenhamos pensado que já estavam resolvidos, além de novos desafios que sequer imaginamos. Tudo isso tu saberá identificar, fique tranquilo.

E é justamente por isso que tu vens, Rafa. Tu, já do alto dos teus quase 50 centímetros (quase meio metro, cara), representas uma baita de uma esperança para nós. Ela e tu só vão crescer, dia após dia. Porque se as coisas estão complicadas, sim, mas tu vais ter uma grande luz para encarar a vida.

Calma. Essa missão não é só tua. Tu vai ter vários amigos ao teu lado e aqui vou te citar só alguns: a Laurinha, a Sofia, o Vinícius, a Cecília, a Clarice e todos esses que estão chegando contigo. Claro, inclui o agora-irmão-mais-velho Luan neste barco. Além da Liz e da Raíssa. (Três irmãos por estes dias é um privilégio, hein)

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Rafa, o mundo não é fácil e por isso tens que conhecê-lo para compreendê-lo melhor. Provavelmente não será possível ir a todos os países e cidades, mas, sempre que saíres de casa para ir aí na esquina buscar o pão para o café da tarde, não esquece da chave que abre todas as portas: teu sorriso. A partir dele, transparecerás toda a tua luz e bondade que vais receber desta turma em que estão tua mãe, teu pai, teus avós e teus tios, como este que te escreve agora. É bastante gente, em um monte de lugar, para tu teres a certeza de que nunca estarás sozinho.

Estuda, Rafa. Precisamos de conhecimento para perceber e entender o que é a verdade no que nos rodeia. Para não acreditar em qualquer coisa numa era com excesso de falas e pouco contexto. Mas não deixa de te divertir. Com o tempo perceberás que risadas gostosas são das lembranças mais marcantes que temos. E espero poder estar contigo em várias destas.

Com amor,
Tio Tiago

ps1: As tirinhas que ilustram este post são de um argentino chamado Ricardo Liniers. Espero que tu leias muito ele ao longo da tua vida. Esta faz parte de uma carta aberta que ele desenhou à sua afilhada e que me inspirou para escrever para ti. A íntegra dela está aqui nesta apresentação:

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ps2: Apenas para eu me lembrar, porque gostaria de nunca esquecer: terminei este texto depois das 23h de um domingo, 9 de abril. A tia Ana dorme serenamente do meu lado no sofá, teu avô Celso foi para a cama agora há pouco. Todos ansiosos pela tua chegada, prevista para daqui a cerca de nove horas. Durante o dia, traçamos até um mapa astral teu, como se fosse possível reunir todas as melhores qualidades para te oferecer.

Rafa, tenha certeza: ainda que o mundo não esteja nada fácil, amor não te faltará.

Que rio, Portela!

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Portela | Foto: Leo Cordeiro / FB Portela

Talvez este tenha sido o carnaval em que os blocos e a festa na rua tenha tido tanto ou mais cobertura do que as escolas de samba. Foi um ano da diversidade das festas ao invés da musa Globeleza nua e inatingível na tela da TV.

Foi, portanto, um carnaval diferente dos últimos. Do início ao seu fim – ou melhor, do início à quarta-feira de cinzas. Que de cinza nada teve. Foi azul e branca, finalmente. Emocionante, portelense.

Vitória da Portela era algo que ainda não tinha visto na minha vida – e olha que já até vi o Botafogo ser campeão brasileiro. Era algo que há 33 anos não acontecia, que estava engasgada por décimos que faltaram outra hora. Um hiato injusto com a história portelense e da sua gente.

Essa história é grande, enorme. Transcende o carnaval e qualquer disputa. Não à toa o título da Portela gerou aplausos nas quadras das escolas que também pleiteavam o primeiro lugar.

Em meio ao calor da vitória, fica o convite aos interessados em conhecer um pouco mais da Portela, no documentário abaixo, chamado de “O Mistério do Samba”. Trata-se de uma narrativa contada por dois ilustres seguidores da escola, Paulinho da Viola (Ah, Paulinho) e Marisa Monte.

Há pelos

lisbela

Lisbela e o sol, uma parceria marcante

Havia apelos. Sozinha numa praça qualquer em pleno inverno era só o que lhe restava. De certo muitos foram ignorados, outros quiçá notados. E lá ficava o cão. Abandonado. Até que um dia virou Lisbela.

Desse dia pra cá já se passaram quase cem. Os primeiros, como não poderia deixar de ser, tiveram a marca da desconfiança. Receio do novo, daquela virada de vida tão boa e repentina, quanto surpreendente pra quem morou na rua. Precisava de mais tempo para crer. Teve. Assim como amor, comida, água e companhia.

E onde havia apelos, hoje só há pelos. Como um rastro de uma relação que, sim, deu certo. E de que, claro, Lisbela está em casa, num canto do sofá ou em alguma pose contorcionista para banhar-se de sol. Mas em casa, definitivamente, em casa.

Não compre, adote

À Laura

lauraFelicidade.
Palavra com quase mais sílabas
do que dentes que tinhas na boca até bem pouco.

Até bem pouco, aliás, eras só expectativa
a imaginação de como seria
o cabelo, os olhinhos, o sorriso.

Sorriso fácil, sorriso lindo.
Laura linda, tão cheia de futuro
mas já com um quê nostálgico.

De saudade do dia em que chegaste
do que sorriste, do que andaste.
Da saudade das tuas pequenas descobertas.

Algumas das quais eu já estava lá
a torcer, a te cuidar. Como hoje.
E como por todo o resto da minha vida.

Crônica dos 30

Já faz um certo tempo, admito. Não sei se foi bem neste dia, mas a data em questão é 2 de maio de 1991. Aniversário de 30 anos do meu pai. Mesmo com então cinco anos e quatro meses completados havia pouco, eu ainda aguardo vaga lembrança daquele evento, que é o mais antigo aniversário do pai que eu lembre.

Na verdade, o que me vem à mente se resume apenas a uma única cena: os amigos do pai na sala do apartamento em que morávamos, um bolo que, por ser escuro, deveria ser de chocolate e, o mais marcante: sem vela alguma nele. O que me fez refletir: será que as festas de aniversários de adultos, ao contrário das nossas, seriam tão chatas ao ponto do aniversariante sequer ter o direito de assoprar velas? Nem um parabéns a você? Estaria eu fadado a este destino dali a uns anos?

Eis que dias antes e começar a escrever este texto eu completei 30 anos. Se não tive um filho de cinco anos para me abraçar no dia recebi os cumprimentos de um sobrinho de dez (!) anos – que, se não me falha a memória, me deu parabéns pela primeira vez num aniversário  pessoalmente. Ao menos a primeira vez desde que ele tornou-se um guri, deixando a primeira infância para trás. Acredito que ele irá lembrar da data daqui a uns anos.

Particularmente gosto de fazer aniversário. Até por ser em uma data inóspita, na dita inútil semana entre Natal e Ano Novo. Acaba sendo a chance de rever grandes amigos, enquanto se bebe e se fala bobagem sem culpas ou pudores, tal como a vida poderia ser.

O problema, claro, é que completar aniversário implica em ficar menos jovem – ou mais velho, caso ache melhor, caro(a) leitor. Eu mesmo que não me importo tanto com esta questão da idade acabei parando para refletir um pouco sobre meu novo número e década: os trinta. Já posso ser considerado velho para algumas coisas, mas sou jovem demais para outras. Isso ao mesmo tempo em que também não sou (acho) considerado “homem de meia-idade” e apesar de “a vida começar aos 40”. Cara, que confusão.

O que talvez seja um fator positivo, visto alguns casos de amigos, é que completei 30 anos sem crises. Ainda que nestes dez dias já tenha arrancado um fio branco de barba – em nova batalha que venço numa guerra que hei de perder – está, sim, tudo bem com a nova idade. Aliás, às vezes até esqueço que estou numa nova década. E quando torno a lembrar a idade certa, não há dramas.

Talvez seja uma maneira mais amena de se levar a vida e se encarar novas situações, não sei. Mas sempre é melhor brindar a experiência nova do que lamentar a idade que ficou para trás, e que não voltará mais, queira ou não.

Por via das dúvidas, também é bom nunca deixar de festejar. Mesmo que o bolo dos 30 anos mais se pareça com um de três.

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Trinta

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