Tenha cuidado, Rafael!

carta_liniers5O mundo não está nada fácil, Rafael! Tenha cuidado.

Te juro, queria te prometer mundos, fundos, fantasias e alegrias. Basicamente isso: um grito de gol, que vais descobrir que é uma dos momentos de mais efêmera alegria desta tua nova encarnação – especialmente pela Libertadores. Mas teremos uma caminhada um pouco árdua pela frente.

Tu chegas numa época quase sombria, ainda que tua avó me condene por falar isso. Diz ela que ando bem pessimista, ainda que, infelizmente, entendo-me mais como realista nestes dias. Trabalho com notícias e vejo que elas não estão nada boas. Então, furtivamente te peço: vai por mim.

Não leve a mal, não foi bem por nossa culpa, mas tu vens para uma realidade que enfrenta velhos problemas que talvez tenhamos pensado que já estavam resolvidos, além de novos desafios que sequer imaginamos. Tudo isso tu saberá identificar, fique tranquilo.

E é justamente por isso que tu vens, Rafa. Tu, já do alto dos teus quase 50 centímetros (quase meio metro, cara), representas uma baita de uma esperança para nós. Ela e tu só vão crescer, dia após dia. Porque se as coisas estão complicadas, sim, mas tu vais ter uma grande luz para encarar a vida.

Calma. Essa missão não é só tua. Tu vai ter vários amigos ao teu lado e aqui vou te citar só alguns: a Laurinha, a Sofia, o Vinícius, a Cecília, a Clarice e todos esses que estão chegando contigo. Claro, inclui o agora-irmão-mais-velho Luan neste barco. Além da Liz e da Raíssa. (Três irmãos por estes dias é um privilégio, hein)

carta_liniers2

Rafa, o mundo não é fácil e por isso tens que conhecê-lo para compreendê-lo melhor. Provavelmente não será possível ir a todos os países e cidades, mas, sempre que saíres de casa para ir aí na esquina buscar o pão para o café da tarde, não esquece da chave que abre todas as portas: teu sorriso. A partir dele, transparecerás toda a tua luz e bondade que vais receber desta turma em que estão tua mãe, teu pai, teus avós e teus tios, como este que te escreve agora. É bastante gente, em um monte de lugar, para tu teres a certeza de que nunca estarás sozinho.

Estuda, Rafa. Precisamos de conhecimento para perceber e entender o que é a verdade no que nos rodeia. Para não acreditar em qualquer coisa numa era com excesso de falas e pouco contexto. Mas não deixa de te divertir. Com o tempo perceberás que risadas gostosas são das lembranças mais marcantes que temos. E espero poder estar contigo em várias destas.

Com amor,
Tio Tiago

ps1: As tirinhas que ilustram este post são de um argentino chamado Ricardo Liniers. Espero que tu leias muito ele ao longo da tua vida. Esta faz parte de uma carta aberta que ele desenhou à sua afilhada e que me inspirou para escrever para ti. A íntegra dela está aqui nesta apresentação:

Este slideshow necessita de JavaScript.

ps2: Apenas para eu me lembrar, porque gostaria de nunca esquecer: terminei este texto depois das 23h de um domingo, 9 de abril. A tia Ana dorme serenamente do meu lado no sofá, teu avô Celso foi para a cama agora há pouco. Todos ansiosos pela tua chegada, prevista para daqui a cerca de nove horas. Durante o dia, traçamos até um mapa astral teu, como se fosse possível reunir todas as melhores qualidades para te oferecer.

Rafa, tenha certeza: ainda que o mundo não esteja nada fácil, amor não te faltará.

Anúncios

Que rio, Portela!

portela-2

Portela | Foto: Leo Cordeiro / FB Portela

Talvez este tenha sido o carnaval em que os blocos e a festa na rua tenha tido tanto ou mais cobertura do que as escolas de samba. Foi um ano da diversidade das festas ao invés da musa Globeleza nua e inatingível na tela da TV.

Foi, portanto, um carnaval diferente dos últimos. Do início ao seu fim – ou melhor, do início à quarta-feira de cinzas. Que de cinza nada teve. Foi azul e branca, finalmente. Emocionante, portelense.

Vitória da Portela era algo que ainda não tinha visto na minha vida – e olha que já até vi o Botafogo ser campeão brasileiro. Era algo que há 33 anos não acontecia, que estava engasgada por décimos que faltaram outra hora. Um hiato injusto com a história portelense e da sua gente.

Essa história é grande, enorme. Transcende o carnaval e qualquer disputa. Não à toa o título da Portela gerou aplausos nas quadras das escolas que também pleiteavam o primeiro lugar.

Em meio ao calor da vitória, fica o convite aos interessados em conhecer um pouco mais da Portela, no documentário abaixo, chamado de “O Mistério do Samba”. Trata-se de uma narrativa contada por dois ilustres seguidores da escola, Paulinho da Viola (Ah, Paulinho) e Marisa Monte.

Há pelos

lisbela

Lisbela e o sol, uma parceria marcante

Havia apelos. Sozinha numa praça qualquer em pleno inverno era só o que lhe restava. De certo muitos foram ignorados, outros quiçá notados. E lá ficava o cão. Abandonado. Até que um dia virou Lisbela.

Desse dia pra cá já se passaram quase cem. Os primeiros, como não poderia deixar de ser, tiveram a marca da desconfiança. Receio do novo, daquela virada de vida tão boa e repentina, quanto surpreendente pra quem morou na rua. Precisava de mais tempo para crer. Teve. Assim como amor, comida, água e companhia.

E onde havia apelos, hoje só há pelos. Como um rastro de uma relação que, sim, deu certo. E de que, claro, Lisbela está em casa, num canto do sofá ou em alguma pose contorcionista para banhar-se de sol. Mas em casa, definitivamente, em casa.

Não compre, adote

À Laura

lauraFelicidade.
Palavra com quase mais sílabas
do que dentes que tinhas na boca até bem pouco.

Até bem pouco, aliás, eras só expectativa
a imaginação de como seria
o cabelo, os olhinhos, o sorriso.

Sorriso fácil, sorriso lindo.
Laura linda, tão cheia de futuro
mas já com um quê nostálgico.

De saudade do dia em que chegaste
do que sorriste, do que andaste.
Da saudade das tuas pequenas descobertas.

Algumas das quais eu já estava lá
a torcer, a te cuidar. Como hoje.
E como por todo o resto da minha vida.

Crônica dos 30

Já faz um certo tempo, admito. Não sei se foi bem neste dia, mas a data em questão é 2 de maio de 1991. Aniversário de 30 anos do meu pai. Mesmo com então cinco anos e quatro meses completados havia pouco, eu ainda aguardo vaga lembrança daquele evento, que é o mais antigo aniversário do pai que eu lembre.

Na verdade, o que me vem à mente se resume apenas a uma única cena: os amigos do pai na sala do apartamento em que morávamos, um bolo que, por ser escuro, deveria ser de chocolate e, o mais marcante: sem vela alguma nele. O que me fez refletir: será que as festas de aniversários de adultos, ao contrário das nossas, seriam tão chatas ao ponto do aniversariante sequer ter o direito de assoprar velas? Nem um parabéns a você? Estaria eu fadado a este destino dali a uns anos?

Eis que dias antes e começar a escrever este texto eu completei 30 anos. Se não tive um filho de cinco anos para me abraçar no dia recebi os cumprimentos de um sobrinho de dez (!) anos – que, se não me falha a memória, me deu parabéns pela primeira vez num aniversário  pessoalmente. Ao menos a primeira vez desde que ele tornou-se um guri, deixando a primeira infância para trás. Acredito que ele irá lembrar da data daqui a uns anos.

Particularmente gosto de fazer aniversário. Até por ser em uma data inóspita, na dita inútil semana entre Natal e Ano Novo. Acaba sendo a chance de rever grandes amigos, enquanto se bebe e se fala bobagem sem culpas ou pudores, tal como a vida poderia ser.

O problema, claro, é que completar aniversário implica em ficar menos jovem – ou mais velho, caso ache melhor, caro(a) leitor. Eu mesmo que não me importo tanto com esta questão da idade acabei parando para refletir um pouco sobre meu novo número e década: os trinta. Já posso ser considerado velho para algumas coisas, mas sou jovem demais para outras. Isso ao mesmo tempo em que também não sou (acho) considerado “homem de meia-idade” e apesar de “a vida começar aos 40”. Cara, que confusão.

O que talvez seja um fator positivo, visto alguns casos de amigos, é que completei 30 anos sem crises. Ainda que nestes dez dias já tenha arrancado um fio branco de barba – em nova batalha que venço numa guerra que hei de perder – está, sim, tudo bem com a nova idade. Aliás, às vezes até esqueço que estou numa nova década. E quando torno a lembrar a idade certa, não há dramas.

Talvez seja uma maneira mais amena de se levar a vida e se encarar novas situações, não sei. Mas sempre é melhor brindar a experiência nova do que lamentar a idade que ficou para trás, e que não voltará mais, queira ou não.

Por via das dúvidas, também é bom nunca deixar de festejar. Mesmo que o bolo dos 30 anos mais se pareça com um de três.

Trinta

A post shared by Tiago Medina (@tiagomedina) on

Sobre ídolos e estátuas

estatua fernandao

Fernandão | Foto: Inter

Há uma outra semelhança entre Lisboa e Brasil, mais especificamente Porto Alegre, que me veio à mente neste 2 de junho: o futebol. Em ambas as cidades, há clubes vencedores e populares que vestem vermelho, no caso Benfica e Inter. E tanto no Estádio da Luz, na capital portuguesa, quanto no porto-alegrense Beira-Rio existem estátuas homenageando grandes ídolos destes clubes: Eusébio e Fernandão, respectivamente.

Escrevi que me veio à mente, porque logo neste 2 de junho – a cinco dias do primeiro aniversário da trágica morte de Fernandão – o clube vermelho gaúcho destruiu o memorial que lá existia. Por memorial entenda-se uma construção já sem uso, mas onde havia centenas de mensagens e homenagens de torcedores ao falecido ídolo. Colocadas ali de forma espontânea, bem antes da inauguração da estátua, que só ocorreu seis meses depois, em uma das cenas mais belas que já vi serem fotografadas.

Sejamos racionais: era uma estrutura provisória que não ficaria ali muito tempo mais. De repente já nem estaria ali se não tivesse tanto apelo nela. Até 2014, era o Centro de Visitação das obras do Beira-Rio, que já terminaram há mais de um ano. E polui um pouco, sim, a vista da fachada do estádio.

Foto roubartilhada de Samuel Maciel

Foto do Samuel Maciel / Correio do Povo

Por outro lado, a falta de tato do clube ao destruir tal estrutura sem aviso prévio e justamente na semana em que se completa um ano da perda de Fernandão é, no mínimo, lamentável. Não sei se era possível preservar – e não apenas “documentar” como o Inter diz ter feito –, fato é que não deveria ter sido agora. E tenho a impressão que, daqui a alguns anos, ainda vão se perguntar o porquê deste ato.

Eusebio

Eusébio e o Estádio da Luz

Enquanto há esta nova polêmica aqui, do outro lado do oceano, a estátua de Eusébio, igualmente falecido em 2014, aos 71 anos, se destaca no Estádio da Luz. Trata-se de uma estátua bonita, simbólica, independente de cores clubísticas. Passado quase ano e meio da sua morte já não havia mais sinal das flores e homenagens deixadas lá na época. A imagem fica ao lado de um espaço dedicado aos sócios que ajudaram na reforma do Estádio, em 2010.

Com um dos maiores quadros sociais do mundo, o Benfica tem um forte apelo popular. E, apesar de ser um clube que conta com a Adidas como fornecedora de material, tem em seu estádio uma loja com produtos próprios. Nesta loja há de todo tipo de coisa alusiva ao clube, de vinho a busto do Eusébio. De tudo, com exceção ao uniforme oficial, que se compra na loja ao lado, da Adidas. Dentre alguns estádios que já visitei, este é o único caso que vi. Geralmente, a loja dos clubes no estádio é mais uma filial da fornecedora do que necessariamente um local onde se encontra produtos exclusivos da própria instituição. Eusebio 2 Nem sempre é fácil, mas clubes populares precisam cuidar e zelar tanto de ídolos quanto de sua torcida, afinal. Aqui, em Portugal ou em qualquer lugar.

O fio de esperança

O fio de esperança é uma linha muito tênue entre a alegria e o drama.
O fio de esperança tem pontas presas no impossível e no improvável e se sustenta com a teimosia do querer acreditar.
O fio de esperança não existe – nós sabemos disso –, mas ainda assim é a ele que nos apegamos em meio à luta.

Afinal, tudo está fadado a um fim, mais cedo ou mais tarde. Por isso ninguém vai se entregar agora.

E nem depois.

Porque nos resta um fio de esperança, que nos faz teimosos em acreditar. E isso nos basta para seguir. Adiante!