Fernandão, a estátua que eu conheci

Fernandão em seu ápice | Foto: Inter

Nunca uma ligação inesperada em meio à madrugada traz bons presságios. Às vezes eles não se confirmam, mas às vezes sim. Foi assim em 7 de junho, quando – ainda embriagado após uma boa noite com os amigos – me ligaram sendo sucintos: “O Fernadão morreu”.

Ser jornalista e trabalhar com hard news tem disso, saber de grandes notícias, como tragédias – por meio de outros jornalistas – um pouco antes de todo mundo. Afinal alguém tem que escrever aquilo que as pessoas lerão. Dói, mas normalmente a gente sabe como lidar.

Após aquele susto inicial liguei para o plantonista do jornal para já adiantar a pauta do dia. Também falei com os bombeiros de Araruãna, uma cidade que jamais ouvi falar. Torci que estivessem errados, mas eles estavam certos: Fernandão estava morto.

Foram linhas complicadas de escrever, mas logo mais estavam devidamente no ar. Logo foram repercutidas e lamentadas em redes sociais. Tudo o que eu teria de ressaca transformou-se em consternação naquela manhã.

Profissionalmente convivi com Fernandão por alguns meses em 2012, quando ele foi diretor e técnico do Inter e eu, setorista do clube. Era um cara diferenciado, sem dúvida. Um alto nível no meio do futebol – o que é, diga-se, raro. Ele queria fazer diferente por meio do estudo. Sucumbiu a um momento horrível do clube. Ter levantado a taça do Mundial não o livrou de algumas vaias. Mas nunca perdeu o caráter. Deixou de ser técnico, mas jamais de ser ídolo colorado.

Pouco mais de um ano e meio, Fernandão voltou ao Beira-Rio para a festa de reinauguração do estádio. Eu o vi pela TV e toda e qualquer mágoa por um período conturbado já havia sido superada. Naquela festa ele era um dos reis sendo admirado por dezenas de milhares de súditos. Aquela transformou-se no capítulo final de uma história iniciada dez anos atrás, quando aquele cabeludo desembarcou em Porto Alegre para vestir vermelho pela primeira vez.

Na noite seguinte à sua morte vi uma das manifestações espontâneas mais marcantes da minha vida, quando milhares foram ao Beira-Rio homenageá-lo. Fernandão merecia, ele era diferente. Tão distinto dos outros que neste 17 de dezembro – o primeiro aniversário do Mundial sem ele – o ex-camisa 9 vai virar estátua, uma honraria cada vez mais rara em um mundo apressado como o de hoje.

Foto: Samuel Maciel / Correio do Povo

Se não pôde ficar para vivenciar de perto a história do clube que o amou, Fernandão passará a ser eterno onde muitos foram felizes por sua causa.

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Um pensamento sobre “Fernandão, a estátua que eu conheci

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